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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Quando as viagens se faziam a vapor

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As embarcações tinham más condições, sofriam sucessivos atrasos e encalhavam com frequência devido ao assoreamento do rio. Um dia, a caldeira do "vapor" explodiu.

 

 

As carreiras regulares a vapor entre Alcácer do Sal e Setúbal duraram mais de meio século, com muitas interrupções no serviço, barcos a encalhar em pleno rio, múltiplas queixas e reclamações contra os horários e as comodidades. Houve acidentes, explosões e até um dia em que Alcácer se vestiu de luto porque todos já pensavam que se tinha dado um naufrágio.

Os trajetos começaram por volta de 1839, cerca de duas décadas após a estreia da navegação a vapor em Portugal. Na época, não existia alternativa por terra – porque a estrada vinha sendo sucessivamente adiada – o que obrigou o Estado a subsidiar a empresa que se disponibilizou a fazer a ligação fluvial. Sem o apoio governamental, corria-se o risco de não haver transporte, o que chegou a acontecer.

Era um jogo de forças: por um lado, a Regência não aceitava pagar mais, nem períodos longos, optando por prorrogar continuamente os contratos originais, de quatro anos. Por outro, as empresas de navegação alegavam que não podiam investir em barcos construídos de raiz e com melhores condições. Quem acabava por sofrer eram os passageiros de Alcácer, Grândola ou Santiago do Cacém, bem como os setubalenses com interesses no litoral alentejano.

Em 1876, talvez incentivada pelo recente contrato – mais duradouro e lucrativo -, a Hugh Parry & Son, há muito concessionária, lança à água um novo vapor em ferro e com rodas laterais destinado à viagem entre Alcácer e Setúbal. Esperava-se que reduzisse o trajeto para três horas e acomodasse senhoras e cavalheiros em aposentos diferentes.

O “luxo” durou pouco. O Hugh Parry foi comprado pelo Estado e rebatizado “Guiné”, para ir prestar serviço nessa ex-colónia. A partir de 1879, o Lucifer ficou a fazer o percurso, mas desconhece-se se foi a caldeira deste que, no final da Primavera de1883, explodiu com grande dano e aparato na doca de Setúbal, ferindo a tripulação e matando um dos seus elementos.PT-ADSTB-PSS-APAC-I-0005_m0005.jpg

O acidente provocou tal pavor que, em Alcácer, pouco tempo depois, se temeu uma “catástrofe” quando outra embarcação da carreira, tendo abalado de Setúbal às 6 horas de um dia, ainda não tinha alcançado o seu destino às 10 horas do dia seguinte.

Na então vila, muitas já se imaginavam viúvas, crianças órfãs e famílias sem amparo, adivinhando-se que o barco tinha “submergido e com ele todos os seus infelizes passageiros”. Devido a repetidas avarias, a chegada demorou dois dias.

Estes episódios originaram imensa polémica, com queixas ao rei, respostas nos jornais e debate político.

Talvez devido a tamanho sururu, nos anos seguintes o circuito é interrompido, não havendo empresas interessadas.

Após pressão solidária dos municípios, mas também do Corpo Comercial de Setúbal, faz-se novo concurso, para dez anos. As carreiras recomeçam em 10 de setembro de 1887, provisoriamente com a lancha a vapor Portimão e o concessionário Alfredo A. Alcobia.

As reclamações, essas, jamais cessaram.

 

 

À margem

O Estado português terá sido pioneiropassageiros Tejo 3.jpg no mundo – ou pelo menos na Europa - a encomendar um navio a vapor. O Conde de Palmela foi construído pela Fawcett, Littledale & Co. de Liverpool e, rumando a terras lusas, terá sido o primeiro do género a atravessar o golfo da Biscaia, numa viagem de mais de mil milhas, e também o primeiro a ser visto por estas paragens. Chegou a 14 de outubro de 1820 e destinava-se à carreira entre Lisboa e Santarém, que teve início em janeiro de 1821. Seria “sol de pouca dura”, porque o assoreamento do Tejo não permitiu as viagens previstas, ficando-se a viagem por Vila Franca de Xira.

Outras ideias que não vingaram foram os trajetos a vapor entre a Figueira da Foz e o Porto e entre esta cidade e Lisboa. Neste trajeto chegaram a fazer-se cinco atribuladas viagens logo no verão de 1821,

Mas isso é outra história...

 

 

 

Fontes:

Arquivo pessoal de Almeida Carvalho - PT/ADSTB/PSS/APAC, Arquivo Distrital de Setúbal - http://digitarq.adstb.arquivos.pt/details?id=1327529

 

http://www.marinha.pt/pt-pt/media-center/agenda/Paginas/Efemeride-Primeiro-Vapor-Portugues.aspx
Revista da Armada, N.º 216 / Dezembro 1989.
http://www.forumdefesa.com/forum/index.php?topic=2621.0
Documentos Apresentados às Cortes na Sessão Legislativa de 1887. Primeiro volume. Lisboa: Imprensa Nacional, 1887.

