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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Instantâneos (63): antes a fome que deixar de ser português

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Rostos tisnados pelo sol acumulado numa vida inteira no mar. Num singelo saco de pano, guardavam ciosamente todos os parcos bens que essa existência de sacrifício conseguiu reunir. Assim eram os pescadores que regressaram às centenas depois de tentarem a sorte do outro lado do oceano. Numa época em que a moral do País estava pelas ruas da amargura, este retorno emocionou Portugal e exacerbou sentimentos de orgulho nacional que nem se sabia existirem. Afinal, os pobres poveiros recusaram o “sonho brasileiro” por não querem deixar de ser portugueses.

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Eram - e são - marítimos exímios em qualquer parte do mundo. Por isso, não demorou muito até que os pescadores da Povoa do Varzim dominassem a pesca na costa brasileira. Viviam numa comunidade virada para dentro, apenas abrindo para a faina, resgatando das ondas o sustento de todos os dias. Em casa e nas campanhas de pesca que criaram, moviam-se apenas entre os seus, os que tinham ido em busca de uma nova esperança no “país irmão”.

A enorme perícia com que desenvolviam a sua atividade não foi suficiente. Criaram-se invejas, despeito, hostilidade: uma onda nativista contra o que vinha de fora. Os brasileiros queriam explorar a sua própria costa ou obrigar os poveiros a integrar os locais nos seus barcos. Chegaram mesmo a proibir a entrada de pescadores portugueses no Brasil.
A alternativa proposta era os próprios poveiros abandonarem a lusa nacionalidade e tornarem-se também eles brasileiros.
Para uma grande parte, virar as costas desta maneira a Portupoveiros6PNG.PNGgal estava fora de questão. Tirar-lhes o seu País era, pensariam – apagar-lhes a identidade, deixarem de ser quem eram e como se reconheciam.
Foi assim que decidiram regressar. Foram mais de mil. Só tinham como certas a fome a e miséria a que tinham tentado antes fugir.
Corria o outono de 1920.

Foram recebidos em festa, com homenagens e elogios, espetáculos e ovações., mas Portugal tinha muito pouco para lhes oferecer por essa época.

A solução passou por migrar rumo a paragens menos “madrastas”.
Fixaram-se nos territórios ultramarinos de Moçambique e Angola, onde lhes foram dadas condições especiais - embarcações, meios para conservar o peixe e o comercializar - por iniciativa e visão do então Alto Comissário, José Maria Norton de Matos.
O exemplo dos poveiros, continua, ainda hoje, a ser lembrado na sua terra, mas não só. Na cidade do Porto, por exemplo, existe uma Praça dos Poveiros, em honra dos entenderam que a pobreza era mais fácil de suportar que a vida como estrangeiros.
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Fontes
Hemeroteca Municipal Digital de Lisboa

hemerotecadigital.cm-lisboa.pt


Jornal A Capital
Nº2684, 11º ano – 2 nov. 1920
Nº2685, 11º ano – 3 nov. 1920
Nº2686, 11º ano – 4 nov. 1920
Nº2691, 11º ano – 10 nov. 1920
Nº2696, 11º ano – 15 nov. 1920
Nº2697, 11º ano – 16 nov. 1920

Illustração Portugueza
II série, nº 768 – 8 nov 1920

https://cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt/18868.html

https://www.facebook.com/miguel.viana.71/posts/norton-de-matos-e-o-repatriamento-dos-poveiros-do-brasil-a-ida-dos-pescadores-da/1701416786801679/

http://portodeantanho.blogspot.com/2017/06/continuacao-12.html

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

arquivomunicipal.cm-lisboa.pt

PT/AMLSB/EFC/002117

 

o muito sonhado canal entre o Tejo e o Sado

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Há mais de 250 anos que se fala das grandes vantagens que poderiam resultar de unir os dois rios. A polémica ideia nunca reuniu consensos, mas chegou a ser dada como inevitável. Para a história, fica outro canal, criado para escoar vinho.

