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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Quando S. Sebastião nos salvou da “peste grande”

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O relato coletivo foi oficializado como milagre. Quem se encontrava doente ter-se-á curado e a peste desapareceu de Alcácer do Sal quase um ano antes de ser erradicada do resto do País. Há 451 anos, também estávamos em isolamento.


Corria o mês de agosto de 1569. A “peste grande” grassava em Portugal. Terá entrado por Lisboa, principal porto do País, fazendo 50 mil mortes e afastando dos grandes centros quem podia fugir para regiões menos fustigadas pela doença, como a família real. As zonas de intenso comércio com a Capital, como Alcácer do Sal, eram as mais expostas ao mal e, embora se tenha erguido uma cerca sanitária, não tardaram a surgir os primeiros doentes, até que a imagem de S. Sebastião transpirou e essa água cristalina, lavou a epidemia destas paragens.

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Em Lisboa, no início de junho, começaram a perecer cerca de 50 a 60 pessoas por dia. Em pouco tempo eram 500 a 600 a cada 24 horas, o que fez despertar o alarme em outras localidades próximas.


No porto de Alcácer foi içada uma bandeira branca, que impedia a atracação de navios sem que as autoridades averiguassem a proveniência e sanidade dos ocupantes. As viagens da barca de passagem entre as margens do Sado foram limitadas ao mínimo e aqueles cuja origem fosse duvidosa eram obrigados a cumprir quarentena numas cabanas fora dos limites da vila.
Nas estradas de ligação a Grândola, Montemor ou Évora, também havia guardas para impedir a entrada de pessoas passíveis de estar contaminadas.
Quem pôde, debandou, até os notários e tabeliães, pelo que nem testamentos se podiam redigir.
Para trás ficaram os pobres, que não tinham alternativa, ou os que permaneceram devido à sua profissão ou missão, caso do alcaide e dos padres, que andavam de porta em porta dando ânimo aos crentes, ouvindo-os em confissão ou ministrando a extrema-unção aos moribundos.
As ruas estavam praticamente desertas, as pessoas protegiam-se “contra o bafo de outrem” com lenços encharcados em vinagre mas, apesar de todas as medidas de segurança, houve forasteiros que entraram e depois apresentaram sintomas, bem como alcacerenses que se encontraram nas mesmas circunstâncias e esconderam os sinais da doença, com medo de serem expulsos. Houve até multas e penas de degredo atribuídas a prevaricadores.

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No dia 22 de agosto, o povo uniu-se na procissão entre as capelas de São Roque – onde então se encontrava a imagem de S. Sebastião devido a obras na capela própria - e a ermida de S. Lázaro (ver À margem). Depois do cortejo e do sermão, muitas foram as que permaneceram no espaço de culto, rogando proteção. Foi então que, segundo os relatos, se terá dado o prodígio.

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A imagem de S. Sebastião terá suado abundantemente. Quer isto dizer que dela brotaram grossas gotas de água o que, imediatamente, fez alguns dos presentes saírem para as ruas gritando que se tinha operado um milagre. Tocaram os sinos a rebate e organizou-se uma segunda procissão, mas o verdadeiro assombro veio quando se deram as primeiras curas.
Segundo as testemunhas, o forasteiro João Peres, que apresentava marcas evidentes da peste e se encontrava de joelhos encomendando-se a S. Sebastião, foi o primeiro a restabelecer-se, mas muitos outros se seguiram. As pessoas pegaram em retalhos de tecido, com os quais limparam a “água claríssima” que emanava da imagem do Santo e com eles passavam nos tumores e nas feridas abertas pela moléstia, que miraculosamente secavam e desapareciam. Outras enfermidades, como paralisia, dor de cabeça e doença dos olhos foram igualmente saradas naqueles dias.

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Foram 17 os depoimentos registados. Eram pessoas de diferentes origens e formação, que, cada um à sua maneira, descreveram a experiência inexplicável do que sentiram e viram no denominado “milagre das gotas de água”.

Entre as testemunhas, houve ainda quem tivesse visto a face da imagem ficar muito corada, como se de gente se tratasse, uma estrela pairar sobre a capela e, ainda, ter misteriosamente desaparecido a bandeira indicativa de que o porto de Alcácer estava fechado devido à peste, o que foi interpretado como sinal de estar a vila livre da doença, tanto mais que algumas pessoas em quarentena nas cabanas fora de portas também terão, repentinamente, ficado sãs.
Efetivamente, segundo declararam os religiosos presentes, cessou a enorme azáfama anterior e deixaram de ser chamados pelos fiéis para prestar os últimos sacramentos aos pestilentos, porque já não os havia na povoação.
O auto de 24 de agosto de 1569, que seguiu as tramitações próprias, marca o fim da “grande peste” em Alcácer. Em Lisboa começou a abrandar no mês seguinte e foi considerada erradicada em julho de 1570, cerca de um mês antes de o arcebispo de Évora ter atestado oficialmente o "milagre" aqui narrado.
Quanto à imagem de S. Sebastião, à qual são atribuídos estes prodígios, será muito provavelmente a que se encontra atualmente no Núcleo de Arte Sacra instalado na Igreja de Santa Maria do Castelo, em Alcácer do Sal (na imagem), pois corresponde à descrição que dela é feita e à sua época provável.

Cerca de meio século antes, já havia sido apontada como milagrosa, protegendo a vila durante outro surto de peste, foi venerada até à época moderna, mas hoje está praticamente caída no esquecimento.


