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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Instantâneos (46): figuras que brilham

as engomadeiras carlos reis.png

 

Luz. Todas as cambiantes de luz que se possa imaginar. Diferentes, encantadoras, hipnotizantes, inebriantes fontes de luminosidade que destacam as figuras, fazendo-as brilhar, ou as escondem numa penumbra estudada, realçando, ao invés, os objetos, o panorama circundante, o casario pitoresco. Mesmo nas paisagens mais comuns, nos quadros rurais que tanto povoam a sua obra, nos retratos encomendados pela realeza ou outras figuras de grande destaque social, que contribuíram para o seu sucesso e lhe pagaram os estudos, ajudando-o a impor-se como grande artista, a luz é a glória maior de Carlos Reis. Isso e os brancos.

Os brancos! Como é possível retirar tanta expressão, tamanho movimento, inigualável leveza, inimitável transparência de um simples pano branco?
Atentemos nestes resplandecentes exemplos da mestria do pintor de Torres Novas.

Carlos_Reis_-_O_Batizado.jpg

 

Quanta vida se reflete nestas imagens!
Em "Batizado de aldeia", todo o quadro de uma festa particular na província. O velho orgulhoso, a cuidadosa mulher transportando o bebé; a vizinha mirone apreciando o cortejo familiar. As abóboras deixadas ao sol; as couves já espigadas, ressequidas pelo estio.
E o branco, ardilosamente mostrando as meninas, deliberadamente lançando na penumbra os outros convidados. No incontornável vestido da criança a batizar. Sempre o branco.

as engomadeiras carlos reis.png

 

Inocente, puro, esvoaçante e vivo, mesmo quando apenas se trata de um delicado vestido em que três jovens trabalham, provavelmente para luxuoso gáudio de uma terceira: a proprietária da vestimenta.

As engomadeiras terão, provavelmente, os mesmos devaneios da patroa, mas uma outra condição agarra-as a este trabalho, tocando a riqueza sem a possuir; tomando-lhe o gosto, sem a poder usar. No entanto, mesmo quando se afadigam na labuta, deixam os sonhos aflorar, animando a conversa. Quanta fantasia se esconde naquele sorriso maroto e no olhar cúmplice da amiga?

 

 

 

 

 

Asas Carlos Reis.GIF

 

 

Em “Asas”, o branco é diferente. Curiosamente, embora se retratem belos anjos personificados por crianças, provavelmente em dia de procissão, lá está a mesma transparência, límpida, quase etérea, imaterial, mas não a mesma pureza sem mácula. O branco aqui surge-nos menos ostensivamente virginal, no entanto, magistralmente matizado, como que dizendo que no melhor pano cai a nódoa...

 

 

 

 

 

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A obra de Carlos Reis (1863-1940) é habitualmente classificado como naturalista e é certo que insistiu neste registo, elevando-o a um nível particular, mesmo quando esta corrente artística já se encontrava em decadência. Conseguiu cumprir formação em Lisboa e Paris com o patrocínio do então príncipe D. Carlos. De regresso, substituiu o mestre Silva Porto como professor de paisagem na Escola de Belas-Artes. Foi diretor do Museu Nacional de Belas Artes e do Museu Nacional de Arte Contemporânea.

 


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O “Batizado de aldeia” (?) pertence ao Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, Brasil.
“As engomadeiras” (1915) encontra-se no Museu Nacional de Arte Contemporânea (Chiado), Lisboa.
“Asas” (1933) pode ser visto no Museu Municipal Carlos Reis, na sua terra natal, Torres Novas.
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Fontes
http://www.museuartecontemporanea.gov.pt/pt/pecas/ver/427/artist


https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Carlos_Reis_-_O_Batizado.jpg


https://museu.cm-torresnovas.pt/index.php?start=21

 

Os inesquecíveis salões de Maria Kruz

Jean Beraud_Paris A La Belle Epoque.JPG


Nos salões de Maria Kruz, os mais aclamados intelectuais tinham o seu público selecionado, ao mesmo tempo que se teciam conspirações políticas e engendravam jogadas financeiras. Tudo à mistura com a sedução que sempre existe quando se juntam homens e mulheres debaixo do mesmo teto.

As soirées em casa de Maria Kruz eram as mais disputadas da cidade. Havia nelas um je ne sais quoi inigualável que atraía os maiores intelectuais do reino. Ali, encontravam público e mecenas, entre os raros aristocratas ilustrados, ministros, embaixadores, deputados e outros altos dignitários, que assim se cultivavam, ao mesmo tempo que conspiravam e flirtavam com a "creme feminil" de Lisboa. Esta assistência selecionada tornava as quintas-feiras na rua Formosa* um verdadeiro acontecimento cultural e social, o último salão literário de Lisboa e o único que poderia ser comparado aos que se organizavam em Paris.

Jean Béraud_La Soirée.jpg

 

Nessas noites memoráveis, havia espaço para a “galanteria, as eleições e as belas letras”. Com o pretexto da erudição, aproveitava-se para “intrigar um ministério”, com a mesma facilidade com que se combinavam casamentos ricos e nomeações burocráticas; enquanto se testavam atrações entre pessoas casadas, juntas no mesmo espaço de excitação para a mente e os corpos.


Era a “sociedade mais escolhida”, que congregava “a flor das letras e da política regeneradora” de meados do século XIX.


