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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Instantâneos (36): a vida não é uma brincadeira

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Não há sorrisos nestas imagens. Não há brincadeira, nem alegria. E, no entanto, estas fotografias estão cheias de crianças, seres tão efusivos nas suas manifestações, irrequietos, calorosos.

Estas não. Mostram-se como que alheias, anormalmente ordenadas, todas com a mesma pose – mãos atrás das costas ou sobre o colo, pernas cruzadas – sem um rasgo de rebeldia, um laivo de espontaneidade, uma ponta de felicidade aparente.


É natural. As suas curtas vidas não lhes têm sido leves ou fáceis. São órfãs – triste rótulo em qualquer época.


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E, embora as outras imagens mostrem as amplas e limpas acomodações em que vivem, sabemos que não são um lar. São a casa que conhecem, quiçá melhor que muitos lares familiares, mas sem calor ou emoção.

 

 

 

 

 


Internato Municipal do Porto - Escola de Artes e Ofícios. É esta a instituição aqui retratada nos anos 20 do século passado, criada em 1891 com o nome de asilo. A designação mudou, a entidade responsável também – inicialmente Junta Geral do Distrito do Porto e depois a Câmara Municipal do Porto, bem como mudaram as instalações ao longo dos tempos.

A missão manteve-se: socorrer os menores sem família – expostos, desvalidos ou abandonados - proporcionando-lhes educação literária e moral, para além de ensino profissional. Funcionou até 1951.

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Fontes
Arquivo Municipal do Porto
http://gisaweb.cm-porto.pt

A Patti endoideceu Lisboa

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Valeu de tudo para conseguir ouvir a magistral cantora: tentaram aliciar o seu agente com condecorações reais e “desviá-la” para outra sala de espetáculos. As atuações estiveram a abarrotar, mas as senhoras da alta sociedade amuaram com a artista.


A primavera de 1886 foi dominada por um único assunto: a muito aguardada, desejada e sempre adiada apresentação de Adelina Patti, na época, grande estrela do canto lírico e, até hoje, uma das maiores artistas de ópera que o mundo já conheceu. Os caríssimos bilhetes esgotaram em apenas 48 horas e a excitação era geral, mas a permanência da Patti no nosso País foi marcada também por um conjunto de situações caricatas, bem ilustrativas do provincianismo desta terra e do impacto da cantora, que todos queriam ver.


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A viagem - que ainda foi protelada devido à cólera que grassava na Europa e aterrorizava a cantora - foi conseguida pelo enorme arrojo do então empresário do Real Teatro de São Carlos, António de Campos Valdez, que concretizou o que todos tinham prometido.

Quando se confirmou a vinda, foi "uma doidice, um delírio, uma nevrose".

S._Carlos_em_1893.pngOuvir a artista era um privilégio apenas destinado a muito poucos, pois se a opera era já um espetáculo de elite, a vinda de uma vedeta de tal magnitude encarecia ainda mais essa atividade.

No entanto, até a tensão política foi esquecida, embora as más-línguas criticassem que se abrissem assim os cordões à bolsa para gastar em camarotes, enquanto se regateavam as despesas previstas para o iminente casamento do príncipe D. Carlos.

 

Patti chegou à estação de Santa Apolónia era manhã cedo do dia 25 de março. Hospedou-se no Grande Hotel de Lisboa, cujas escadarias haviam sido atapetadas para a ocasião e o proprietário em pessoa, João Matta – um dos primeiros chefes de cozinha portugueses – cozinhou com as próprias mãos os pitéus a servir.

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A imprensa tudo escrutinou, desde as ementas, em francês - comme il faut - ao perfume que emanava dos luxuosos aposentos, onde foi instalada uma mesa de bilhar, exigência de Patti, que tinha naquele jogo o seu passatempo preferido.

Tal como uma outra Madonna, no século XXI, esta encantou-se com Lisboa, o céu, o rio, dando longos passeios pela nossa Capital e arredores.
 

 

O dia da apoteose foi 27 de março, com o teatro cheio até aos "cocurutos das galerias" para ouvir o Barbeiro de Sevlha.

Patti, uma mulher delicada, agigantou-se em palco mas, curiosamente, embora a atuação fosse arrebatadora desde o início, o público recebeu-a com uma certa indiferença, só explodindo em aplausos ao segundo ato.

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É claro que os maldizentes – só encontrei um: Casimiro Dantas - não contestando a superioridade artística da estrela internacional, apressaram-se a dizer que esta, aos 43 anos, já não tinha o mesmo vigor da juventude.


Mas, eram outras as causas desta frieza da alta sociedade lisboeta, em contraste com o que aconteceu no resto da Europa, onde tudo o que era "mais aristocrático e ilustre" se rendeu "aos pés" da grande vistuosi e as damas se haviam desdobrado na encomenda de portentosas coroas de flores e na organização de convívios para a Patti, tratando-a como uma verdadeira rainha.