À margem

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S. Lázaro, patrono dos leprosos; S. Sebastião e S. Roque, grandes protetores dos pestilentos, possuíam capelas ou ermidas na zona baixa de Alcácer do Sal, localizadas a nascente – no denominado Cabo da Vila - na rua Direita, que então atravessava todo o casario, paralela ao rio. Destas, apenas persiste a que era dedicada a São Roque e hoje se denomina de Nossa Senhora da Graça e pertence à Santa Casa da Misericórdia de Alcácer do Sal (na imagem).
São Roque tornou-se reconhecido como protetor contra a peste no contexto do surto que atingiu Lisboa em 1505 e 1506, altura em que D. Manuel I pediu à República de Veneza uma relíquia do Santo, guardada em capela construída para o efeito. A devoção difundiu-se por todo o País, tendo sido erigidos diversos templos em sua honra, como aconteceu em Alcácer, onde sabemos que já existiria em 1534. A ermida de S. Sebastião situar-se-ia muito próximo desta, tinha um pequeno terreiro e possuía uma irmandade que, ao contrário do habitual, tinha mulheres entre os seus membros.
Tanto a ermida de S. Sebastião, como a capela de S. Lázaro remontavam pelo menos ao início do século XV. Esta já estava em ruínas em meados do século XIX, tendo sofrido obras para albergar a aula de ensino primário.
Estes espaços desapareceram e foram esquecidos, como o foi a lenda, narrada por Alberto Pimentel - que fala de os alcacerenses terem roubado a Grândola uma imagem de S. Estêvão, invejosos da imunidade que esta garantia contra a ameaça da peste. Os grandolenses não se vingaram, nem tentaram recuperar a imagem, mas substituíram-na por outra de S. Sebastião, ao qual, como já vimos, são atribuídos prodígios na mesma área.
Mas isso é outra história….


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Fontes
Texto escrito com base no trabalho “Memórias e espaços de uma devoção urbana: o culto a S. Sebastião em Alcácer do Sal (séculos XV-XVI)”, de Maria Teresa Lopes Pereira, publicado em Lusitânia Sacra 35; jan.-jun. 2017 - Instituto de Estudos Medievais (IEM FCSH/NOVA). Agradeço à autora a generosidade e a disponibilidade. As fotografias de S. Sebastião também são de sua autoria.

O relato ficou registado no "Auto dos Milagres” - Biblioteca Nacional de Portugal - Manuscritos, cx. 171, doc. 13


A Extremadura portugueza, de Alberto Pimentel; Lisboa Empreza da Historia de Portugal, 1908.
Na Biblioteca de Toronto. Disponível em https://archive.org/details/extremaduraportu02pime/page/312/mode/2up
Agradeço a Maria Antónia Lázaro, o alerta para esta história.

Imagens
Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal
PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/01/0056
PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/02/01/0065

Hemeroteca Municipal Digital
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/
Revista Occidente
6º ano – Volume VI – nº 168 – 21 agosto 1883
6º ano – Volume VI – nº 171 – 21 setembro 1883

 

A casa dos 26 reis

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Muito têm que contar os retratos dos reis de Portugal expostos na Moita. Destinada à hospedaria de um convento, a coleção foi nacionalizada, esquecida, desprezada, desmembrada e finalmente exposta em lugar de destaque para quem a quiser apreciar.

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Vinte e seis rostos solenes onde olhos perscrutantes parecem acompanhar os movimentos de quem passa. São mais de sete séculos de poder que nos observam, com as suas insígnias, armas, mantos e coroas. E pensar que estas grandes telas vieram para aqui por cunha de um obscuro proprietário agrícola bem relacionado e estiveram perdidas cerca de um século. O salão nobre da Câmara Municipal de Moita é a casa de todos os reis.
A versão oficial conta que um tal Salvador José Castanha (ver À Margem) intercedeu junto do poder político no sentido de “desviar” para a Moita a coleção régia que antes decorava as paredes da hospedaria do Mosteiro de Alcobaça, onde, aliás, existe uma Sala dos Reis, que reúne estátuas dos soberanos.
A Câmara terá pedido a cedência das obras, que se encontravam à guarda da Academia Real das Belas Artes de Lisboa desde a extinção do mosteiro, em 1835. É o próprio presidente do Conselho de Ministros, António Maria Fontes Pereira de Melo, que assina o despacho, em 17 de agosto de 1874, aprovando essa pretensão, mas não referindo o suposto intermediário.

d afonso V.JPGNa Moita, o interesse em mostrar os retratos dos nossos reis parece, no entanto, não ter sido muito intenso ou rapidamente ter esfriado, uma vez que há nota de os 26 retratos terem estado desaparecidos até meados do século XX. Permaneceram enrolados, amontoados, cheios de pó e esquecidos durante décadas nos desvãos do edifício.

Só viram a luz do dia pela mão do estudioso Ernesto Soares que, sabendo da sua existência, os foi resgatar desse destino infeliz. Foram então colocados em molduras e puderam cumprir o seu propósito.
As telas são obra de Miguel António do Amaral, um pintor que embora não tenha sido brilhante ou particularmente imaginativo, especializou-se em retratos, tendo até recebido uma encomenda de “um agente da imperatriz a Rússia”, o que lhe granjeou fama e proveito.

Esta preferência temática demonstra talento da sua parte, mas também muito bom senso, uma vez que qualquer retratista se via obrigado a adoçar algumas características menos apelativas nos retratados, sob pena de estes não se reverem no produto final e, com isso, fazer perigar encomendas futuras.

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Nesta época, aliás, faltavam em Portugal artistas com estes atributos, o que dificultava a sempre necessária publicidade às princesas casadoiras, por não se conseguir mostrar o seu aspeto aproximado.


Miguel António do Amaral produziu ainda pintura narrativa para conventos, baseando-se em estampas antigas. Foi também essa a base para a coleção régia, pintada na fase final da vida do pintor, que morreu em 1780.

Guiou-se pela obra Elogio aos Reis de Portugal, publicada em 1603 por Frei Bernardo de Brito e, durante séculos, tida como verdade absoluta quanto ao aspeto dos monarcas. Para os soberanos mais recentes, usou igualmente retratos pré-existentes.

Em ambos os casos, limitou-se a copiar as fisionomias, pois as poucas alterações são nos adereços, insígnias e vestuário presentes, muito provavelmente por indicação do cronista da ordem religiosa que fez a encomenda, frei Manuel Figueiredo.