Pelos salões de Maria Kruz passaram, efetivamente, os nomes mais sonantes, como Alexandre Herculano; António Feliciano de Castilho; Bulhão Pato; José Estêvão, Rodrigo da Fonseca Magalhães e tantos outros.

 


Quando, como todas as famílias mais abastadas, se transferiam para passar o verão na frescura de Sintra, também as reuniões se deslocavam para aquele vila, chegando a ter uma cadência diária, contando com a elite ali “exilada” pelos calores estivais.


Para o sucesso destes eventos contribuía de forma decisiva o savoir-faire da dona da casa. Maria Kruz é descrita como uma “atriz primorosa”, dotada de um “rosto delicadíssimo”, uns “opulentíssimos cabelos d’ébano”, “olhos peninsulares”, conjugados com a “mobilidade nervosa de uma boca sardónica, onde se engastavam pérolas de Ceilão”. As suas indumentárias eram sempre das mais notadas, mas a sua erudição nada devia à sua beleza.

Jean Beraud_Le Concert Prive.jpg

 

 

A sua principal virtude parecia advir de ser “uma mulher de espírito”, a verdadeira alma destas festas, pela forma requintada como recebia e se sabia insinuar perante os convidados.

Ramalho Ortigão dizia com humor que a “intervenção senhoril” desta senhora deu, por algum tempo, à política portuguesa, “uma leve atmosfera de delicadeza e de graça”, um “fugitivo odore de femina”, um polimento resultante da sua “amabilidade perante o prestígio político”.


Para o mesmo escritor, o “centro intelectual” na rua Formosa “exerceu na educação nacional uma influência doce e benéfica”, sendo que, durante muitos anos, era pela escada atapetada do palacete de Maria Kruz que “os literatos com algum estilo e respetiva pera iam a deputados e a ministros”.

Jean Béraud_Soiree in Hotel Caillebotte.jpg

 

 

Passos_Manuel,_Almeida_Garrett,_Alexandre_Herculan

Entre os intelectuais mais distintos estava o escritor e político Almeida Garrett (ao centro, entre outros habitués), que ali chegou a apresentar em primeira mão alguns dos seus escritos, encenados no próprio local ou noutro espaço igualmente seleto por um grupo da mais alta estirpe, assim encarnando as personagens criadas pelo autor.


Garrett não terá apenas passado pelos salões, tendo-se detido noutras partes da casa, alegadamente a sós com a própria Maria Kruz, casada com D. Pedro Pimentel de Brito do Rio, testamenteiro de Garrett. As más línguas brincavam que o escritor "morreu nos braços da Krus a olhar para a Luz" – aludindo à jovem viúva Viscondessa da Luz, a sua musa nos últimos tempos.

Resta saber se os boatos em torno da reputação de Maria Kruz não se destinavam apenas a denegrir a imagem de uma mulher com pretensões intelectuais pouco comuns às do seu tempo e mal-vistas pelos mais conservadores.

 

À margem
O salão de Maria Kruz foi o derradeiro de uma época que começou a declinar em meados do século XIX, caracterizada por grandes e opulentas festas, jantares, bailes, espetáculos musicais (nomeadamente ópera) e de teatro privados. Os levados a cabo pelo Conde de Farrobo, Joaquim Pedro Quintela, atingiram dimensões quase lendárias, mas também os marqueses de Penalva, os condes de Sabugosa, os duques de Palmela ou os marqueses de Fronteira recebiam nos seus palácios uma sociedade "especial", mas onde se incluíam os intelectuais do momento.

Josefa Kruz.jpg

Josefa Kruz, condessa de Ficalho, (na imagem) também tentou seguir as pisadas da mãe, mas os tempos eram outros. A “velha guarda” já não se encontrava sozinha, tinha de conviver com certas classes ascendentes pela política ou o dinheiro, que prefeririam ignorar. Era uma sociedade "mais mesclada", menos homogénea e previsível no que isso tinha de bom e de mau.

Na segunda metade do século XIX, os cafés – e mais tarde as tipografias dos jornais - viriam a substituir algumas das funções dos salões, passando a ser poiso preferencial dos escritores e fazedores de opinião.

Ao contrário dos salões, que só eram frequentados por quem era do meio ou convidado de alguém nessa condição, os cafés eram públicos, embora os mais afamados tivessem clientela selecionada e até uma hierarquia de mesas, oficiosamente imposta pelos intelectuais, habitualmente avessos a essas formalidades.

“Ninguém se demorava à porta do Marrare [do Chiado] sem haver ganho celebridade e sem ter lenda”, ao passo, que no Martinho da Arcada, não era indiferente estar numa ou noutra mesa: havia a mesa dos literatos grandes, a dos regulares, a dos baixos e a mesa da missanga dos literatos”.
Mas isso é outra história...

 

 

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*O edifício é o antigo palácio dos Viscondes de Lançada, que seria depois a sede do jornal O Século.