 

 

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É que as senhoras portuguesas estavam amuadas com a artista.

Esta, ao contrário do que esperavam, preferia o recato do hotel ou pequenas receções, tendo até recusado confraternizar com a corte. Parecia preferir o contacto com o povo, aos frequentadores dos grandes salões.

Acresce que não acedeu a participar em qualquer récita de beneficência a convite destas madames, nem sequer as recebeu: uma afronta imperdoável, obviamente!


Na época, quem representava a cantora era J. Schuurman, que tinha o sonho de ser agraciado com o Hábito de Cristo, pelo então rei de Portugal. Ora, foi este agente que teve que enfrentar, quer o empresário do Coliseu, Freitas Brito, que pretendia desviar a cantora para a sua sala; quer as senhoras da sociedade. Oportunista, prometeu a aparição da Patti a quem lhe conseguisse a condecoração.

No final da época, Schuurman receberia o Hábito de Cristo das mãos de D. Luís I e a diva cantaria mais duas récitas no S. Carlos, mas não no Coliseu, nem para qualquer obra de beneficência. Tudo porque Campos Valdez, extremamente bem relacionado, conseguiu mexer os cordelinhos, desbloquando a condecoração e superando as restantes "cunhas" e tentativas.

Só dois anos depois, de regresso a Lisboa, é que a Patti acedeu a cantar para a caridade.
 

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A verdade é que, embora não totalmente tratada com justeza pelo público do high-life lisboeta, Adelina Patti agradou muitíssimo em terras lusas. Talvez não tivesse a mesma extensão, volume e facilidade de voz da juventude, mas era, ainda assim, "uma cantora assombrosa" e "sem rival" que, com a idade e experiência, ganhara em capacidade interpretativa, sentimento e versatilidade, que a fez assumir de forma magistral as protagonistas das composições que interpretou naquela longínqua época de 1885-86, no Real Teatro de São Carlos – O Barbeiro de Sevilha, Lucia, Traviata e Carmen.
 

À margem

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Adelina Patti (1843-1919) foi a maior cantora da sua época, aplaudida em todos os grandes teatros e homenageada de múltiplas formas, mesmo em Portugal: o sabonete Patti, da Ach Brito, por exemplo, deve-lhe o nome. Era uma predestinada: filha de um tenor (Salvatorre Patti) e de uma soprano (Caterina Barilli), começou a sua carreira ainda criança e prolongou-a até à velhice, algo extraordinário numa atividade de grande desgaste. Moveu-se sempre no meio artístico, mas na vida privada gravitou entre artistas e aristocratas. Casou em primeiras núpcias com o Marquês de Caux e o seu último marido foi o barão Rolf Cederstrom. Pelo meio viveu em concubinato com o cantor Ernesto Nicolini, que trouxe a Lisboa e com quem depois casou. Rezam as más-línguas que a sua relação era tempestuosa e não isenta de momentos de tensão. De resto, Nicolini – que também atuou no São Carlos – parece ter tido especial tendência para amores complicados. Conta-se que durante uma sua atuação em Lisboa, nos bastidores, pouco antes de entrar para o quarto ato da peça Lucrécia, a primeira mulher o descompôs de tal forma que o tenor perdeu as estribeiras e sacou do punhal que tinha à cintura e fazia parte dos adereços da personagem. Só não chegou a vias de facto, porque o guarda-roupa do teatro impediu o gesto tresloucado.

Mas isso é outra história...

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Hoje ainda é possível ouvir a Patty. Encontrei várias gravações online, mas sugiro esta: https://wwAdelina Patti ~ Ah Non Credea Mirarti ~ ( La Sonnambula )w.youtube.com/watch?v=w2LY6YLHn7U

Para quem gosta de canto lírico, claro.

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Fontes

O Real Theatro de São Carlos – memórias 1883-1902, de Francisco da Fonseca Benevides, Lisboa, 1902, R. de Souza & Salles. Disponível em https://archive.org/details/gri_33125008466464/page/n12

Biblioteca Nacional de Portugal
www.purl.pt

Diário Illustrado
15º ano; nº4:610 – 24 fev. 1886

15º ano; nº4:613 – 27 fev. 1886

15º ano; nº4:640 – 27 mar. 1886

14º ano; nº4:493 – 30 out. 1885

17º ano; nº5:356 – 18 jan. 1888

17º ano; nº5:356 – 8 mar. 1888

16º ano; nº5:307 – 20 dez. 1887

18º ano; nº5:731 – 22 mar. 1889

 

Hemeroteca Digital de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

A Illustração Portugueza – Revista Literária e Artística
2º ano; nº37 - 29 mar. 1886
2º ano; nº38 - 5 abr. 1886
2ª série; nº12 – 14 mai. 1906