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O conjunto, que atualmente pertence acervo do Museu Nacional de Arte Antiga, mostra os governantes de Portugal durante mais de setecentos anos, do Conde D. Henrique a D. João VI e Carlota Joaquina. Faltam, no entanto, alguns destes rostos: Filipe I, que já desapareceu após a transferência para a Moita; D. João IV; D. Maria II e D. Pedro III, que ali não chegaram a dar entrada e cujo paradeiro certo se desconhece.

 

 

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À Margem

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Salvador José Castanha, apontado como responsável pela transferência para a Moita desta preciosa coleção de retratos dos reis de Portugal, nasceu em Lisboa. Casou na mesma cidade, na Ermida de Santo António, pertença do Barão de Samora Correia, com Carolina Amália do Carmo Basto. No mesmo local seria batizado o filho, Eloy António Basto Castanha, em 1862. Desconheço de onde lhe vinha a fortuna, mas Salvador detinha grandes propriedades agrícolas e também marinhas de sal naquele concelho da Margem Sul do Tejo e foi um dos numerosos capitalistas que, em resultado da crise financeira de 1891 e dos tempos difíceis que se lhe seguiram, emprestou dinheiro ao Estado, mais especificamente à Câmara Municipal de Lisboa. A juros, claro.
O filho, Eloy Basto Castanha ficou localmente conhecido por ter mandado construir, no sítio da Fonte da Prata, um imponente palacete ao estilo neorromântico, com torreão, capela e pormenores arquitetónicos copiados de monumentos nacionais.
Entre outros cargos, pertenceu à direção da Real Associação de Agricultura; foi secretário da assembleia – geral da Companhia das Lezírias do Tejo e Sado e presidente do Centro Monárquico da Moita. Tinha uma intensíssima vida social, onde não faltavam vilegiaturas no estrangeiro, matinés de esgrima, jantares concerto e muita diversão. Pouco depois de morrer, em 1929, todos os seus bens foram vendidos em hasta pública, por má gestão ou porque terá caído em desgraça, já que continuou monárquico mesmo após a implantação da República, chegando a ajudar Paiva Couceiro nas suas incursões para recuperar o País.
Mas isso é outra história….
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O meu agradecimento a Vítor Mendes (Câmara Municipal da Moita)
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Fontes
A Série Régia de Miguel António do Amaral na Câmara Municipal da Moita; in I Jornadas de História e Património Local; intervenção de Anísio Franco (Museu Nacional de Arte Antiga) e Pedro Penteado (Instituto de Arquivos Nacionais – Torre do Tombo); Câmara Municipal da Moita – 2004
Homeroteca Digital de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt
O Occidente – Revista Illustrada de Portugal e do Estrangeiro
10º ano; vol X; nº305 – 11 jul. 1887

O Tiro Civil – Órgão do Sport Nacional
Ano IV; nº145 – 1 set. 1898

A Ideia Nacional
Nº17 – 12 mai 1915

Biblioteca Nacional em linha
www.purl.pt
Diário Illustrado
5º ano; nº1331 – 7 set. 1876
35º ano; nº11.667 – 25 ago. 1905
32º ano; nº12.192 – 4 abr. 1907
39º ano; nº12.775 – 12 fev. 1909
39º ano; nº12.831 – 21 abr. 1909
39º ano; nº12.957 – 17 set. 1909
40º ano; nº13.100 – 5 mar. 1910
40º ano; nº13.237 – 13 ago. 1910


O Campeão das Províncias
Ano XLI; nº4.237 – 13 fev. 1893
Ano XLIII; nº4.262 – 13 mai. 1893
Disponível em:
http://asw.pt/jornais/Campeao_das_Provincias/?folder=Campeao_das_Provincias

A Construção Moderna
Nº317 – 1 fev. 1910
Disponível em:
http://ric.slhi.pt/A_Construcao_Moderna/visualizador?id=11214.010.017&pag=8

Gazeta dos Lavradores
4º ano; nº135 – fev. 1908
Disponível em
https://archive.org/details/gazetadoslavrado4133na/mode/2up

Notícias de Montijo
Ano I; nº11 – 8 jun. 1930
Ano 1; nº9 - 1 mai. 1932
Disponível em: https://www.mun-montijo.pt


Hemeroteca Digital Brasileira
http://memoria.bn.br
Jornal do Brasil
Ano XV; nº146 – 26 mai 1896

A Noite
Ano XVI; nº6334 – 5 jul. 1929


Os espaços de culto privados na transição do século XIX para o XX, de António Francisco Arruda de Melo Cota Fevereiro; in Atas do 2º Colóquio “Saudade Perpétua” – Arte, Cultura e Património do Romantismo; edição CEPESE - Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade – dez 2017. Disponível em: www.cepese.pt

Paiva Couceiro – Diários, Correspondência e Escritos Dispersos, de Filipe Ribeiro de Menezes; Dom Quixote – set 2011.
Parcialmente disponível em:
https://books.google.pt/books?id=aFVAHpm-utIC&pg=PT130&lpg=PT130&dq=%22Eloy+Castanha%22&source=bl&ots=m6FlA6GNko&sig=ACfU3U1_vTLi0Ym92k4LFOGIPb1Od0Txow&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwiW6tX73tHoAhVZCWMBHY-bDMAQ6AEwBXoECAsQMg#v=onepage&q=%22Eloy%20Castanha%22&f=false
A crise Financeira de 1891: uma tentativa de explicação; de Luís Aguiar Santos; in Análise Social Vol. XXXVI (158-159) – 2001 (185-207). Disponível em: http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1218726298J7kLR2hh1En65AF7.pdf

Registos paroquiais - Lisboa
Sacramento
Santa Justa
Sistematizados em: www.tombo.pt

https://www.cm-moita.pt/pages/1110

www.geneal.net.pt

 

Pândega a valer era na Floresta Egípcia do melhor fogueteiro de Lisboa

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Os seus fósforos eram os preferidos do rei. Das suas oficinas saíram os foguetes mais retumbantes e o fogo-de-artificio mais extraordinariamente brilhante. Nos seus exóticos parques de diversão havia folia até de madrugada.

