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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Alcacerenses ricos iam em vilegiatura marítima a Setúbal

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A outra cidade do Sado era o local de eleição para as famílias abastadas de Alcácer passarem o Verão. Por lá ficavam os que a isso eram obrigados por falta de dinheiro ou pelo árduo trabalho estival que os ocupava.

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O verão em Alcácer do Sal pode ser extraordinariamente quente, para além dos mosquitos que hoje em dia apenas incomodam, mas que, num passado não tão longínquo, eram sinal de doenças como o paludismo, que afetava grande parte da população. Não admira que as famílias mais ilustres da terra se deslocassem em vilegiatura - termo caído em desuso, mas que, em finais do século XIX e início do seguinte, significava longas férias nas termas ou junto ao mar, para acalmar os nervos e aplacar outras maleitas. Para os alcacerenses, Setúbal era o local de eleição, pela proximidade e pelas condições extraordinárias para a vilegiatura marítima.

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Os jornais de ambas as terras junto ao Sado dão conta do vaivém de notáveis e dos divertimentos que tinham à sua disposição, a começar pelos banhos propriamente ditos, então praticados por recomendação médica, envoltos num verdadeiro ritual de vestimentas e apetrechos especiais.

Em 30 de agosto de 1908, o semanário “Pedro Nunes”, através do seu correspondente em Setúbal, dava conta de já estarem naquela cidade “grande número de banhistas”, lembrando que ali existiam, à época, três estabelecimentos de banhos, “um nas Fontainhas, um na praia do Lago e outro na praia de Albarquel”, sendo que para este último existiam “carreiras diárias da cidade ao preço de 100 reis ida e volta, incluindo o respetivo banho”. O edifício da praia do Lago (zona da atual praça José Afonso) foi, aliás, o “primeiro estabelecimento importante do país“. Desenhado pelo conhecido arquiteto Ventura Terra, abriu ao público em 1903.

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Era um tempo em que a avenida Luísa Todi não passava de um imenso areal a que chamavam rua da Praia, onde os pescadores estendiam as redes e os turistas portugueses e espanhóis tropeçavam elegantemente.

Precisamente nesta artéria, tinha casa António Caetano Figueiredo, o visconde de Alcácer, que ali acabaria por morrer. A sua mulher, Maria Paula Leite, fazia habitualmente uma temporada nas Caldas da Rainha, passando depois por Lisboa e Setúbal e só regressando a Alcácer, lá por outubro. E estes ilustres não eram os únicos a assim proceder.

A fazer fé nas atas da Câmara Municipal de Alcácer do Sal, Domingos Silvestre Branco, presidente em meados do século XIX, anunciava que o seu estado de saúde o obrigava a ir tomar banhos de mar durante todo mês de setembro, a exemplo do seu antecessor na presidência, António Mendes de Almeida, do vereador João da Costa Passos e do médico na altura em serviço público por aquelas bandas, Honorato Silveira do Coito, que se deslocava a Setúbal com esse fim.

Já o vereador Manuel Coelho dos Santos Leite, ia às Caldas durante 22 dias; Joaquim Correia Baptista, proprietário do jornal O Alcacerense, e a família, eram igualmente “clientes” das praias do Sado; tal como Henrique de Paiva, escrivão do tribunal de Alcácer e provedor da Santa Casa da Misericórdia local. O mesmo para José Félix Athaide Carvalhosa, administrador do concelho. Já Francisco Matos Galamba, o conhecido padre, presidente de câmara e fundador da Pazoa (Sociedade Filarmónica), tinha por costume ir ao Bussaco para se restabelecer.

Entre as famílias mais distintas do Torrão, era a mesma debandada: os Brandariz, os Silveira e os Carvalho e Silva iam em vilegiatura a Setúbal para se curarem os achaques, mas Manuel Carneiro Longarito, ia para as Caldas da Rainha em busca do mesmo alívio.