É daquelas obras periodicamente apontadas como certas e iminentes, mas que não saem do papel. Há mais de 250 anos que se anuncia a construção de um arrojado canal para unir os rios Sado e Tejo, analisado por sucessivas comissões, alvo de vários estudos e esboços, versões e percursos diferentes, mas que nunca viu a luz do dia. Cheira que, com a polémica levantada de cada vez que o assunto esteve em cima da mesa, com os impactos ambientais expectáveis e o desenvolvimento de outras vias e transportes, tal projeto não sairá mais da gaveta.

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A proposta mais antiga de que se dá conta é do intendente-geral de Agricultura do Marquês de Pombal, Luiz Ferrari de Mordau (1765). A seu ver, uma tal ligação permitiria o extraiordinário recorde de uma ou duas horas para o trajeto fluvial entre Moita e Setúbal!
Nessa mesma época, os corregedores da Comarca de Setúbal e o comerciante e industrial Jácome Ratton defendiam que a ligação deveria ser entre o rio das Enguias (Tejo) e a ribeira da Marateca (Sado). A esta posição não deveria ser alheio o facto de Ratton explorar as salinas de Alcochete, muito próximas do local onde o canal deveria arrancar…
Aos franceses, quando invadiram o nosso País, igualmente não escapou a potencialidade de unir o Tejo e o Sado, para lhes facilitar o transporte de mercadorias entre o Alentejo e Lisboa. Logo em 1811, também ao governo Português, ainda com a corte no Brasil, pareceu útil tal ideia, tanto para fins militares, como para drenar as terras baldias por onde passaria a ligação… Mas o projeto de Joseph Theresio Michelotti, então em cima da mesa, não foi avante. Nada aconteceu.

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Em 1918, Eduardo Avelino Gomes da Costa – que, simultaneamente, defendia a ligação do Sado ao Guardiana - era o autor do projeto que então se perspetivava como inevitável, embora se estimassem como "enormes" os capitais necessários para o levar por diante. Escusado será dizer que ficou novamente em "águas de bacalhau".

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Recorde-se que, por essa altura, os transportes marítimos eram menos dispendiosos que os rodoviários, até porque escasseavam ainda as estradas dignas desse nome. Logo, este canal era visto como um "grandissímo recurso para o comércio interior" da região e de "incalculável vantagem" para as populações, pois que "para além de outros benefícios", possibilitava entre os portos de Lisboa e Setúbal, "uma comunicação mais segura e pronta do que pelo oceano, sem os riscos deste e os perigos da barra".

Em Setúbal, consoante as opiniões e as épocas, assim se apontava este projeto como extremamente negativo ou, pelo contrário, como uma enorme aspiração, como se refere em 1965, ao reivindicar a inclusão da obra no III Plano de Fomento do Estado, sendo que, em análise, estava um anteprojeto desenvoldido em 1956 por Luís da Fonseca, diretor do Porto de Setúbal.
Até agora, nada feito…

 

 

À margem

A ligação artificial entre cursos de água é um expediente há muito usado pelo homem, nomeadamente para suprir caudais poucvinha.PNGo expressivos com águas de rios onde estes são mais abundantes. Depois, há quem abra canais para escoar vinho. Foi este o caso do grande lavrador José Maria dos Santos, que foi responsável pela plantação, na zona de Rio Frio, da maior vinha do mundo, que produzia 10 a 15 milhões litros de vinho por ano. E como é que este precioso néctar chagava aos consumidores lisboetas? Pois José Maria dos Santos mandou abrir um canal com cerca de 18 quilómetros de extensão entre Rio Frio e o Rio das Enguias (perto de Alcochete), por onde enormes barcas navegavam à sirga carregadas de pipas que, assim, chegavam facilmente ao Tejo e, por esta via, às sedentas tabernas lisboetas. Tamanha proeza valeu-lhe epítetos como Deus Baco, pela forma como contribuiu para a abertura de baiucas de venda de vinho a bochechos por toda a cidade.
Mas isso é outra história...