Biblioteca Nacional Digital - Diário Ilustrado, 8 jun. 1883

Biblioteca Nacional Digital - Diário Ilustrado, 5 jun. 1883

 

 

Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal - PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/01/0064

Arquivo Fotográfico de Lisboa

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/ACU/000441

O primeiro figurinista português e o incêndio que o arruinou

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Carlos Cohen viveu entre o brilho e a magnificência que a sua arte emprestava às personagens que vestia. O trágico incêndio da rua da Betesga foi o princípio do fim do primeiro figurinista português.

 

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O último mês de 1886 ficou marcado pelo tenebroso incêndio que destruiu um prédio de quatro pisos na baixa de Lisboa e matou várias pessoas. Quem haveria de imaginar que o sinistro mudaria para sempre também a vida do mais requisitado “alfayate costumier” da cidade, o primeiro figurinista português, responsável por ter revolucionado a forma como os atores se apresentam perante o público?! Depois de uma vida entre brilho e plumas, Carlos Cohen morreria na miséria, cheio de dívidas, numa pobre cama de hospital. Tinha-se quebrado a magnificência aparente que sempre garantira em palco.

A queda do artista não foi imediata. Trinta anos mediaram entre o trágico fogo e a morte, por congestão cerebral - disse a imprensa da época. Mas a sua vida nunca seria a mesma após as chamas terem arruinado a sua casa, o seu atelier e todo o vasto guarda-roupa que ali mantinha, ocupando todo o primeiro piso, com sete janelas para a rua dos Correeiros e quatro para a da Betesga. Ali, as paredes estavam “guarnecidas por cabides” nos quais estavam penduradas vestimentas ligeiras, “objetos de cartonagem e outros artigos de fácil e rápida combustão”, que contribuíram para a veloz propagação do incêndio, tanto mais que esta espécie de armazém onde os variados teatros podiam alugar vestes para as suas encenações – uma novidade na época – estava excecionalmente cheio, com os já prontos “fatos para o drama Luiz XI”, que ia à cena “nos Recreios” e ainda para “peças da Trindade e outras casas de espetáculos”, que Carlos Cohen desenhava e construía com as costureiras que para ele trabalhavam.

Foi o princípio do fim. Pois que, por inércia ou trauma, o conhecido figurinista nunca mais voltou ao fulgor de outros tempos, chegando, no fim da vida, a andar pelas ruas “com o fato cheio de nódoas, desmazeladamente trajando, com um cache-nez em volta do pescoço para não se dar pela ausência do colarinho”, algo impensável anos antes, num homem garboso e “vestindo sempre com máxima distinção”, como os seus amigos preferem dele lembrar-se.

Longe iam os tempos em que dava cartas de elegância e bom gosto.

Essas qualidades foram o seu triunfo. Isso e a forma como “casava os tecidos”, indo ao encontro da veracidade histórica das personagens que vestia, nas formas, nas cores e nos cortes das indumentárias, num rigor em que foi percursor e que fez escola no meio teatral português. Assim foi especialmente quando ficou responsável pelos figurinos do grupo Rosas & Brazão, que explorou o Teatro Nacional D. Maria II durante duas décadas. “O investimento estético nos espetáculos era reconhecido até pelos mais críticos, sendo pautado pelo estudo a que os dramas históricos obrigavam, pelo requinte da decoração de cena e pela riqueza dos materiais”, instituindo-se “a pintura de novos cenários” e “a confeção de um guarda-roupa para cada novo espetáculo (diferente, portanto, do que acontecia antes)”.

O apreço do “patrão” Eduardo Brazão por Carlos Cohen seria tal que este até ficou sepultado no jazigo da sua família.

cohen publicar3.pngE a sua arte foi reconhecida no seu tempo, nomeadamente nos escritos de Rafael Bordalo Pinheiros e de outros virtuosos. É reconhecida ainda hoje, com indumentárias de sua autoria em destaque nos museus do Trajo e do Teatro. No primeiro caso, nomeadamente, um magnífico vestido em veludo vermelho cinzelado para a peça “A Princesa de Bagdad”, de Alexandre Dumas, levada à cena pela Companhia Rosas & Brasão, em 1881, e que é o trajo de cena mais antigo existente naquele acervo. No segundo caso, diversos fatos “executados em materiais e tecidos de grande qualidade, então propositadamente importados das grandes capitais europeias”.

Carlos Cohen criou beleza e encanto para numerosos espetáculos; da ópera, à comédia; do burlesco à revista, das mágicas* ao drama, numa montanha russa de emoções e sumptuosidade que, tal como na vida, se desvanecem quando corre o pano.

