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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

A anedótica história do monumento a Bocage

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 Falências, desencontros, polémicas várias, uma tempestade de dimensões bíblicas e até um pedaço da estátua partido antes da inauguração. Houve de tudo no processo que culminou com a implantação, em Setúbal, de um monumento de homenagem a Elmano Sadino, bem mais modesto que o originalmente previsto.

 

De Bocage já muito se disse. Do seu génio literário ímpar, contrastante com uma vida de devassidão, desalinho e libertinagem cuja fama de alguma maneira se sobrepôs às extraordinárias qualidades técnicas e líricas que lhe são reconhecidas. Pois, o processo que culminou com a implantação de um monumento de homenagem na terra que viu nascer o poeta, fez jus à sua vivência tumultuosa e tem episódios dignos das anedotas a si atribuídas; como aquele em que partiram um pedaço da estátua, que teve de ser betumado à última da hora, ou o outro, em que o dinheiro angariado desapareceu na falência do banco onde estava depositado a juros…soa-lhe familiar?

A polémica começa com a autoria da própria ideia. Para a história, como impulsionador do tributo a Bocage, ficou António Feliciano de Castilho e o seu irmão, José que, morando no Brasil, aí criou uma comissão e abriu a subscrição para angariar fundos. Algumas fontes, no entanto, asseguram que quem lançou tal desafio ao visconde de Castilho foi o também poeta setubalense Manuel Maria Portela, a quem se deve, em 1864, a colocação da lápide que identifica a casa onde nasceu Elmano Sadino.

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Depois, há a questão do dinheiro. Os montantes alcançados no Brasil foram depositados a juros na instituição bancária Fortinho & Moniz, pelo próprio sócio-gerente, que era tesoureiro da comissão brasileira. O problema é que aquela instituição faliu e perdeu-se quase toda a avultada soma que ali se encontrava. Esta realidade obrigou a um redimensionamento da obra a erigir: de grandiosa, passou a modesta, com um orçamento global de 1.200$00, cerca de um sexto do anteriormente conseguido. Os restantes e insignificantes 200$00, recolhidos em Setúbal, destinaram-se aos festejos que aquela Câmara Municipal deveria levar a cabo.  Acrescentam-se 700$00, do transporte e da grade de ferro.

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 Ora, com tão parcos recursos, não se podia esperar uma grande obra num material caro, como a pedra de Lioz. Isso justifica que, na ótica do mestre canteiro Germano José de Salles, em cuja oficina Pedro Carlos dos Reis fez o trabalho, a coluna tem um diâmetro inferior ao desejado e proporcionalmente à sua base. Apesar de tudo, terá escrito, o monumento resultou “de forma elegante e vistoso, posto que singelo”, com um total de pouco menos de 12 metros de altura, dois dos quais com a figura de Bocage, com ar pensativo, vestido à sua época, com folhas de papel numa mão e uma pena de ave, para escrever, na outra.

A composição ficou montada nove dias antes da inauguração, programada para 21 de dezembro de 1871. Era preciso tapá-la para ser mostrada na hora certa. O processo não correu bem: ao cobrirem Bocage com as bandeiras de Portugal e do Brasil, quebrou-se parte do instrumento de escrita que tinha na mão, que, à pressa, teve de ser reposto com betume. As imagens atuais dão a entender que o fragmento voltou a cair, porque essa mão afigura-se incompleta.

0005_M.jpgDe qualquer forma, tudo parecia estar a postos para o grande dia. A praça profusamente decorada; os dois vapores e o comboio, com 31 carruagens, que devia levar os importantes convidados de Lisboa, cerca de 570 pessoas, políticos – entre os quais o ministro António Rodrigues Sampaio - e vários deputados – intelectuais, imprensa, enfim, “um certo número de pessoas mais ou menos conhecidas”, “encaixotadas” de propósito para figurar na ocasião, como as descreveu Pinheiro Chagas, na reportagem sobre o acontecimento.

Este jornalista e político narra também de forma bem-humorada a tempestade de dimensões bíblicas que se abateu sobre Setúbal nessa tarde. Diz que pouco mais conseguiu ver que um “abismo de guarda-chuvas”; pouco mais conseguiu ouvir que um poema de Castilho. Tanta era a chuva, o vento e a lama, que todos se recolheram no edifício da Câmara “transidos de frio”, qual “turba de náufragos”. Pouco valeu, portanto, todo o aparato preparado, os palanques, as bandas de música reunidas; os discursos ensaiados, os documentos de honra para assinar, os pretensiosos pórticos; as centenas de bandeiras, galhardetes e estandartes; flores; iluminação e foguetório. O que os convidados apreciaram verdadeiramente foi o lunch servido já sob a proteção do edifício dos Paços do Concelho de Setúbal: “verdadeiro restaurador” das forças dos presentes.

À margem

Os festejos de inauguração do monumento a Bocage começaram um mês antes da data final prevista. A 22 de novembro, houve discursos e cortejo, com os representantes da Câmara de Setúbal acompanhados por música filarmónica. No local, dentro de um cofre de chumbo, por sua vez introduzido noutro de folha da Flandres, foi colocado um pergaminho com o auto da ocasião - ali mesmo lavrado - moedas recentes de diversas cunhagens e um exemplar do jornal Gazeta Setubalense.   O conjunto foi inserido num buraco entre os degraus da base da estátua, coberto depois pelo mestre canteiro Joaquim Quintino. Por outro lado, como a inauguração ficou manchada e limitada pelo mau tempo, três dias depois desta, voltou-se à festa. Na sala de sessões da edilidade descerrou-se um retrato do poeta, ouviram-se poemas, foguetes e acordes musicais. Ah, claro, como não poderia deixar de ser, houve novamente comida à descrição e muito falatório.

