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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Marginal ribeirinha era enorme lixeira

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Há um século, a frente ribeirinha de Alcácer do Sal era dos locais mais sujos e malcheirosos da então vila.

 

“Um exuberante viveiro de toda a espécie microbiana”, “vazadouro público, imundo e infecto”. Era assim que a imprensa do final do século XIX e início do século XX retratava a zona ribeirinha norte da então vila de Alcácer do Sal. Já em 1905 se previa que a “marginal” pudesse vir a ser “um passeio que chamasse e convidasse os naturais e os forasteiros a gozá-lo, espairecendo as mágoas e aborrecimentos quotidianos”, como preconizava o jornal Pedro Nunes e acabaria por se cumprir já no século XXI.

pt_ahmalcs_cmalcs_fotografias_01_0070.jpgNa altura, construía-se o aterro, que se supunha poder contribuir para dar alguma dignidade àquela área junto ao Sado que, em especial na maré baixa, exalava um odor nauseabundo. Este estado de coisas devia-se “ao lamentável costume” alcacerense de ali fazer “todos os despejos”, como explicava o jornal “O Século”, em 1897.

Acrescente-se que o matadouro já na época funcionava na zona da Foz e a sua atividade certamente contribuiria para o mau cheiro e risco para a saúde pública, com sangue e vísceras dos animais abatidos.

Não é à toa que a esmagadora maioria das habitações e estabelecimentos comerciais ribeirinhos virassem as costas ao rio e abrissem as suas portas principais para a rua Direita - onde, em princípio, se circulava em melhores condições.

Embora até recentemente os esgotos ainda corressem para o Sado junto à cidade, à luz dos nossos dias é difícil imaginar o cenário de então. O jornal Pedro Nunes dá uma ajuda, esclarecendo que, nestas traseiras, os prédios raramente viam cal e, debaixo das janelas, achavam-se “todos os lixos caseiros, secos e molhados”, com “o sol a bater-lhes em cheio e moscas, moscardos e mosquitos, gozando e zumbindo à farta naquela sentina”, enorme “estrumeira” com fragrâncias “muito próprias para um bairro de mouros ou chineses”, afirmava-se com algum preconceito.

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 Como ainda hoje acontece, às autoridades locais eram atribuídas algumas culpas pela situação, mas o “jornalista” apontava o dedo sobretudo à falta de civismo de quem ali morava, porque “desprezava as posturas” da câmara, fazendo com que esse conjunto de regras de convivência se assemelhasse mais a um “romance”, já que ninguém cumpria o que lá se havia escrito e aprovado.  

As ruas eram em terra batida, não se vislumbravam esgotos ou água de rede, pelo que é errado pensar que este estado de coisas fosse exclusivo da “marginal”.

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Conhece-se o efeito de deixar os cães passear livremente. Ora, esclareça-se que aquela era uma época em que porcos, vacas, cabras ou ovelhas deambulavam pelas ruas, com os resultados que se podem supor e que o mesmo “Pedro Nunes” resume ao falar de “montões de esterco” a atrapalhar quem por aqui circulava.

Este quadro, embora comum a outras cidades, não deixava de repugnar os mais sensíveis, que franziam o nariz ao verdadeiro “paraíso” que se pode conjeturar seria a Alcácer desses tempos.

 

À margem

SArquivo_C318041914110.jpgA avenida marginal ao rio foi batizada em homenagem ao alcacerense João Soares Branco. A este capitão de engenharia e lente da Escola do Exercito é atribuído o projeto precisamente do aterro que permitiu construir esta via junto ao Sado e que demorou décadas a ser executado. Desconheço se o projeto seria mesmo de sua autoria ou se apenas teve a sua responsabilidade política, uma vez que foi presidente deste município alentejano em finais da década de 80 do século XIX. Certo, é que lhe estavam reservados mais altos voos, nomeadamente tendo sido governador civil do distrito do Funchal e por duas vezes ministro da Fazenda. Entre outras medidas, chegou a preconizar a adoção de uma nova moeda, o cruzado-ouro português. Era uma tentativa desesperada tendo em vista o saneamento monetária do País, mas que a implantação da República e consequente entrada em circulação do escudo, poucos meses depois, fizeram cair no esquecimento.