O Occidente – Revista illustrada de Portugal e do Estrangeiro
9º ano, vol. XIX; nº262 – 1 abr. 1886
9º ano, vol. XIX; nº264 – 21 abr. 1886


https://www.timeout.pt/porto/pt/compras/ach-brito-celebra-100-anos


Anedotas e episódios da vida de pessoas célebres, de Rodrigues, Lourenco, disponível em
https://archive.org/details/anedotaseepisd00rodruoft/page/172

Imagens

https://www.npg.org.uk/collections/search/portrait/mw04900/Adelina-Patti

https://www.npg.org.uk/collections/search/portrait/mw133933/Adelina-Patti-as-Juliet-in-Romeo-and-Juliet

https://pt.wikipedia.org/wiki/Teatro_Nacional_de_São_Carlos#/media/File:S._Carlos_em_1893.png

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Adelina_Patti_and_Giovanni_Mario_in_Faust_opera.jpg

https://www.britannica.com/biography/Adelina-Patti/media/446851/18765

http://www.ipernity.com/doc/289583/45489076

https://www.artlyriquefr.fr/personnages/Nicolini%20Ernesto.html

 

Heróis do acaso (1): a nadadora da Margueira

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Isabel da Conceição Martins, 18 anos. Esta jovem sairia do anonimato durante uns meses, no final de 1890, por ter salvo das águas do Tejo um cabo da Guarda Fiscal e cinco crianças que, com ele, se andavam banhando na zona da Margueira (Almada). O ato foi de tal forma apreciado, que a rapariga recebeu das mãos dos reis de Portugal uma condecoração e um prémio monetário.
A história conta-se em poucas palavras, porque a coragem não se explica, vê-se nas atitudes.
O cabo Albano Queiroz Mesquita encontrava-se num bote com cinco crianças, brincando na água. À passagem de uma fragata, estando o adulto a banhos, a embarcação com os menores afastou-se e o cabo ficou em risco de afogamento. Na margem, Isabel observava tudo e, sem hesitar, atirou-se à água, pôs Albano a salvo e, com desenvoltas braçadas, alcançou o bote, travando a sua deriva, que poderia ter terminado com a perda de vida dos ocupantes.
Isabel, conhecida na vizinhança como ágil e ousada nadadora, salvou assim seis pessoas. Do ato houve numerosas testemunhas – na época, aquela área do rio vibrava de atividade, da pesca ao transporte de pessoas e mercadorias entre as margens – curiosamente não se tendo registado outra qualquer tentativa de salvamento por parte de quem assistiu.
O feito chegaria aos ouvidos de D. Carlos e de D. Amélia de Orleãs que, no Paço de Belém, em 1 de novembro do mesmo ano, colocaram no peito da intrépida jovem uma medalha de prata e puseram nas suas mãos o diploma justificativo da distinção por mérito filantropia e humanidade
A mando dos reis, foi-lhe igualmente entregue a quantia de 50$00.
Soube-se mais tarde que Isabel tinha, com aquele dinheiro, comprado um relógio em ouro e uns brincos. O restante terá sido empregue na aquisição de roupa branca, de que a sua família carecia.
Durante meses, gente das redondezas deslocava-se à modesta casa onde morava com os pais para escutar da sua boca a história do salvamento e poder ver e tocar na condecoração.

E depois...nunca mais se ouviu falar desta heroina do acaso.

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Fontes
Biblioteca Nacional Digital
www.purl.pt
Diário Illustrado
19º ano, nº 6:321 - 6 nov. 1890

Instantâneos (35): o ténis real

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Quem julgar D. Carlos pelo rotundo ventre e ar bonacheirão, mais de quem se dedica à sesta e ao fumo de charuto do que a vigoroso exercício físico, dificilmente acredita que aquele rei foi um desportista diversificado e assíduo. Estas imagens mostram-no numa das suas modalidades preferidas: o ténis. A paixão era tal que o levou a construir courts no Palácio das Necessidades e em outras casas por onde a família real dividia o seu tempo, de acordo com as estações do ano e o que isso implicava para a corte portuguesa.


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Não se espere ver o rei de calções e porte atlético – que o teve, em jovem – mas espere-se vê-lo de roupa leve e chápeu estival, não fosse o sol perturbar seus olhos claros e sensíveis ou corar em demasia a cútis delicada.

Vistos de fora e à distância de mais de um século, estes instantâneos parecem quase caricatos, mas sua majestade era, efetivamente, um exímio jogador de ténis.

 

 

d carlos tenis 3.JPGD. Carlos, aliás, habituou-se à prática desportiva desde criança. Pesca, vela, remo, natação, tiro, caça, equitação e ténis, claro, eram ocupações frequentes para os filhos de D. Luís e de D. Maria Pia, que criaram modas a esse nível, quer nas atividades, quer nos locais, tornando Cascais, por exemplo, um dos poisos preferidos do high life da Capital.
D. Carlos patrocinou torneios, participou em alguns e, com esse gosto manifesto, projetou a modalidade, tornando-a um must para a sociedade elegante que lhe seguia as pisadas.