Mas isso é outra história…

 

 

Fontes

Arquivo Distrital de Setúbal

Arquivo Pessoal de Almeida Carvalho

PT-ADSTB-PSS-APAC-C-0046

http://digitarq.adstb.arquivos.pt/details?id=1333782

 

 

http://purl.pt/1276!1/brasileiro.html

 

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

José Artur Leitão Bárcia

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/BAR/001179

 

Alberto Carlos Lima

 

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/000778

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/000776

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/000779

 

Casa Fotográfica Garcia Nunes

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/NUN/00014

 

arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/

 

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Instantâneos: Alguém se lembra da Costa de outras eras?

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A imagem tem apenas 50 anos, mas as diferenças entre o que se vê e a realidade atual não poderiam ser maiores. A praia do Tarquínio fica mesmo junto à zona urbana tradicional da Costa da Caparica e tem hoje uma entrada totalmente requalificada pelo Programa Polis. Esta fotografia é de uma outra época, em que os apoios de praia eram improvisados e a segurança dos banhistas era garantida por pescadores nas suas horas vagas. A tradição vinha de longe: ensinavam as crianças a nadar e ajudavam as senhoras a ir à água, com tanto sucesso, que chegaram a dar nome às praias onde exerciam essa atividade. Este é, aliás, o caso da praia do Tarquínio, onde também não faltavam cartazes publicitários e, ao que parece, trabalho infantil.

Antes da massificação, que a facilidade de acessos proporcionada, nomeadamente, pela Ponte 25 de Abril veio trazer, a Costa da Caparica já tinha sido descoberta pelas famílias endinheiradas de Lisboa, que ali passavam os meses quentes, algumas em pequenas vivendas quase todas desaparecidas; outras, em casas que alugavam aos locais, brincando aos pobrezinhos, como se tornou moda para alguns, já no século XXI, lá mais para os lados do Litoral Alentejano.

 

 Fontes

Marisa Soares, 15 de Maio de 2015

https://www.publico.pt/2015/05/15/local/noticia/almada-expoe-mais-de-um-seculo-de-idas-a-praia-1695638

 

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

Sid Kerner

Imagem:AF\img168\B083576.jpg

Código de referência:PT/AMLSB/SID/000077

 

 

 

O ilustre cientista que sobreviveu a duas tentativas de homicídio

 

 

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 Com nascimento e morte manchados pela bastardia, teve uma vida recheada de êxitos científicos. É citado até hoje em questões agrícolas e pecuárias, mas praticamente desconhecido na sua terra natal. Viveu amedrontado depois de sobreviver a dois atentados.

 

Anes Baganha. Quem é este alcacerense desconhecido na sua terra mas uma das mais importantes figuras do século XIX no que toca às temáticas da agricultura e pecuária? Tão importante, que publicou dezenas de estudos, livros e textos em prosa e poesia, tendo sido homenageado com a atribuição do seu nome a uma rua de Faro. Que segredos guarda este cidadão multifacetado, que nasceu com o estigma de ser filho ilegítimo e morreu com o trauma deixado por duas tentativas de homicídio? E a sua irmã, que se afirmou como uma das mais proeminantes figuras do ensino primário do Algarve?

Domingos Rodrigues Anes Baganha nasceu a 20 de fevereiro de 1847, na freguesia de Santiago, em Alcácer do Sal. No que terá sido um verdadeiro escândalo para a época, este filho de Luís José Anes Baganha e de Maria da Piedade Baganha, só viria a ser legitimado dois anos depois, com o casamento dos seus pais. De acordo com os registos paroquiais, estes professores primários lisboetas ainda estavam por aquela vila alentejana em 1857, pois ali veio ao mundo a sua filha, Inácia Ludovina. Sabe-se ainda que Domingos ali fez a instrução primária e respetivo exame.

Formou-se em medicina veterinária no Instituto Agrícola e foi nomeado para o primeiro cargo público por Rodrigo Morais Soares – esse mesmo que dá nome à conhecida rua de Lisboa. Coube-lhe originalmente a responsabilidade de escolher os produtos agrícolas representativos de Portugal para a exposição internacional de Paris de 1867, o que repetiria décadas depois e para exibições distintas.

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 Com 20 anos, foi colocado como Intendente Pecuário do distrito de Faro e, nas duas décadas que ali passou, o seu trabalho foi totalmente inovador na pesquisa, sistematização e combate a diversas doenças do gado, tendo editado numerosas obras nessa área, algumas citadas ainda hoje.

Extremamente versátil, Anes Baganha assumiu diversas funções, como veterinário e agrónomo e sempre foi bastante prolifico na produção literária, independentememte do tema. Da sua pena saiu um elevado número de escritos sobre ensino, já que, tendo sido aluno de João de Deus, tornou-se dinamizador do método daquele pedagogo. Fundou várias escolas, contando com a ajuda da irmã, Inácia Ludovina Anes Baganha Leal, apontada como grande defensora dos direitos das mulheres. Ambos foram figuras de proa do ensino na região algarvia.

Escreveu em publicações de ciência, boletins, revistas e jornais; prosa científica e política, destacando-se no movimento republicano.

Redigiu até poesia: entre muitos outros trabalhos, são seus os versos patrióticos “Sempre livres”, contra a união ibérica, expressamente escritos para a inauguração do teatro de Faro, em 1874.

De sua criação é igualmente o artigo “Uma praiada”, mencionado como visionário, porque glorificava as praias algarvias, numa altura em que a sua frequência era ainda muito rara (1886).

Em 22 de setembro de 1887 foi esfaqueado na rua e esteve entre a vida e a morte. O episódio marcou-o de tal forma que, diz a imprensa da época, “nunca mais teve um dia de tranquilidade”, passando a andar armado e sempre “apreensivo e tristonho”. Este estado permanente de ansiedade levaria a que abandonasse o Algarve e assumisse funções em Lisboa.

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 O afastamento não o pôs em segurança, porque, em novembro de 1889, volta a ser agredido, desta vez a tiro, em pleno jardim da Estrela. Valeu-lhe o sangue frio de segurar na mão do atacante, o que fez o disparo atingi-lo apenas no chapéu. Na origem de tão desvairados atos estava uma contenda com José Augusto Coelho Leite Pereira de Castro, tenente de cavalaria que, ao que contam os jornais, estaria perturbado e tinha uma verdadeira obsessão pelo veterinário, perseguindo-o e tentanto por várias vezes pôr fim à sua existência.