Toda a gente conhecia José Osti, pioneiro no fabrico de fósforos, fogueteiro e autor dos mais aplaudidos espetáculos de fogo-de-artifício jamais vistos em Portugal. Mas o que o tornava ainda mais digno de nota eram os seus parques de diversão, com nomes enigmáticos e exóticos como Jardim de Vénus, Jardim Mitológico ou Floresta Egípcia, onde a pequena burguesia podia dançar, comer e beber; ver teatro, testar a pontaria e a coragem em vários jogos; apreciar acrobacias que desafiavam da morte e a gravidade, para além de se encantar com sessões de pirotecnia. Tudo com clientela selecionada e cerca de um século antes da Feira Popular.

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Eram recintos vedados em que se pagava para entrar e que, a crer na publicidade, rivalizavam com os que existiam em Inglaterra e França. Lá dentro, as atividades disponíveis tinham uma taxa adicional e primavam pela grande variedade: balouço; cadeiras; flecha; pomba; tiro de pistola; bilhares chineses; velocidade de mão e de pé; jogo da bocha; câmara ótica; tamborini; cavalinhos; pim-pam-pum; volante…e muitos mais divertimentos que hoje em dia apenas podemos imaginar como funcionariam. Depois, havia palcos por onde passavam artistas com algum gabarito, orquestras e grupos de teatro residentes.
Para os audazes, havia a montanha russa e o “looping-the-loop”, uma espécie de “poço da morte” de origem americana que se estreou em Lisboa pela mão de Osti e, cinquenta anos depois, foi apresentado como grande novidade, fazendo furor no Coliseu dos Recreios.

 


Não faltavam “vinho e petiscos a preços cómodos, café, cerveja e todas as bebidas próprias de um bom fornecimento”, para animar a caixeirada* que, ao domingo, ali “polkava e mazurcava desenfreadamente”, rodopiando por entre os vários quiosques e o arvoredo, namoriscando ou passeando a prole no único dia de descanso semanal.

 

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A clientela era escolhida, porque popular não queria dizer popularucho. Para afastar os “rurais” e outros que tais, proibia-se a entrada a quem se apresentasse de jaleca, capote ou lenço, bem como a todos os que não estivessem convenientemente vestidos, sendo que, em dia pré-definido da semana, as portas estariam abertas “a todas as classes da sociedade”, embora mantendo “a maior decência e boa polícia” aos que honravam o estabelecimento com a sua presença.


José Osti geriu pelo menos três destes animados espaços, misto de feira e recinto de espetáculos. O primeiro foi o Jardim de Vénus, que abriu portas em 1849 lá para os lados do Campo Grande. Seguiu-se o Jardim Mythológico (1851), na rua Direita do Calvário (Alcântara).

Ali existim “32 ruas com arvoredos”, por onde se distribuíam os recreações e que constituíam um “dos mais pitorescos” conjuntos de Portugal. Nem faltava uma casa de pasto do conhecido cozinheiro Matta, que servia “com lista pelos preços de Lisboa”.

Poderia pensar-se que estavam reunidas condições para ser um sucesso, mas ambos duraram pouco, talvez porque não eram suficientemente centrais para que a afluência fosse numerosa.

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O mais célebre e grandioso destes parques foi a Floresta Egípcia, que funcionava nas traseiras do Palácio Alagoa e chegou a ter um serviço de carruagens que transportava gratuitamente a clientela a partir da baixa da cidade.

A entrada fazia-se por um insuspeito portão no número 183 da rua da Escola Politécnica, que se abria para um terreiro sombreado e profusamente decorado com esfinges e bustos em gesso, palmeiras e lagos. No teatro, pretensiosamente, batizado de “sala de cristal” apenas porque era totalmente envidraçado, podia assistir-se a comédias teatrais, operetas e até óperas e outras composições musicais, “convenientemente estropiadas na execução e na ortografia”.
Outras atrações que reuniam muitas preferências eram o lançamento de aeróstatos de grandes dimensões e, claro, a especialidade do “dono da casa”, o fogo-de-artifício, que tanto fascinava a “arraia miúda”, como as classes dominantes e até a família real (ver À Margem).
A Floresta Egípcia sobreviveu pouco tempo após a morte do seu criador (1858), seguindo o fado deste tipo de espaços de existência efémera – os recintos de Osti haviam sucedido ao Tivoli da rua da Flor da Murta e ao Jardim Chinês, ao Combro, que tinham falido em 1841 - porque a assistência renovava-se pouco e, moderna como era, só era fiel a uma novidade até aparecer outra.

 

À Margem

José Osti era italiano, mas cedo se radicou em Portugal, casando com uma portuguesa, com quem teve dois filhos, que terão continuado parte do seu trabalho. Era um homem de grande criatividade, iniciativa e persistência, tantos foram os desaires e outros tantos os novos negócios que lançou. Não havia festa de arromba que não tivesse o seu fogo-de-artifício, no Passeio Público**, pelos santos populares ou para mera ostentação, como fazia o Conde de Farrobo, que contratava Osti para impressionar a Lisboa chique de então. Os seus “rutilantes improvisos pirotécnicos eram verdadeiras belezas”, que permaneceram na memória dos que assistiam e mereceram, pela espetacularidade, numerosas referências na literatura da época.
Osti é também apontado como o introdutor dos fósforos no nosso País e, em 1842, já tinha uma oficina onde produzia palitos de lume e foguetes. Mão criminosa pegou-lhe fogo, mas Osti não desanimou, porque, três anos depois, estava a registar a patente de um misto fosfórico que tinha a particularidade de não cheirar mal, grande inconveniente dos palitos de lume daquela época. Enquanto arriscava na área das diversões, como já vimos, montou também novos estaminés para fabrico de fósforos, foguetes e fogo-de-artifício, em Santos e Alcântara.