 


Fontes
Imagens

D. Carlos numa partida de Ténis na Tapada da Ajuda, c. 1904 – 1906 em livro publicado para a exposição António Novaes 1903-1911; Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa – Divisão de Arquivos da Câmara Municipal de Lisboa, Publicação Assírio & Alvim, 1996.

D. Carlos numa partida de ténis na Quinta do Palheiro durante a Visita Régia à Madeira; Pub. catálogo da exposição Obras de Referência dos Museus da Madeira.500 Anos de História de Um Arquipélago, mostra comissariada por Francisco Clode de Sousa, Galeria de D. Luís, Palácio da Ajuda, Novembro de 2009.


D. Carlos jogando ténis na Parada, c. 1900 em D. Carlos em Cascais, cenas do quotidiano da família real portuguesa – Ficha de conteúdos; Câmara Municipal de Cascais. Disponível em https://www.cascais.pt/sites/default/files/anexos/gerais/new/d._carlos_em_cascais.pdf

 

O Cartaxana que anunciou a República

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Em apenas 20 anos, António Paulo Cartaxana passa de anónimo merceeiro a figura destacada da sociedade alcacerense, depois promovido a administrador, em Moçambique. Chefe local do Partido Republicano Português, uma das mais importantes figuras do concelho na fase de transição de sistema político, voz do povo contra os caciques que, até então, eram detentores de todo o poder, é hoje novamente um desconhecido em Alcácer do Sal.

 

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Inteligente, espirituoso, justo, nobre, franco, respeitador e respeitado até pelos inimigos políticos. Estas são qualidades apontadas a este filho de humilde valador, que nunca escondeu as suas origens. Também jamais se resignou ao destino que o berço lhe poderia ter traçado: cedo foi em busca de melhor vida em outras paragens.
Andou de terra em terra vendendo de tudo um pouco, de Lisboa a África, até que conseguiu estabelecer-se. Pelo caminho, arriscou a vida e os negócios ao defender os ideais republicanos numa época em que tal ainda podia ser perigoso. Chegou a andar a monte, para não ser preso ou morto.
O casamento com Maria Rosa Vila Boim, filha de outro alcacerense com nascimento modesto mas já então proprietário bem sucedido, não terá sido alheio ao êxito de Cartaxana, mas o que ajudou muito, certamente, foi ter empunhado a bandeira republicana e ser a principal cara da nova ordem quando tudo mudou, em 5 de outubro de 1910. Na época, este nosso republicano e maçom - membro efetivo da loja Estrela d'Alva - detinha um estabelecimento de mercearia, padaria e tabacos, mas notabilizou-se como arauto da mudança.

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Foi ele que orgulhosamente discursou na escada do edifício dos Paços do Concelho e à varanda da Sociedade Filarmónica Amizade Visconde de Alcácer, dando vivas à República e contribuindo para manter o clima de ordem e serenidade com que se fizeram localmente os festejos.
Falar em público foi, aliás, uma das principais atividades que manteve após 1910, já que era presença frequente em cerimónias, sobretudo funerais, que a partir de então se começaram a fazer sem intervenção da igreja - como ditavam os preceitos da República.
Cartaxana, para além de bom orador, também não regateava a participação em jornais republicanos, com destaque para o Pedro Nunes, mostrando dotes na prosa e até na poesia- é de sua autoria, por exemplo, a letra d' O fado da minha terra, lançado em 1909 (ver no final do texto).

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Talvez estas múltiplas orações inflamadas tenham pesado para que fosse, logo em 1911, nomeado administrador da 5ª circunscrição da província de Maputo, Moçambique, para onde rumou com uma das filhas.
Esta ascensão meteórica até suscitou alguma crítica bem-humorada no outro jornal da terra, mensageiro das classes trabalhadoras, o Rude, que em dezembro desse ano rimava assim:

“Chamem lá ao Cartaxana,
Partidário d’uma cana!
Ele já alcançou pasta,
Vai partir para Maputo,
Corajoso e resoluto,
Para bem longe se afasta...”


Desconheço exatamente quanto tempo António Paulo Cartaxana, então ingressado como funcionário do Ministério das Colónias, esteve em África, mas sabe-se que em 1920 já estava novamente em Portugal.
Tanto quanto foi possível apurar, não ocupou cargos de destaque na administração local, provavelmente porque não quis, mas até ao fim da vida, aos 58 anos de idade, esteve sempre presente em inúmeras iniciativas pelo desenvolvimento da sua terra, quer se tratasse de organizar festejos pela chegada do caminho-de-ferro, ajudar os pobres, dar melhores condições aos presos da cadeia local ou defender os interesses de Alcácer, dentro e fora de portas. Em 1925, o seu enterro foi um grande acontecimento, o mais participado funeral de que havia memória até então.