Já aqui antes falei de outras soirées, bem mais picantes que estas, na casa de Dona Cláudia e no Palácio do Conde de Magalhães

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Fontes
Memórias I, de Raúl Brandão, Edições Vercial – 2010-2012. Parcialmente disponível em:
https://books.google.pt/books?id=5qJ9AgAAQBAJ&pg=PA108&lpg=PA108&dq=%22maria+kruz%22+formosa&source=bl&ots=U8yTDwXgIn&sig=ACfU3U3Us_VsZE-7F9FlHkLWwj6HDHQ-oQ&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwiCz_bA9IzlAhXE2eAKHRe8A8MQ6AEwB3oECAkQAQ#v=onepage&q=%22maria%20kruz%22%20formosa&f=false


Lisboa de outros tempos, e figuras e scenas antigas; de Pinto de Carvalho (Tinop); Livraria de António Maria Pereira – Editor – 1898; edição 2008. Disponível em:
https://archive.org/details/lisboadoutrostem01carv_0/page/n10

 

Cartas de Lisboa, de Carlos Malheiro Dias 1875-1941; Lisboa, Livraria clássica editora de A. M. Teixeira. Disponível em: https://archive.org/stream/cartasdelisboa00diasgoog/cartasdelisboa00diasgoog_djvu.txt
Sobre os intelectuais portugueses do século XIX – do vintismo à regeneração de Maria de Lourdes Lima dos Santos, in Análise Social; vol XV (57), 1979 1º; 69-115. Disponível em: http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223989683G4pJI3dx8It15TY4.pdf

 

Biblioteca Nacional de Portugal
As farpas, de Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz; Typ. Universal, 1871-1883. Disponível em: http://purl.pt/256

Hemeroteca Digital de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/


Diário Illustrado
10º ano; nº 2:944 - 24 jul. 1881

A semana de Lisboa – suplemento do Jornal do Comércio
n~1 – 1 janeiro 1893

Brasil-Protugal
nº152 – 16 mai. 1905

http://memoria.bn.br/pdf/377880/per377880_1918_00007.pdf
Panoplia – magazine mensal ilustrado
AnoII, nº7, -1918

 

http://contosparaquemquiserouvir.blogspot.com/2013/04/a-extremadura-portugueza-parte-ii-1.html

 

http://inlisboa.tripod.com/cur_historicas.htm

 

https://geneall.net/pt/nome/142312/maria-josefa-de-sao-diogo-francisca-antonia-pacheco-krus/


Imagens
As imagens 1 a 4 são meramente ilustrativas da época e tipo de vivência, não correspondem aos acontecimentos e pessoas mencionadas. São pinturas de Jean Beraud obtidas em
https://www.tuttartpitturasculturapoesiamusica.com/2012/02/jean-beraud-1849-1935-french.html

e
https://pixels.com/featured/jean-beraud-paris-a-la-belle-epoque-artistic-rifki.html


Imagem 5
Passos Manuel, Almeida Garrett, Alexandre Herculano e José Estevão de Magalhães por Columbano Bordalo Pinheiro [pormenor]. Óleo sobre tela concluido em 1926. Passos Perdidos, Assembleia da República. Fotografia de Laura Castro Caldas e Paulo Cintra obtida em
https://commons.wikimedia.org


Imagem 6
https://geneall.net/pt/nome/142312/maria-josefa-de-sao-diogo-francisca-antonia-pacheco-krus

 

Instantâneos (45): como girassóis, à espera da luz

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Imóveis, subjugados por pesos e amarras. Todos os dias, à mesma hora, numa rotina entediante, mas esperançosa de um futuro sem dores ou deformações. Por vezes, logo de manhazinha, um arrepio de frio faz eriçar os pequenos pelos dos braços e pernas e quase se bate o dente, até que o sol começa a acariciar a pele e lhe transmite a seu calor, conciliando impaciências e ajudando a suportar outra jornada, sempre igual e previsível, no Sanatório Marítimo do Norte.

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Se o clima ajudava e a saúde o permitia, um pequeno bando saltitava como pardalitos, palrando até ao mar. Brincavam, riam, molhavam-se uns aos outros e tudo parecia normal, exceto para os obrigados a quedar-se na varanda solário.

Outras vezes, a monotonia era interrompida pelas sessões de aprendizagem, por uma peça de teatro, um número musical ou outra atividade artística ensaiada pelos pequenos, pela equipa que deles tratava com desvelo ou por um grupo externo. (na imagem).

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Era assim, rotineiro e previsível, o quotidiano no Sanatório Marítimo do Norte, fundado em 1917 para tratar a tuberculose óssea, doença altamente incapacitante e muito comum na época.

Vindas de todo o País, recebia sobretudo crianças, quebradas pela enfermidade, frequentemente inconformadas por não conseguirem fazer o que as crianças saudáveis mais gostam de fazer: correr livremente, pular…

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As estadias eram habitualmente demoradas e longe das famílias, sem recursos para acompanhar os seus filhos.

Com o passar das semanas, dos meses, o acolhimento cuidado e caseiro de que eram alvo ajudava a suportar, a aceitar mesmo, o dia-a-dia, marcado por horários rigorosamente cumpridos de exposição ao sol e fisioterapia necessárias a uma recuperação tão ansiada.


Localizado em Francelos (Vila Nova de Gaia), o sanatório tinha uma alta taxa de sucesso, o que contribuía para uma quase resignação dos habitualmente inquietos pequenos utentes. Foi igualmente pioneiro na educação em meio hospitalar, tendo mesmo uma professora residente.