Na terra ficava quem não tinha outro remédio, porque a falta de meios, os negócios ou o trabalho árduo a isso obrigavam. É que o verão em Alcácer é tempo de recolher o sal que já brilha nas salinas; de tirar a cortiça por esses montados fora e de mondar o arroz para que amadureça sob o escaldante estio alentejano.

 

 

À margem

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António Caetano de Figueiredo, primeiro e único Visconde de Alcácer, era um entusiasta da vilegiatura em Setúbal, não se sabendo se também era adepto dos banhos de mar. Certo é que possuía casa na então rua da Praia, atual avenida Luísa Todi, e foi precisamente aí, no número 262, que se finou, no dia 6 de setembro de 1883. Contava 73 anos e tinha ido em busca de alívio para os seus  padecimentos de saúde.

Agraciado em 1871, pelo rei D. Luís, com o título de Visconde, - o monarca, aliás, terá estado em Alcácer do Sal em 1860, hospedando-se em sua casa – António Caetano de Figueiredo parece ter sido uma pessoa relativamente consensual, amiúde referido como defensor das gentes e do progresso da sua terra.

Bem, isso é se excluirmos a questão política, claro, porque, ontem como hoje, a política consegue dividir familiares e amigos.

É amplamente conhecida localmente a divergência de opiniões entre António Caetano de Figueiredo e António Campos Valdez, respetivamente representantes do Partido Regenerador e do Partido Progressista. É, aliás, do fim dessa amizade que resulta a existência de duas sociedades filarmónicas, rivais até hoje.

Mas isso é outra história…

 

Já contei como as conservas "mataram" a vilegiatura marítima em Setúbal, aqui.

 

Nota:

As imagens 1 e 2 são de alcacerenses - não identificados - a banhos, presumivelmente nos anos 40-50 do século XX. Pertencem ao fundo de Baltasar Flávio da Silva, no Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal.

As imagens 3 e 4 são meramente exemplificativas do que era a praia no século XIX.

 

Fontes

Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal

PT/AHMALCS/CMALCS/JJR/02/01/001

PT/AHMALCS/CMALCS/BFS/01/01/01/066

PT/AHMALCS/CMALCS/BFS/01/01/01/270

PT/AHMALCS/CMALCS/BFS/01/01/01/277

 

Biblioteca Municipal de Alcácer do Sal

Jornal Pedro Nunes

1908 - 1911

Vilegiatura Marítima em Setúbal do século XIX ao início do século XX, de Inês Gato de Pinho, edição LASA – Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão, dez 2010

https://pt.slideshare.net/anagualberto/ambientes-no-sculo-xix

https://www.sabado.pt/vida/detalhe/os-primeiros-dias-na-praia

(20) Instantâneos: o naufrágio do anjo

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Abatidos, cansados, enfim derrotados, embora sãos e salvos após várias tentativas frustradas de recuperar

s rafael 4.GIF uma das “estrelas” da Marinha Portuguesa. Assim se sentiam os tripulantes do cruzador naufragado a 21 de outubro de 1911 ao largo de Vila do Conde. Um ano depois de ter sido decisivo para a vitória republicana no 5 de outubro de 1910, o São Rafael afundou-se por acidente, sem glória, ironicamente, quando patrulhava a costa para controlo das forças monárquicas que, no norte do País, ainda tentavam inverter a mudança política em Portugal.

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O naufrágio, no qual pereceu o grumete António Maria Dias e se perdeu uma embarcação da estação de Socorros a Náufragos da Foz do Douro, ficaria para sempre na memória coletiva das populações que ajudaram no resgate e receberam de braços abertos os 237 marinheiros que seguiam a bordo e até o malogrado elemento da tripulação, sepultado no cemitério local.

