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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Instantâneos (56): a ocasião agarra-se pelos cabelos

 

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Esguia, fugidia, esquiva, mas insinuante. Parece brincar connosco. Tal como na vida, a Ocasião ali está, mas no momento seguinte pode já ter seguido viagem. Perdeu-se, foi provocar outro mais rápido que nós, que eventualmente a agarre pelos cabelos e dela desfrute. Ao centro da galeria dos reis, parecendo voar sobre o tanque grande, desafiando os monarcas portugueses, que a observam sem a poder apanhar. Elemento tão delicado, quase etéreo e, apesar do lugar de destaque, praticamente oculto no seu cinza-chumbo, que se perde na explosão de cores dominante nos jardins do Palácio Fronteira, em Lisboa.

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Poderia falar de milhares de pormenores históricos e artísticos deste monumento extraordinário, dos azulejos com temáticas tradicionais e inusitadas, das dezenas de esculturas e outras representações, de soberanos, cavaleiros, deuses, musas e outras figuras mitológicas; dos belos painéis que, na sala das batalhas, retratam os feitos dos Mascarenhas, senhores desta casa. Poderia falar dos curiosos embrechados, da casa de fresco, da capela, da biblioteca debruçada sobre o jardim, na área privada onde ainda moram os marqueses de Fronteira….

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Mas, foi a Ocasião que mais me intrigou. E terá sido ela o princípio de tudo, porque, conta a história, foi o facto de D. João de Mascarenhas, 2º Conde da Torre, ter agarrado a oportunidade de ajudar a subir ao trono quem parecia mais bem preparado para o ocupar (D. Pedro II) e não quem se seguia na linha de sucessão (D. Afonso VI)* que lhe valeu o título de 1º Marquês de Fronteira, fazendo-o ganhar destaque e importância, mais ou menos na altura em que se construiu este palácio, criado originalmente como pavilhão de caça, às portas da Capital. O busto de D. Fernando, o Infante Santo, olha a Ocasião pelas costas, sacrificado que foi pelo bem maior de Portugal, como o rei que o Marquês ajudou a depor*.

E, não foi por D. Afonso Henriques se ter apoderado do seu momento que somos Portugal? E por D. João IV ter feito o mesmo que aqui estamos todos a falar português e não castelhano?

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A figura apresenta-se-nos numa posição quase incómoda, contorcida, em movimento. Sublinhando essa deslocação incessante, tem asas nos pés nus, um no ar e outro sobe uma esfera, que fantasiosamente gira sem parar. O seu corpo curva-se, como se fosse puxada para diante e hesitasse em ficar. O cabelo esvoaça em frente, mais longe e inalcançável, pois seria ali que se deveria agarrar quem quisesse apanhar a oportunidade, a chance, o ensejo, a fortuna, enfim, o instante irrepetível que faz toda a diferença. Na mão, uma navalha que nos pode ferir à mínima distração, porque a ocasião é assim, uma faca de dois gumes que nos pode garantir a vida ou matar, sem apelo ou agravo, num ápice.

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……….

*D. Afonso IV subiu ao trono em 1656, apenas 16 anos após a restauração da Independência de Portugal. As suas alegadas incapacidades mentais e físicas, até para consumar o casamento, foram usadas para o afastar do poder. Esteve preso, a mando do irmão e seus partidários, até morrer. O que viria a ser D. Pedro II usurpou-lhe o trono e a mulher, com quem casaria.

 

**D. Fernando era o filho mais novo de D. João I e de D. Filipa de Lencastre – a Ínclita geração. Em 1437 participa na conquista do Norte de África, com o irmão D. Henrique. Face à derrota, fica preso como penhor da entrega de Ceuta pelo outro irmão, então rei de Portugal, D. Duarte. Tal troca nunca se fez e D. Fernando acabaria por morrer numa prisão em Fez.