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Foi fundado pelo médico Joaquim Gomes Ferreira Alves, com a ajuda de diversos mecenas e após ter conseguido curar um seu filho, escrofulo-tuberculoso, através do efeito benéfico da luz solar (helioterapia) e dos banhos de mar, conjugados com pressões e manipulações das zonas afetadas. Funcionou até 1978.


No Sanatório Marítimo do Norte havia um jornal interno, simbolicamente intitulado O Girassol. Como aquelas grandes flores amarelas, também as crianças ali internadas viviam em função do sol, à espera do milagre.

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Já aqui falei de escrofulismo.

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Fontes
Gaia pioneira na educação em meio hospitalar: O ensino no sanatório, de Anabela Amaral; in A História da Educação em Vila Nova de Gaia; coordenação de Cláudia Pinto Ribeiro e Francisco Miguel Araújo, Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória; jun. 2017. Disponível em https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/15519.pdf

 

O Sanatório Marítimo do Norte e a Clínica Heliantia de Valadares.
Arquitectura, Património e Saúde, de Nuno Ferreira; Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória – Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Disponível em http://www.citcem.org/encontro/pdf/new_02/TEXTO%20-%20Nuno%20Ferreira.pdf

 

Imagens
Arquivo Municipal do Porto
http://gisaweb.cm-porto.pt/

D-PST/2586
D-PST/2702
D-PST/2699
D-PST/3057
D-PST/2704

O dia em que as obras-primas portuguesas foram por água abaixo

satira rafael bordalo pinheiro 1.JPG

O naufrágio do Saint André, que transportava a arte portuguesa exposta em Paris, foi o culminar de uma participação nacional envolta em casos e polémicas.

 

Dezenas de obras de arte – as melhores e mais ilustrativas do génio de Portugal na viragem para o século XX - mas também documentos insubstituíveis, desapareceram para sempre no dia 24 de janeiro de 1901, numa catástrofe que, curiosamente, pouco  eco teve nos jornais da época, ocupados que estavam com a morte da Rainha Vitória. Tudo se deveu ao estranho naufrágio do vapor Saint André, um colossal desastre cultural chorado até hoje, mas que acabou por ser encarado como mais uma das polémicas de maior ou menor dimensão que rodearam a participação de Portugal na grande Exposição Universal de Paris, em 1900.

satira rafael bordalo pinheiro 2.JPG

 

Efetivamente, devido a adversas condições climatéricas e de mar ou à muito apontada pouca solidez, o navio naufragou e, com ele, todo o precioso carregamento, pois havia sido fretado pelo governo português para trazer de França as obras-primas que haviam estado patentes no certame.

As dificuldades de navegabilidade acompanharam toda a viagem, desde o porto Le Havre, mas foi já junto à costa portuguesa que, enfrentando maiores perigos, o Saint-André foi abandonado pela tripulação.

De Lisboa, para tentar o resgate, ainda foi enviado o arrastão Berrio, mas em vão.

Deixado à deriva, o vapor foi arrastado e terá afundado algures a Sul de Portugal, à vista de Sagres.

 


Parte do casco, um barril de óleo mineral e um remo foi tudo o que foi encontrado. Da preciosa e inigualável carga, nem sinal.

O levantar de uma armacao de atuns D Carlos de Bra

 

 

Belíssimos quadros de Malhoa; Columbano; Carlos Reis; Alfredo Keil; Alberto Pinto; Sousa Pinto; Veloso Salgado; Carneiro Júnior e muitos outros, entre os quais o próprio rei D. Carlos.

Concerto de amadores Columbano Bordallo Pinheiro .

 

 

 

Esculturas de [António] Teixeira Lopes; José Teixeira Lopes (pai e filho); Tomás Costa; António Alves Pinto.

Cerâmica e azulejaria de grande qualidade e beleza, nomeadamente da Real Fábrica Vista Alegre, Fábrica das Devesas (Vila Nova de Gaia); Cerâmica do Carvalhinho (Porto), Faianças das Caldas da Rainha, Fábrica de Louça de Avelino António Soares Belo, e também azulejos antigos pertencentes a coleções particulares.

 

 

a passagem do comboio Jose Malhoa.jpg

 

No conjunto, estas preciosidades compunham a orgulhosa representação portuguesa e algumas chegaram mesmo a ser distinguidas pelo júri parisiense, vendo o seu valor artístico reconhecido com a atribuição de medalhas.

Só se salvaram as poucas que seguiram para Portugal por outra via ou se desviaram da sua rota destrutiva, como o quadro “As padeiras”, de José Malhoa, que rumou para outra exposição, na Rússia.

 

 

jose malhoa os oleiros.jpg

 

 

Mas, se no campo da arte a perda foi monumental, o que dizer quando se sabe que debaixo de água ficou também mobiliário e toda a documentação pessoal de Eça de Queiroz?

Pois que, após a morte do escritor, em agosto de 1900, a viúva decidiu aproveitar a “boleia” para trazer para o nosso País aqueles bens que haviam permanecido na casa onde Eça passou os seus últimos dias, em Neuilly-sur-Seine, perto de Paris.

 

De Eça perdeu-se também um pequeno mas expressivo retrato que dele traçou Columbano Bordallo Pinheiro.