Após mais este incidente, continuou a trabalhar com a mesma polivalência, mas em crescente isolamento, também devido a problemas familiares, só conseguindo concretizar o divorcio que há muito desejava já depois da implantação da República.

Morreu em Lisboa, a 4 de fevereiro de 1911, horas antes de casar com a mãe de Maria Regina Ferraz Negrão, a filha que teve fora do casamento e que assim legitimaria, cumprindo o exemplo de seus pais.

 

À margem

O nome Rodrigo Morais Soares é bem mais conhecido que o de Anes Baganha, mas quem passa na movimentada rua sabe quem foi o flaviense ali homenageado na toponímia? O conselheiro Morais Soares era um alto quadro da administração pública e, embora bacharel em medicina, teve especial destaque em cargos relacionados com a agricultura. Fundou a Quinta Regional de Sintra e o Instituto Agrícola. Foi diretor-geral de Agricultura e chegou a dar nome à atual Escola Prática de Agricultura de Santarém. Deputado em diversas legislaturas, acabaria por morrer em Lisboa, em 1881. Polémica quanto baste foi a ideia que lançou em 1859, nas páginas do Arquivo Rural, importante jornal por si criado: defendia a fundação do partido dos agrocratas. Seria o que hoje se denomina de “partido da terra”, na ótica do qual a prioridade deveria ser o fomento da força produtiva agrícola, único garante duma verdadeira autonomia nacional.

Mas isso é outra história…

 

 

Biblioteca Municipal de Alcácer do Sal – Fundo Local

Jornal Pedro Nunes, nº237, 12 fevereiro 1911

 

Biblioteca Nacional Digital

Diário Ilustrado, nº5:626, 05 dezembro 1888

Diário Ilustrado, nº5:739, 30 março 1889

Diário Ilustrado, nº5:966, 13 novembro 1889

 

A Evolução – Semanário Republicano, nº1, 22 janeiro de 1882

 

O Liberal do Pará, nº273, 03 dezembro 1889

http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=704555&pagfis=22050&pesq=&esrc=s&url=http://memoria.bn.br/docreader#

 

www.tombo.pt

PT-ADSTB-PRQ-PASL03-001-00019_m0038

PT-ADSTB-PRQ-PASL03-002-00012_m0167

PT-ADSTB-PRQ-PASL03-001-00019_m0190

 

R1_CD_L1_SL3_PPP062

www.ahpweb.parlamento.pt

 

 

 

As origens e desenvolvimento do Ensino em Faro, de José Carlos Vilhena Mesquita

https://sapientia.ualg.pt

 

http://algarvehistoriacultura.blogspot.pt/2010/03/as-origens-e-desenvolvimento-do-ensino.html

http://arepublicano.blogspot.pt/2011/02/annes-baganha-parte-ii.html

http://arepublicano.blogspot.pt/2011/02/annes-baganha.html

https://toponimialisboa.wordpress.com/2014/12/02/a-rua-do-conselheiro-rodrigo-de-morais-soares/

http://www.iscsp.ulisboa.pt/~cepp/cronologias/1859.htm

http://maltez.info/biografia/Obras/archivo%20rural%201959.pdf

 

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

Estúdio Mário Novais in Arte efémera em Portugal / [org.] Fundação Calouste Gulbenkian ; coord. João Castel-Branco Pereira. - Lisboa : FCG, D.L. 2000. - 438 p. : il
ISBN 972-8128-65-7

 

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/MNV/001631

arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/

O rei que amava freiras, proibiu a sua vinda para o País

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 Com muito conhecimento de causa, o monarca alertava que as mulheres obrigadas a ingressar em conventos viviam para sempre desgostosas com essa vida imposta pelas famílias.

 

São conhecidos os dotes de D. João V para a diplomacia, os seus esforços para defender os interesses imperiais portugueses; a dinamização que imprimiu às artes e às grandes obras públicas, bem como a forma hábil como conseguiu reinar 43 anos, absolutamente, sem uma única vez ter reunido as cortes. No campo pessoal, ficou para a história a sua paixão pelo “belo sexo” em geral e por freiras em particular. É, pois, curioso, que os interesses do Estado o tenham feito assinar uma lei na qual, pura e simplesmente, proíbe a deslocação do Brasil para Portugal de mulheres, especialmente as destinadas aos conventos, sem que isso fosse prévia e expressamente autorizado por si.

O escasso povoamento daquele vasto território do outro lado do Atlântico a isso obrigou, o que muito terá custado ao rei, confesso amante de monjas, mas também sobejamente conhecedor da falta de vocação de muitas. A experiência íntima poderá até ter contribuído para esta sua decisão.

Foi em 10 de março de 1732. D. João, quinto de seu nome, proibia a viagem de mulheres para a metrópole sob o pretexto de ingressarem em conventos. Primeiro deveriam justificar tal vinda e se, de facto, tinham genuína vontade de seguir a vida religiosa.

É que, com tanta fêmea a transferir-se para Portugal, faltavam depois para os matrimónios que convinha aumentar no Brasil, o que concorria para “grande prejuízo do aumento e povoação daquele Estado”. Em paralelo, continua o real decreto, com muito conhecimento de causa – acrescente-se - as raparigas que assim procediam, frequentemente, “violentadas por seus pais e mães, constrangendo-lhes as vontades que deviam ser livres de elegerem estado” - leia-se serem religiosas ou encontrarem marido para casar - acabavam por viver “sempre desgostosas com a vida, que não queriam tomar”, o que, opina o rei, não servia nem a Deus, nem a ele próprio.

Assim sendo, as candidatas a freiras deveriam ser interrogadas, para aferir do seu querer, não se deferindo a expedição das que não o manifestassem de viva voz. As mulheres que alegassem outras razões para vir para a capital do império também o deveriam devidamente justificar, sob pena de não o poderem fazer.