 

À Margem

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O incêndio que deflagrou na manhã de 29 de dezembro de 1886 matou filha, mulher e sobrinha, bem como a criada da casa, do comendador António Maria Freire Pimentel Brandão e ainda uma idosa entrevada que vivia nas águas furtadas do edifício. Foi Carlos Cohen quem deu o alarme, e foi ele também o último sobrevivente a sair do prédio, e à força, porque se recusou a abandonar o guarda-roupa fruto do seu trabalho. Destruídos ficaram também o colégio Victor Hugo, de Cândida de Mello Amaral, que ocupava o 2º piso, e diversas lojas. O sinistro, que reacendeu a polémica sobre a proibição em Lisboa do toque a rebate em caso de incêndio, fez do bombeiro nº 55, António Ignácio da Silva, o herói do momento. Ferido enquanto tentava salvar a família Brandão, foi hospitalizado e o seu estado de saúde seguido pela imprensa durante vários dias. A câmara da Capital chegou a aprovar um louvor ao “soldado da paz” e uma pensão para o caso deste ficar impossibilitado de trabalhar. Não sabemos se chegaria a recuperar completamente, sabemos sim que a sua mulher também tinha sido condecorada, anos antes com uma medalha de prata, precisamente por ter salvo duas crianças das chamas.

Mas isso é outra história…

 

* Uma mágica é um “gênero dramático-musical largamente praticado no Brasil e em Portugal, do início do século XIX ao início do século XX”. É descrito como “aparatosa”, “deslumbrantes”, “espirituosas”, contendo uma “ofuscante” apoteose. É frequente os seus títulos apresentarem referências a seres e elementos fantásticos.

 

Fontes

Biblioteca Nacional Digital

www.purl.pt

Diário Illustrado

15º ano, nº4:916 – 30 dez. 1886

15º ano, nº4:917 – 31 dez. 1886

16º ano, nº4:918 – 1 jan. 1887

16º ano, nº4:918 – 2 jan. 1887

36º ano, nº12:052 – 20 out. 1906

 

Hemeroteca Digital de Lisboa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

O Occidente

10º ano, voluma X, nº289

O Bombeiro Portuguez

VII ano, nº5 – 1 jun.1883

 

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/pt/

Eduardo Portugal

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/EDP/000223

…..

https://www.academia.edu/3407985/As_Mágicas_e_a_Circularidade_de_Gêneros_Musicais_no_Século_XIX

As Mágicas e a circularidade de gêneros musicais no século XIX, Vanda Bellard Freire - Palestra apresentada na Casa de Rui Barbosa, agosto de 2008 /Colóquio Música e História

 

https://archive.org/stream/diccionariodothe00sousuoft/diccionariodothe00sousuoft_djvu.txt

 

Diccionario do Theatro Portuguez, António Sousa Bastos, Imprensa Libânio da Silva, Lisboa, 1908

 

http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=175743&EntSep=5#gotoPosition

 

http://www.museudoteatroedanca.gov.pt/pt-PT/coleccoes/Trajos/PrintVersionContentDetail.aspx

http://cvc.instituto-camoes.pt/teatro-em-portugal-instituicoes/rosas-a-brazao-dp22.html#.WrpGDcuWwbo

http://manuel-bernardinomachado.blogspot.pt/2012/12/recordar-carlos-cohen-reproduzimos-uma.html

 

 

 

 

 

Quando Alcácer jurou lealdade ao último rei absoluto

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Foguetes, missa, procissão, danças e cantares. Tudo serviu para os alcacerenses jurarem lealdade a D. Miguel, numa altura em que os liberais já tinham iniciado, nos Açores, a sua demanda para recuperar o poder em Portugal.

 

Miguel I reinou apenas seis anos, (1828-1834). Tratou-se de um período conturbado de guerra civil, que opôs os liberais, partidários de D. Maria II, aos miguelistas, defensores do absolutismo. Ora, foi precisamente num dos momentos cruciais desta contenda, dois meses após a aclamação do novo governo liberal nos Açores, que Alcácer do Sal, decidiu comemorar de forma pública e efusiva o seu apoio a D. Miguel. A pacata vila alentejana, que anos mais tarde assistiria a uma das mais sangretas batalhas deste conflito, mobilizou a população para uma espaventosa festa, na passagem do 29º aniversário daquele que para uns foi o usurpador e, para outros, - entre os quais parecia querer incluir-se a nata da sociedade alcacerense da época - era o verdadeiro herdeiro do trono português.

sem nome.pngEste tipo de manifestações, expontâneas ou forjadas para legitimar o monarca, eram depois divulgadas com propósitos propagandísticos, como aconteceu neste caso.

Foi a 26 de outubro de 1831 e, conta a Gazeta de Lisboa, a iniciativa das celebrações terá sido do presidente do senado da câmara local, José Maria de Moura Brito Mouzinho.

Começou por organizar um bodo aos pobres, distribuído porta a porta, mas também junto dos presos e dos mendigos. Às mais de 400 pessoas que receberam tal oferenda - um arrátel (cerca de 360 gramas) de pão e outro de carne de vaca e uma ração de arroz - pedia-se que rogassem a Deus pela saúde do “amabilissimo Rei”.

Por várias vezes se ouviram salvas de tiros, foguetório e repicar de sinos. Hastearam-se as bandeiras e a população acorreu à igreja Matriz, onde, com grande solenidade, Manoel de Jesus Maria Lobato, prior e juiz da Ordem de Santiago na Comarca, celebrou missa cantada por “música que veio de fora”.