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As imagens 3 e 4 dizem respeito à construção do Porto de Setúbal.

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Fontes

O Panorama – jornal litterário e instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis – Volume III; Typographia da Sociedade; Lisboa - 1839
Disponível em: https://books.google.pt/books?id=c3I AAAAYAAJ&pg=PA163&lpg=PA163&dq=canal+entre+tejo+e+sado&source=bl&ots=x9vH1vFBby&sig=ACfU3U0RI1Cp4vVKfd7u9OwFISrvBVRusA&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwjp6OqHi4vlAhUP0uAKHeciCIM4ChDoATAEegQICRAB#v=onepage&q=canal%20entre%20tejo%20e%20sado&f=false

 

Portugal Pittoresco ou Discripção Histórica d‘este Reino, por M. Fernando Denis; Volume III; Typographia de L. C. Da Cunha – 1849. Disponível em: https://books.google.pt/books?id=Ygk-AQAAMAAJ&pg=PA425&lpg=PA425&dq=canal+entre+tejo+e+sado&source=bl&ots=8BbWjSpcK-&sig=ACfU3U3HO5ma8sKyQLlAIEeXQIs7gTjrdA&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwjp6OqHi4vlAhUP0uAKHeciCIM4ChDoATABegQICBAB#v=onepage&q=canal%20entre%20tejo%20e%20sado&f=false

 

Arquivo Distrital de Setúbal – Arquivo pessoal de Almeida Carvalho

http://digitarq.adstb.arquivos.pt/details?id=1335743

 

Hemeroteca Digital Municipal de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/
Gazeta dos Caminhos de Ferro – Transportes e Turismo
Dez 1965

A Capital
Nº2954; 9º ano – 10 nov. 1918

 

Finisterra – Revista Portuguesa de Geografia
https://revistas.rcaap.pt/finisterra

 

Biblioteca Nacional de Portugal
www.purl.pt

Historical, Military and Pictoresque Observations on Portugal; de George Landmann; Volume II; impresso por W. Bulmer and Co.para T. Cadell e W. Davies, Strand; Londres - 1818

 

http://salvador-nautico.blogspot.com/2015/08/canal-sado-tejo.html#!/2015/08/canal-sado-tejo.html

 

http://issuu.com/portofsetubal/docs/livro_a_historia_do_porto_de_setubal

 

O Programa de Obras Públicas para o Território de Portugal Continental, 1789-1809 Intenção Política e Razão Técnica – o Porto do Douro e a Cidade do Porto; Tese de Doutoramento em Arquitectura, na especialidade de Teoria e História de Arquitectura de Carlos Henrique de Moura Rodrigues Martins; Universidade de Coimbra – maio 2014
Disponível em: https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/25713

 

O morgado da canita, de Conceição Andrade Martins; Instituto de Ciências Sociais - Universidade de Lisboa

Disponível em: https://www.academia.edu/1524452/José_Maria_dos_Santos_O_Morgado_da_Canita

 

Agricultura, ambiente e desenvolvimento em territórios periurbanos – Um desafio para todos – Estudo empírico nas freguesias de Marateca e Poceirão no município de Palmela, de Esmeralda Pinto Correia; Faculdade de Ciências Sociais e Humanas; Universidade Nova de Lisboa - 2012

Disponível em: https://run.unl.pt/handle/10362/8786

 

https://bibliotecas.defesa.pt/

Perfil do canal [ [de navegaçaõ entre Setubal, e Lisboa] : para se verem as proporções que deve ter, mesmo nas grandes alturas da excavação / Joze Théresio Michelotty Major Eng ; o segundo Tenente António José da Silveira, o desenhou.

Carta da região compreendida entre os rios Tejo e Sado.