Este acontecimRetrato de Eca de Queiroz Columbano Bordalo Pinheiento, sobre o qual alguns se apressaram a culpar os comissários portugueses na exposição, por alegadamente terem atirado as obras-primas nacionais para o "primeiro xaveco que lhes apareceu", sem cuidado ou atenção, foi o culminar de um processo deveras atribulado e polémico, que começou com a escolha da equipa, mais por questões políticas do que por capacidades ou experiência demonstradas, passando pela “quantia ridiculissíma” atribuída para a representação e pela seleção da traça arquitetónica dos pavilhões, respetiva localização – numa zona com pouco ou nenhum destaque - e as obras neles a figurar.

 

 

Uma lista interminável de controversias que, lamentavelmente, se repetem de cada vez que o nosso País se faz representar, seja em exposições, mundiais de futebol ou Jogos Olímpicos Nada de novo, portanto.

Mas, e não será isto comum a todas as nações?


À margem

pavilhao portugues - o occidente.JPGFoi na Exposição Universal de 1900 que os pavilhões de Portugal foram, pela primeira vez, desenhados por um arquiteto português. Provavelmente, enquanto o foram por estrangeiros não houve tanta discussão sobre a escolha do modelo.

Ao concurso público – com uma minúsculo prazo de 25 dias – concorreram numerosos arquitetos e outras tantas visões. O principal a reter é que foi nesta participação também que se fez uma rutura com as referências do estilo manuelino que haviam norteado os pavilhões lusitanos até aqui.

Tratava-se de conceber o pavilhão das colónias portuguesas e o pavilhão das matas, caça e pesca. O vencedor foi o arquiteto Ventura Terra, mas não faltaram logo imensas vozes a acusar a sua proposta de ser pouco portuguesa, chovendo críticas. Houve até quem comparasse o pavilhão das matas, caça e pescas a um “ferro de engomar” e Rafael Bordallo Pinheiro satirizou, apresentando o pavilhão das colónias como se de um túmulo de família se tratasse. Isto, em oposição à ideia apresentada por Raul Lino, autor de um traço que, embora tenha ficado em terceiro lugar, agradou a muitos porvisconde de faria.jpg conter em si diversos elementos da “casa típica portuguesa”, numa “miscelânia” mais identificável com Portugal.
No global, embora o inspetor geral da participação portuguesa fosse Ressano Garcia, a maior parte dos detratores apontou o dedo ao Comissário Cultural, o visconde de Faria (Augusto de Faria), curiosamente, o mesmo homem que Eça de Queiroz foi substituir no consulado de Portugal em Paris e de quem ficou com péssima impressão, em especial devido à sua "tremenda" mulher.

O mesmo indivíduo que era depois (injustamente?) apontado como causador de todos os males, nomeadamente do naufrágio que fez desaparecer para sempre os documentos do escritor e que Rafael Bordallo Pinheiro ridicularizou, criando à sua imagem um boneco oscilante, um paliteiro com ar de pavão inchado
Mas isso é outra história...


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Fontes

Portugal na Exposição de Paris, de José de Figueiredo; Empresa da História de Portugal, Lisboa 1901 – University of Toronto University. Disponível em https://ia802907.us.archive.org/31/items/portugalnaexposi00figuuoft/portugalnaexposi00figuuoft.pdf

Os pavilhões de Portugal nas exposições universais, de Isabel Maria de Moura Anjinho Marques dos Carvalhos; tese de Mestrado em História da Arte - Seminário: “Arte e celebração: o efémero e o durável”; Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – 2006. Disponível em https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:gBbxWgh2XswJ:https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/31086/1/Os%2520pavilh%25C3%25B5es%2520de%2520Portugal%2520e%2520as%2520exposi%25C3%25A7%25C3%25B5es%2520universais.pdf+&cd=1&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt


O azulejo enquanto objeto museológico, de Patrícia Nóbrega Pereira, Trabalho de Projecto de Mestrado em Museologia; Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade Nova de Lisboa – Mar. 2013. Disponível em https://run.unl.pt › bitstream › az_obj_museologico

Eça de Queiroz, uma biografia, de Maria Filomena Mónica, Livros Quetzal 2001 - tradução em inglês Alyson Aiken; Tamesis - Boydell & Brewer Lda. - 2005. Parcialmente disponível em: https://books.google.pt/books?id=sHOWt1vNwmoC&pg=PA412&dq=e%C3%A7a+de+queiroz+uma+biografia+maria+filomena+m%C3%B3nica&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwi0zvWS5OfkAhWWD2MBHWpQCvoQ6AEIOjAD#v=onepage&q=e%C3%A7a%20de%20queiroz%20uma%20biografia%20maria%20filomena%20m%C3%B3nica&f=false

 

Le Portugal à la Exposition, nº1 - 23 mar. 1900. Disponível em:

https://www.oasrs.org/media/uploads/ExpUniv1900.pdf



Exposições Universais – Paris 1900, de António Guerreiro; mai. 1995, Lisboa; edição Expo'98. Disponível em: cvc.instituto-camoes.pt › biblioteca-digital-camoes › arquitectura-1 › file


Arquiteturas expositivas e identidade nacional – Os pavilhões de Portugal em Exposições internacionais entre a primeira república e o Estado Novo, de Teresa João Baptista Neto – dissertação para a obtenção do grau de mestre em Arquitetura; Instituto Superior Técnico – Lisboa - mai. 2016. Disponível em https://fenix.tecnico.ulisboa.pt › cursos › dissertacao

https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:9bT5u2SlVegJ:https://alexandrepomar.typepad.com/alexandre_pomar/2010/03/cem-anos.html+&cd=11&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt

http://provocando-umateima.blogspot.com/2013/01/paris-1900-lexposition-universelle.html