O sermão ficou a cargo de Manoel do Sacramento, religioso de Santa Maria da Arrábida, que, segundo a mesma fonte, terá provado o quão o “paternal governo” de D. Miguel fazia o povo feliz, sendo que este seria “desgraçado” se estivesse debaixo do jugo da fação “liberal e destruidora”.

O texto, todo neste tom laudatório para os absolutistas e negativo para os liberais, descreve depois como os festejos continuaram até às duas horas da madrugada. Primeiro, o corpo de milicias local formou, depois acompanhou uma solene procissão que percorreu as ruas limpas e decoradas. Marcaram presença, António de Sousa, major que comandava as milicias e Francisco de Paula Leite, coronel graduado das mesmas.

Tão jubilosa jornada foi rematada com a alta sociedade ouvindo hinos e canções alusivos ao rei, perante um retrato do mesmo, no iluminado edifício da câmara. Ao mesmo tempo, nas ruas, o povo dançava, “sem que houvesse a mais pequena desordem, mas sim hum geral contentamento alegria e satisfação, ouvindo-se por toda a parte vozes de Viva EIRei o Senhor Dom Miguel I Nosso Senhor”.

 

À margem

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O reinado de D. Miguel foi curto e conturbado, mas em torno dele gerou-se um fenómeno de idolatria que se traduzia num exagerado culto ao seu retrato – a “real efigie”. Mesmo antes de se tornar rei e quando ainda estava ausente do País, já circulavam milhares destas pequenas imagens, compradas para depois serem aplicadas em broches, caixas de rapé, alfinetes ou medalhas.

Rapidamente entendido como uma arma política, o que começou como uma moda extemporânea, tornou-se uma obrigação após a subida de D. Miguel ao trono.

Os cidadãos deveriam pedir ao soberano a mercê de usar a sua efigie e este tinha a prerrogativa de o autorizar…ou não, o que, em tempo de perseguições como aquele foi, nunca seria bom sinal.

Mas isso é outra história…

 

 

Fontes:

Gazeta de Lisboa

https://books.google.pt/books?id=GO0vAAAAYAAJ&pg=PA113&lpg=PA113&dq=%22Gazeta+de+lisboa%22+outubro+1831&source=bl&ots=nsoqScpleu&sig=Pmz1xdGF-pIV3EoAPYOLy_dbqTM&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwjmpOHZh-LZAhWEUBQKHfJdBgkQ6AEIJzAA#v=onepage&q=Alcacer&f=false

Alexandre Ferreira Barros, em Medalhas da real efigie de D. Miguel (Continuação), Boletim da Sociedade Portuguesa de Numismática, vol. 08, nº. 26-28, 1965-1966, pag. 113-117

Biblioteca Nacional Digital

http://purl.pt/5210/3/

http://purl.pt/6884/3/

 

https://www.cml.pt/cml.nsf/artigos/AD64BF76A8B66F50802575A5005D4573

 

 

Como uma revolta popular libertou todo o país

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A vitória dos pescadores pobres de Olhão sobre os franceses inspirou a insurreição do resto de País. Não contentes, os olhanenses ainda atravessaram o atlântico, num feito marítimo único que lhes valeu a independência e o reconhecimento real.

 

Como é que um exército pode sair derrotado perante um punhado de homens, sem preparação ou treino? O folclore nacional conta diversos episódios deste género, mas a revolta de Olhão será talvez o mais expressivo exemplo de como tudo pode a força dos que sabem que a razão está do seu lado.

Pode dar o mote para que todo um país expulse o inimigo. Pode atravessar o oceano para levar a boa nova e trazer a independência. E pode tanto, porque não se trata do imaginário ornamentado pelo passar dos anos, mas sim da mais pura realidade, que aconteceu naquele mês de junho de 1808, numa pobre aldeia do litoral algarvio onde, à época, viviam apenas homens e mulheres com vidas curtidas pela agreste lida do mar.

 

Capturarfranceses.GIFA corte Portuguesa embarcou para o Brasil a 29 de novembro. Já as tropas francesas tinham entrado no País, tomando conta de todo o dócil território. Ora, logo aí Olhão foi diferente “olhando sempre para aquela nação francesa com olhos de veneno e má vontade”, como foi notado pelos recém-chegados. Os olhanenses tinham razões para tal: não estavam habituados a ter tutela e a vivência dura que levavam tornou-se praticamente insuportável, tamanho o peso dos impostos a que o novo poder obrigava.

 

 

Olhão era um rastilho à espera de se lhe chegar fogo.

 

A centelha foi acesa a 12 de junho.  João Rosa, o escrivão do Compromisso Marítimo de Olhão*, num ato de desafio aos opressores, destapou as armas de Portugal que havia tempo tinham sido obrigados a esconder na igreja onde assistiam à missa. A notícia correu e logo “todas as embarcações na praia e em terra levantaram a bandeira portuguesa”. Quatro dias depois, José Lopes de Sousa, governador de Vila Real, destituído por não se vergar ao jugo estrangeiro, rasgaria os novos editais franceses e instigaria os homens a segui-lo. “Prontos e mais que prontos” para “morrer e dar até à última pinga de sangue”, responderam logo os que o ouviram e correram pelas ruas, chamando os demais.