 

https://www.portodesetubal.pt/museu/

Fotografia: Cabecinha; Sartoris

 

https://www.portodesetubal.pt/museu/index.php/cartografia/546—planta-ante-projecto-do-canal.html

http://www.rio-frio.eu/pt/historia

 

A fantasia ambulante do teatro

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Andavam de terra em terra em busca do seu público. Sem poiso ou palco certos, os artistas ambulantes levavam a fantasia do teatro às aldeias por esse País fora, mas as suas vidas eram bem diferentes do sonho que mostravam em cena.


Quem os observava, ao longe, pensava serem ciganos à boleia de carroças gastas, cavalos e burros vergados ao peso de uma estranha carga. Mais próximo, no entanto, percebia-se o erro. Transportavam inusitadas peças de mobiliário, pedaços de cenário que evocam paisagens exóticas e objetos mais próprios de outras épocas. As suas roupas, embora já tivessem visto melhores dias, mantinham algum garrido e até um fausto meio decadente. Eram os artistas errantes, famílias inteiras que compunham o elenco da companhia teatral que era a sua casa, ora trupe de maltrapilhos, ora trasvestidos de reis e rainhas nas cortes das histórias que contavam.

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O advento do comboio suavizou as viagens e alargou-lhes a área de ação, mas à beira do século XX, as rotinas destes atores ambulantes pouco se tinham alterado em relação aos tempos mais recuados, dos jograis e saltimbancos.


Longe das grandes cidades, fizesse chuva ou sol, pernoitando pelo caminho até à aldeia mais próxima, seguiam sempre pensando na plateia seguinte, no texto que iam debitar, nas outras tarefas que os esperavam... porque ali todos eram polivalentes e era preciso montar a barraca; consertar a espada do imperador romano; retocar um quadro desbotado ou dar um ponto no já muito passajado vestido da princesa.

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Pareciam livres, mas tinham uma vida em circuito fechado, por mais estradas e caminhos poeirentos que palmilhassem, montes e vales que se calcorreassem.


Porque os artistas viviam em comunidade familiar, casavam entre si e circulavam pelos mesmos papeis que os seus pais já tinham encarnado e os seus filhos interpretariam um dia, de acordo com a idade e a fase da vida, percorrendo todo o naipe em que se enquadrem.

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É claro que, mesmo nesta profissão sem eira nem beira, não eram todos iguais. Algumas empresas teatrais ganharam o direito à apresentação nas salas disponíveis em cada terra e eram já conhecidas do povo. Havia as que montavam o seu próprio palanque, no meio da rua, muitas vezes sem teto sequer. E havia até os homens sós, acrobatas, contorcionistas, aberrações, domadores de um qualquer animal ou cómicos que possuiam apenas adereços e faziam os seus números onde fosse possível juntar gente que rentabilizasse a encenação, sonhando um dia poder pertencer a uma farândola* a sério.

teatro julia mendes.jpgEm todos havia a certeza de nesta vida ao relento não se enriquecer ou alcançar a consagração, só os aplausos desgarrados de quem não conhecia outra cultura.

 

Uns e outros traziam a alegria consigo.

 


Enquanto ali estavam tão badalados forasteiros, a localidade permanecia em festa. Havia sonhos para vislumbrar, devaneios para imaginar.
Acampavam em qualquer terra por uns quantos meses e durante esse tempo levavam a fantasia ao povo rude mas também aos importantes do local.
O empresário era o primeiro a dar a cara. Fazia os contactos e negociações, enquanto o grupo se dava a conhecer nas ruas e praças com mais gente, namorando os potenciais espetadores.
Armava-se o palco ou alugava-se a sala da aldeia; imprimiam-se uns cartazes distribuídos pelo barbeiro ou a mercearia; ofereciam-se bilhetes ao diretor do jornal, se houvesse algum, para que tivesse mais entusiasmo ao anunciar os espetáculos.