António Paulo Cartaxana foi membro destacado de uma certa burguesia alcacerense ligada ao comércio e à indústria, que ganhava expressão no início do século XX, mas que nunca chegaria a vingar como em outros concelhos próximos, face ao poder dos grandes proprietários que, apesar de muito ter mudado, continuaram a ser “donos” do território e das vidas das suas gentes.

 

À margem

António Paulo Cartaxana, filho de Paulo da Silva e de Agostinha do Carmo, aparentemente não herdou o apelido dos pais ou padrinhos, mas antes, pode apenas presumir-se, poderá deve-lo ao facto de o pai ser natural do Ribatejo, onde, talvez o Cartaxo fosse um ponto de referência...
Este não foi o único que partiu de Alcácer para assumir funções em África.
Victor Eduardo da Mota Portugal da Silveira, no início do século XX foi secretário do governador do distrito de Inhambane, em Moçambique; presidente da Câmara naquela cidade, que o homenageou na toponímia; administrador de grandes explorações agrícolas em Angola e São Tomé. Cerca de duas décadas antes, já Pedro Campos Valdez, filho do conhecido António Campos Valdez (diretor do Teatro Nacional de S. Carlos), tinha rumado a Moçambique, para assumir funções de verificador da alfândega de Lourenço Marques.
Cartaxana, no entanto, deixou lá raízes que viriam a dar frutos no Alentejo, décadas depois. O genro, António Xavier do Amaral foi administrador do concelho e presidente da Câmara Municipal de Alcácer do Sal, nos anos 30 do século XX, e o neto, Carlos Cartaxana Xavier do Amaral, ainda nascido em Moçambique, para além de médico, foi presidente do mesmo município entre 1961 e 1973. Quando vieram de África, trouxeram costumes curiosos que deram que falar e suscitaram uma enorme curiosidade na então vila. O mainate (criado africano) dos Cartaxana era uma atração para a criançada.

Mas isso é outra história...

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Fontes
Biblioteca Nacional de Portugal
Jornal O Imparcial
Ano III; nº78 – 26 abr. 1925


Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal
Jornal Pedro Nunes
Jornal O Rude
Imagem
pt/ahmalcs/cmalcs/fotografias/01/0008

 

Biblioteca Municipal de alcácer do Sal
O fado da minha terra, música de Jorge Augusto de Carvalho e letra de António Paulo Cartaxana; Thypographia Cunha, 1909


Noticias e Fotografias de Alcácer do Sal Séculos XIX e XX, disponível em
www.cm-alcacerdosal.pt/.../Noticias_e_Fotografias_de_Alcácer__Séc_XIX_e_XX.pdf

O vidro português nasceu em Coina

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Real Fábrica de Vidros Cristalinos de Coina é uma realidade quase esquecida, mas foi pioneira na Península Ibérica. Tinha o monopólio da produção de vidros finos e vidraças, chegou a enviar produtos para China e guarneceu todo o gigantesco Convento de Mafra.

A tradição vidreira nacional é habitualmente associada à Marinha Grande. Muito antes, no entanto, a experiência da moderna produção de vidro deu os primeiros passos na Margem Sul do Tejo. A Real Fábrica de Vidros Cristalinos de Coina (1719-1747) foi uma estrutura pioneira na Península Ibérica, precursora de técnicas e modelos que continuaram a usar-se durante séculos. No seu tempo, era a única fornecedora de vidros finos, vidraças e espelhos em Portugal. Foi um projeto acarinhado por D. João V, que fez questão de visitar as instalações e era consumidor da enorme panóplia de produtos disponível.

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Havia muito que a coroa pretendia lançar-se no sector vidreiro. A oportunidade surgiu num contexto de grande desenvolvimento de manufaturas e obras públicas em Portugal. Coina* tinha uma localização estratégica face à região e reunia condições essenciais para acolher tal iniciativa: era zona de finas areias, fundamentais à fusão do vidro; rodeada de vastos pinhais que serviriam de combustível para os fornos, e detinha uma experiência técnica ancestral, acumulada localmente e transmitida sobretudo por estrangeiros versados nesta “arte”.


Foi um período de grande expansão e descoberta das potencialidades do vidro, que começava a estar presente em todo o lado. Ali formaram-se os primeiros mestres vidreiros portugueses, fizeram-se experiências inéditas, atrevidas até, desvendando-se os mistérios da atividade, aprofundando técnicas e métodos. 

vidro 7.JPGA real manufatura, que forneceu a luxuosa e variadíssima construção do Convento de Mafra – entre outros monumentais edifícios - chegou a ter 15 estancos aos quais cabia a distribuição dos objetos fabricados pelos clientes de todo o País. Para viabilizar a produção nacional, proibiu-se a importação e deu-se à administração da fábrica autoridade para revistar navios suspeitos de contrabando.