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Uns “deitaram-se ao mar (…) sem olharem a mais nada”, buscando peças de artilharia e munições que se encontravam nas ilhas, outros pegaram “em armas que havia na terra, que eram forcados, fisgas, besteiros e paus, espadas velhas, espadins, paus, pedras, tanto faziam homens como mulheres, rapazes e raparigas, até mesmo o pároco da igreja e os padres”.

 

Nos dias seguintes, procuraram apoio junto da armada inglesa, ao largo da costa, e em Ayamonte, tendo conseguido aprisionar três xavecos** franceses e os seus ocupantes.

Com isso reuniram mais armas e impediram o reforço do contingente inimigo em Faro, que logo pediu reforços a Tavira e Vila Real.

“Nada disto lhes meteu medo ou abalo, antes lhes meteu mais ânimos de sorte”, pois que a improvisada força olhanense, feita de “uma gente maruja estranha a taes empresas, mas valorosos, a quem as mesmas mulheres davam o exemplo”, foi esperar estas tropas à Ponte de Quelfes, onde se deu o episódio mais dramático da contenda. Aos tiros seguiram-se perseguições, “em peleja, entre matos”, matando-se 18 franceses e ferindo-se dois. Do lado português houve apenas uma baixa, mas os franceses mataram mais dois rapazes, na sanha da retirada.

Foram dias extraordinários, mas também penosos, pois que de fora “não vinha pão nem nada” e os olhanenses, não podiam ir ao mar, pois pegavam em armas e velavam os caminhos, sem descanso. “Com todas estas necessidades que passámos, parecia que Deus Nosso Senhor nos mantinha”, conta o mesmo João da Rosa, escrivão do Compromisso Marítimo de Olhão, a quem se deve o relato mais vivo dos acontecimentos.

Vendo que a força não vergava os do lugar de Olhão, os franceses tentaram comprar a sua vontade, prometendo-lhes privilégios e isenções. Nada conseguiram.

Ameaçaram depois passar todos à espada e arrasar aquela terra, mas já era tarde: motivados pelo exemplo olhanense, também Faro e depois Tavira se sublevaram e outras localidades se seguiram. E com a ajuda dos algarvios, também o Alentejo se levantou contra os invasores e depois todo o País. Com auxilio das tropas inglesas, em setembro estava terminada a primeira invasão francesa.

O feito dos marítimos olhanenses, no entanto, não se ficou por aqui. Era preciso ir mais longe, muito mais longe. Mais propriamente ao outro lado do Atlântico.

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A 6 de julho abalava de Olhão o caíque Bom Sucesso, insignificante embarcação de pesca desadequada para tão grande viagem, com uma tripulação de 18 homens, também eles estreantes em tais empresas. Sem instrumentos de navegação, guiando-se apenas por cartas marítimas incompletas, as correntes e as estrelas, o piloto Manuel de Oliveira Nobre conseguiu fazer aportar ao Rio de Janeiro todos sãos e salvos, a 22 de setembro.

Mais do que o propósito formal da viagem: levar a boa nova de se ter o país livrado dos invasores, os olhanenses foram buscar a independência que há muito ansiavam e que tanto lutaram por conseguir. D. João VI concedeu a Olhão o estatuto de vila da restauração, com “todos os privilégios, liberdades, franquezas, honras e isenções de que gozam as vilas mais notáveis do reino”, atribuindo igualmente tenças e honrarias – nomeadamente medalhas como a da foto - a todos os tripulantes do “Bom Sucesso”.

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 Num século apenas, o pequeno aglomerado de cabanas era elevado à categoria de vila.

Por uma vez, tal distinção não se deveu a uma oca atitude majestática ou à paga pelos feitos dos nobres do local. Antes, foi conquistada a pulso, pela arraia miúda, protagonista de um jogo de emancipação de que habitualmente fica alheada.

Eram novos tempos, os que se avizinhavam.

 

 

À margem

António de Gouveia. Terá sido ele a única baixa da força olhanense no combate ocorrido na Ponte de Quelfes. A tradição oral diz que este era um ancião, com perto de cem anos, admirado e respeitado por toda a comunidade, onde já teria desempenhado importantes funções, como ser juiz do Compromisso Marítimo de Olhão aquando da construção da sede desta instituição, concluída em 1771 e que, com muito esforço, consolidava a autonomia profissional daquelas gentes do mar em relação a Faro. Seria, pois, uma figura proeminente na terra, que à época tinha já a alcunha de pai-avô, pela idade avançada e pela grande estima e reverência que inspirava. Estranho é que, sendo tão reconhecido, sobre ele não haja uma palavra nos dois relatos mais vivos da revolta, os de João da Rosa e de José Lopes de Sousa, que assistiram e participaram nos acontecimentos. O assento de óbito de António de Gouveia também não ajuda a perceber quem foi este homem, informando apenas que era casado com Joana Gomes e que morreu “de desgraça”, a 18 de junho de 1808, precisamente o dia da batalha da ponte de Quelfes. Mais três pessoas morreram de igual “causa” e na mesma data, dois menores e outro homem, o que poderá contrariar a versão oficial de ter sido apenas António de Gouveia o “mártir” da contenda. Certo é que o seu enterro mobilizou toda a comunidade e até autoridades exteriores. Certo também é que o valor de António de Gouveia era de tal forma apreciado que os seus parentes adotaram o sobrenome Pai-avô, que prevalece até à atualidade, como até à atualidade não se desvaneceu o orgulho das gentes de Olhão neste este seu corajoso filho.