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Imagens

Hemeroteca Digital de Lisboa
hemerotecadigital.cm-lisboa.pt

O Occidente – Revista Illustrada de Portugal e do Extrangeiro
22º ano; XXII Volume; nº 763 – 30 nov. 1899

A Paródia
2º ano; nº37 – 13 fev. 1901


http://lisboa-e-o-tejo.blogspot.com/2018/05/arte-portuguesa-na-exposicao-universal.html

https://geneall.net/pt/nome/36119/augusto-de-faria-1-visconde-de-faria/

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Os "pais" do Museu Pedro Nunes

museu municipal porta manuelina.GIF


Há 125 anos, um grupo de homens teve a ideia de reunir vestígios arqueológicos e outro património com o objetivo de criar um museu que contasse a longa e rica história de Alcácer do Sal.

Quem visita o renovado museu Pedro Nunes, recentemente inaugurado em Alcácer do Sal, não sabe que, embora muitas peças expostas provenham de escavações arqueológicas mais recentes, uma grande quantidade de objetos que hoje documentam a história daquela cidade se deve ao trabalho e dedicação de um pequeno grupo de homens que, há 125 anos e numa época em que os vestígios históricos não eram valorizados e tantos foram destruídos, teve a visão de preservar, reunir e divulgar testemunhos do passado desta povoação alentejana,

 

Museu municipal seccao romana e antigo estandarte.

 

Foi em 15 de outubro de 1894 que o Município de Alcácer do Sal decidiu criar um Museu Municipal, que durante muito tempo funcionou numa sala do edifício dos Paços do Concelho. No ato solene estiveram presentes José Serra Lince (à época, presidente da Câmara); Manuel Augusto de Matos, António da Costa Vila-Boim; Manuel Perez Ramirez e Francisco Vieira dos Reis, como vogais. Joaquim Correia Batista, secretariou. É precisamente este último e o padre Francisco Matos Galamba que se tornam os grandes impulsionadores do Museu, entregando para este fim comunitário objetos que já possuíam, ajudando a salvar outros em risco de desaparecimento ou vandalização e reunindo tudo numa coleção bastante diversificada.

museu municipal ceramica pre-romana.GIF

 

Dois meses após a fundação, também o município chama a sim essa tarefa agregadora, lançando um apelo à população. "Reunam e arquivem quaisquer objetos que pela sua antiguidade possam atestar a existência de antigas civilizações e servir ao mesmo tempo de auxílio a estudos científicos", desafiava José Serra Lince, lembrando que, em Alcácer do Sal, "constantemente" se encontravam "vestígios de antigas grandezas", muitos dos quais haviam saído do concelho ou encontravam-se dispersos e sem utilidade pública, nas mãos de particulares "mais ou menos cautelosos", pelo que à Cãmara, pareceu "serviço meritório e sem dispendio" proceder à recolha e catalogação destes bens.

 

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Em 1895 e 1898, José Leite de Vasconcelos, fundador do Museu Nacional de Arqueologia, em visita a Alcácer do Sal, relata os objetos então existentes no Museu, dando especial ênfase aos "pré-históricos, proto-históricos. romanos, árabes e portugueses", mas relatando também a coleção de numismatica, da qual estava responsável o Padre Matos Galamba.
Em 1914, o Museu foi transferido para o atual espaço, na Igreja do Espírito Santo, entretanto adquirida pelo município e, em 1979, ganhou o nome do grande matemático Pedro Nunes, também ele natural do concelho Alcácer do Sal.


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Durante uma tão longa história, o museu recebeu os contributos de muitos alcacerenses e passou por diversas fases.

Em 1988 apresentou ao público uma exposição permanente de objetos arqueológicos e, em 2007, encerrou devido ao elevado grau de degradação. Realizaram-se escavações arqueológicas, que resultaram em numerosos achados no interior da própria igreja, e iniciou-se o longo caminho tendente à requalificação, dando origem ao espaço agora aberto a quem o queira visitar.

Durante todos estes processos, é justo destacar, entre outros, pela responsabilidade que tiveram sobre aquele museu, os nomes de João Teles Antunes; Fernando Gomes, João Lázaro Faria e Marisol Ferreira, coordenadora municipal do atual projeto de musealização.


À margem

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Alcácer do Sal tem uma ocupação humana muito antiga e permanente. Essa realidade faz com que, a cada intervenção neste território se descubram vestígios de outras épocas e culturas. Durante séculos, esses vestígios encontrados por particulares foram sendo reunidos, outros vendidos, destruídos e outros ainda utilizados em construções modernas. Capiteis, fustes e bases de colunas romanas, assim como lápides, foram integradas em monumentos cronologicamente muito posteriores, o que é visível ainda hoje, referidamente em igrejas. Há relatos da descoberta de bases e outros fragmentos de estátuas inseridos em muros ou paredes de casas, por exemplo. A situação agrava-se porque a região é marcada pela excassez de pedra passível de utilização em construção, fazendo com que os blocos disponíveis em edifícios abandonados e ruínas rapidamente fossem "desviados" para outras edificações, como terá acontecido, nomeadamente, com as muralhas do antigo castelo e com o Convento de Aracoeli, que ali funcionou, tendo encerrado com morte da última freira, em 1874. Há até um cartaz que parece documentar a forma como, a dada altura, a câmara também contribuiu para esta delapidação do património, vendendo as pedras apeadas da antiga fortaleza a 30$ o metro cúbico.