Mas isso são outras histórias...

 

 

 

 

Fontes

Biblioteca Municipal de Alcácer do Sal

Jornal Pedro Nunes 1909-1911

 

Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal

Recorte jornal O Século

PT/AHMALCS/CMALCS/JJR/01/01/02/001-003

Recorte Jornal Vale do Sado

PT/AHMALCS/CMALCS/EXTERNO/08/02/003

Imagens

Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal

pt/ahmalcs/cmalcs/fotografias/01/0056

pt/ahmalcs/cmalcs/fotografias/01/0070

 

https://geneall.net/pt/nome/52409/joao-soares-branco/

 

 

A Casa da Moeda do porto na Alfândega velha - Bases para uma proposta de interpretação patrimonial de um recurso turístico a desenvolver, de

Mário Bruno Carvalho Pastor - Tese de Mestrado em Património e Turismo Cultural – orientação de Rui Manuel Lopes de Sousa Morais e Manuel Luís Real - Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, outubro 2013

 

Biblioteca Nacional Digital

www.purl.pt

Diário Illustrado

Ano 36º, nº 11:810 - 24 jan. 1906

(7) Pela imprensa: as deslumbrantes e firmes ligas Alaska

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Se não experimentou, tem de experimentar! Só assim se convencerá da sua indiscutível superioridade.

É a mais pura verdade!

Nem sei muito bem como os homens de hoje conseguem viver sem este prodígio que eram as ligas para meias. Como é que um cavalheiro ousa descrever-se dessa forma e depois aparece com meias enrugadas, descaídas, amarrotadas? Ou, pior, como tem a coragem de se apresentar - como está muito em voga - com os pés desnudos, simplesmente dentro dos sapatos? Como é que os machos modernos aguentam a vergonha de tal situação?

Pois é, estas e outras perguntas ficarão, muito provavelmente, sem resposta, porque calculo que as ligas para meias masculinas serão objeto com muito pouca procura nos vorazes tempos que hoje correm, mesmo com tantos metrossexuais por aí, investindo muito tempo na produção diária da sua pessoa.

Depois, convenhamos, ainda que fazendo a ressalva que gostos não se discutem, as ligas para homem não terão o mesmo picante das rendadas meias de liga para mulher. É que essas, com prisão “dobrada”, como apregoam as ligas Alaska neste anúncio, ou apenas prisão singela, seguram as meias na zona da coxa e não pelo joelho, zona provavelmente menos apelativa e dada a fantasias.

Enfim, eram outros tempos.

Corria o ano de 1918. A guerra estava a mesmo, mesmo, a acabar; o presidente Sidónio Pais seria assassinado dois meses depois, no Rossio…e, a relativa pouca distância, a Faut & Palet Ldª continuava, impassível, o seu negócio.

Ocupava o 2º andar dtº o nº 101 da rua Áurea, vendendo por atacado muitos produtos, de entre os quais se destacava a famosa liga Alaska – “a mais cómoda e a mais prática conhecida até hoje” – mas também outro portento caído em desuso: o pó de talco Dolly que, só por si, dava para outro “Pela Imprensa”.

 

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Fontes

Hemeroteca Digital de Lisboa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

Illustração Portuguesa

II série, nº 662 – 23 out 1918

II série, nº 748 – 21 jun 1920

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/1918

 

O padre que tinha a mania dos banhos gelados

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Ficou conhecido como o “médico da água”. O sucesso comercial foi tanto que o nome Kneipp é usado para vender todo o tipo de produtos há mais de um século. Em Portugal, a família real visitou o único balneário kneippiano, nas Caldas de Monchique.

 

Capturar4.GIFSobrancelhas espessas e escuras, contrastantes com o cabelo branco; hábito de monge, expressão serena, porém resoluta. Reza a lenda que se terá curado da tuberculose com banhos frios no rio Danúbio e corridas curtas, descalço e ao ar livre. Este sucesso fê-lo buscar novos conhecimentos sobre o uso da água para tratar maleitas. Em pouco tempo, tinha milhares de seguidores…e inimigos, estes entre a classe científica, para quem era apenas um charlatão. Assim era Sebastian Kneipp, nascido numa remota aldeia alemã com paisagens dignas de postal ilustrado e feito trunfo turístico e best seller de produtos naturais.