Mas isso é outra história…

 

*Instituição criada 1765, com o fim de apoiar os pescadores e as suas famílias. A classe piscatória contribuía para a Confraria Real do Corpo Santo dos Mareantes ou Compromisso Marítimo de Olhão e deste recebia assistência médica e social.

**Pequena embarcação com três mastros e vela latina.

 

 

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Fontes

Biblioteca Nacional Digital

www.purl.pt

Declaração da Revolta principiada no dia 16 de junho de 1808 no lugar de Olhão pelo Governador da Praça de Villa Real de Santo António, José Lopes de Sousa, para a restauração de Portugal; 26 de julho 1808.

Joaquim Alberto Iria Jor. - Do Algarve ao Brasil no caíque de pesca “Bom sucesso”; Lisboa, 1936.

Representação ou carta enviada pela Câmara desta cidade de Faro ao Rio de Janeiro a S.A.R o Príncipe Regente, nosso senhor – Faro 1808.

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António Rosa Mendes – O levantamento popular de Olhão contra os franceses – Promontoria; ano 6, nº 6, 2008 – Universidade do Algarve.

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http://www.olhao.web.pt

Antero Nobre – Heróis olhanenses de 1808 – Associação de Valorização Cultural e Ambiental de Olhão,  2008

Antero Nobre - História Breve da Vila de Olhão da Restauração - Associação de Valorização Cultural e Ambiental de Olhão,  2008

O manuscrito de João Rosa – edição atualizada e anotada - Associação de Valorização Cultural e Ambiental de Olhão,  2008.

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Arquivo Nacional da Torre do Tombo

www.tombo.pt

Registos Paroquiais – Olhão

 

www.priberam.pt

 

Imagens

Biblioteca Nacional Digital

www.purl.pt

http://www.olhao.web.pt

http://caxinas-a-freguesia.blogs.sapo.pt/18588.html

http://historia-portugal.blogspot.pt/2013/05/as-invasoes-francesas-guerra-peninsular.html

 

(14) Instantâneos: O “Cristo das trincheiras” e a abóbada

 

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Em 1918, durante muitos dias, um insólito cruzeiro com a imagem de Cristo, existente próximo de Neuve-Chapelle, na Flandres Francesa, fez companhia às tropas portuguesas ali estacionadas. Foi alvo de devoção, serviu de cenário a fotografias, “ouviu” preces e, de certa forma, velou pelos homens que aguardavam mais um confronto. A batalha de La Lys* deu-se a 9 de abril e foi fatal.

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Toda a zona foi bombardeada, remexida, destruída pelo fogo inimigo. No fim, pouco mais restavam que cadáveres, homens agonizantes, escombros e…entre tanta devastação, o Cristo, também ele mutilado, como muitos dos que combateram. O fogo alemão perfurou-lhe o peito, levou-lhe as pernas e parte do braço direito, mas deixou-o ali, ainda erguido, como um sinal de sobrevivência.

Há exatamente cem anos, esta batalha da I Grande Guerra, constituiu talvez a mais negra página da história bélica do nosso País, depois de Alcácer Quibir. Os militares do Corpo Expedicionário Português foram arrasados pelas tropas alemãs, milhares morreram, ficaram feridos ou foram aprisionados.

O “Cristo das trincheiras”, terá sido depois recolocado no espaço que lhe pertencia e onde permaneceu mais duas décadas.

Em 1958, por iniciativa do Governo português, rumou a terras lusas e, igualmente a 9 de abril - há exatamente 60 anos - em cerimónia muito ao estilo do Estado Novo, foi instalado no Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha, à cabeceira do túmulo do Soldado Desconhecido, que representa todos os que pereceram a lutar pela pátria e cujo nome se desconhece.

Ironicamente, aqueles símbolos de derrota e perda estão no interior de um monumento que celebra uma grande vitória nacional e sob uma abóbada que, reza a lenda, também se manteve de pé devido à fé.

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A homenagem ao soldado desconhecido, composta por túmulo de dois militares – um morto na I Grande Guerra e outro na Guerra Colonial – o grandioso lampadário denominado “chama da pátria” e o “Cristo das trincheiras”, tem guarda de honra permanente e situa-se na Casa do Capítulo do “Mosteiro da Batalha”, edificado para celebrar o triunfo em Aljubarrota (1385).

Sobre o memorial, ergue-se a colossal abóboda que desafia as leis da física e, conta o historiador Alexandre Herculano*, foi desenhada pelo mestre Afonso Domingues. Quase cego, às portas da morte, mas com uma crença inabalável no seu projeto, permaneceu sozinho por debaixo da abóboda, quando mais ninguém acreditava que esta se manteria intacta após retirarem as escoras. Ainda lá está. O Cristo também.