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Dali chegaram a embarcar delicados objetos para a China e a profusão de formas e utilizações era esmagadora, dos mais comuns copos e vidraças, aos delicados equipamentos de laboratório; dos curiosos urinóis, a graciosos bibelots e frascos de perfume e outras embalagens com medida certa; das úteis mamadeiras, a espelhos, escaparates, pingentes de candeeiros, joias – por vezes mais apreciadas que em diamante - e tudo o mais que se possa imaginar, já com grande sofisticação – vidros lapidados, esmaltados, com exuberantes e intrincadas decorações , ao gosto barroco, que então se inaugurava e estava também patente na arquitetura.

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Coina era considerada uma grande fábrica, no panorama português e europeu, tendo empregado em simultâneo mais de 30 adultos e um número indeterminado de crianças, para tarefas de limpeza em zonas de difícil acesso.

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O pessoal vidreiro, que vivia em torno da fábrica, seria alvo de grande curiosidade, sobretudo porque incluía muitos estrangeiros. Como sempre acontece, oficializaram-se casamentos e outro tipo de ligações com os locais, misturando a vida de ambas as comunidades.

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Os mestres deste ofício eram muito disputados, sendo comum a espionagem industrial. Eram de grande valor os segredos das misturas de substâncias que, depois de fundidas, davam origem aos vários tipos de vidro, pois delas dependia a “identidade” daquele material, não repetível por outro “alquimista”.
Esta é também uma história marcada por conflitos internos, resultantes das diferentes correntes de opinião e tecnologia em disputa: vidros de inspiração veneziana; ao gosto da boémia – que Coina foi a primeira produtora em solo nacional – ou de tecnologia inglesa.
A esmagadora variedade de produtos – o objetivo era suprir todas as necessidades do mercado – seria um dos coveiros desta fábrica, que não se especializou. Para o fim, contribuíram decisivamente o decrescente apoio estatal, as más e até dolosas decisões das administrações, o aumento do preço de novos combustíveis - como carvão de pedra - e a feroz oposição ao abate desenfreado de árvores necessárias ao aquecimento dos fornos, em laboração constante.
Quando a real fábrica fechou portas, a sua herança, no entanto, não se perdeu, antes, perpetuou-se na Marinha Grande, onde se usaram os catálogos de Coina como guia, pois eram um verdadeiro manual do sector, o principal fundo vidreiro do país durante séculos. Muitos objetos ali produzidos podem ainda hoje ser admirados em museus e monumentos nacionais.

À margem

Foi a própria Fazenda Real que se encarregou da gestão da fábrica de Coina no primeiro período, entre 1719 e 1731, seguiram-se, nem sempre com os melhores resultados, administrações conflituosas e administradores nomeados: o inglês João Butler, Joam Poutz e, finalmente, o irlandês John Beare, que transferiu a indústria – pessoal, maquinaria, ferramentas e conhecimentos - para a Marinha Grande e ali laborou mais vinte anos, até se arruinar. Foi a este que o conhecido Guilherme Stephens adquiriu edifícios e terreno onde ergueu um grande complexo industrial que levaria a produção de vidro nacional a um novo patamar, recordado até hoje no museu instalado no mesmo local. Para tal sucesso, muito contribuíram os privilégios fornecidos pela “coroa” - nomeadamente a lenha do pinhal de Leiria - sem os quais, Stephens, aliás, não teria aceite tal missão que D. José lhe atribuiu. O empresário, que na época explorava fornos de cal na zona de Alcântara e colaborava no esforço para a reconstrução de Lisboa após o grande terramoto, foi contrariado dedicar-se ao sector vidreiro, sobre o qual pouco mais conhecia para além do descalabro financeiro em que tinham caído os seus antecessores nesse empreendimento.

Mas isso é outra história...
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*Atualmente Coina pertence ao concelho do Barreiro.

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Fontes
A Real Fábrica de Vidros Cristalinos de Coina (1719-1747) e o vidro em Portugal nos séculos XVII e XVIII, IPPAR, Lisboa – 2002, de Jorge Custódio.

Imagens (por ordem)

The Brothers Clarke with Other Gentlemen Taking Wine (Os irmãos Clarke e outros senhores tomando vinho) - Gawen Hamilton, disponível em www.artchive.com

D. João V bebendo chocolate quente na casa do Duque de Lafões – autor não identificado; Museu Nacional de Arte Antiga. Disponível em:
https://www.reddit.com/r/portugal/comments/78pvux/rei_dom_joão_v_bebendo_chocolate

Na obra citada anteriormente:

Natureza-morta com porcelana e vidros. Óleo sobre tela. Autor anónimo italiano (?), finais do séc. XVIII. Museu de Évora, in. Nº864.