Incorriam em penalizações, inclusivamente, os mestres ou capitães de navios que fizessem o transporte de moças não autorizadas a zarpar do Brasil. Podendo pagar dois mil cruzados por cada transportada e estar dois meses presos no seguimento de contrariarem estas ordens.

Este alvará régio, bem como a massiva emigração de portugueses – especialmente minhotos – contribuiu para que, durante o reinado de D. João V, a população daquele território quadruplicasse, chegando a cerca de 1.2 milhões de pessoas. Esta realidade, muito bem-vinda e necessária para assegurar a soberania além-mar, acabaria por criar problemas de despovoamento da própria metrópole, em especial no norte de Portugal, onde faltavam braços para trabalhar os campos.

 

 

À margem

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João V teve pelo menos 12 filhos, em igual número dentro do casamento com Maria Ana de Áustria e, fora dele, com outras mulheres. Reconheceu e concedeu especiais privilégios a três destes rebentos extraconjugais, que ficaram para a história como os “meninos de Palhavã” – porque foram criados no palácio de Palhavã, atualmente ocupado pela embaixada de Espanha, em Lisboa. António, Gaspar e José de Bragança. Seguiram a vida religiosa e o último, filho da conhecida freira de Odivelas, Madre Paula, chegou a inquisidor-mor do reino. Repousam na igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa, à parte do espaço dedicado a panteão dos Bragança, assim como que a lembrar que, embora legitimados pelo pai, não eram bem membros da família. Bastardos para a eternidade, portanto.

Mas isso é outra história…

 

 

Fontes

Collecção da legislação antiga e moderna do reino de Portugal Parte II da legislação moderna – Collecção chronologica de Leis extravagantes, posteriores à nova compilação das ordenações do reino, publicadas em 1603 – Tom II de LL., ALVV., etc – Que compreende os reinados dos senhores D. Affonso VI, D. Pedro II e D. João V – Coimbra, na Real Imprensa da Universidade, 1819 https://books.google.es/books?id=SK9RAAAAcAAJ&printsec=frontcover&hl=pt-PT&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false

https://www.infopedia.pt/$d.-joao-v

https://www.publico.pt/2013/04/21/jornal/eles-eram-os-meninos-de-palhava-26373863

https://pt.wikipedia.org/wiki/João_V_de_Portugal

http://www.museudelisboa.pt/pecas/detalhe/news/retrato-de-d-joao-v.html

https://www.bing.com/images/search?view=detailV2&ccid=NgBZILDq&id=0185C6E618CB122BADCDF0C57569FE68290FF10D&thid=OIP.NgBZILDqZ2e95qMPpK_4DgEsDW&q=pante%c3%a3o+dos+bragan%c3%a7a&simid=608026560623804487&selectedindex=10&first=1

 

 

 

Instantâneos: à espera do reizinho

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Cores claras, branco virginal, rendas e laços bem engomados, plumas nos chapéus das senhoras e luvas, apesar do calor. Só quem está imaculadamente vestido se pode apresentar na fila da frente. Os homens ficam na segunda linha. A autoridade não deixa que os indesejáveis se aproximem. Afinal, trata-se de receber o reizinho na Basílica da Estrela.

Alunas de colégios da Lapa aguardam D. Manuel II, para a festa do Sagrado Coração de Jesus, em julho de 1908. É preciso acarinhar o jovem. Ainda ninguém se esqueceu que apenas cinco meses antes perdeu o pai e o irmão num

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brutal assassinato a que assistiu e que, por pouco, não o vitimou também. Tem só 19 anos e não parece muito à vontade nas cerimónias públicas.

Não foi educado para suceder a seu pai no trono e isso deve pesar-lhe, intimidá-lo.

Aqui vive-se ainda alguma euforia, a aclamação foi muito recente e D. Manuel mal se inteirou da espinhosa tarefa que tem pela frente. Desconhece que o fardo será breve.

Dois anos depois, será deposto e rumará ao exílio.

 

Imagens

Arquivo Municipal de Lisboa

Joshua Benoliel

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/001605

António Novais

PT/AMLSB/ANV/001122

O homem que roubou e incendiou a Patriarcal

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Muita estupidez, ou muita arrogância? O que faz um homem lançar fogo, não uma, não duas, mas pelo menos três vezes, em espaços a que só ele tinha acesso e pensar que podia sair impune? E como é que, mesmo assim, só vários anos e sucessivos incêndios depois se descobre um crime tão grosseiro…e tão proveitoso?

 

Esta é a história de Alexandre Franco Vicente, armador da Santa Igreja Patriarcal, profissão exclusiva e de grande responsabilidade, porquanto estavam à sua guarda bens de enorme valor: as estruturas e os ricos panejamentos, alguns ataviados e bordados a ouro e prata, com que deveria decorar os templos e os espaços públicos durante as procissões mais importantes e outras cerimónias religiosas de superior solenidade.

Tal ofício não devia ser suficiente para a sua ambição, pois durante anos conseguiu enganar tudo e todos, desviando os valiosos materiais – veludos, sedas, damascos e franjas de ouro que substituiu por outras falsas - vendendo-os a retalho por meia Lisboa. O caso revelou, aliás, um mercado paralelo com base nestes preciosos ornamentos, já que o armador da Patriarcal os traficou com cidadãos comuns, mas também com ourives estabelecidos e com o próprio meirinho da Mesa da Consciência, que aqui surge, se não como corrupto, pelo menos como mutissímo distraído.

E, Alexandre Franco Vicente mostrou não ser sério igualmente  nas suas relações familiares e pessoais. Ficou provado que, quando finalmente pressentiu ter sido decoberto e fugiu para o Algarve, enganou a mulher que  o acompanhou, mentindo-lhe que com ela havia casado por procuração. No processo que enfrentou na justiça, ficou igualmente estabelecido que o seu pai teve que avançar com dinheiro para ocultar mais trapaças do filho no aluguer de ornamentos.

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O pior de tudo foi o que o armador da Patriarcal fez para esconder os seus embustes.