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O apuro do que produzia era tal, que chegou a ter encomendas do estrangeiro e conta-se que D. Fernando II só usava fósforos Osti, prevenindo-se com eles quando viajava, porque, na sua opinião, em nenhuma parte encontraria melhor.
Ironicamente, esta qualidade acabaria por ficar associada a um acidente ocorrido na Floresta Egípcia. Segundo os relatos, uma caixa de fósforos Osti ter-se-á incendiado espontaneamente no bolso das calças de um rapaz que se divertia naquele parque de diversões. Aterrorizado e na ânsia de ajudar, um amigo que o acompanhava atirou o infeliz para dentro de um lago, onde morreu afogado.
Mas isso é outra história…

 

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Palácio Alagoa, na rua da Escola Politécnica, e portão que dava entrada para a Floresta Egípcia.

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*Caixeiros, empregados no comércio.

**Demolido para construir a avenida da Liberdade.

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Já aqui antes falei da produção de fósforos e de como o Estado quis negociar com ela.
Enquanto a pequena burguesia se divertiam nas feiras de José Osti, as classes dominantes passavam pela casa de Dona Cláudia, ou ascendiam aos seletos salões de Maria Cruz, tão picantes, quanto intelectuais.
………………..
Fontes
Depois do terremoto – subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa II, de Gustavo de Matos Sequeira; Academia de Ciências de Lisboa; Lisboa-1917. Disponível em:
https://www.yumpu.com/pt/document/read/12458482/depois-do-terremoto-subsidios-para-a-historia-dos-bairros-
e
https://archive.org/stream/depoisdoterremot02sequuoft/depoisdoterremot02sequuoft_djvu.txt

Sumário de vária história, por J. Ribeiro Guimarães – 1875. Disponível em:
https://www.yumpu.com/pt/document/read/13302724/summario-de-varia-historia-narrativas-lendas-biographias-
Estroinas e estroinices – Ruína e morte do Conde de Farrobo, de Eduardo de Noronha; João Romano Torres e Cª Editores – Lisboa; composta e impressa na empresa de Manuel Lucas Torres – Lisboa 1922. Disponível em Forgotten Books
file:///C:/Users/Cristiana%20user/Downloads/EstroinaseEstroinices_11153456.pdf
Lisboa d’outros tempos I Figura e scenas antigas, de Pinto de Carvalho (Tinop); Livraria de António Maria Pereira, Editor – 1898. Disponível em https://www.yumpu.com/pt/document/read/12806580/lisboa-doutros-tempos-por-pinto-de-carvalho-tinop
Publicador Maranhense
Ano XVI; nº58 – 13 mar. 1858
Disponível em http://memoria.bn.br/pdf/720089/per720089_1858_00059.pdf
Cadernos do Arquivo Municipal
Vol.ser 2 nº.6 Lisboa dez 2016
Artigo de João Figueiroa Rego.
Disponível em :
http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-31762016000200004

Revista Popular – Semanário de Literatura e Indústria vol. I
Nº 23 – 1849
Disponível em:
https://books.google.pt/books?id=UeC3N8GNO3AC&pg=RA2-PA184&lpg=RA2-PA184&dq=%22jose+osti%22&source=bl&ots=0ssv2beFVW&sig=ACfU3U2-Do-oPU7mDz9tT5xSOdATRo0O-A&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwjp9L68jbnoAhVfBWMBHaMIBawQ6AEwE3oECAwQAQ#v=onepage&q=%22jose%20osti%22&f=false

Memórias de Castilho, por Júlio de Castilho; vol. IV – de 1841 a 1857 – cont do nº13 pag. 962 vol. XI; in O Instituto – Revista Científica e Literária. Vol XLI – 3ª série nº 1 - jun. 1893
Disponível em:
https://books.google.pt/books?id=HlAxAQAAMAAJ&pg=PA73&lpg=PA73&dq=%22n%C3%B3s+ouviamos+dizer+que+hercules+era+um+cigano+muito+alto+e+grosso%22&source=bl&ots=dkRw11IMLH&sig=ACfU3U0K9fFhsxliuUK0liyyQ-uZ2lEVRA&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwim9M_DgcPoAhUOZcAKHcSIBaYQ6AEwAHoECAEQAQ#v=onepage&q=%22n%C3%B3s%20ouviamos%20dizer%20que%20hercules%20era%20um%20cigano%20muito%20alto%20e%20grosso%22&f=false

Lisboa Antiga, de Júlio de Castilho – Bairros Orientais; 2ª edição; Vol. X; S. Industriais da C.M.L. – 1937.
Disponível em:
http://purl.pt/30262/4/hg-15990-v/hg-15990-v_item4/hg-15990-v_PDF/hg-15990-v_PDF_24-C-R0150/hg-15990-v_0000_capa-capa_t24-C-R0150.pdf
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Paróquia Santos-o-Velho
Paróquia de São Mamede
Sistematizados em Registos Paroquiais Portugueses para Genealogia
www.tombo.pt

https://geneall.net/pt

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=9866

Imagens
Pinturas de Jean Bérraud
Disponíveis em:
www.wikipedia.com
http://www.artnet.com/artists/jean-b%C3%A9raud/le-bal-public-qXG1CjbYID8-nFF1NSE_vA2
https://www.bimago.pt/reproducoes/jean-beraud/the-gardens-of-paris-or-the-beauties-of-the-night-113007.html

…………………….
As ilustrações, reprodução de pinturas de Jean Bérraud, são meramente ilustrativas da época e do tipo de espaços descrito, mas em França.

Instantâneos (57): Socorro, há fogo!!!!

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Hoje não é gritando alto que se chama ajuda em caso de fogo, mas nem sempre foi assim.

Se calhar nunca reparou numas pequenas chapas muito maltratadas que ainda se veem aparafusadas nas fachadas de alguns edifícios. São o que resta de uma tradição importada de Inglaterra e que remonta ao grande incêndio de Londres que, em 1666, devastou 13 mil casas e matou mais de 10 mil pessoas.