As rochas ameaçadoramente aguçadas onde o navio encalhou, a ventania inclemente e uma tremenda agitação marítima ditaram o triste fim do navio e por pouco não reclamavam mais  vidas, tal a dificuldade enfrentada pelos diversos meios de salvamento que ali acorreram, arriscando muito num vaivém heroico mas traiçoeiro, que poderia ter terminado em tragédia. Em terra, apenas a 400 metros, o povo assistia impotente, afligia-se e atirava gritos ao vento.

naufragio sao rafael.GIFOs “anjos, como ficaram conhecidos os navios “gémeos” São Rafael e São Gabriel, pertenciam à classe dos cruzadores protegidos – blindados contra estilhaços de granadas.

Construídos em França e lançados ao mar em 1898, foram os primeiros navios portugueses equipados com sistema de telecomunicações TSF.

Foram batizados em alusão às naus que seguiam na frota de Vasco de Gama na descoberta do caminho marítimo para a India, em 1497.

A São Rafael, tal como o seu homónimo, não regressaria a “casa”: por falta de gente para a manobrar até Lisboa, foi queimada ao largo de Mombaça, propositadamente encalhada nuns baixios desde esse dia  batizados com o mesmo nome anjo.

 

 

Fontes

Hemeroteca Digital de Lisboa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

A Illustração Portugueza

Nº298 – II série – 6 novembro 1911

O Occidente – revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro

23º ano, XXIII volume, nº 782 – 20 setembro 1900

 

https://www.rtp.pt/noticias/cultura/populacao-evoca-centenario-de-naufragio-e-do-salvamento-de-237-pessoas_n490747

http://ww.cm-pvarzim.pt/biblioteca/index.php?op=event&id=1873&cat=diana

https://pt.wikipedia.org/wiki/Classe_S%C3%A3o_Gabriel

 

 

Quando o Estado faminto quis ganhar dinheiro com fósforos

 

 

O monopólio deu lucro a poucos, prejudicando os muitos que antes viviam da indústria. Para o Estado, nunca foi tão proveitoso como se pretendia, mas serviu para proporcionar melhores condições de trabalho num sector insalubre e repugnante

 

fosforos biblioteca arte fundacao caloute gulbenki

O fósforo. Objeto prosaico, quase insignificante à luz dos nossos dias. No final do século XIX, no entanto, a indústria fosforeira nacional empregava 400 pessoas em 34 unidades e gerava significativa faturação anual. Nada tão sonante como o milionário negócio do tabaco, mas suficientemente apelativo para o sempre depauperado e faminto Estado querer tirar proveito...pelo caminho prejudicando uns quantos e beneficiando outros. Soa-lhe familiar? Esta é a história do monopólio do fósforo, que o governo regenerador de Hintze Ribeiro impôs, em 1895.

 

Corria o ano de 1864 quando foi criada em Lisboa primeira fábrica de palitos de lume a partir de fósforo. A indústria rapidamente proliferou em unidades de pequena dimensão, maioritariamente familiares e no norte do País.

 

Em comum, tinham as péssimas condições de trabalho - com consequências nefastas e irreversíveis para os mais expostos aos produtos químicos - e a fraca qualidade do produto final. O panorama era de tal forma insipiente que até o Estado custou a perceber o seu potencial fiscal.

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Numa primeira fase, esse despertar partiu dos municípios. Estes reivindicavam arrecadar os impostos provenientes o sector fosforeiro para pagar o ensino primário, que lhes havia sido imputado sem correspondente transferência de verbas.

 

Foram várias as tentativas falhadas de obter o rendimento pretendido – um mínimo de 260 contos de reis. Taxou-se a matéria prima e a produção, fizeram-se contas às caixas e ao peso, tabelou-se a importação, que se limitou extraordinariamente; proibiu-se a criação de novas fábricas ou a ampliação das existentes.

O cerco apertava-se, mas a evasão prevalecia e as receitas fiscais tardavam.

O Estado hesitava entre estabelecer o monopólio, deixar as empresas agregarem-se e ganharem escala, suprimindo as mais pequenas e de difícil controlo. De uma penada, eliminava a concorrência e conseguia um bom rendimento.