E por ali iam ficando, enquanto o reportório atraísse a assistência sôfrega de emoções.
Na província, mais especificamente no norte de Portugal, a pronúncia fechada aliava-se aos comuns erros gramaticais e aos improvisos já testados, destinados a provocar o riso geral na interpretação dos clássicos já muito “amachucados” por esse uso. O texto, aqui chamado de casco, seguia de terra em terra; geração em geração, cada vez mais ajustado às agruras desta interpretação.
Coexistiam com o teatro nos grandes salões privados e com as companhias residentes nas numerosas salas que foram surgindo, a partir da segunda metade do século XIX, nos principais centros urbanos, até nos bairros modestos, mas também na província, que permitiam mais condições e alternativas para a representação. E

m Lisboa, estes teatros populares também eram presença assídua nas feiras – Amoreiras, Belém e Campos Grande; mais tarde Alcântara, na zona do atual Parque Eduardo VII e em Santos – e constituíam o divertimento de eleição, em especial nos meses de verão.

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E, quando o animatografo invadiu as salas disponíveis e captou o público, ávido de novidades, as pequenas companhias voltaram a fazer-se à estrada, dependendo novamente dos seus teatros-barraca para sobreviver, disputando espaço também com algumas experiências de cinema ambulante que começaram a proliferar já no século XX.



À margem
A companhia teatral de Rafael Oliveira terá sido a última desta tradição de teatro itinerante a desaparecer do panorama cultural português. Fundada em 1918, sobreviveria à morte do seu fundador, só sendo dissolvida em 1975. Com uma opção clara pelos teatros de província, apenas se estreou em Lisboa em 1962.
Muitos artistas seriam ambulantes por opção, outros por tradição familiar, outros ainda porque não almejaram outros palcos. O teatro itinerante, no entanto, “deu” muitas "estrelas" ao teatro dos chamados grandes palcos.

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A atriz setubalense Ângela Pinto; a grande Palmira Bastos (na imagem), filha de um casal de artistas espanhóis que trabalhavam em companhias ambulantes; Camilo de Oliveira e Eunice Muñoz são alguns exemplos.
Os Dallot apareceram em 1870 e formavam uma verdadeira farândola. Quando começaram por cá, estes franceses tinham uma espécie de circo com 20 figuras, entre funâmbulos**, acrobatas e palhaços. Tinham o seu próprio teatro-barraca e foram das famílias mais prolíferas dos finais do século XIX, com um percurso que começa com espetáculos de ginástica, teatro mecânico, física recreativa, cosmorama e circo, passando depois para comédias ingénuas, misturadas com as capacidades do extraordinário cavalo elástico e outros números alucinantes.

Os descendentes dos três irmãos Dallot mantiveram-se ligados ao teatro de feira e em espaços fixos, protagonizando muitos episódios rocambolescos, quer no palco, quer nas suas vidas, de terra em terra.

Depois ainda havia o Joaquim Carpinteiro, que na sua voz inconfundível anunciava “É entrar meus senhores! Comprem os bilhetes que vai dar-se a última função!”
Mas isso é outra história…


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*Segundo Agustín de Rojas, em Viaje entretenido (1604), as companhias itinerantes espanholas, designavam-se consoante o número de componentes e o género que representavam. Na origem, farândola era um grupo constituído por sete ou mais homens e três mulheres.