Mas isso é outra história...

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Os meus agradecimentos a Maria Antónia Lázaro, pela informação disponibilizada.
Os meus agradecimentos a Baltasar Flávio da Silva, pela cedência desta última imagem, pertencente ao seu variado acervo documental.

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Fontes

O Archeólogo Português – Colecção Illustrada de materiais e notícias; Museu Archeológico de Alcácer do Sal – Série I, Vol. I, pg..46 – 47 - José Leite de Vasconcelos, Museu Ethnográphico Português - 1895. Disponível em:
Museu Archeológico de Alcácer do Sal


O Archeólogo Português – Excursão Archeológica a Alcácer do Sal– Série I, Vol. I, pg..65 – 92 - José Leite de Vasconcelos, Museu Ethnográphico Português - 1895. Disponível em:
Excursão archeológica a Alcácer-do-Sal: 1. De Lisboa a Alcácer: 2. Notas ethnográphicas: 3. Uma raça originária da Africa: 4. Alcácer vetus: 5. Cornelio Boccho: 6. Inscripção romana inédita: 7. Necrópole pre-romana: 8. Museu Municipal: 9. Votos e ex-votos: 10. Os Castellejos

 

O Archeólogo Português - Excursão Archeológica ao Sul de Portugal – Série I, Vol. IV, pg..103 - 134- José Leite de Vasconcelos, Museu Ethnográphico Português - 1898. Disponível em:

Excursão archeológica ao Sul de Portugal : Alcácer e arredores - Torrão - Alcaçovas - Évora e arredores

http://www.cm-alcacerdosal.pt/pt/municipio/concelho/patrimonio/museus/museu-municipal-pedro-nunes/

 

Imagens
Arquivo Municipal de Alcácer do Sal
PT/AHMALCS/CMALCS/BFS/01/01/01/325-1
PT/AHMALCS/CMALCS/BFS/01/01/01/326-1
PT/AHMALCS/CMALCS/BFS/01/01/01/327-1

Arquivo pessoal de Jorge Portugal Branco (agradecimento à família e a Maria Antónia Lázaro) - Original da carta escrita por José Serra Lince

http://www.cm-alcacerdosal.pt/pt/municipio/concelho/patrimonio/museus/museu-municipal-pedro-nunes/

 

Quando mais de mil criminosos se apoderaram de Lisboa

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Uma horda de mil criminosos esfaimados viu-se solta e arremeteu contra Lisboa, lançando o terror entre a população. Foi o dia de todos os horrores, cuja recordação marcou os piores pesadelos dos lisboetas durante muitos anos.

 

O dia 29 de abril de 1847 ficou marcado na memória dos portugueses durante décadas. Mais de mil presos, muitos perigosos, alguns armados, todos imundos, desgrenhados e famintos, dispersaram pelas ruas de Lisboa lançando num ambiente de terror a pacata população, já de si martirizada pela escassez de mantimentos e as imprevisíveis manobras militares que marcaram aqueles tempos. O caso, muito falado dentro de portas e até nos jornais europeus, traçou um quadro de descalabro do Portugal de então.

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Eram cinco horas da tarde, quando cerca de 40 homens armados, do 2º Batalhão de Sapadores, acompanhados por alguns soldados da guarda, exigiram, em altos brados, a abertura dos portões do Limoeiro, com o pretexto de acudir a uma desordem no interior da cadeia. Ao mesmo tempo, disparavam tiros para o interior, atingindo logo o carcereiro e o guarda da porta. Deu-se a entrada do grupo, que facilmente se terá apoderado das chaves e conseguido abrir as portas interiores e libertar todos os prisioneiros.
A facilidade com que tudo aconteceu, aliás, levantou suspeitas de conivência interna, chegando a garantir-se que as celas estavam escancaradas e os guardas não ofereceram qualquer resistência aos invasores.
O objetivo da incursão era soltar os presos políticos, cerca de centena e meia, que ali estavam na sequência das conturbadas movimentações dos meses anteriores, mas o resultado foi libertar 1026 detidos da pior espécie, entre assaltantes e assassinos, mais uma multidão indiferenciada que arremeteu contra todos os que tiveram o azar de lhes aparecer ao caminho.

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Um grande grupo rumou ao Castelo de São Jorge, então também cadeia, que se pretendia atacar de surpresa. Os planos saíram gorados, devido à prontidão de um sentinela, que deu o alarme e levou à debandada da turba esfaimada em direção "às barracas da Graça".
Rapidamente, foram enviadas tropas para deter esta destrutiva horda, mas muitos estragos estavam já feitos e dos confrontos entre foragidos e perseguidores resultaram mais danos e a perda de vidas.


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Pouco tempo depois foram recapturados os primeiros 42 fugitivos e, até ao final da noite do dia 30, cerca de 600 haviam já sido recolhidos ao cárcere. Três dezenas foram mortos. Um número significativo conseguiu sair da cidade, quer por estrada, quer atravessando o Tejo, rumo ao Sul. Dos presos políticos, que efetivamente se pretendia soltar, 16 recusaram sair do Limoeiro e participar no que classificaram como "ultrajante tentativa de fuga".