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Fontes

Visita guiada ao palácio e jardins

http://www.fronteira-alorna.pt/

Ações de Salvaguarda e Reabilitação do Património: O Exemplo do Palácio Fronteira; dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Reabilitação da Arquitectura e Núcleos Urbanos de Joana de Avelar Teixeira Califórnia Quintas; Universidade Técnica de Lisboa; Faculdade de Arquitetura; Lisboa – 2011. Disponível em www.repository.utl.pt 

https://blogazlab.wordpress.com/category/palacio-fronteira-fronteira-palace/

http://cdn-ondemand.rtp.pt/nas2.share/legendas/video/programas/gmemorias/gmemorias_1_20150502.txt

https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando,_o_Infante_Santo

https://pt.wikipedia.org/wiki/Afonso_VI_de_Portugal

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_II_de_Portugal

Imagens

Visite du Jardin du palais des Marquis de Fronteira; Silence, ça pousse!, France 5, com Vanda Anastácio.

https://fronteira-alorna.pt/saber-mais/

Febre-amarela em Lisboa e quarentenas na Margem Sul

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Desinfetados, explorados pela criadagem, guardados por militares, mortos de tédio e isolados o tempo que fosse preciso para afastar perigo de contágio. Assim era a quarentena dos que chegavam a Lisboa em navios suspeitos de trazerem maleitas exóticas passíveis de se disseminarem pela nossa população

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Portugal foi, ao longo da história, vítima de numerosas e trágicas epidemias vindas de terras mais ou menos distantes. Como a principal “porta” de entrada de pessoas e mercadorias em Portugal era o Tejo, o centro para desinfeção e quarentena foi construído perto da Capital, mas a suficiente distância para a proteger de contágios. A escolha recaiu sobre a Margem Sul e o medo da febre-amarela fez com que as instalações crescessem e se modernizassem, embora todos os que ali foram obrigados a permanecer se queixassem das acomodações, do isolamento e até da exploração a que eram sujeitos pela chusma que vivia dos pagamentos e esmolas dos viajantes “presos” no Lazareto de Lisboa. Rafael Bordallo Pinheiro, chegou a escrever um livro humorístico sobre a sua experiência em tal hospedagem.

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Até ao século XVIII, o controlo da entrada de doenças era feito na Trafaria, tendo depois passado para a Torre Velha (São Sebastião de Caparica) e desta para a zona de Porto Brandão. Durante muito tempo, no entanto, as pessoas suspeitas de portarem maleitas faziam as suas quarentenas aguardando em pontões sem condições, amontoadas em instalações imundas e exíguas para tanto movimento marítimo.

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Um surto de febre-amarela, ocorrido em Lisboa, ia o século XIX a meio, empurrou o poder político para obras de beneficiação no lazareto, tal foi o alarde social provocado pela horrível doença hemorrágica, também conhecida como “vómito negro” (ver À Margem). Durante os 50 anos que se seguiram, foram várias as intervenções destinadas a melhorar as condições de atracação de navios, capacidade de acolhimento, isolamento, tratamento e desinfeção.

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Assim que as embarcações suspeitas de trazerem moléstias contagiosas atracavam, os passageiros eram forçados a dirigir-se à zona da alfândega.

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Nos armazéns ali existentes, as suas roupas e todos os pertences tinham que passar pela “beneficiação”, assim se chamava a desinfeção a que eram sujeitos, “pelo ar, por meio de ventoinhas mecânicas; pelo calor nas estufas Geneste & Herscher, ou pela ação do ácido sulfuroso”, que mataria as “bactérias inimigas”. A bagagem, por vezes de 300 a 400 pessoas a cada vez, seguia o mesmo tratamento.

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As acomodações - distintas consoante a classe em que se viajava – e a cozinha, com capacidade para servir mil refeições em simultâneo, ficavam num patamar superior, sobranceiro ao rio. Cada “quarentena” era um espaço independente, para evitar contactos com o exterior. Circundava-as um caminho de ronda, para que os ocupantes pudessem ser vigiados e facilmente apanhados, caso tentassem fugir deste repouso compulsivo. Para esse fim, existia um destacamento militar ali instalado.

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Havia capela, hospital com enfermaria de isolamento para casos suspeitos e “barracas de madeira e argamassa” para os serviçais, carvoeiros e estivadores dos navios sob suspeita também pudessem fazer a sua quarentena, mas sem se misturarem com os passageiros. Havia ainda um cemitério destinado exclusivamente aos que, ali entrando doentes, não resistissem ao mal.

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No início do século XX, o Lazareto de Lisboa era o nosso bastião contra as invasões epidémicas, mas continuava a ser visto como uma espécie de hotel-prisão para os viajantes, que receavam os incómodos e atrasos, para além de se queixarem do seu dinheiro ser extorquido pelos criados, os carregadores, os catraieiros, que transportavam a Lisboa quem já tinha ordem de soltura, o capelão e até a própria instituição, onde tudo se pagava.