Após tão grande catástrofe, tomaram-se medidas para que tal não se repetisse. Surgiram as primeiras companhias que garantiam o que hoje denominamos de seguro contra incêndio, contratando brigadas para apagar as chamas. Eram barqueiros, do transporte de pessoas e mercadorias entre as margens do Tamisa e que, na época, tinham também esta outra ocupação.

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As chapas eram oferecidas aos clientes e tinham o símbolo da seguradora responsável pela proteção do edifício onde estavam afixadas. Assim, em caso de sinistro, sabia-se que brigada deveria ser chamada.


Em Portugal, os primeiros bombeiros não eram barqueiros, mas sim carpinteiros e calafates, que desde o século XIV eram responsáveis por apagar incêndios. O termo bombeiro, aliás, só terá começado a ser usado no século XVIII, quando as bombas se tornaram imprescindíveis a este trabalho. Antes, a água era carregada em baldes de couro.

 

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A “moda” das chapas das seguradoras terá sido, no entanto, introduzida por influência dos ingleses que se estabeleceram por cá, em especial no Norte, e trouxeram com eles companhias seguradoras da mesma nacionalidade.


Em terras lusas, as chapas nunca apresentavam o número da apólice e, aparentemente, não existia uma ligação às corporações de bombeiros, que aqui seguiram uma organização diferente. Capturar.JPG
Entre nós, as chapas tiveram uma função meramente publicitária que se estendia aos veículos, já que Portugal foi uma das poucas nações com a originalidade de produzir chapas destinadas ao uso em automóveis.

O hábito perdurou até à década de 70 do século XX e, por isso, paulatinamente, foram desaparecendo, por ação do vandalismo ou após intervenções de pintura e/ou restauro dos edifícios que as ostentavam.
As chapas eram maioritariamente executadas em folha-de-flandres ou ferro, nestas últimas com ou sem aplicação de esmalte.

 

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Fontes:
Vítor Alegria e José Pousinho Henriques, in “Chapas” – Heráldica das Seguradoras, Inetese – Associação para o Ensino e Formação, fevereiro de 2009 (1ª edição)
Vítor Alegria, in
http://www.clubechapas.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=7&Itemid=42,
https://www.bombeiros.pt/historial/historial.html
https://www.sbsi.pt/atividadesindical/informacao/OnlineFebase/Paginas/Febase_87/stas_chapas.aspx

Teimosia do juiz cria guerra legal entre portugueses e espanhóis

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Durante ano e meio, o juiz de Alcácer do Sal contrariou ordens de dois ministérios e provocou um verdadeiro conflito entre Portugal e Espanha, em disputa pelo direito de gerir a herança de um galego morto naquela vila alentejana. E quem tinha razão, afinal?

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A teimosia de um juiz de Alcácer do Sal provocou, em finais do século XIX, um verdadeiro conflito diplomático entre os reinos de Portugal e Espanha, que envolveu os governos nacionais, embaixador e cônsules do País vizinho, numa polémica que durou ano e meio, com a troca de dezenas de cartas e argumentos.
Tudo começou a 10 de dezembro de 1885, com a morte de um cidadão espanhol. Juan Garcia Lourido, galego de 51 anos, faleceu na casa onde habitava, no nº2 da rua das Douradas. Foi o suficiente para se iniciar a disputa sobre quem teria competência, à luz do convênio entre os dois países ibéricos, para inventariar e distribuir a sua herança.

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Contactado pelo vice-cônsul de Espanha em Setúbal, que reclamava esse poder para si, o juiz de Alcácer negou-lhe esse privilégio. E continuou negando, recusando e refutando todas as numerosas tentativas que se seguiram, por parte do cônsul geral e do embaixador espanhol em Lisboa. Não arredou pé também face às ordens dos ministros dos Negócios Estrangeiros e dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, que chegaram a ordenar ao delegado do procurador régio junto da Comarca de Alcácer do Sal que exigisse ao juiz a libertação do processo, no sentido de as autoridades espanholas o poderem gerir.


A dada altura, deixou mesmo de responder às cartas que lhe eram enviadas sobre este assunto. Um “proceder inqualificável” e “obstinado”, não acatando disposições superiores, nem a lei, como considerou o embaixador espanhol, em comunicações bastante irritadas ao nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, lançando ao governo português alguns remoques à sua dificuldade em fazer-se obedecer.

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Ano e meio depois, esgotadas que foram todas as tentativas de demover o juiz, bem como as ações legais entrepostas, vem o acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa esclarecer o que, afinal, ninguém parece ter-se lembrado antes, para além do famoso magistrado de Alcácer. É que, embora o morto fosse espanhol, os seus herdeiros – a mulher, Maria Filomena Palmeiro, e um filho menor – eram portugueses, logo não se lhes aplicava a legislação invocada pelos espanhóis, devendo ser as autoridades portuguesas a tratar do assunto.
Isto quer dizer que o magistrado teve sempre razão e que vingou a sua interpretação dos factos.
Resta revelar que a herança de Juan Garcia Lourido constava de pouco mais que duas embarcações que, como estiveram abandonadas na “praia” de Alcácer durante o tempo que durou o braço de ferro entre espanhóis e o juiz, de pouco ou nada valiam quando finalmente foram entregues à família.


À margem

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E quem é o inflexível juiz da Comarca de Alcácer do Sal de que tanto se falou mas cujo nome nunca é referido nas cartas? Pelos registos de tomadas de posse de magistrados, pode com alguma certeza dizer-se que se tratava de Luiz Cândido de Faria Vasconcelos, nascido em Pinhel, em 1861, que na juventude andou destacado em diversas comarcas do País, e chegaria a juiz do Supremo Tribunal de Justiça. Casado com a pianista Maria Rita Sena Belo de Vasconcelos, foi pai de António Sena Faria de Vasconcelos Cabral Azevedo (na imagem), que poderá ter chegado a viver em Alcácer, porque era ainda uma criança quando o pai ali foi juiz.