Por três vezes, ateou fogo à sede da Patriarcal. Sempre à beira de comemorações religiosas para as quais seriam necessários os panos e armações que havia roubado.

O primeiro incêndio, na véspera do Dia do Espíríto Santo de 1769, foi o mais espetacular, pois destruiu todo o edifício que havia sido erigido já depois do terramoto de 1755, no lugar da Cotovia, ao Príncipe Real, ainda hoje conhecido como calçada da Patriarcal Queimada.

O segundo incêndio, dois anos depois, na véspera do Dia de Todos os Santos, pôs em risco todo o Mosteiro de São Bento, para onde aquela instituição se havia mudado, e a Torre do Tombo, que também ocupava uma ala do edifício. Por fim, terá pegado fogo à nova sede da Patriarcal, no Convento das Comendadeiras de Santos Novos, já em 1772.

Desconhece-se ainda se os incêndios havidos na Patriarcal antes de 1769 também teriam sido de sua autoria ou se o facto de ser bizarramente “natural” a Patriarcal virar pasto de chamas terá desviado a atenção destes atos, porque só em 1773 é que Alexandre Vicente foi descoberto, por suspeita do prior da mesma igreja, confrontado com a ausência de adereços que ali deveriam estar e que, misteriosamente, haviam desaparecido.

Foi esta constatação, e a impossibilidade de a esclarecer por fuga do suspeito, que levou – diga-se, muito convenientemente -  Silvestre da Silva Barbosa, o já mencionado meirinho da Mesa da Consciência, a denunciar as vendas que anteriormente e de forma reiterada, havia aceite de Alexandre Vicente.

É preciso lembrar que estavamos numa Lisboa em luta para renascer dos escombros deixados pelo terramoto de 1755, que matou milhares de pessoas e destruiu a maior parte dos edifícios com o respetivo recheio, sendo especialmente escabroso e chocante que alguém, ainda mais pessoa de confiança, viesse destruir o que se tentava reconstruir e tirar partido do que já se havia conseguido recuperar com enorme esforço.

A sentença a que condenaram Alexandre Vicente não foi certamente alheia a este contexto.

No dia 28 de janeiro de 1773, terá sido açoitado e arrastado “à cauda de um cavalo”, com baraço e pregão – isto é, com uma corda ao pescoço e alguém apregoando os crimes cometidos – até ao largo da Cotovia, onde outrora se erguia a Patriarcal por si incendiada. Aí foi queimado vivo.

O acordão determinava que o seu corpo deveria ser reduzido a cinzas, “para dele não haver mais memória”, mas, como aqui se prova, esse derradeiro objetivo  não se concretizou.

À margem

tetaro ginasio 3.jpgOs crimes de Alexandre Franco Vicente inspiraram uma peça de teatro que o jornalista e dramaturgo popular Leite Bastos levou à cena no Teatro Gimnásio Lisbonense*. O autor, que até à época tinha visto as encenações das suas obras serem acolhidas com grande entusiasmo, não gostou da reação do público, que brindou o espetáculo com uma estrondosa pateada. Respondeu, no local, em termos extremamente insultuosos para quem assistia e, ao contrário da peça em palco, foi compensado com uma enorme ovação. Leite Bastos não voltaria a escrever teatro, mas insistiria no tema com um folhetim sobre o homem que por três vezes pegou fogo à Patriarcal de Lisboa.

Mas isso é outra história…

 

* Atual Espaço Chiado, na rua Nova da Trindade

 

Fontes

http://digitarq.arquivos.pt/details?id=4381115

 

Gabinete Histórico que sua Magestade Fifelissima o Senhor Rei D. Miguel I em no dia dos seus felicissimos annos – 26 de outubro de 1831- offerece Fr. Cláudio da Conceição – Tomo XVII – Contém os annos desde 1771 até 1775 – Lisboa, na Impressão Régia.

https://books.google.pt/books?id=mQorAQAAMAAJ&pg=PA45&lpg=PA45&dq=%22lu%C3%ADza+de+jesus%22+senten%C3%A7a&source=bl&ots=U0tJGe8i25&sig=GEdJbHZ3FSTMxqRJbMJaxoVR964&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwiaoYCzmq3YAhUFchQKHc16ApoQ6AEITjAH#v=onepage&q=henrique%20carlos&f=false

 

 

 

Cadernos do Arquivo Municipal. ISSN 2183-3176. 2ª Série Nº 7 (janeiro - junho 2017), p. 113 – 136 - Maria João Pacheco Ferreira*, Das armações e do ofício de armador na cidade de

Lisboa nos séculos XVII e XVIII, CHAM – Centro de História d’Aquém e de d’Além-Mar, Universidade Nova de Lisboa / Universidade dos Açores, 1069-061 Lisboa, Portugal.

 

Centro de Documentação de Autores Portugueses

http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=7678

https://crimesdebolso.wordpress.com/2016/04/09/francisco-leite-bastos/

https://toponimialisboa.wordpress.com/2016/02/19/a-rua-nova-da-trindade-de-1836/

 

Imagens

Arquivo Municipal de Lisboa

Eduardo Portugal

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/EDP/000036

Alberto Carlos Lima

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/EDP/000669

Salvador de Almeida Fernandes

Exposição de documentos e obras de arte relativos à história de Lisboa , Lisboa, 1947 - Catálogo da exposição de documentos e obras de arte relativos à história de Lisboa. Lisboa, 1947. 206. [58] p.

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/SAL/000126

 

O pintor moribundo que fez Lisboa sonhar

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Naquele negro ano de 1918, a mais fina flor da sociedade lisboeta vibrou com as linhas, o ritmo, a autenticidade histórica e as formas femininas, traçadas pelo artista cuja morte certa era aguardada por todos.