 

*A batalha deve o nome rio junto ao qual tiveram lugar os acontecimento.

**Embora a moderna historiografia não o confirme, atribuindo a obra ao mestre irlandês David Huguet.

 

 

 

 

Fontes

http://www.momentosdehistoria.com/MH_06_05_Patriotismo.htm

http://www.mosteirobatalha.gov.pt/pt/index.php?s=white&pid=176

http://capeiaarraiana.pt/2015/04/04/efemerides-2015-4-de-abril/

http://portugalglorioso.blogspot.com/2014/03/o-cristo-das-trincheiras.html

https://www.erepublik.com/mk/article/cristo-das-trincheiras-2436880/1/20

(13) Instantâneos: o carro de lixo do Rei

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O desenho retrata uma faceta da – deficiente – higiene pública de Lisboa, no século XIX. Antecipada pelo ruído de uma sineta, passa a carroça para onde os moradores iam atirando os seus desperdícios. Há um homem que varre, mulheres que trazem mais lixo…Não falta até um gato que, faminto, se arrisca em busca de alimentos, fugindo de uma sapatada, e um cão que aguarda alguns restos. O curioso nesta imagem não é tanto o que se vê, mas antes a sua autoria. Quem, em 1856, traçou estas linhas foi o D. Fernando II, então já regente de Portugal - enquanto o filho, futuro D. Pedro V, não atingia a maioridade.

Parece estranho que um monarca – mesmo um tão amante das artes como foi D. Fernando, Duque Saxe-Coburgo-Gotha – tenha dedicado o seu tempo a desenhar um quadro tão cru do dia-a-dia plebeu da Capital, mas assim foi.

Mais estranho parece, quando se sabe que aquele que foi rei de Portugal entre 1837 e 1853 tinha um forte sentido de estética e adorava o belo: Em conjunto com a rainha D. Maria II, tornou-se protetor da Academia das Belas Artes de Lisboa; tomou como missão a defesa do património histórico e cultural do País e era um ávido colecionador obras de arte, como se pode ver no Palácio da Pena (Sintra), que transformou no opulento monumento que conhecemos.

Evitava a política sempre que possível e ficou para a história com o “Rei-artista”, embora este seu desenho tenha como legenda “o poder executivo do pelouro da limpeza”.

No fundo, com a sua mão firme, transformou uma atividade tão sórdida como a recolha de lixo nesta peça de arte que hoje admiramos.

 

 

Fontes:

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

Eduardo Alexandre Cunha - PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/ACU/000841

 

http://www.arqnet.pt/dicionario/fernando2.html

 

Bruxa ou charlatã? A pitonisa do Chiado

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Reconhecida por historiadores e até pelo Governo, Joséfine Brouillard recebeu milhares de clientes durante os anos em que, na mais exclusiva zona de Lisboa, se dedicava a artes difíceis de perceber pelo comum cidadão.

 

Bruxa ou vidente; quiromante ou charlatã; profetisa ou benemérita; exploradora ou bem-intencionada. A Virgínia Rosa Teixeira foram atribuídos todos estes epitetos e muitos outros. Arrisca-se dizer que poucas foram as pessoas com a sua atividade que conseguiram reunir tanto ódio e, ao mesmo tempo, tanta veneração e reconhecimento, ao ponto de ter uma rua com o seu nome; ser mencionada em livros de história de Portugal e ter recebido um louvor do Governo, pelo apoio ao ensino. Todos a conheciam como Madame Brouillard.

19-4aaa3b8539 rua nova do carmo.jpgDe facto, se o insuspeito historiador A. H. de Oliveira Marques a classifica como “uma das mais afamadas cartomantes e videntes”, já Carlos Malheiro Dias, num estudo sobre a sociedade alfacinha do início do século XX, elogia a sua “afabilidade e a simplicidade” e concede-lhe uma “omnipotência em Lisboa”, ao mesmo tempo que Mário Costa, numa edição da Câmara de Lisboa sobre o Chiado, diz que a ilustre senhora foi “rainha neste condado”.

Parece que assim foi, efetivamente. Durante pelo menos 16 anos, entre 1905 e 1921, Joséphine Brouillard manteve consultório no número 43 da rua do Carmo – ao Chiado – em edifício próprio, onde também residia.

Esta era – e ainda é – uma das melhores ruas de comércio e serviços da cidade, passagem obrigatória para as classes elegantes e abastadas. Era este o público de Madame Brouillard: sobretudo mulheres, mas também alguns homens, havendo relatos, nomeadamente, de a vidente ter sido consultada pelo ministro João Franco, que “governou” o país nos últimos anos de monarquia, ou por Fernando Pessoa, um dos nossos maiores poetas.