No parlamento, os mais esclarecidos argumentavam que, já que se tratava de reformular e disciplinar o sector, seria interessante, para além da rentabilidade, exigir condições de segurança, higiene e salubridade, regulamentando o contexto de trabalho, à semelhança do que já acontecia em outros países desenvolvidos.

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Depois de avanços e recuos, em 1895 avançava finalmente o monopólio.

 

O adjudicatário foi Francisco António Borges, ligado ao sector financeiro do Porto, que promoveu uma sociedade anónima de responsabilidade limitada, reunindo um punhado de importantes capitalistas, que deram origem à Companhia Portuguesa de Fósforos.

 

As determinações do Estado apontaram para concentração da produção num mínimo de duas grandes fábricas. A opção recaiu sobre a unidade da rua do Açúcar, no Beato (Lisboa) e a de Lordelo do Ouro (Porto) - na imagem. Os pequenos fabricantes e os trabalhadores das indústrias excluídas deveriam ser indemnizados ou integrados, num processo de negociação que foi tudo menos pacífico.

 

Até à constituição das grandes sociedades, a indústria fosforeira tinha uma organização rudimentar, instalando-se em espaços exíguos, bastando um “investimento de dois contos de reis para apetrechar uma fábrica com capacidade para produzir um milhão de fósforos por ano".

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Karl Marx descrevia o sector como insalubre e repugnante, com horários de trabalho que variavam entre as 12 e as 15 horas, também noturnas, refeições irregulares tomadas no próprio local, “envenenado pelo fósforo”, onde não faltavam crianças, que correspondiam a metade duma mão-de-obra que usufruía salários muito baixos, mesmo para a realidade da época.

O risco das emanações tóxicas, que podiam provocar necrose ou gangrena, e os acidentes frequentes que as deficientes condições de segurança obviamente não conseguiam evitar, completavam o quadro e uma indústria mal-afamada, sobretudo em meio urbano.

O cenário mudou radicalmente com o monopólio, mas o uso de algumas substâncias mais perniciosas – como o fósforo branco - a cabal industrialização e consequente melhoria da qualidade do produto – que ora não acendia em resultado da humidade, ora se autoinflamava -  só se conseguiria obter já após o fim da concessão, em 1925.

Uma longa história pautada pela inglória luta contra a falsificação, a fraude, o contrabando e a produção clandestina. E, por outro lado, marcada pela brutal fiscalização privada, que punha na cadeia mesmo o mais pobre que fosse apanhado com fósforos “ilegais”, ao mesmo tempo que a própria indústria também “fazia batota”, encobrindo lucros.

Tudo para enganar o Estado e o comum cidadão, que dependia deste produto de primeira necessidade.

Nada de novo, portanto.

 

 

À margem 

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Três fábricas de palitos de lume se destacavam de entre as 34 que existiam em Portugal no ano em que foi decretado o monopólio do sector. Santa Clara, Tanque e União (ou do Fundo) eram as unidades fabris predominantemente familiares da pequena aldeia da Benfeita, no concelho de Arganil e que, em conjunto, produziam cerca de quatro milhões de caixas de fósforos de enxofre por ano.

Pode não parecer muito, mas são números espetaculares para tão remota e exígua origem.

 

É que, tal volume correspondia ao fruto do trabalho de somente 45 pessoas e era apenas batido por outras três indústrias – uma em Lisboa e duas no Porto.

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Com o fim destas pequenas indústrias, entre os operários da aldeia, houve quem preferisse receber a indemnização por inteiro e mudar de vida; quem assumisse o seu lugar nas grandes unidades de Lisboa e Porto; quem passasse a receber uma pensão e até os que venderam o seu posto a quem deu mais por ele.

A sua história é contada por Mário Mathias.

Natural da Benfeita e grande defensor do seu torrão natal, foi jornalista, jurista, alto quadro público, político e escritor.

À sua iniciativa se deve a primeira linha telefónica da Benfeita para o exterior e o “sino da paz”, que tocou pela primeira vez a 8 de maio de 1945, anunciando o fim da guerra na Europa.