Aproveitando o facto de nenhum privado ter concorrido à exploração do Lazareto, nomeadamente do serviço de refeições, António Homem de Vasconcelos, que ali foi inspetor durante várias décadas, impôs um regime autónomo que chegou a dar muito e bom lucro ao Estado, cobrando valores classificados como exorbitantes aos que ali eram obrigados a estar.

Do que ninguém se queixava e constituía, aliás, o único bálsamo para as pobres almas ali detidas, era da extraordinária paisagem que se abria perante os seus olhos. De Cascais ao Mar da Palha, um rio vasto e cristalino sob um céu tão azul quanto inatingível.

E em frente, Lisboa. Bela, imponente, plena de movimento e vida. O destino que todos desejavam alcançar, ali tão perto e impossível de obter antes de uma espera que parecia interminável, mas que era preciso aceitar, para o bem de todos.

 

 

À margem

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A epidemia de febre-amarela, que grassou em Lisboa, em 1857 – seguindo dois pequenos surtos no ano anterior, no Porto e também na Capital – matou mais de 5.500 mil pessoas, num total de 15 mil doentes, entre julho e dezembro. Os primeiros a tombar foram os trabalhadores da Alfândega, o que reforçou a ideia de a doença ter uma origem externa, provavelmente no continente americano. Os bairros mais afetados foram os populosos aglomerados da zona ribeirinha – Anjos, São José, Coração de Jesus, Sé e Santa Catarina. Como é compreensível, o terror foi geral. As autoridades encerraram as escolas, limitaram os espetáculos e outros divertimentos, restringindo igualmente os contactos dos quarteis, asilos e prisões com o exterior, o mesmo para as instalações de assistência da Santa Casa da Misericórdia e da Casa Pia de Lisboa. Mas, sinal dos tempos, multiplicaram-se as missas, procissões e preces coletivas. O rei, à época D. Pedro V, fez questão de estar em todos os locais onde a doença apareceu, disponibilizando verbas próprias para ajudar os mais desprotegidos. Jovem e belo, apareceu ao povo como um anjo salvador. Não admira o desespero, a revolta e a profunda consternação que a sua inesperada morte, com febre tifoide, provocou em todo o reino.

Mas isso é outra história…

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Fontes

Hemeroteca Digital de Lisboa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

Branco e Negro

2º ano; Nº 60 – 23 mai. 1897

Texto de António Frazão

 

Brasil-Portugal

Nº23 – 1 jan. 1900

Illustração Portugueza

Nº172 – 7 jun. 1909

 

Biblioteca Nacional de Portugal

www.purl.pt

No Lazareto de Lisboa, de Rafael Bordallo Pinheiro; Empreza Literária Luso Brazileira – Editora ; Lisboa - 1881

http://www2.insa.pt/sites/INSA/Portugues/Biblioteca/BiblioDigit/Paginas/BancodeimagensdosArquivosINSA.aspx

 

0 imaginário social das epidemias em Portugal no seculo XIX, de Júlio Joaquim da Costa Rodrigues da Silva Professor Associado da F.C.H.S. da Universidade Lusíada de Lisboa; Lusíada. História. Lisboa. II Serie, n. 0 1 (2004). Disponível em revistas.lis.ulusiada.pt › 

 

Turismo de cruzeiros em Lisboa: uma abordagem antropológica; Dissertação submetida como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Antropologia Urbana de Alexandra Duarte Baixinho; 2008. Disponível em https://repositorio.iscte-iul.pt

Instantâneos (55): quando um leopardo andou à solta por Lisboa

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Imagine-se a trabalheira e risco inerentes ao transporte em carroça de dezenas de animais selvagens…Nos primeiros anos de existência, o Jardim Zoológico de Lisboa mudou duas vezes de instalações e, durante a transferência entre a zona da Palhavã (atual Fundação Calouste Gulbenkian) para a quinta das Laranjeiras aconteceu o que todos temiam. Um leopardo saltou da sua jaula ainda inacabada e semeou o caos e o pânico entre os lisboetas. Foi preciso um enorme aparato militar e civil para o apanhar e, no fim, não foi só a fera que ficou estendida no chão cravejado de balas. Foi a grande notícia do pachorrento verão de 1905.

Polícia, funcionários do zoo e uma força de infantaria com 40 elementos responderam à chamada para colocar em segurança a multidão que, apesar do medo, entretanto se havia aglomerado no local; fechar portas e portões e “bater mato” até detetar o bicho. Armas engatilhadas, baionetas em riste, lá foi um grupo de 14 praças, força avançada naquela missão.