 

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 Veredas ondulantes percorrem a floresta densa, envolta numa neblina perpétua. Aqui e ali, estranhas ruínas cobertas de trepadeiras, delicados chalés, idílicos palácios, altas torres que apenas se deixam vislumbrar, lá ao longe, inatingíveis por entre a frondosa vegetação. Um cenário onde não nos espantaríamos se nos saltasse ao caminho um qualquer elfo, estranhos duendes, belos cavaleiros de espada em riste ou uma princesa em apuros; precisamente os seres, ora etéreos, ora vigorosos, mas sempre marcantes, que povoam os quadros de Frank Craig, o artista inglês que deslumbrou Lisboa em 1918, para morrer, pouco depois, precisamente numa paisagem como a descrita, digna de um conto de fadas, em Sintra.

A sua última exposição, no salão Bobone, foi o derradeiro fôlego de um génio agonizante. Um pintor das “grandes composições de história, cheias de energia e de movimento”; imagens “que parecem arrancadas à obra dos imaginários ornamentistas do século xv”; “estudos de interiores modernos, onde passam figuras de uma elegância, de uma transparência, de uma espiritualidade…”, enfim, também um excecional “pintor de mulheres”, como o descreveu Júlio Dantas, que viu “por todos os cantos, em todas as telas, como uma obsessão, a Colombina eterna, a Pierrette imortal, loira, branca, dormente, translúcida, misteriosa, voo e espuma, névoa e flor…”.

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 Dantas demorou-se duas horas para ver 30 quadros, tamanho o interesse e a sofisticação da arte, que também não escapou à atenção da restante sociedade local. Os quadros foram “admiradíssimos e visitadíssimos por tudo o que Lisboa conta de melhor”, no “meio mundano e intelectual”, bem como pela colónia inglesa, acoitada em Portugal em resultado do primeiro grande conflito global, que teimava em não terminar. Foi assim que todas as obras se venderam, algumas “por preços bastante elevados”, pode ler-se no Jornal da Mulher de 30 de junho de 1918.

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 Não pondo em causa a obra de Frank Craig, aliás muito celebrada internacionalmente, um certo voyeurismo trágico-romântico terá contribuído para o sucesso da exposição: ninguém resiste a querer saber mais sobre um britânico, com apenas 44 anos, que foi sucumbir tísico para um cenário de sonho, como o palácio Monserrate, onde acabaria por fenecer, depois de meses de agonia, a 9 de julho de 1918. De pouco lhe valeram os ares de Sintra, ou os elogios públicos à sua arte.

Frank Craig finou-se jovem, mas deixou vasto trabalho, sobretudo na pintura histórica e na ilustração, nomeadamente de revistas de língua inglesa, onde também experimentou uma vertente humorística; e em livros, referidamente, de Rudyard Kipling. Tem trabalhos em importantes acervos: Tate Collection, em Londres, e musée d'Orsay, em Paris, por exemplo.

Dantas vaticinou, com desgosto, que o artista morreria «embalado pelo perfume das rosas de Monserrate, tão conhecidas de Byron” despedindo-se, “entre lágrimas, da glória suprema de viver. . .” Nesse sombrio ano de 1918, muitos foram os portugueses que tombaram de forma bem mais crua e brutal, nos lamacentos campos de La Lys ou, por este país fora, à mercê duma gripe que se disse espanhola e foi fatal para mais de 60 mil, só em Portugal. Destino igualmente trágico, muito menos poético que o fim do pintor de mulheres.

 

À margem

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 É caso para dizer: afinal havia outro.. Outro Frank Craig que morreu de tuberculose, como o pintor e ilustrador inglês. Este, do qual se fala agora, fundou, no Colorado, Estados Unidos da América, a Tent Colony of Brotherly Love, destinada a indigentes tísicos. O próprio padecia desta doença, que acabaria por ser o seu fim, em 1914. O projeto foi evoluindo à medida que a tuberculose era controlada nos países desenvolvidos. Hoje, o Craig Hospital é a face moderna da iniciativa do seu criador. Especializado na reabilitação de pessoas com lesões na espinal medula ou lesões cerebrais resultantes de traumatismo, é uma instituição sem fins lucrativos e reconhecida internacionalmente. Já tratou mais de 31 mil pessoas com estas patologias, desde 1956.

Depois, também há o Frank Craig, pugilista que, contra todas as expetativas, chegou a campeão mundial negro dos pesos-médios, ainda antes da entrada no século XX (1893).

Mas isso é outra história…

 

 

Fontes

Espadas e rosas, de Júlio Dantas, - Lisboa, Portugal-Brasil,  Limitada Sociedade Editora 58, rua Garrett, 60 Rio de Janeiro - Companhia Editora Americana - Livraria Francisco Alves - Tip. do Anuário Comercial — Praça dos Restauradores, 34 - Digitized by the Internet Archive in 2009 with funding from University of Toronto

http://www.archive.org/stream/espadaserosas00dant/espadaserosas00dant_djvu.txt

 

Jornal da mulher – 30 de junho de 1918 – Revista quizenal ilustrada

 

The art o nation-building – Pageantry and Spectacle at Quebec’s Tercentenary, de H. V. Nelles – University of Toronto Press – Toronto Buffalo London – 1999 – printed in the U.S.A.

https://books.google.pt/books?id=2sqCpaYHnv0C&pg=PA372&lpg=PA372&dq=%22Frank+craig%22+sintra&source=bl&ots=-LeQc1ti_m&sig=eGVbwOAV-dxsjUmJkRw7BA03mEc&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwjgvIO347vYAhURKewKHWocAw8Q6AEIPjAI#v=onepage&q=%22Frank%20craig%22%20sintra&f=false

Dictionary of brittish graphic artists and illustrators – Oxford University Press Inc – 2012

https://books.google.pt/books?id=05C02RhJZCkC&pg=PA289&lpg=PA289&dq=%22Frank+craig%22+sintra&source=bl&ots=QLkii-aT95&sig=LiTRHzAR588WrJESMIBdsI75KD0&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwjgvIO347vYAhURKewKHWocAw8Q6AEIQzAJ#v=onepage&q=%22Frank%20craig%22%20s

https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:4ZBnpUPRkAIJ:https://curiator.com/art/frank-craig+&cd=12&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt

 

http://artoncampus.rit.edu/artist/399/

 

http://www.musee-orsay.fr/fr/collections/catalogue-des-oeuvres/notice.html?nnumid=16708

http://www.soldiersofthequeen.com/FrankCraig.html

 

 

https://www.bing.com/images/search?view=detailV2&ccid=9gH1c6LL&id=CE8C36656E3E620D07928456D936EECFCDDC239B&thid=OIP.9gH1c6LLv_jzdF0jRNgiEwEsEp&q=%22frank+graig%22+&simid=607987794273045715&selectedIndex=10&ajaxhist=0

 

https://craighospital.org/about/history-of-craig

http://www.omnilexica.com/?q=frank+craig

https://pt.wikipedia.org/wiki/Frank_Craig

 

O prodigio da menina que poderia ter sido princesa de Portugal

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 O suposto milagre terá ocorrido numa altura em que se jogava a independência de Portugal, cujo trono os pais da donzela também disputavam.