Todos os anos, vibra novamente com 1.620 badaladas, uma por cada dia que durou a I Grande Guerra, na qual os portugueses participaram com tão funestos resultados*.

 

Mas isso é outra história...

 

 

 

 

*Já escrevi sobre a participação dos portugueses na I Grande Guerra aqui.

 

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Fontes

Fernando Sottomayor, A indústria dos fósforos: das origens ao monopólio (1862-1926). O caso do Porto; Universidade do Porto – Faculdade de Letras – Departamento de História e de Estudos Políticos e Internacionais – Dissertação de Mestrado em História Contemporânea, orientação de Gaspar Martins Pereira, 2011, disponível em https://comum.rcaap.pt/handle/10400.26/5016

 

Mário Mathias, Benfeita, artigos, crónicas, estudos e notas do caracter histórico-monográfico 1963-1965; Edição fora do mercado organizada por «O Facho» - Boletim Paroquial das freguesias da Benfeita e da Cerdeira.

 

http://www.benfeita.net/mario.htm

 

Imagens:

Interior da 1º Fábrica da Fosforeira Portuguesa

Centro de Documentação do Museu da Indústria do Porto

Óperários no Interior da fábrica Companhia Portugueza de Phósphoros da em Lordelo do Ouro, no Porto

Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian

Processo de fabrico dos fósforos realizado na sua maioria por mulheres na fábrica da Companhia Portugueza de Phósphoros da em Lordelo do Ouro, no Porto

Centro de Documentação do Museu da Indústria do Porto

Exterior da fábrica Companhia Portugueza de Phósphoros da em Lordelo do Ouro, no Porto

Centro de Documentação do Museu da Indústria do Porto

Tudo em:

Cláudia Raquel Ferreira de Castro, Phósphoros – rótulos com história, ESAD – Mestrado em Design e Comunicação, orientação de Andrey Howard, 2012, disponível em https://comum.rcaap.pt/handle/10400.26/5016

 

http://gisaweb.cm-porto.pt/

Rótulo de caixa de 50 a 55 fósforos amorfos, com o preço de 10 réis.
Imagem de águia com a pata esquerda sobre o globo terrestre.

 

Benfeita e Mário Mathias - gentilmente cedidas pela família

 

 

 

Como as “conservas” mataram a vilegiatura marítima em Setúbal

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O primeiro estabelecimento balnear importante do País não resistiu ao despontar da indústria conserveira. Ficam as memórias desse tempo em que a avenida Luísa Todi era um areal onde se punham as redes a secar e as banhistas espanholas provocavam intenso sururu entre a rapaziada.

 

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 Fatos de banho que mais pareciam escafandros e todo um conjunto de preceitos que envolviam maquinaria e banheiros “encartados”. Era assim o ritual do banho de mar na segunda metade do século XIX e início do seguinte. Setúbal teve o “primeiro estabelecimento balnear importante” de Portugal. Foi um sucesso, mas não resistiu à proliferação de fábricas de conservas, que empestaram a água e o ar. São relatos de um tempo em que a avenida Luísa Todi era um imenso areal a que chamavam rua da Praia, onde os pescadores estendiam as redes e os turistas portugueses e espanhóis tropeçavam elegantemente.

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Os banhos, uma modernice importada de países como Inglaterra, mais tarde tornada moda pelo rei D. Carlos, tiveram, durante muito tempo, objetivos puramente medicinais.

 

Por indicação médica, as famílias abastadas passavam grandes temporadas nas estâncias mais conceituadas do Pais. Durante esse período, movimentavam a economia e animavam socialmente esses locais.

 

A Setúbal, acorriam sobretudo grande número de alentejanos, com acesso facilitado por comboio, mas a presença das veraneantes espanholas é que provocava uma verdadeira agitação, sobretudo entre a rapaziada setubalense.