 

O seu consultório tinha horário alargado – entre as 9 horas da manhã e as 11 da noite – o que permitia atender discretamente cerca de 30 pessoas por dia. Sentada, sempre vestida de preto, com estola de plumas brancas, cabelos apanhados em carrapito, a “pitonisa do Chiado” debruçava-se sobre uma almofada onde repousaria a mão do freguês. Ai, desvendava enigmas até então insondáveis.

O_Livro_de_Madame_Brouillard,_1916.pngE o que procuravam os clientes de Madame Brouillard? Parece que pagavam para “devassarem o mistério do seu futuro”, o que esta conseguiria através de dons incompreensíveis ao cidadão comum, mas também fazendo uso do raciocínio e de conhecimentos sobre astrologia, fisionomia, frenologia, quiromância ou magnetismo. Lançou até um livro sobre tais temas, em 1907.

A forma como adquirui todo este saber não é clara. Os seus detratores dizem que saíu de Vila Real, onde nasceu, em 1852, analfabeta e para ser criada de servir, tendo-se depois transvestido de “adivinhona”. A própria, conta uma história mais intrincada, que passa por fome e maus tratos às mãos da madrasta; ingresso num “colégio de nobres” inglês, cortesia de um parente rico; viagem a Nova Iorque, onde estudou ciências ocultas; estadia no Brasil, onde terá estado ao serviço da polícia; África, meia Europa; o casamento com um general espanhol exilado, de quem teria herdado fortuna; profecias concretizadas sobre acontecimentos históricos e o casamento com um médico ou quiromante francês, que lhe deixou o apelido Brouillard – nevoeiro.

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O seu passado, mas sobretudo tanto protagonismo, deram origem a reações negativas dos que não acreditavam nos talentos de Madame Brouillard e quiseram denunciar a sua atividade como “grosseira bruxaria e charlatanismo”. Uma das vozes mais vibrantes foi a da médica republicana Adelaide Cabete e o denominado Grupo das 13, que fez ouvir a sua opinião sobre a “ignorância , as superstições, o obscurantismo, o dogmatismo religioso e o conservadorismo” que afetava a sociedade Portuguesa. Outro veículo preferencial para os ataques foi o jornal A Capital, onde se teceram textos acintosos sobre a vidente.

 

Se estes tiveram impacto no “trabalho” que decorria no número 43 da rua do Carmo, não se sabe. O que se conhece é que este continuou até 1921, quatro anos antes da sua morte, só tendo terminado por manifesta diminuição física, derivada da idade e doença.

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A olho nu e desapaixonado, era uma mulher vulgar, pesada, com ar de matrona, mas dotada de extraordinária capacidade de empatia para com os que a procuravam. E eram muitos. Tantos, que reuniu uma notável fortuna que investiu no imobiliário e deixou em exclusivo à caridade na sua terra natal. Aí, é profusamente recordada na toponímia, em escolas, instituições de apoio social e coletividades, como a benemérita que deu trabalho, instrução e abrigo a quem precisava.

 

À margem

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 Joséphine Brouillard inaugurou uma relação com a imprensa até então inédita para os que se dedicavam às ciências ocultas. Os seus explícitos anúncios figuravam nos jornais e revistas de referência, lado a lado com publicidade a médicos ou medicamentos. Talvez a essa abordagem não fosse alheio o homem com quem viveu maritalmente durante toda a sua “vida artística” e que aparece muitas vezes como administrador dos seus bens: Albino David Martins, proprietário de uma loja de mercearia fina no mesmo edifício onde funcionava o consultório e que era também amplamente publicitada na comunicação social.  

Capturar albino3.PNGOra, o companheiro de Madame Brouillard era, nem mais nem menos, que irmão de Eduardo David Martins, que em 1889 fundou uma pequena retrosaria na esquida da rua Nova do Almada com a rua Garrett. A loja, que progressivamente ocuparia todo o edifício, transformou-se na Eduardo Martins & Cª, a primeira casa do Chiado a promover o pronto-a-vestir.

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Mas isso é outra história…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fontes

António Adérito Alves Conde - Madame Brouillard – Quiromante e benemérita. Uma história (de)vida - Caderno Cultural n.º 17, IV Série; Grémio Literário Vila-Realense - Câmara Municipal de Vila Real, outubro 2016, em http://www.cm-vilareal.pt/gremio/images/publicacoes/CadCultMadameBrouillard.pdf.

 

Hemeroteca Municipal de Lisboa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

Illustração Portugueza

II Série, V volume – 20 junho 1908

O Tiro Civil

Ano VI; nº 192 – 15 agosto 1900

 

Biblioteca Nacional Digital

www.purl.pt

Diário Ilustrado

31º ano; nº 10: 183 – 13 julho 1901

32º ano; nº 10:806 – 2 abril 1903

 

Biblioteca Municipal de Fugueiró dos Vinhos

O Figueiroense

Ano XXIII; Nº 1214 – 18 junho 1924

 

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2017/10/eduardo-martins-c.html

https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Madame_Brouillard?uselang=pt

http://casacomum.org/cc/pesqArquivo?termo=*:*&pag=248&nResult=20&facetFilterType=Correspondencia&facetFilterFundo=1197

 

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/pt/

Joshua Benoliel - PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/002589