 

Querubina, filha do 6º Duque de Bragança, D. João - primeiro de seu nome - e de D. Catarina de Portugal, era bisneta de D. Manuel I e, quis o destino, que morresse com apenas oito anos, em 1580. Numa época em que a mortalidade infantil era avassaladora e implacável até nas classes mais altas, pouco mais haveria a dizer sobre esta criança, não fosse ser-lhe atribuído um milagre que terá ocorrido em Alcácer do Sal. Tudo aconteceu numa altura conturbada da história de Portugal, em plena invasão espanhola resultante da crise dinástica e na qual, tanto a sua família, como Alcácer, acabariam por ser intervenientes.

Tinham passado dois anos apenas sobre a trágica morte de D. Sebastião, numa outra Alcácer (Quibir) de má memória, em Marrocos, e contava-se pouco mais de um mês da morte do Cardeal-Rei D. Henrique. Não havendo descendente direto, os pais de Querubina – na imagem - estavam entre os que ambicionavam o trono.

Reivindicaram o título de rainha para sua mãe, D. Catarina, pois era filha de D. Duarte, por sua vez filho de D. Manuel I com D. Maria de Aragão e Castela, com quem tinha casado, como não poderia deixar de ser… na Alcácer alentejana.

Mas as coincidências não se ficam por aqui…

Voltando à menina Querubina, conta a “Historia Genealogica da Casa Real Portugueza”, de D. João Caetano de Sousa, que tinha vindo para Alcacer do Sal “mudar de ares”, em busca de melhoras para mal de que padecia. Ficou alojada convento de Aracoeli, de freiras clarissas - e acabaria por falecer e ser sepultada no mesmo local.

Foi aí mesmo, 17 anos depois, sob o olhar atento da comitiva enviada para trasladar os restos mortais para Vila Viçosa, que o caixão foi desenterrado e aberto. Encontrava-se, obviamente, “já gasto do tempo”, o mesmo acontecendo com os restos mortais da menina, totalmente desfeitos, à exceção da cabeça. Esta achava-se “com todos os cabelos”, ainda entrançados com uma fita encarnada, “fermosos e louros”, “tão perfeitos, que pareciam de pessoa viva”. Esta visão provocou “grande compunção às religiosas”, que assistiam ao ato, tanto mais que umas manchas semelhantes a sangue maculavam  inexplicavelmente o sudário em que estava envolvida: “cousa prodigiosa” no entender de todos.

A transferência das ossadas foi envolva em grande formalidade e culminou a 24 de julho, quando a desditosa criança foi sepultada no Mosteiro das Chagas, em Vila Viçosa.

Todas estas movimentações aconteceram já no reinado de D. Filipe I (II de Espanha, também ele descendente de D. Manuel I e, assim, primo da menina); pois a crise dinástica que poderia ter feito de D. Querubina princesa de Portugal culminou com uma invasão de “nuestros hermanos” facilitada pelo castelo de Alcácer do Sal, que, impreparado para defender fogo de artilharia, não ofereceu resistência e permitiu aos espanhóis chegar facilmente às portas de Lisboa.

A última coincidência é que a Restauração da Independência de Portugal, em 1640, se deu com um golpe que colocou no poder D. João IV, justamente tio de Querubina (embora nascido despois desta). Este iniciou o domínio da Casa de Bragança, que se prolongou até à implantação da República, 270 anos depois.

 

À margem

pes_2375 jaime IV duque de braganca.jpgNão foram apenas os restos mortais de D. Querubina que foram trasladados para Vila Viçosa nesta época, nem a menina tem o exclusivo dos milagres na família. A sua bisavó, Leonor de Mendonça (ou Mendoza), infeliz duquesa morta pelo marido – D. Jaime, 4º Duque de Bragança (na imagem) - ou a mando deste com o pretexto de um alegado adultério, foi, em 1590, repousar finalmente na Igreja da Esperança, trasladada de Montes Claros, onde havia sido sepultada em 1512. Diz a lenda, que manchas do seu sangue se conservaram durante muitos anos na casa onde foi assassinada.

Mas isso é outra história…

 

Fontes

Historia Genealogica da Casa Real Portugueza, de D. João Caetano de Sousa - http://purl.pt/776/3/

http://www.bdalentejo.net/BDAObra/obras/212/BlocosPDF/bloco11-99_108id.pdf

http://www.arqnet.pt/portal/portugal/temashistoria/joao4.html

https://geneall.net/pt/nome/2375/d-jaime-4-duque-de-braganca/

 

O franciscano especialista em canela e pimenta da Índia

 

 

As caneleiras não se davam com as formigas brasileiras, que só os jesuítas conseguiam exterminar.

 

A cancanela-origens planta.jpgela era, provavelmente, a mais apetecível e rentável das especiarias. Quando os holandeses se apoderaram das possessões portuguesas que haviam garantido o monopólio destes produtos, foi preciso explorar alternativas. Como sabiamente alvitra o ditado: quem não tem cão, caça com gato… Então, se o Ceilão, pátria da canela, já não era nosso, porque não cultivar aquela planta em territórios que ainda se mantinham lusos?