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A alimentação natural, baseada em legumes e fruta, o exercício físico e os banhos de água fria são a chave para uma vida longa e saudável. É nesta ideia, passível de estar em qualquer texto moderno sobre bem-estar, que se baseia a teoria do padre Kneipp, que viveu há quase 200 anos e criou uma terapia seguida até hoje em todo o mundo.

Sebastian Kneipp nasceu em 1821, numa família humilde. Estudou, fez-se padre e fintou o destino que lhe dava curto tempo de vida. Morreria só aos 76 anos de idade, depois de ter revolucionado a hidroterapia, tudo porque lhe foi parar às mãos um livro sobre as experiencias de Johann Sigmund Hahn (1696-1773), que resolveu aprofundar.

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O “médico da água”, como também ficou conhecido, desenvolveu todo um método de tratamento com diversos tipos de banho, jatos e pulverizações; temperaturas diferenciadas e o uso de plantas medicinais.

Aparentemente, a contração dos vasos sanguíneos em contacto com a água gélida, seguida de rápida dilatação resultante do aquecimento corporal, proveniente do exercício físico, estimula a corrente sanguínea, o sistema nervoso e o metabolismo, ajudando as defesas naturais do organismo. À sombra deste legado, construíram-se estâncias termais e hotéis, um museu e uma verdadeira parafernália de produtos medicinais que transformaram em destino turístico a aldeia de Wörishofen – onde Kneipp viveu - e toda a região.

Em Portugal, anunciaram-se tratamentos kneippianos em vários pontos do país, mas segundo o que foi possível apurar, apenas as Caldas de Monchique tiveram uma sala de banhos que obedecia aos ensinamentos do seu criador.


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Bentes Castel Branco, diretor daquelas termas, deslocou-se à Alemanha onde aprendeu com o próprio Kneipp, em 1889. A novidade correu pelo País e até a família real, em périplo pelo Algarve, visitou o balneário kneippiano, embora não tenha sido possível apurar se D. Carlos ou D. Amélia ali tomaram algum banho reparador.

 

 

 

À margem

Capturarhrvas kneipp.JPGVincent Priessnitz, cujos estudos não terão sido estranhos a Sebastian Kneipp, é, para muitos, o pai da hidroterapia moderna. Nascido na Áustria, em 1799, também ele partiu da sua experiência pessoal, sendo a primeira cobaia das experiências que desenvolveu com água fria, para tratar entorses, cortes e até duas costelas partidas, que os médicos tradicionais terão afirmado não poderem ser consertadas. Defendia uma alimentação natural, mas ao contrário de Kneipp, rejeitava ervas e outras substâncias, porque entendia que a água é que era o agente da cura. Teve uma multidão de seguidores e, entre os que

Capturarkneipp3.JPGrecorreram às suas técnicas – que passavam por temperaturas extremas – terão estado o arquiduque Franz Carl, da Áustria e o dramaturgo Nikolai Gogol. Apesar de muito homenageado no seu país natal, não teve o mesmo sucesso comercial que o padre alemão cujo nome é usado para vender os mais variados produtos, de medicamentos e mezinhas anunciados na imprensa há mais de um século, aos modernos produtos de cosmética e dietética.

 

Mas isso é outra história…

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(20090620%20152030)%20CIMG7904a%20-%20Rua%20do%20Sreceived_319456392146075.jpeg*Na rua do Salitre, em Lisboa, há um painel de azulejos que homenageia o padre que ficou conhecido como “médico da água”. A ideia terá sido do proprietário de uma ervanária que ali existiu e que vendia os produtos criados por Kneipp. Foi recentemente recuperado.