O leopardo foi visto nas imediações da gaiola das águias – estaria em busca de refeição?

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Não tardaram os tiros. Ao fim de duas descargas, o colosso estava ferido, mas não se dava por vencido, saltando em várias direções, atacando para sobreviver. Foi nessa altura que António Augusto Cardoso, soldado da 3ª companhia, avançou para disparar a cerca de três metros do animal, que galgou sobre o militar, abocanhando-o.

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E aí, se as coisas já estavam confusas, tornaram-se mesmo caóticas, porque, enquanto o bicho se encontrava sobre o pobre soldado, um outro homem atingiu-o com uma forquilha e o resto dos militares desataram a disparar, sem se aperceberem que também atingiam o seu camarada.

 

No fim, apesar de todo o aparato, o saldo foi um leopardo morto e um homem multiplamente ferido, pelas mandibulas e garras do felino e por dois disparos de “fogo amigo”. Depois de desmaiar nos braços de um colega, seguiu para o hospital, prontamente acompanhado e…de elétrico.

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O Jardim Zoológico de Lisboa – e a humanidade – ficaram mais pobres pelo desaparecimento de tão belo exemplar de leopardo que, esclareça-se, tinha sido um presente de João de Azevedo Coutinho – explorador, militar e, na época, administrador-geral de Moçambique – ao nosso rei, que o entregou ao zoo.

Não deixou, no entanto, de ser o primeiro parque com fauna e flora da Península Ibérica e, se naqueles tempos, o espaço visava, sobretudo, ser uma montra de feras exóticas, ali mostradas em cativeiro, hoje, tem um papel relevante na preservação de espécies e na sensibilização para o respeito pela natureza, com uma grande aposta no bem-estar dos cerca de dois mil animais que ali vivem.

 

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Fontes

Biblioteca Nacional de Portugal em linha

www-purl.pt

Diário Illustrado

35º ano; 8 ago. 1905

 

Hemeroteca Digital de Lisboa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

Illustração Portugueza

Nº93; 14 ago. 1905

 

https://www.zoo.pt/pt/conhecer/historia/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_de_Azevedo_Coutinho

 

 

Heróis do acaso (6): a enfermeira mártir

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Edith Cavell, enfermeira. Quem decide dedicar a vida aos outros, deixa de ter escolha. Edith não teve escolha nem hesitações: quando o primeiro soldado lhe pediu ajuda, ela tudo fez para tratar as mazelas de guerra que apresentava, alimentá-lo e pô-lo a salvo. O mesmo para todos os outros que lhe seguiram, fossem alemães ou aliados. Ao todo terá salvo mais de 200 pessoas.
Eram homens que precisavam de auxílio e só isso importava para a enfermeira inglesa.
Até ali tinha vivido de forma discreta mas significativa, como governanta e, depois de encontrar a verdadeira vocação, como enfermeira. Apesar da discrição, a sua abnegação e coragem, bem como o seu profissionalismo, já tinham dado nas vistas, porque foi condecorada por tratar de doentes com febre tifoide e convidada a dirigir uma escola de enfermeiras em Bruxelas, onde foi fundamental para profissionalizar a sua profissão naquele País.
Quando rebentou a I Grande Guerra, viu-se no meio do conflito e, como sempre fora seu timbre, facilmente encontrou forma de ser útil e ajudar quem precisava.

As suas atividades não tardaram a ser detetadas e vigiadas pelos alemães, que dominavam o território belga.
Não desistiu de fazer o que considerava ser o certo e acabaria por ser presa.

Encarcerada durante nove longas semanas, foi julgada em tribunal marcial, em paralelo com mais cerca de três dezenas de pessoas acusadas de ações idênticas, todas condenadas à morte. Só ela e o arquiteto Philippe Baucq foram executados, pelo crime de colaborar com forças inimigas.


O fim chegou no dia 12 de outubro de 1915, perante um pelotão de fuzilamento. Faltava-lhe pouco mais de um mês para completar 50 anos.
E, ao contrário do habitual nestes heróis do acaso, muito ainda se falou de Edith Cavell, usada como "bandeira" dos aliados e espelho da barbárie alemã.