Esta foi o pensamento de D. Pedro II - ou de alguém por ele - lá por volta de 1678. Logo se tratou de remeter para o Brasil caneleiras que deveriam ser tratadas com todo o cuidado para ver se cresciam e frutificavam do outro lado do oceano.

A experiência, aliás, não era inédita. Já se havia conseguido razoáveis sucessos no plantio da caneleira em São Tomé, por exemplo, e mesmo no início da colonização do Brasil os jesuítas haviam cultivado árvores de canela, depois destruídas para não concorrerem com a proveniente de outras paragens, então dominadas por portugueses.

 

Os resultados, no global, não seriam extraordinários, porque, anos depois, contratou-se um especialista para levar o projeto brasileiro a bom porto.

Tratava-se de um frade franciscano residente na Índia, onde se dedicara ao estudo das plantas das especiarias – em particular canela e pimenta. Uma vez no Brasil, o plano era simples: sendo aquele território tão vasto, em alguma parte do mesmo deveria encontrar boas condições para o real desígnio. Somava-se que os holandeses tinham sido expulsos de terras de Vera Cruz cerca de meio século antes, pelo que não ameaçavam estes propósitos.

Frei João D’Assunção aportou à Bahia no ano de 1707 - já no reinado de D. João V - e a confusão que rodeou essa chegada poderia ter sido prenúncio que as coisas não iam correr bem. De facto, embora trouxesse as credenciais necessárias e viesse em nau fretada pelo rei, ninguém estava informado da sua chegada, nem tinham sido tomadas medidas para que ali tivesse meios para sobreviver, quanto mais para desenvolver o trabalho de que havia sido incumbido.

Felizmente, imperou o conhecido bem-receber português, porque o governador e capitão geral do Brasil, Luiz César de Menezes, achando frei João d’Assunção “tão desamparado”, tomou a iniciativa e, mesmo “sem ordem” régia, tratou de “dar com parecer dos ministros da Junta da Fazenda, 160 réis cada dia, para sua sustentação”, valor imediatamente aumentado para um cruzado, a pedido do próprio frade, alegando ser a vida no Brasil “caríssima”.

Mas, as coisas continuaram a não ser favoráveis. Dois anos depois, o frade pouco havia adiantado a sua missão. Tinha adoecido, o que o impedia de se deslocar em busca dos melhores terrenos para o plantio e os ensaios relatados não eram animadores: a grande quantidade de formigas inviabilizava o desenvolvimento das caneleiras, que não se davam com tal inseto.

Na cultura da pimenta, os resultados também não eram brilhantes. As sementes não haviam germinado e uma outra, semeada pelos jesuítas, não tinha dado frutos. Apesar deste insucesso, são elogiados os dotes agrícolas da Companhia de Jesus, que havia conseguido exterminar as formigas nas terras sob seu poder e tinha, com êxito, feito tentativas com outras plantas, drogas que já comercializava e poderiam resultar em “lautos interesses” para a Coroa. Restava a esperança de tentar produzir canela, com plantas trazidas de São Tomé, novamente na zona de Pernambuco e “especialmente no Maranhão”, visto como tendo “muitas semelhanças” com a Índia.

De facto, João d’Assunção terá escrito um tratado sobre a plantação de caneleiras, os cuidados a ter para o seu crescimento e na extração da canela, mas aparentemente a especiaria produzida no Brasil, tanto por os solos e o clima serem díspares dos de origem, como pelo pouco cuidado e até incúria no seu tratamento, parece nunca ter sido tão forte e economicamente relevante para o império português como havia sido o monopólio marítimo deste e de outros produtos nos tempos áureos deste comércio.

 

À margem

Bernardino_António_Gomes_médico_da_Real_Câmara.

 “Quase todos os países do mundo têm produções que, segundo a ordem primitiva da natureza, deviam ser-lhes sempre privativas. O homem, porém, ávido sem limites e insofrido de não encontrar em cada parte da terra todos os bens que a natureza sabiamente tinha repartido (…), não só os tem procurado através de mil perigos, por meio de comércio, mas ainda tem querido forçar a mesma natureza a oferecer-lhos em toda a parte”. Sábias e críticas palavras, as de Bernardino António Gomes. Poderiam ter sido ditas hoje em dia, numa qualquer conferência internacional sobre ambiente e produção agrícola sustentável, mas foram escritas em 8 de maio de 1798 por este ilustre médico, cientista, químico e botânico português. Tratava-se da introdução à obra Observações sobre a canela do Rio de Janeiro (…), trabalho desenvolvido a pedido do senado da câmara daquela cidade.

Mas isso é outra história...

 

 

Fontes

http://memoria.bn.br/pdf/094536/per094536_1952_00095.pdf

https://martaiansen.blogspot.pt/2016/02/

http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/quimica/origem-composicao-canela.htm

 

Observações sobre a Canela do Rio de Janeiro escritas a rogo do senado da Câmara da mesma Cidade em 8 de Maio de 1798 e ulteriormente retificadas, adicionadas e oferecidas ao mesmo Senado…de Bernardino António Gomes, 1798 - URI:http://bibdigital.bot.uc.pt/obras/UCFCTBt-Cofre-Man-

05/globalItems.html; URI:http://hdl.handle.net/10316.2/10877

 

A história natural de Portugal no Século VIII, Biblioteca Breve nº112, Série Pensamento e Ciência, Rómulo de Carvalho, 1ª edição 1987, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Ministério da Educação

 

Ministério da Educação e Saúde – Documentos históricos – Consultas do Conselho Ultramarino – Rio de Janeiro 1757-1803; Rio de Janeiro-Bahia 1707-1711

 

Tese de doutoramento em História e Cultura do Brasil intitulada «Sociedade, elites e poder em Pernambuco no século XVII - Parte III - Pernambuco no período pós-Restauração: Da unidade ao conflito - http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/6497/15/ulsd062897_td_vol_1_indice.pdf

 

A conquista e a ocupação da Amazónia brasileira no período colonial: a definição das fronteiras, de Tadeu Vladir Freitas de Rezende – Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de História Económica - São Paulo 2006

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Bernardino_António_Gomes