 

 

 

 

 

 

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Fontes

Realizações e utopias: o património arquitetónico e artístico das Caldas de Monchique na cenografia da paisagem termal, de Ana Maria Lourenço Pinto; dissertação de mestrado em Arte, Património e Teoria do Restauro, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – 2013, disponível em:

http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/11357/1/ulflL148032_tm.pdf

https://www.kneippianum.de/en/health-resort/sebastian-kneipp-cure.html

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sebastian_Kneipp_and_his_followers.jpg

http://www.southbaytotalhealth.com/Hydrotherapy.htm

https://tourismus.bad-groenenbach.de/urlaub/kur-gesundheit-wellness.html?L=0

http://en.bad-woerishofen.de/bad-woerishofen/sebastian-kneipp-museum.html

http://www.bassenge.com/bassenge/de/default.asp

https://www.dw.com/pt-br/1821-nasce-o-criador-da-hidroterapia-conhecida-como-kneippismo/a-521623

 

https://lifestyle.sapo.pt/saude/bem-estar/artigos/a-agua-da-vida

 

https://pt.aleteia.org/2017/10/20/cura-pela-agua-fria-surpreendente-metodo-padre-kneipp/

https://en.wikipedia.org/wiki/Vincenz_Priessnitz

 

O escultor alcacerense que homenageou os outros mas quis passar incógnito

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As suas obras engrandecem figuras da história nacional, mas para si nunca quis reconhecimentos ou elogios. O trabalho de António Paiva está em locais públicos por todo o país, nomeadamente na sua terra natal, Alcácer do Sal, onde é um desconhecido.

 

V_Pmat_Estatua_Vasco_Gama_1_980_2500.jpgTodos os dias, quem habita ou visita Alcácer do Sal admira, sem o saber, obras que saíram das mãos de António Paiva e que estão em locais de destaque na mesma cidade alentejana onde, há 92 anos, nasceu este escultor, ali praticamente desconhecido. Com um vasto trabalho, amplamente aplaudido e premiado, passou parte da sua vida a desenhar e esculpir homenagens a grandes figuras nacionais, de Vasco da Gama, a Garcia de Resende, da rainha Santa Isabel aos seus conterrâneos, Pedro Nunes e João Branco Núncio. Quis o destino, ou a curta memória dos homens, que ainda não fosse devidamente homenageado na sua terra.

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António Luís do Amaral Branco de Paiva, um nome que junta três importantes famílias de Alcácer, nasceu a 12 de fevereiro de 1926 e cedo demonstrou vocação para as artes, ao estrear-se em exposições com apenas 17 anos. Aí, ainda aluno de liceu, recebeu o seu primeiro galardão nacional, nos Salões de Educação Estética da Mocidade Portuguesa.

Trabalhou com nomes relevantes do panorama artístico português, como Barata Feyo, Canto da Maya, António Duarte e Almada Negreiros. Na Escola de Belas Artes de Lisboa, onde a defesa de tese lhe valeu 19 valores, foi discípulo do conhecidíssimo Leopoldo de Almeida. Ganhou também uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, que lhe permitiu uma viagem de estudo a Itália.

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Em 1958, com uma obra colossal de enaltecimento aos portugueses, obteve o grande prémio da Exposição Internacional de Bruxelas, mas só 27 anos depois teve o privilégio de expor individualmente. Foi na Galeria de São Francisco, em Lisboa e, por essa altura, já tinha sido desenhador do Museu Etnológico de Belém; havia participado em numerosas mostras coletivas; tinha dedicado mais de duas décadas da sua existência ao ensino e muitas obras suas figuravam em espaços públicos por todo o País, nas fachadas de edifícios, em moedas e medalhas, entre as quais, a comemorativa dos 50 anos de toureio do primo João Branco Núncio.

E, no entanto, pouco se fala de António Paiva, em boa parte pelo espírito introvertido, pouco dado a fotografias ou notícias e avesso a publicidades. Numerosos trabalhos seus nem assinados estão, outros apresentam apenas a indicação A. Paiva.

Em comum, os traços alongados, simplificados, marcas da estética neofigurativa própria do segundo período de modernismo português, que procurou ruturas com os padrões tradicionalmente aceites.

Entre as obras de maior destaque estão as imagens de Vasco da Gama, em Sines; da Rainha Santa Isabel, em Estremoz; Garcia Resende, em Évora; Ricardo Jorge, junto ao instituto nacional com o mesmo nome; ou as alegorias, nos jardins do Hospital Cruz de Carvalho (Madeira).