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Fontes

Hemeroteca Digital de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/
Mundo Gráfico
ano IV; nº 94 – 30 ago. 1944

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Edith_Cavell

https://fr.wikipedia.org/wiki/Philippe_Baucq

Instantâneos (54): a peste que “fechou” a cidade do Porto

 

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Que estranha doença estaria a matar os galegos da rua da Fonte Taurina, no Porto? A dúvida instalou-se no longínquo verão de 1899, levando a autoridade de saúde a investigar. Os responsáveis ficaram incrédulos face às primeiras impressões, porque, ao que tudo indicava, tratava-se da peste, essa que já se pensava não voltaria a matar. E o poder político só acreditou quando, de Paris, vieram os resultados que confirmaram o que os investigadores portugueses, com Ricardo Jorge (na imagem) à cabeça, já tinham garantido: a peste de levante, como antes se chamava, agora batizada de bubónica, estava a dizimar as populações mais pobres e frágeis da cidade. Era preciso fechar tudo para controlar a doença!

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A decisão de Ricardo Jorge, então médico municipal, não foi bem aceite, inicialmente pelos governantes, que temiam os resultados eleitorais dessa medida impopular e muito menos pelas “forças vivas” do Porto, com a imprensa e os comerciantes a serem responsáveis pelas atitudes mais violentas, chegando a por em causa a veracidade da epidemia.

 

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Mesmo assim, a quarentena foi em frente.

A segunda cidade do País esteve isolada durante quatro meses. O cerco sanitário, imposto pela tropa, conteve o mal mas, apesar das medidas de desinfeção tomadas – na imagem, a casa onde teve início o surto e que foi incendiada por prevenção - não impediu o contágio interno sobretudo entre os muitos que viviam em espaços lotados e sem condições.

 

Foram infetadas 320 pessoas, 132 das quais morreram.

 

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Talvez o mais famoso dos casos mortais tenha sido o de Luís Câmara Pestana (na imagem). O investigador esteve por duas vezes no Porto na arriscada tarefa de recolher fluidos e outros materiais biológicos dos pestilentos, para melhor conhecer a moléstia e assim contribuir para a sua cura.

Nessa ânsia, não tomou as devidas precauções, tendo usado as unhas, sem luvas, para espremer um bubão – gânglio inflamado – de um dos cadáveres. Em pouco tempo, percebeu que não resistiria. Isolou-se e fez questão que recolhessem a sua própria urina para ajudar ao conhecimento da maleita.

A sua morte, que teve grande impacto na opinião pública, mostrou - como se fosse preciso - que a peste não escolhe as vítimas, mas aproveita as imprudências.

Foi há 120 anos.

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Nota: Ricardo de Almeida Jorge e Luís Câmara Pestana deixaram ampla obra e ainda hoje são nomes muito mencionados quando se fala em saúde pública. Ricardo Jorge deu nome ao instituto por si criado e que é hoje a principal referência em termos laboratoriais no País. Luís Câmara Pestana deu nome ao instituto bacteriológico especializado em investigação, hoje dependente da Reitoria da Universidade de Lisboa.

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Já aqui antes falei de outras epidemias, como a gripe espanhola

Fonte

Hemeroteca Digital de Lisboa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

Brasil-Portugal

nº16 – 16 set. 1899

nº20 – 16 nov. 1899

nº21 – 1 dez. 1899

Vidas surpreendentes, mortes insólitas na história de Portugal, de Ricardo Raimundo; A esfera dos livros – outubro 2011

O cerco da peste no Porto – Cidade, imprensa e saúde pública na crise sanitária de 1899>; dissertação de mestrado em história contemporânea de David Pontes; Faculdade de Letras da Universidade do Porto – 2012

 

Imagens

Arquivo Municipal do Porto

http://gisaweb.cm-porto.pt/

Foto Guedes

F-NV/FG-M/9/628(1)

F-NV/FG-M/9/1122

F-NV/FG-M/9/628(2)

 

Hemeroteca Digital de Lisboa

Brasil-Portugal

nº16 – 16 set. 1899

 

https://ars-curandi.wikia.org/pt/wiki/Lu%C3%ADs_da_C%C3%A2mara_Pestana

 

 

João da Matta foi o nosso primeiro chef-estrela

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Muito antes de se falar em guias Michelin, Masterchef, 24 Kitchen, sonhos e pesadelos na cozinha, João da Matta foi o primeiro chef de cozinha reconhecido como uma estrela. O "pai"das conhecidas ameijoas à Bulhão Pato e dos populares pastéis de bacalhau fez furor e deliciou os mais exigentes palatos.