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Existiam poucos recursos hoteleiros e os turistas optavam por arrendar grandes moradias disponíveis nesta altura.

 

Organizavam-se festas, bailes, sessões de cinema, passeatas e piqueniques pelos arrabaldes da cidade, num enorme frenesim que ocupava o tempo quando não estavam a banhar-se.

 

Os banhos, por outro lado, tinham todo um manancial de equipamento, a começar por instalações – originalmente em madeira – com cubículos para os banhistas trocarem de roupa.

 

Depois de ataviados, eram acompanhados por banheiros que os ajudavam na atividade, chegando à água através de passadiços ou de vagões, que seguiam sobre carris até se atingir a profundidade necessária. A alternativa eram umas barcaças cujo convés se abria para permitir o acesso à água ou a entrada desta na embarcação, onde o banho se dava com toda a privacidade e recato.

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A afluência era tal que os improvisados estabelecimentos de banhos da segunda metade do século XIX – o mais conhecido era o Cais da Trindade - deram lugar a um imponente edifício desenhado pelo conhecido arquiteto Ventura Terra.

 

Foi uma iniciativa da Empresa Setubalense de Banhos e abriu as portas em 1903.

 

Imitava estabelecimentos similares em Biarritz, construído em tijolo, ferro e madeira, com 50 quartos para banhistas e áreas sociais e de restauração.

Nesse ano, registaram-se ali 8.706 banhos de mar e 1031 de tina.

 

Enquanto isso, a vida dos locais seguia o seu rumo, com grande enfase na classe piscatória, que disputava o espaço palmo a palmo com os forasteiros.

As redes eram estendidas para secar na então rua da Praia, uma artéria que começava a desenvolver-se e era já um dos principais locais de passagem e morada de algumas famílias ilustres. Era ver as senhoras aos pulinhos, lutando para não tropeçar naquelas verdadeiras armadilhas para damas desprevenidas.

A zona do passeio do Lago, como então era denominado o atual parque José Afonso, era também um dos percursos preferidos, porque oferecia grandes sombras que ajudavam a suportar os tempos de maior calor, ainda que os pescadores pendurassem as redes nas árvores, que assim faziam as vezes de estendais, conspurcados por alcatrão usado no conserto das malhas de pesca.

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Em data não determinada, mas que terá sido ainda na primeira década do século XX, o passeio ficou separado da praia por um conjunto de construções – ainda aí existentes – onde se instalaram empresas conserveiras.

 

Nada nunca mais foi o mesmo: o ambiente tornou-se nauseabundo, contaminado por emanações fétidas dos despojos da indústria e pelo fumo das caldeiras de cozedura do pescado.

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Progressivamente, quem tinha mais meios foi preferindo outras paragens com ares mais puros. O primeiro estabelecimento importante de banhos no país fecharia as suas portas e a vilegiatura marítima naquela cidade do Sado ficaria a aguardar melhores dias.

 

 

Setúbal nunca deixaria de ser procurada, porque, com ou sem industria conserveira e outras que mais tarde ali se fixaram - com grande desenvolvimento económico e não menor penalização para o ambiente local - a beleza da cidade, a avassaladora presença da Arrábida, as águas turquesa desta costa e os pitorescos arredores não deixam ninguém indiferente.  

 

 

 

À margem

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Existiam três tipos de vilegiatura: marítima, climática e termal. Setúbal tinha – e ainda tem – condições ótimas para a prática das duas primeiras e havia áreas específicas para cada tipo de maleita cujo tratamento ali se procurava. A pretexto de variados achaques, os forasteiros espalhavam-se pela zona marítima, mas também pelas quintas do interior, da Arrábida à Baixa de Palmela, de Brancanes a Alferrara (na imagem) ou a Azeitão, buscando apaziguamento para os males resultantes da vida urbana, em especial estados de fadiga física e intelectual a que hoje se chamaria burnout. Toda a zona ribeirinha, de Albarquel à Arrábida, é especialmente indicada para a “therapeutica escrofulo-tuberculosa”, dada a exposição a sul, luminosidade, emanações marinhas e massas telúricas, a que se junta o uso interno e externo da água do mar. O roteiro é apresentado por Fernando Garcia, que nos seus escritos ficou conhecido pelo pseudónimo "João Semana". Tal como a personagem de Júlio Dinis em que se terá inspirado, era médico, neto de outro clínico, também ele setubalense de coração, Domingos Garcia Peres, nome três vezes homenageado na topinímia da cidade, tal o relevo ali alcançado.