 

Garcia resende.pngSão suas também numerosas peças de arte sacra alvo de devoção pelas igrejas de Portugal, nomeadamente na Igreja Matriz de Alcácer do Sal. É de sua autoria o conjunto escultórico “Justiça”, presente na fachada do tribunal, e a estátua de homenagem a Pedro Nunes, na praça com o nome desde, na mesma cidade, onde ambos nasceram.justica tribunal alcacer.JPG

Para além do local de origem e da vida dedicada ao ensino, outros elementos unem António Paiva e Pedro Nunes. Desde logo partilham a discrição e reserva com que viveram e que fazem com que hoje sejam muito poucas as referências encontradas sobre as suas vidas pessoais.

 

 

António Paiva morreu a 30 de junho de 1987. Para a posteridade fica o seu trabalho.

 

À margem

Pedro_Nunes_estatua.width-500.jpgMuito aclamado em Coimbra, onde se formou em medicina e matemática e posteriormente lecionou, Pedro Nunes foi também glorificado, por exemplo, ao ser representado no Padrão dos Descobrimento, no monumento a Camões ou em notas de 100 escudos. Em Alcácer do Sal, sua terra natal, no entanto, tardou uma homenagem em espaço público. Ainda no século XIX, chegaram a formar-se comissões com esse intuito e, mais tarde, houve intenção, por parte da Câmara Municipal de Lisboa, de oferecer a Alcácer um monumento alusivo a este vulto do século XVI: tratava-se de uma replica do que havia sido encomendado para figurar na avenida da Liberdade, mas que não chegaria ao seu destino. Foi só em 1978 que o município alentejano tomou a decisão de reconhecer, em local de destaque da cidade, o matemático e cosmógrafo-mor do reino. À frente da autarquia estava José Augusto Pomba Cupido, que atribuiu essa missão ao escultor alcacerense António Paiva. A estátua foi adjudicada por 320 mil escudos (cerca de 1.596 euros). Deveria alcançar os 2,80m de altura e ser produzida em três fases distintas, com protótipos em gesso e barro a aprovar antes do pagamento dos honorários. O resultado final, em bronze, está à vista de todos, mas a identidade do artista é pouco conhecida, tal como o é a vida privada de Pedro Nunes, aqui retratado.

 

Mas isso é outra história...

 

 

Fontes

Barbara Aniello , em

http://casadaruadealcolena.blogspot.pt/2009/12/152-antonio-luis-do-amaral-branco-de.html

http://www.numismatas.com/phpBB3/viewtopic.php?t=27024

 

https://www.parlamento.pt/VisitaParlamento/Paginas/BiogAntonioPaiva.aspx

 

http://www.cm-lisboa.pt/equipamentos/equipamento/info/ricardo-jorge

 

http://www.cm-alcacerdosal.pt/pt/municipio/concelho/personalidades/pedro-nunes/

 

http://www.sines.pt/frontoffice/pages/710

 

https://viverevora.blogspot.com/2012/04/personalidades-eborenses-garcia-de.html

 

Representações do Direito na Estatuária Urbana, de Ana Paula Gil Soares; Universidade de Lisboa - Faculdade de Letras, pós-doutoramento em Estudos Artísticos, Julho 2014, disponível em

https://www.google.pt/search?q=paiva+tribunal+alcacer+justi%C3%A7a+%22conjunto+escult%C3%B3rico%22&source=lnms&sa=X&ved=0ahUKEwjk58fU3tjcAhVDEVAKHSjFCZsQ_AUICSgA&biw=1280&bih=683&dpr=1

( I) Ainda…o naufrágio do Ville de Victória: a carta molhada entregue a Roberto Ivens

 

 

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Dois dos naufragos do vapor francês Ville de Victória, que triste e inesperadamente se afundou frente a Lisboa na madrugada de 24 de dezembro de 1886, conseguiram chegar com vida até à margem. Provavelmente foram arrastados pela corrente e alcançaram terra já na zona do Dafundo, acabando por morrer na praia, aos pés do conhecido explorador Roberto Ivens. A história é contada pela imprensa, revelando-se que um dos homens trazia na mão uma carta, que estaria a escrever às quatro da madrugada, a hora fatal em que o navio iniciou o mergulho eterno para as produndezas. Roberto Ivens encontrar-se-ía no areal, local onde, na época, orientava a construção daquela que seria a sua casa - um soberbo challet ainda ali existente - e chamou a si a missão de encontrar a destinatária da missiva escrita em francês. Tratava-se de uma senhora, residente em Finisterra, na Galiza.