 


Foi o primeiro cozinheiro português a ser considerado uma vedeta e fez jus a esse estatuto. Manteve vários estabelecimentos em simultâneo e com enorme sucesso; preparou requintados manjares para ricos, famosos e poderosos; escreveu um livro, reeditado até hoje; organizou encontros com outros mestres da mesma arte; arriscou muitas combinações improváveis... Na segunda metade do século XIX, falar de gastronomia em Lisboa, era falar de João da Matta, dos seus pratos arrojados e inovadores - de fusão, como se diria hoje em dia.

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Os seus restaurantes e hotéis eram frequentados por toda a nata da sociedade, local ou em visita, que se deslumbrava com refeições completas e formais ou com os simples, mas afamados petiscos, mencionados em obras de grandes autores da época, todos apreciadores da arte deste chef e cientes da sua notoriedade. Entre os clientes, nada mais, nada menos, que Alexandre Herculano, Rafael Bordallo Pinheiro e muitos outros intelectuais; o imperador do Brasil, D. Pedro II, e a sua filha Isabel; as artistas internacionais Adelina Patti e Sarah Bernhardt e, claro, o mais conhecido bon vivant de Lisboa, o Conde do Farrobo (Joaquim Pedro Quintela), que encomendava o catering do Matta.

Curioso é que a sua origem e a vida privada fossem incognitas já no seu tempo. Como se escrevia num jornal de então, "João da Matta nasceu no primeiro dia em que pegou na caçarola, que mais tarde o iria tornar imortal e que lhe abria o caminho para o Olimpo, ao lado dos semi-deuses".

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Sabe-se apenas que era filho de cozinheiro e que a morte do pai levou a família à penúria. Com apenas 12 anos, recusando emigrar para o Brasil, única alternativa de sobrevivência equacionada pela mãe, teve a sorte de ser acolhido num restaurante, para lavar pratos e fazer tudo o mais que fosse necessário, claro está. Depois de trabalhar vários anos como aprendiz e já como cozinheiro, na casa do Visconde da Várzea, decidiu "voar sozinho".

 


A sua primeira "casa" foi o À lá Carte (1848), na esquina entre a praça Duque da Terceira e a rua do Alecrim Tornou-se a "favorita da roda chic" e para sempre será recordada pela "finura dos manjares, delicadeza no desert, luxo no serviço, asseio e ordem", para além da decoração, "com um gosto novo nunca antes visto em Lisboa". Desde o início, teve uma "clientela magnífica: janotas e literatos, políticos e boémios", que iam provar o que o "marechal dos cozinheiros", o "príncipe dos manipuladores de acepipes" tinha para lhes oferecer, ainda mais a um preço módico que então se pagava por refeições completamente inesquecíveis

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Depois, mudou-se de armas e bagagens para a rua do Ouro – edifício onde está instalado o Montepio Geral. Ali, por vários anos, brindou os clientes com as melhores iguarias.
Foi só após um período de hesitação, em que, talvez cansado da pressão e do trabalho árduo de encher os mais seletos estômagos, João da Matta se retirou para "a vida burgueza", começando "a viver dos seus rendimentos".

Sim, só depois desse curto período de "verdadeira decadência para a arte culinária em Portugal", o mestre decidiu regressar em grande, abrindo na zona do Chiado dois hotéis e um restaurante. Para além do apuro e sumptuosidade que era comum aos espaços, este último tinha a particularidade de oferecer aos "tresnoitados" o conforto de uma refeição requintada a qualquer hora da madrugada.

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É também neste novo fôlego da sua carreira que João da Matta lança o livro Arte de Cozinha (1876), com mais de 500 pratos, onde marcam presença todos os "elementos de distinção das mesas bastadas da época, como as trufas, geleias, o café e os licores".


Nesta obra, o criador das famosas ameijoas que dedicou ao amigo e poeta Bulhão Pato, apresenta também uma das primeiras receitas conhecidas de bolinhos ou pastéis de bacalhau, curiosamente, com queijo, como agora se vende como grande novidade aos turistas que visitam Lisboa.