Mas isso é outra história...

 

…….

*As imagens 3, 4 e 5 são meramente ilustrativas da época, não da localização retratada.

 

Fontes

Vilegiatura Marítima em Setúbal do século XIX ao início do século XX, de Inês Gato de Pinho, edição LASA – Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão, dez 2010

Imagens retiradas do livro anterior em: https://www.researchgate.net/profile/Ines_Gato_De_Pinho/publication/308505485_Vilegiatura_maritima_em_Setubal_do_Seculo_XIX_ao_inicio_do_Seculo_XX/links/57e5090908aef5d0161b6bd4/Vilegiatura-maritima-em-Setubal-do-Seculo-XIX-ao-inicio-do-Seculo-XX.pdf

Domingos Garcia Peres – Um setubalense pelo coração, de António Cunha Bento, Carlos Mouro e Horácio Pena, edição LASA – Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão, 2012

 

http://photos1.blogger.com/blogger/7959/1282/1600/esguelha.jpg

 

Imagens de Américo Ribeiro em

https://pt.slideshare.net/MasterPilgrim/setbal-antiga-15474950

https://pt.slideshare.net/anagualberto/ambientes-no-sculo-xix

https://www.sabado.pt/vida/detalhe/os-primeiros-dias-na-praia

 

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

 http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/pt/contactos/arquivo-fotografico/

José Artur Leitão Bárcia

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/BAR/000631

(19) Instantâneos: um “match” entre dois colossos de força

 

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Uma enorme excitação correu Lisboa no início do verão de 1909. Dois colossos de força iam defrontar-se e decidir a murro quem era o mais possante. Ninguém sabia muito bem o que esperar da contenda, porque, naquele dia 4 de julho, travava-se, num Campo Pequeno a rebentar pelas costuras, aquele que foi o primeiro combate de boxe em território nacional.

 

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 Na arena defrontaram-se o temível negro norte-americano Sam MacVea e o perigoso campeão escocês Fred Drummond que, dizia a imprensa, também “não é[ra] para graças”. “Lisboa inteira” assistiu ao combate, num misto de curiosidade e assombro, ovacionando entusiasticamente os dois lutadores.

Sem grande admiração, o “match” foi ganho, ao 7º round, pelo pelo-pesado californiano. Aquele foi, aliás, um dos maiores boxeurs do seu tempo e só não chegou mais além em títulos mundiais devido à cor da pele. Com 96 combates em pelo menos 10 países, valia-se mais da enorme robustez, que das suas extraordinárias qualidades técnicas e foi brindado pelo público português com estrondosos aplausos.

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Diga-se, que o combate de 1909 fez crescer o interesse luso pelo boxe, o que deu origem à criação de clubes e associações de amadores da modalidade. Apenas cinco anos depois, foi criada a Federação Portuguesa de Boxe e, na década seguinte, estreava-se aquele que é considerado o maior boxeur português de todos os tempos: Santa Camarão.

 

 

 

Fontes

Illustração Portugueza

Nº177, II série – 12 jul. 1909

Hemeroteca Digital de Lisboa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

Tiro & Sport

Ano VI, nº425 – 31 jul. 1909

Diário Illustrado

39º ano, nº12:892 – 3 jul. 1909

 

http://fpboxe.pe.hu/historia-de-boxe/em-portugal/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Camar%C3%A3o

https://en.wikipedia.org/wiki/Sam_McVey