O Alquimista no laboratório. Óleo sobre madeira, atribuído a David Teniers II, primeira metade do século XVIII, Museu de Évora, inv. Nº 820.

Pequena oficina de vidreiro em França, aspeto geral. Meados do séc. XVIII. Desenho de Radel, gravura de Bernard, in "Verrerie en bois ou petite verierre a pivvette; Encyclopédia ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et Métiers.

Grando oficina de fabrico de vidraça pelo processo de disco. Interior, Aspeto geral. Meados do séc. XVIII. Desenho de Radel, gravura de Bernard, in "Verrerie en bois ou grand verierre a vitre ou en plats, dite pivette"; Encyclopédia ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et Métiers.

Manufacture de Rouelle. Saída da chapa de vidro do forno de recozimento. Meados do séc. XVIII. Desenho de Goussier, Gravura de Bernard, in "Manufacture des graces", Encyclopédia ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et Métiers.

Operação de recolha dos vidros da arca de tempero. Desenho de Radel, gravura de Bernard, in"Verrerie en bois ou petite verierre a pivvette; Encyclopédia ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et Métiers.

Transporte de vidro para armazém.Desenho de Radel, gravura de Bernard, in"Verrerie en bois ou petite verierre a pivvette; Encyclopédia ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et Métiers.

 

 

 

Quando o comboio uniu as margens do Sado

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A ponte ferroviária foi entregue ao Estado português como indemnização alemã às potencias aliadas, de que o nosso País fez parte. A festa de inauguração acabou com um banquete com mais de uma centena de talheres e animadíssima tourada.


Muito povo, bandas de música, foguetes e aplausos, calorosos aplausos. Gare ornamentada com flores, plantas e bandeiras. Foi assim que Alcácer do Sal recebeu a extensa comitiva que saiu de Lisboa, pouco passava das 10 da manhã, para fazer a viagem inaugural da ponte ferroviária sobre o Sado. Até parecia que, por aqui, nunca se tinha visto passar um comboio.

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Finalmente, a Linha do Sado estava completa, facilitando a ligação entre as margens. Não admira pois que, às 13h35 dessa segunda-feira, dia 1 de junho de 1925, centenas de pessoas, com e sem bilhete, se acotovelassem para disputar os lugares vagos nas 11 carruagens azuis. Um azul profundo sobre o qual grandes números pintados davam indicação de 1ª, 2ª ou 3ª classes. O trajeto, de ida à gare sul (junto ao atual bairro da Quintinha) e regresso à estação “mãe”, foi aclamado também pelos ocupantes das embarcações que, àquela hora, assistiram, no rio, à passagem da reluzente composição.

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Depois, o percurso até ao edifício dos Paços do Concelho, a pé ou nos muitos automóveis colocados à disposição dos visitantes, foi ladeado de janelas engalanadas com as mais ricas colchas que os baús da terra continham. O cortejo, fechado pelo veículo onde seguia o ministro do Comércio, teve guarda de honra a cargo da corporação de bombeiros e de três bandas de música.
No salão do mais nobre edifício da terra tiveram lugar os discursos da praxe. Como é habitual, rasgaram-se elogios ao grande benefício da obra que então se inaugurava e os responsáveis locais pediram mais melhoramentos de que a terra desesperadamente carecia.
Afinal, por estas bandas, todos estavam cansados de esperar. A situação do caminho-de-ferro é bem expressiva quanto à lentidão com que o progresso aqui chegava.
A denominada Linha do Sado, ligando Barreiro e Setúbal ao Alentejo litoral, começou a ser pensada em meados do século XIX. Em vez disso, fez-se a linha do Alentejo, que retirou a Alcácer a importância estratégica de ser porto privilegiado para escoamento dos cereais da região. A ferrovia chegaria de Garvão a Alcácer-Sul só em 1918, mais de meio século de negociações depois. Por norte, o comboio alcançou a margem direita do Sado em 1920, altura em que, com euforia, foi inaugurada a estação de serventia à vila.
Só cinco anos depois, pessoas e mercadorias deixaram de ser obrigadas a fazer a passagem de barco ou pela acanhada ponte rodoviária em madeira, porque, à conta das indeminizações pagas pela Alemanha às potências aliadas contra as quais perdeu a I Grande Guerra, uniu-se Norte e Sul com uma bela ponte.
Por um dia esqueceram-se essas mágoas e, sobretudo, agradeceu-se e festejou-se tão importante travessia e a presença dos mais importantes dignitários. Encerrou-se a sessão com um banquete de cerca de 100 talheres, a que se seguiu, como era habitual em Alcácer em dias de festa, uma animadíssima tourada.
Pela tardinha, o comboio inaugural retornou – deixando pelo caminho os que tinham embarcado em Setúbal, Pinhal Novo e Barreiro, chegando a Lisboa já o dia escurecia, pois que também ali foi preciso atravessar as águas, desta vez do Tejo, a bordo do vapor Estremadura.