 


À margem

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A Arte de Cozinha é considerado um dos melhores livros de culinária portuguesa jamais publicados. Contém uma dezena de menus completos de primeira ordem, minutas de lanches, a que se acrescentam conselhos de apresentação, as formalidades na colocação de complexas mesas com dezenas de pratos, os vinhos mais indicados, mas também petiscos "ao alcance de todos". Estão presentes receitas inventadas para banquetes que Matta serviu à família real Portuguesa e imperial brasileira; muitas massas – provavelmente ao gosto da rainha Maria Pia, que era italiana - e outros alimentos aparentemente inusitados, como sardinhas.
A obra foi recentemente reeditada no Brasil, onde o chef continua a ser uma referência, até porque são varias as receitas por si criadas que fundem de forma exímia a gastronomia portuguesa com a de "terras de Vera Cruz".

sala de banquetes palacio nacional da ajuda2.JPGHá também uma óbvia influência da cozinha de França – País que em finais do século XIX ditava a moda em praticamente todas as áreas. Potage, gallete, poisson, filet , gelée, suprémes são designações comuns nos menus de João da Matta e de todos os mestres de cozinha da época. Marcam igualmente presença nas ementas dos encontros gatronómicos a quatro mãos que Matta organizou com o padre Manuel Joaquim Machado Rebelo, afamado cozinheiro amador que ficou para a história como autor de um conhecido pudim, criado durante os mais de 40 anos em que foi Abade em Priscos.
Mas isso é outra história...

 


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Fontes

Biblioteca Nacional de Portugal em linha
www.purl.pt
Diário Illustrado
3º ano; nº 746 - 23 out. 1874

Lisboa d'outros tempos . Figuras e cenas antigas, de Pinto de Carvalho (Tinop); Livraria de António Maria Pereira (editor) – Lisboa; 1898. Disponível em https://archive.org/stream/lisboadoutrostem01carv#page/n8/mode/2up

Comer como uma rainha – Reveituário real do século XVI ao século XX de Guida Cândido; Publicações D. Quixote; 2018. Disponível em: https://books.google.pt/books?id=Cz1aDwAAQBAJ&printsec=frontcover&dq=comer+como+uma+rainha&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwjZjYb2w8_nAhVEOBoKHVncA2QQ6AEIKTAA#v=onepage&q=comer%20como%20uma%20rainha&f=false

A vida e as receitas inéditas do Abade de Priscos, de Mário Vilhena da Cunha e Fortunato da Câmara, Temas & Debates – Círculo de Leitores; 2016
Disponível em: http://xxvom71k.duckdns.org/pdf/409
https://www.estadao.com.br/noticias/geral,a-volta-por-cima-do-chef-do-chiado,146644


https://issuu.com/editora3/docs/degustacao_173_8d3efde9e0cc48/38

https://alfarrabistadofunchal.blogspot.com/2019/06/arte-de-cosinha-joao-da-matta-1876.html

http://paraisodolivro.blogspot.com/2019/09/matta-joao-da-arte-de-cosinha.html

https://pasteisdebacalhau.com/


Imagens
http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt/
KURT Pinto
PT/AMLSB/KPI/000234
Alberto Carlos Lima

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/001045
Joshua Benoliel
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/000242


https://archive.org/details/estroinaseestroi00noro/page/246/mode/2up/search/matta


http://cozinhaeliteratura.blogspot.com/2011/03/salas-de-banquete-palacio-nacional-da.html


https://www.facebook.com/293643194104154/posts/466654263469712/

A metrópole acolheu em festa os seus soldados nas campanhas de pacificação africanas

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Os jovens foram recebidos como heróis, depois de terem participado naquela que foi a primeira guerra colonial portuguesa, ainda em finais no século XIX.

O mês de janeiro de 1896 foi de festa. Por todo o País, multiplicaram-se comemorações diversas para receber os militares que haviam regressado de África com uma aura de heróis, após terem derrotado algumas revoltas locais contra o poder colonial. Em Alcácer do Sal, como em outras vilas e aldeias, as bandas, as entidades oficiais e a população em geral reuniram-se para demonstrar o seu regozijo pelo regresso, sãos e salvos, dos soldados que cada terra tinha “dado” às campanhas de pacificação em África.
Em Alcácer do Sal foram pelo menos dois os expedicionários acolhidos com vivas, aplausos, brindes, foguetes, beberetes em casas particulares, récitas no teatro Pedro Nunes (devidamente engalanado a preceito) e outras tantas iniciativas organizadas por uma comissão especialmente criada para o efeito na redação do jornal Voz do Sado, constituída por Leopoldo Mera; Cassiano Martins Branco, Manuel da Silva Tavares, Artur Parreira e Joaquim António dos Reis Cordeiro.