Se, uma semana antes destes acontecimentos os jornais ingleses já afirmavam que o estado da Capital portuguesa era "assustador", nomeadamente porque grande parte da população não tinha o que comer, face ao aumento rápido e avassalador do preços dos alimentos e à brutal desvalorização da moeda, que remeteu muitos à mendicidade, imagine-se então como ficaram as coisas após a investida da furiosa turbamulda...

À margem

D maria II.jpgEste estado de coisas, garantiam os mesmos jornais estrangeiros, originou uma enorme "animosidade" em relação à rainha (D. Maria II), apontada como causadora de todos estes males.
Efetivamente, foram tempos de grande perturbação e violência. Entre as primaveras de 1846 e 1847 sucederam-se tumultos*, com início em zonas rurais do norte do País e que rapidamente se propagaram a todo o território. Ainda não estavam sanadas as feridas deixadas pelas guerras entre liberais e absolutistas, já os portugueses se revoltavam contra um conjunto de leis lançadas pelo denominado governo dos Cabrais (os irmãos António Bernardo da Costa Cabral e José Bernardo da Silva Cabral): desde o aumento de impostos a alterações no recrutamento militar e à polémica proibição dos enterros nas igrejas.

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Como é habitual nestas situações, as diferentes fações políticas "cavalgaram" a onda, chamaram a si os seus apoiantes e, entre quedas de governos, suspensão de garantias constitucionais, golpes e intrigas várias, não se coibiram de pegar em armas e colocar o País a ferro e fogo.
O ambiente só apaziguou quando D. Maria II conseguiu o compromisso da Quadrupla Aliança (França, Espanha e Inglaterra) de apoiar os seus propósitos e ajudar a conter os revoltosos, o que acabaria por acontecer, tendo a rainha sido obrigada a aceitar os termos impostos pelos aliados (Convenção do Gramido). A 10 de junho de 1847, proclamava uma espécie de amnistia geral para os suspeitos de implicação em tão nefastos eventos....mas só em teoria, porque não tardaram represálias e vinganças sobre os mesmos.
Quanto ao Limoeiro, os guardas foram ilibados juridicamente de qualquer participação na fuga, mas a prisão continuou a ser o espaço sobrelotado e degradante a todos os níveis que já era, cói de propagação de todas as doenças e vícios.
Mas isso é outra história...


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* Do muito que aconteceu nesta época, alguns epítetos ficaram para a história: “revolução da Maria da Fonte”; “a emboscada” e a “guerra da Patuleia” foram alguns dos acontecimentos que marcaram este período conturbando.

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Fontes
The Illustrated London News – Vol 10 – Jan-jun 1847; Publicado por William Little; Stanford University Libraries - Hoover Institution. Disponível em: https://books.google.pt/books?id=1dFCAQAAIAAJ&pg=PA258&lpg=PA258&dq=1847+limoeiro+jail+escape&source=bl&ots=IUiVWyfvHc&sig=ACfU3U016dr8w11UQ0lrkPTxG4vdt2r8tQ&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwjDgYDU0dXkAhXTAGMBHUqjDfQQ6AEwEHoECAgQAQ#v=onepage&q=limoeiro&f=false

 

A Matraca – Periódico Moral e Político – do nº 1 - 15 ago. 1847 ao nº59 - 22 mar. 1848. Disponível em Stanford University Libraries: https://books.google.pt/booksid=GyU9AQAAIAAJ&pg=PA175&lpg=PA175&dq=limoeiro+1847+fuga+matraca&source=bl&ots=8QTfqXfGBz&sig=ACfU3U2AI7qiv9DxkgRTUpA1Ku441TyraQ&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwi8ofKOl9rkAhWR8uAKHZKoC1oQ6AEwCnoECAkQAQ#v=onepage&q=limoeiro&f=false

 

Hemeroteca Digital de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

O Espectro
nº44 – 1 mai. 1847
nº56; 11 jun. 1847


https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_da_Maria_da_Fonte

Imagens

D. Maria II
Arquivo Nacional Torre do Tombo
TT,SNI, Arq. Foto. 68589


http://antt.dglab.gov.pt/exposicoes-virtuais-2/nascimento-de-d-maria-ii/

 

https://books.google.pt/books?id=9S gDwAAQBAJ&pg=PT192&lpg=PT192&dq=limoeiro+abril+1847&source=bl& ts=aicg1MU-MH&sig=ACfU3U1zWKKm9s3z4GPYlSI8SrmbQyP1fA&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwiC16qw2tPkAhWDDGMBHf11Bj0Q6AEwCXoECA QAQ#v=onepage&q=1847&f=falseClose

https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_da_Maria_da_Fonte#/media/Ficheiro:Maria_da_Fonte.jpg


https://pt.wikipedia.org/wiki/Patuleia#/media/Ficheiro:Patuleia.jpg


Cadeia do Limoeiro
Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Desenho de J. R. Cristino, gravura de Oliveira
Fotografia de Eduardo Portggal
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/EDP/002087

Biblioteca Nacional de Portugal
www.purl.pt

Lisboa, Largo do Loreto, meados do século XIX

BN E. 3351 P