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Não sabemos se a tão sofrida carta – salva das águas pelo moribundo que a transportava - seria uma mensagem de amor, mas acreditamos que sim. Tomamos por certo também que Roberto Ivens, com a tenacidade e perseverança que, um ano antes, lhe tinham sido publicamente reconhecidas quando também ele desembarcou no Tejo - vindo da exploração das possessões portuguesas em África - conseguiu levar a epistola ao seu destino. Preferimos acreditar, porque esse fim empresta uma nota muito mais romântica a este chocante acidente marítimo.

Há apenas uma boa notícia – ainda que com uma ponta de ironia – no relato do singular naufrágio do Ville de Victória: a história do alemão Schneider. Ciente que o Ville de Victória só zarparia de manhã, preferiu hospedar-se em terra em vez de ficar a bordo. Salvou-se, mas, tal como os outros (poucos) sobreviventes, perdeu os seus pertences, porque durante a noite deflagrou um incêndio no hotel Franckfort, onde dormia.

Roberto_Ivens[2].jpgRoberto Ivens morreria onze anos depois, na Casa do Cedro, na mesma praia e, quem sabe (?), olhando o Tejo…o mesmo rio onde onde ainda repousam os destroços do Ville de Victória, não muito longe do caça-minas batizado em homenagem ao explorador, afundado em 1917 após embater numa mina alemã que tirou a vida a 15 dos 22 tripulantes.

 

 

 

Conheça toda a história do naufrágio do Ville de Victória aqui.

 

Fontes

 

Biblioteca Nacional Digital

http://purl.pt

Diário Illustrado

15º ano, nº 4:911 - 25 dezembro 1886

15º ano, nº 4:914 - 28 dezembro 1886

15º ano, nº 4:915 - 29 dezembro 1886

15º ano, nº 4:916 - 30 dezembro 1886

15º ano, nº 4:915 - 31 dezembro 1886

16º ano, nº 4:916 - 2 janeiro 1887

https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/roberto-ivens-100-anos-do-naufragio-do-caca-minas-a-entrada-de-lisboa

http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_06_Marinha.htm

De Autor desconhecido - www.geneall.net/, Dominio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=19120484

 

(18) Instantâneos: Traquitana?Traquiquê???

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Assim, só pela maneira com o soa, parece ser da família das carripanas e geringonças, estas inusitadamente célebres nos últimos anos. Remete para coisa mal-amanhada, pouco segura, periclitante, daquelas que nunca se sabe se chegarão ao destino, dada a insegurança que inspiram. Ou então algo caído em desuso. Ou, ainda, algo com pouco valor, uma bugiganga… Mas, deixemo-nos de suposições! Afinal o que é uma traquitana?

A palavra faz lembrar tudo aquilo que já se referiu, mas, de facto, a traquitana era um meio de transporte bastante comum até finais do século XIX, como aliás se pode imaginar pela quantidade de anúncios destinados à compra e venda destes veículos.

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Eram pequenas carruagens para duas pessoas, com quatro rodas e um compartimento – hoje é mais moderno dizer-se habitáculo – onde se podia viajar incógnito, porque possuíam cortinas escuras, em couro.

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Eram normalmente puxadas por um ou dois cavalos, constituindo, ao que se pode supor, o equivalente aos atuais automóveis citadinos: baratos, rápidos e que podem facilmente estacionar-se, devido à sua reduzida dimensão.

As traquitanas seriam, portanto, indispensáveis a indivíduos independentes, com muitos afazeres e estatuto social suficiente para almejar tal luxo.

 

Fontes

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/pt/

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/CCO/000004

 

Gazeta de Lisboa 1825

https://babel.hathitrust.org/cgi/pt?id=hvd.hxj9vi

 

https://www.priberam.pt/dlpo/traquitana