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À margem

A chegada do caminho-de-ferro foi um elemento-chave para o desenvolvimento do concelho de Alcácer do Sal.

variante a alcacer.GIFDepois de séculos de estagnação demográfica, entre 1920 e 1940 este território ganhou 8.700 habitantes. Este êxito não durou nem um século. Em 2010 foi inaugurada mais uma travessia ferroviária sobre o Sado, tendo em vista aumentar a velocidade das viagens entre Lisboa e o Algarve e facilitar o acesso ao porto de Sines. Anunciou-se que a variante a Alcácer do Sal (na zona do Pinheiro) seria usada sobretudo para o transporte de mercadorias, mas, apenas um ano depois, foi o pretexto para que os comboios Intercidades e Regionais deixassem de parar nesta cidade alentejana. Cerca de nove décadas depois da sua chegada, os comboios de passageiros abandonaram Alcácer do Sal. De nada valeram os abaixo-assinados, as manifestações e outros protestos públicos.
Mas isso é outra história...

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Nota: a 4ª imagem está arquivada na Torre do Tombo como fazendo parte da reportagem sobre a inauguração do caminho-de-ferro em Alcácer do Sal, no entanto, não me foi possível apurar quem são os homens que surgem na fotografia ou onde se encontram, visto que nenhum edifício de Alcácer do Sal – atual ou recentemente desaparecido – parece encaixar no que é visível. Inclino-me a pensar que esta fotografia tenha sido captada no percurso, talvez na estação ferroviária antiga do Barreiro, que possui este tipo de vãos. Quem sabe se, com a divulgação, se conseguirá compreender o que ali vemos. Alguém quer ajudar?


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Fontes
Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal
PT/AHMALCS/CMALCS/EXTERNO/02/11/014
Jornal Neptuno, nº9 – out-dez-2006, transcrição de noticia do Diário de Notícias 02 jun 1925

pt/ahmalcs/cmalcs/fotografias/02/01/0049
PT/AHMALCS/CMALCS/BFS/01/01/01/246

Arquivo Nacional Torre do Tombo

PT/TT/EPJS/SF/006/09907 - Muito agradeço a Rui do Ó Oliveira que me encontrou esta imagem fantástica.
PT/TT/EPJS/SF/006/09930

https://www.tpf.pt/pt/variante-ferroviaria-de-alcacer-do-sal-c-411-5-190---6.html
http://censos.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=censos_historia_pt_1930

 

Pela imprensa (11): não é Olex, é Buckingham!

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Muito antes do portuguesíssimo Restaurador Olex andar nas bocas – e sobretudo nas cabeças – de toda a gente, a Tintura de Buckingham era uma das alternativas para a antiquíssima e incessante luta contra os sinais de envelhecimento. Em finais do século XIX, este produto era o preferido dos homens para cobrir os primeiros pelos brancos da barba e do bigode ou, simplesmente, num capricho habitualmente mais atribuído às mulheres, mudarem a cor das suas melenas, dando-lhes um tom mais vibrante e luminoso. Mas, com a Tintura de Buckingham, não se esperavam grandes ousadias, pois só existia num discreto castanho ou num austero preto. O resultado, garantia-se, era sempre perfeito e “nunca nocivo à saúde”.
Este prodígio da pintura de pilosidades foi criado pela empresa Reuben P. Hall & Company, de Nashua, New Hampshire, Estados Unidos da America, também conhecida pelo seu restaurador de cabelo Siciliano, supostamente de origem vegetal e com receita fornecida por um misterioso marinheiro italiano. Ambos os produtos ainda se vendiam pelo menos até início dos anos 40 do século XX, mas já pertencentes à marca Ayer, que adquiriu as patentes e ainda hoje existe.
No nosso país, vendia-se nas principais lojas e perfumarias.

BUCKING_CL.jpgDesconheço qual a ligação da famosa tintura ao palácio com o mesmo nome, morada oficial da rainha de Inglaterra, mas, por ironia do destino, o representante em Portugal era a firma James Cassels & Cª, de origem britânica.
Tinha sede no Porto e foi fundada pelo pai de Diogo Cassels, que assumiria a empresa por morte do progenitor. Diogo Cassels, filho de ingleses mas já nascido em Massarelos, no entanto, ficou para a história mais como professor e pedagogo.
Fundou e dirigiu escolas, tendo dedicado a sua vida à instrução das camadas mais desfavorecidas da sociedade portuense, como forma de as retirar da pobreza, dando-lhes ferramentas para melhorarem as suas vidas. Tem uma rua com o seu nome e um busto no jardim do Morro, em Vila Nova de Gaia.

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Fontes
Hemeroteca Digital de Lisboa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

Diário Illustrado
19º ano, nº 6:321 – 6 nov. 1890

 

http://www.hairraisingstories.com/Proprietors/HALL.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/Diogo_Cassels