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Provavelmente consciente da férrea vontade do progenitor, formou-se em direito como era exigência do pai. Depois, entregou-lhe o diploma e partiu para Paris e Bruxelas, prosseguindo a sua verdadeira vocação. Doutorou-se em ciências sociais e seguiu a carreira de cientista social e pedagogo, com amplo destaque, obra executada e publicada no início do século XX, no âmbito do Movimento da Escola Nova, na Europa, mas também em Cuba e Bolívia – para onde foi após o eclodir da I Grande Guerra – e com uma influência que se estendeu a toda a América Latina. De regresso a Portugal, continuou a destacar-se como professor universitário e investigador.

É pai de Águeda Sena (na imagem), bailarina, coreógrafa, atriz e professora de dança de relevo em Portugal e fora de portas (falecida em 2019), o que prova que, mais do que as leis, a pedagogia e a música são elementos fortes na família.
Mas isso é outra história…

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Fontes

Negócios externos – Documentos apresentados às cortes na sessão legislativa de 1889 pelo ministro e secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros – Negócios consulares e comerciais – Secção V – Conflictos de Jurisdição entre autoridades judiciais portuguezas e agentes consulares hespanhoes – Lisboa – Imprensa Nacional – 1889.
Disponível em: https://archive.org/details/negociosexterno16portgoog/page/n10/mode/2up

Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal
Comarca de Alcácer do Sal - Registo de autos de posse

Arquivo Distrital de Setúbal
Paróquia de Santiago – Registos de óbitos
Sistematizados em:
www.tombo.pt

https://geneall.net/pt

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_de_Sena_Faria_de_Vasconcelos
https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81gueda_Sena

Imagens
Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal
PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/01/0056
PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/02/01/0072
Museu de Marinha
PT/MM/CF/014-013/01657
PT/MM/CF/014-013/01658

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http://www.revistadadanca.com/?p=3306

 

 

Os estranhos destinos das filhas de Carlos Relvas  

 

 

 

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Entre a genialidade e o escândalo, o preconceito e a tradição, o autoritarismo e a desgraça. A história de duas mulheres que seguiram caminhos opostos… e a vida trágica dos seus irmãos.

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Carlos Relvas*, exímio fotógrafo, inventor brilhante, corajoso toureiro amador e eminente fidalgo da Casa Real, teve duas filhas**. A mais velha, que herdou o nome da mãe, Margarida, fez o percurso esperado de alguém da sua classe e condição, foi até uma verdadeira companheira do pai, pois com ele partilhava o gosto e o talento para a captação de imagens. Quanto à irmã, Clementina (como a avó paterna), ficou para a história pelo escândalo que rodeou o seu casamento forçado com o noivo escolhido pela família, num drama que espelha o preconceito e a ignomínia reservada às mulheres que, em finais do século XIX, ousavam trilhar o seu próprio caminho.

 

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As irmãs nasceram em casa abastada e culta de grandes proprietários rurais e nobres da Golegã. As regras estavam bem definidas à partida.

Margarida foi a primeira mulher fotógrafa em Portugal. Não por ter sido quem pela primeira vez acionou uma máquina fotográfica, mas porque foi com ela que o “belo sexo” lusitano se estreou de forma continuada e consistente naquela arte.

 

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Fez com o pai verdadeiras maratonas para conseguir os melhores planos, participou em numerosas exposições e concursos, onde os seus trabalhos foram amplamente premiados. Ainda assim e apesar da singularidade e valor da sua obra, nunca se livrou da suspeição de não ter sido autora das imagens que ostentavam a sua assinatura. Talvez porque, na época, questionava-se que as mulheres pudessem ser dotadas de criatividade artística ou possuir tal domínio e entendimento de técnicas, para mais de uma atividade que ainda era estranha e quase mágica para a maior parte da população.

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Fica no ar a dúvida: será que Margarida gostava mesmo de fotografar ou o fazia por respeito e obediência ao pai, o altaneiro Carlos Relvas, que poucos ousavam desafiar? É que, depois de casar, cedo e de acordo com a sua condição, com o médico Alberto de Campos Navarro, deixou de se dedicar a esta atividade, optando pela muito mais recatada pintura. Foi a única a deixar descendência.

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Pois, se Margarida seguiu o que dela se esperada, já Clementina teria uma existência muito diferente, que embora permaneça envolta em mistério, causou profundo escândalo, muito pela notoriedade do clã Relvas.

É difícil perceber o que é ficção e o que realmente aconteceu, incerteza para a qual contribui o facto de Alves Redol ter-se inspirado na família Relvas para escrever o seu romance Barranco dos Cegos.

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Certo é que a jovem estava prometida ao primo José da Cunha d’Eça Azevedo, doutor de leis, mas, como o destino adora contrariar estes arranjos familiares, apaixonou-se por um campino criado de seu pai e, ao que parece, era correspondida. Ainda assim, acabaria, aos 21 anos, por casar com o noivo apalavrado.

 

 

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Conta a lenda que o apaixonado desapareceu, deixando Clementina perfeitamente desesperada. Terá sido encontrado, 50 anos depois, emparedado numa propriedade da família Relvas cedida para a construção do Tribunal da Golegã. Foi identificado por um anel oferecido pela mulher amada, com as suas iniciais e um símbolo alusivo à profissão.

A versão popular diz ainda que Clementina enlouqueceu e acabou os seus dias a pedir esmola em Lisboa, mas parece que não foi bem assim.

casamento de clementina e manuel hipolito ferreira

 

Sabemos que, por opção ou imposição, alguns anos após o casamento, se refugiou no Convento de Santo António da Sertã, que a família paterna adquiriu com a extinção das ordens religiosas e Clementina herdou.