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Não admira tanto entusiasmo. Depois de diversas derrotas sofridas ao longo de anos nas incursões pontuais levadas a cabo pelas nossas tropas no continente africano, finalmente os militares portuguesas nos enchiam de orgulho, “combatendo, desbravando e vencendo as hostes de um dos mais fortes e temidos inimigos do nosso prestigio e domínio colonial”, com “feitos de inexcedível bravura em Majacase, Coollela e Marracuene” (Moçambique), noticiava aquele jornal alcacerense.
Efetivamente, em resultado do Ultimato inglês (1890) - que nos instigou a “ter mão” nas províncias ultramarinas, sob pena de as perder - e de algumas sublevações nos nossos territórios, o Estado resolveu agir em todo o Império. Até abril de 1895, seguiram para Moçambique três expedições, num total de 2.886 soldados brancos provenientes da metrópole. Apesar dos números muito baixos, quando comparados com o esforço militar dos nossos parceiros europeus nas suas colónias, esta movimentação marcou uma reviravolta na colonização nacional e constituiu a primeira guerra colonial dos tempos modernos.

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Um marco emblemático nessa reviravolta foi a chegada a Lisboa, a 13 de março de 1896, do “leão de Gaza”, Gungunhana,  imperador africano feito prisioneiro por Mouzinho de Albuquerque.
O retorno dos “bravos que em África combateram em prol da pátria” foi pois um momento de júbilo nacional.
Em Alcácer, os jovens andaram pelas ruas acompanhados pelas bandas das sociedades “Amizade”, “Progresso” e pelo Sol-e-dó da Sociedade 1º de Janeiro (já desaparecida). Por iniciativa, nomeadamente, dos médicos José Gentil e José Dias de Vasconcelos fizeram-se recolhas de dinheiro para ajudar na vida futura dos rapazes que, durante uns dias, foram o centro das atenções nesta vila alentejana.
Até a Câmara, não querendo ficar de fora dos festejos, aprovou um voto de congratulação pelo “brilhante feito d' armas dos nossos briosos militares na guerra de África”.
Apesar do sucesso destas denominadas campanhas de pacificação e das ações de exploração e estudo do território, efetivamente os números de militares usados podiam ser considerados ridículos quando comparados com os outros países europeus com colónias, correspondendo a uma média de um soldado por cada 154 km2, numa vasta área de dois milhões de km2, enquanto que na metrópole havia um soldado para cada três km2. Os números espelhavam, a debilidade financeira do País e eram insuficientes perante a enorme ameaça das outras potências que de tudo fizeram para açambarcar as áreas historicamente detidas por Portugal. Com tantas lacunas e perigos, espanta mesmo é que este pequeno País tenha conseguido, contra tudo e contra todos, manter as suas colónias até aos anos 70 do século XX.

À margem

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O triunfalismo derivado das vitórias de 1895 não durou muito. Em 1904, as tropas portuguesas sofreram uma pesada derrota que ficaria para a história como o “desastre “ ou o “massacre” de Pembe, pois a batalha ocorreu no vau do rio com este nome, em Angola, no funesto dia 25 de setembro. Morreram cerca de 250 militares portugueses, 109 dos quais provenientes da metrópole. O desaire teve um forte impacto social, que José Eduardo Agualusa resume no seu romance “A conjura”: “O Império empalideceu de medo, fúria e vergonha”. Efetivamente, para além do grande aproveitamento político por parte da oposição ao regime, o País, que anos antes tinha recebido os seus soldados em festa, multiplicou-se em numerosas e sentidas cerimónias fúnebres, de pesar e luto. Dez anos depois, Portugal estava novamente mergulhado numa guerra que não tinha meios para enfrentar. Seria a defesa das suas possessões africanas contra a ofensiva alemã que ditaria a entrada na I Grande Guerra, com terríveis consequências económicas e humanas.
Mas isso é outra história...

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Fontes

Biblioteca Nacional de Portugal
Jornal Voz do Sado
10 janeiro 1896
30 janeiro 1896


Portugal e as campanhas de África: da Imposição de soberania à Grande Guerra, Carlos Filipe Afonso e Vítor Lourenço Borges (cord.); Instituto Universitário Militar; Coleção ARES; Centro de Investigação e Desenvolvimento – dez 2015.

 

Imagens
https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Coolela

https://pt.wikipedia.org/wiki/Combate_de_Marracuene#/media/Ficheiro:Combat_de_marracuene.jpg

https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_do_vau_do_Pembe

Arquivo Municipal de Lisboa
http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt
José Chaves Cruz
PT/AMLSB/CRU/000198