**Um funâmbulo é um artista que faz o seu número equlibrado numa corda ou arame. 

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As imagens são meramente ilustrativas do tema.
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Fontes

Percursos itinerantes - A companhia de Rafael de Oliveira, Artistas Associados, Dissertação para obtenção do grau de Mestre em Estudos de Teatro de José Guilherme Mora Filipe; Universidade de Lisboa - Faculdade de Letras - Estudos de Teatro; 2007. Disponível em https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/23361/1/ulfl061184_tm.pdf
Atores errantes de oitocentos - A vida errante de companhias ambulantes; de José Guilherme Mora Filipe, publicado em Sinais de Cena nº12; dez 2009. Disponível em https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/29128/1/FILIPE%2C%20Guilherme%20%282009%29%20Actores%20Errantes%20de%20Oitocentos.pdf
Teatro de Feira: o Genuíno Popular do Público Erudito?; de Paula Gomes Fernandes; Universidade de Lisboa – Centro de Estudos de Teatro; Popping the Question: The Question of Popular Culture Issue 4 – 2015. Disponível em https://lisbonconsortium.files.wordpress.com/2012/12/4-paula-magalhc3a3es-teatro-de-feira.pdf

Hemeroteca Digital de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt
Revista do Conservatório Real de Lisboa
Nº4-6; ago-out 1902
Almanaque
Out 1960


Estroinas e estroinices – Ruína e morte do Conde de Farrobo, de Eduardo de Noronha; João Romano Torres e Cª Editores – Lisboa; composta e impressa na empresa de Manuel Lucas Torres – Lisboa 1922. Disponível em
https://archive.org/details/estroinaseestroi00noro/page/182/mode/2up?q=dallot

Imagens
Imagens
https://desenvolturasedesacatos.blogspot.com/2017/09/teatro-de-marionetas.html
Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Joshua Benoliel
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/002484
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/001233
Arnaldo Maia Serôdio
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/SER/000288
Alberto Carlos Lima
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/003218
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/001350

PT/AMLSB/CMLSBAH-TMSL/16/000244

 

 

Instantâneos (62): tango e chá no zoo

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Começavam a medo, ensaiando os passos daquela música estranha que era a sensação do momento. Nos “loucos” anos 20, o tango assumiu-se como a grande moda. Todos o queriam dançar, em toda a parte e a qualquer hora. Em Lisboa, a gente mais chique reunia-se para sessões onde a cadência sensual vinda do outro lado do oceano se misturava com o sabor de bebidas também oriundas de paragens distantes. Todos queriam ir ao Chá-Tango do Jardim Zoológico.
Os compassos que ansiavam aprender a acompanhar permitiam uma proximidade entre homem e mulher que inicialmente provocou o escândalo dos puritanos e uma enorme excitação em todos os outros. Talvez por isso, nestes encontros no zoo, onde o chá era o mote, rapidamente começou a ser servido também o chocolate, mais condicente com os quentes movimentos dos pares, com avanços e recuos, hesitações e requebros sensuais.

 

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As senhoras expunham os seus mais recentes vestidos. Sapato alto e chapéus elegantes contribuíam para a harmonia da toilette, imitando, dento do possível, os modelos emanados das tendências internacionais.

 

 

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Árvores frondosas proporcionavam a necessária sombra, naquele verão de 1920. Famílias inteiras reuniam-se em mesas criteriosamente distribuídas em torno de um enorme estrado onde tudo acontecia.

À vista de todos, trocavam-se olhares, gestos, toques, que perduravam na memória dos que rodopiavam, tornando ainda mais inesquecíveis os ritmos ouvidos.


O tango argentino, nascido de uma explosiva mistura de culturas, estava resgatado da sargeta, saltando dos prostíbulos de Buenos Aires para os recintos exclusivos dos que apreciavam tal “modernidade” e ousadia. O que tinha nascido para entreter os homens – muitos emigrantes de diversas nacionalidades - que esperavam vez à porta dos bordeis, era agora – embora com relutância inicial – acolhido por gente dita séria e ciente das suas reputações.

 

O tango estava assim redimido do pecado inicial, de que os seus novos dançarinos talvez nem tivessem ouvido falar.

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Fontes
Hemeroteca Municipal Digital de Lisboa
hemerotecadigital.cm-lisboa.pt

Illustração Portugueza
Série II; nº752 – 19 julho 1920

https://www.infoescola.com/musica/tango/
https://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/historia-do-tango.htm