Pouco depois, intentou uma ação de separação contra o marido, mas o processo arrastou-se pelos tribunais, já que o divórcio não era permitido até à implantação da República e, no seu caso, só viria a ser decretado em 1912.

casamento de clementina e manuel hipolito ferreira

Posto isto, parece ter continuado com a sua vida, pois voltou a casar, em 1918, com o amigo de longa data, Manuel Hipólito Ferreira. Um enlace serôdio que se espera ter sido mais feliz que o primeiro.

 

 

 

 

Todavia, vida tem destas ironias: Carlos Relvas, que contrariou o amor da filha e já não assistiu a este matrimónio, teve ele próprio uma relação contestada pela família.

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Menos de um ano após o faustosíssimo funeral (na imagem) da sua amantíssima primeira mulher, Margarida Amélia, filha dos condes de Podentes e conhecida como “a Santa da Golegã”, também ele provocou a indignação geral, casando com outra mulher***. Os filhos não compareceram à boda e nunca aceitaram essa união (na imagem, o casal em passeio pelos Alpes).

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À Margem….

 

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Carlos Relvas teve dois filhos homens. O primeiro, Francisco, foi encontrado morto aos 18 anos, no que oficialmente se atribuiu a um acidente de caça, mas que rapidamente a opinião pública justificou como suicídio por alegadamente ser obrigado a casar com quem não escolheu ou homicídio por vingança contra a família.

O outro descendente, José, também teve a sua dose de infortúnio: os seus três filhos morreram jovens, um deles por suicídio, não tendo deixado progenitura. Enfrentou muitos desentendimentos com o pai, profundamente monárquico. Cada um à sua maneira, marcaram de forma indelével a história do seu tempo. José Relvas também privilegiava a cultura, recheando com obras de arte a sua residência de Alpiarça, a Casa dos Patudos****, um projeto de Raúl Lino que é hoje um interessante museu municipal.

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Ficou mais conhecido, no entanto, pelo seu protagonismo no dia 5 de outubro de 1910. Foi ele que, a partir da varanda da Câmara Municipal de Lisboa, anunciou à multidão a implantação da República em Portugal. Foi escolhido pelo seu carisma, mas também porque o líder do Partido Republicano se encontrava afónico.

Mas isso é outra história…

 

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*Carlos Augusto de Mascarenhas Relvas de Campos

**Margarida Augusta de Azevedo Relvas e Maria Clementina Mascarenhas Relvas e Campos

*** Mariana do Carmo Pinto Correia

****Porque na zona havia abundância de patos.

………….

Para conhecer a multifacetada obra de Carlos Relvas, aconselha-se visita à sua extraordinária casa-estúdio, na Golegã.

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Fontes

Uma família de fotógrafos. Carlos e Margarida Relvas; de Cátia Salvado Fonseca; Lisboa: Chiado Editora – 2005. Resumo disponível em: https://repositorio.uam.es/bitstream/handle/10486/11611/57453_20.pdf?sequence=1

Mulheres, casamento e a família em Portugal na 2º metade do século XIX-princípios do século XX: alguns aspetos, de Irene Vaquinhas; in História das Mulheres de Língua Portuguesa e Espanhola, organização de António Emílio Morga – 2017

Ritualizar a morte no século XIX: O funeral de D. Margarida Relvas (1837-1887) na Golegã, de Cláudia dos Santos Araújo Feio. Disponível em https://www.academia.edu/4476889/Ritualizar_a_morte_no_seculo_XIX_-_o_funeral_de_D._Margarida_Relvas

Resenha das famílias titulares e grandes de Portugal, de  Albano Anthero da Silveira Pinto, 1819-1885Augusto Romano Sanches de Baena e Farinha,1822-1909; F.A. da Silva; Lisboa -  1883

https://archive.org/details/resenhadasfamili02silvuoft/page/272/mode/2up

Gazeta da Relação de Lisboa – Revista Judicial

7º ano, nº 20 – 30 ago. 1893

Disponível em https://books.google.pt/books?id=C5UvAQAAMAAJ&printsec=frontcover&hl=pt-PT&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false

Hemeroteca Digital de Lisboa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

Ilustração Portugueza

II série; n~642 – 10 jun 1918

 

https://www.conventodasertahotel.pt/index.php/pt/home/historia/pequenas-historia/20-historias/132-jose-relvas-e-a-ligacao-ao-convento-da-serta-hotel

https://sites.google.com/site/pequenashistorietas/personalidades/miguel-relvas

https://www.publico.pt/2017/08/19/culturaipsilon/noticia/fotografar-reis-pastores-mendigos-e-cavalos-da-mesma-maneira-1782712#&gid=1&pid=3

http://jornalalpiarcense.blogspot.com/2014/03/o-grande-amor-de-clementina-relvas-irma.html

https://www.cm-alpiarca.pt/areas-de-atividade/cultura/casa-dos-patudos-museu-de-alpiarca

https://media.rtp.pt/visitaguiada/notas/esqueletos-no-armario/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Relvas

https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Relvas

Fotobiografia de José Relvas 1858-1929; de José Raimundo Noras; edição Imagens & Letras. Disponível em

https://issuu.com/imagens/docs/joserelvas/30

https://www.cm-golega.pt/casa-relvas

www.geneall.net,pt

https://geneall.net/pt/nome/64284/carlos-augusto-de-mascarenhas-relvas-de-campos/

https://geneall.net/pt/nome/64283/margarida-amelia-mendes-de-azevedo-e-vasconcelos/

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https://geneall.net/pt/nome/2475189/maria-clementina-mascarenhas-relvas-e-campos/

https://geneall.net/pt/nome/2475191/francisco-mascarenhas-relvas-e-campos/

https://geneall.net/pt/nome/71000/jose-relvas/

www.geni.com

https://www.geni.com/people/Carlos-de-Mascarenhas-Relvas-de-Campos/6000000024008957302

https://www.geni.com/people/Clementina-de-Mascarenhas-de-Azevedo-Relvas/6000000024009498934

https://www.geni.com/people/Jose%CC%81-da-Cunha-Ec%CC%A7a-de-Azevedo/6000000024066017971