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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Quando as febres nos levaram reis e príncipes

O jovem rei D_ Pedro V visitando os enfermos em ho

 

 

Com tanta mortandade, Portugal mergulhou num estado que resvalava entre a depressão e a revolta. Ninguém queria acreditar que o rei “santo” tinha desaparecido com as febres. Alguém devia ser o culpado!

Foram anos terríveis. A doença grassava no País, matando arbitrariamente, mas nunca ninguém pensou que batesse à porta dos "intocáveis". Em dois anos, a rainha, o rei e dois jovens infantes morrem inesperadamente. O povo divide-se entre os que culpam os céus, aliás bastos em sinais de mau augúrio para a vida de D. Pedro V, e os que tentam encontrar bodes expiatórios, da cultura do arroz, aos políticos. Portugal cai num estado que resvala entre a depressão e a revolta.

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Olhando para trás, talvez aqueles tempos fossem iguais a quaisquer outros, embora, convenhamos, não é normal tanta mortandade na família real, em nenhuma era, porque está habitualmente resguardada das principais maleitas.

Em meados do século XIX tudo foi diferente.


Durante o reinado de D. Pedro V, iniciado quando este tinha apenas 16 anos e devido à morte da mãe no parto do 11º filho, aconteceu “tudo o que é trágico”: incêndios de grandes proporções; cheias destruidoras (1855), um terremoto (1858) e vários surtos epidémicos: cólera-mórbus, febre-amarela, difteria, tifo e febre-tifoide.

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Ao contrário do que era usual durante estas epidemias, a real família não seguiu o exemplo de outros clãs abastados.

Em vez de rumar às casas de campo e férias em busca de ares descontaminados, permaneceu no seu "posto" e até em contacto direto com os enfermos.

A aparente imunidade do rei, que amiúde visitava e cuidava de pessoas doentes, associada à sua beleza quase angelical, haviam criado em torno do monarca e aos olhos do povo uma aura que roçava a santidade.

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Curiosamente, embora as grandes cidades fossem mais afetadas pelas moléstias, devido à aglomeração de pessoas que, como bem sabemos, é propícia ao contágio, as mortes reais ficaram ligadas ao interior do País.


O primeiro choque não se faz esperar. Corre o ano de 1859 quando a rainha Dona Estefânia (na imagem) perece de difteria após uma viagem ao Alentejo (Vendas Novas). O rei, que com ela havia casado um ano antes, fica devastado.


Já em 1861, no espaço de dois meses, D. Augusto fica gravemente doente. O próprio D. Pedro e os outros irmãos, João e Fernando (nas imagens 5 e 6)), morrem de febre tifoide pouco depois de regressarem de um périplo na mesma região.

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Todos eram belos, saudáveis e extremamente jovens.*


O funeral do rei arrastou mais de cem mil pessoas, numa cerimónia de consternação nacional nunca vista.

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Mas, rapidamente se passou da dor à fúria.

Nas ruas falava-se de envenenamento e o principal visado nesta revolta irracional era o Marquês de Loulé, presidente do Conselho, suspeito aos olhos da população em luto de envenenar o rei para colocar o próprio filho – neto de D. João VI – no trono.

São efetuadas análises toxicológicas aos cadáveres, que nada revelam, mas o conde da Ponte também chega a ser atacado e as casas dos marqueses de Ficalho, Ávila, Tomar, Casal Ribeiro e Martens Ferrão são apedrejadas.

 


Os boticários e os médicos tornam-se também alvo da ira popular, uns porque aumentam os preços e restringem as vendas dos medicamentos; outros porque não são capazes de debelar a doença.

Em paralelo, pede-se a expulsão de vagabundos e estrangeiros, vistos como potenciais focos de infeção. cortejo funebre d pedro V.PNG

Sucedem-se igualmente as queixas sobre a venda de produtos alegadamente contaminados, encarados como causadores do mal que batia a todas as portas.

De facto, não faltavam bodes expiatórios nesta revolta cega, que serve de argumento para desacatos e crimes que nada tinham que ver com o sentimento de perda que o País experimentava.


Porque tinha jantado com o rei pouco antes da doença se revelar, o banqueiro espanhol D. José de Salamanca y Mayol, ao qual Portugal devia as avultadas somas, não escapou às suspeições.

O mesmo para a cultura do arroz, que então dava os primeiros passos em larga escala e era vista como “mortífera” e “pestilenta”, associada que estava ao apard pedro V revista brasil_portugal.JPGecimento de febres paludosas que o povo entendia serem em tudo semelhantes às que haviam morto tanta gente.

 

Foi com este “cortejo fatal de desventuras”, refletido num clima perturbador de enfermidade, tumulto e insegurança que terminou abruptamente o reinado do “bem-amado” D. Pedro V.

A sua morte foi um golpe fatal para a esperança que, aos olhos do povo, o rei pacífico, progressista, culto e competente personificava.


Alguém assim tão perfeito, não poderia perdurar....

 

À margem

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Diz o povo: se queres ser bom, morre ou vai-te! Pode ter sido este fenómeno a criar em redor da figura de D. Pedro V uma aura de perfeição, ou isso pode, efetivamente, dever-se às suas qualidades. O seu reinado não teve só desgraças, aliás foi pródigo em evoluções tecnológicas e sociais. Para começar, o ainda príncipe, fez questão de viajar pela Europa, conhecendo nações com outras realidades e graus de desenvolvimento. Numa triste ironia, no regresso, porque havia passado por países onde grassavam pestes, isolou-se em quarentena para não trazer tais doenças para Portugal.

Foi durante o seu reinado que se inaugurou o telégrafo elétrico e o caminho-de-ferro, de que o rei foi grande entusiasta. Criou escolas e fundou, em Lisboa e a expensas próprias, o Curso Superior de Letras.
Era um homem grave, sério, culto, bem preparado para as funções que assumiu e moderno.

A título de exemplo, tinha o hábito – pouco comum na época, de distribuir livros como presente às crianças.

Paralelamente, contra a opinião de conselheiros e para espanto de muitos, instituiu uma caixa de reclamações e sugestões, da qual apenas ele tinha a chave. Instalada em área pública, a famosa “caixa verde”, servia para que qualquer pessoa pudesse contactar diretamente com o rei, expressando as suas opiniões e inquietações.
Mas isso é outra história….


…………………….
* D. Estefânia - 17 julho 1859 – 22 anos
Infante D. Fernando – 6 novembro 1861 – 15 anos
D. Pedro - 11 novembro 1861 – 24 anos
Infante D. João - 27 dezembro 1861 – 19 anos

O infante D. Augusto sobreviveu
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Fontes

As epidemias nas notícias em Portugal: : cólera, peste, tifo, gripe e varíola, 1854-1918, de Maria Antónia Pires de Almeida; Centro de Investigação e Estudos de Sociologia/ ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.21, n.2, abr.-jun. 2014, p.687-708. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702014000200012

0 imaginário social das epidemias em Portugal no século XIX; de Júlio Joaquim da Costa Rodrigues da Silva; Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Lusíada de Lisboa; Lusíada História - Lisboa. II Série, n. 0 1 2004
Crises de mortalidade em Portugal desde meados do século XVI até ao início do século XX, de Maria Hermínia Vieira Barbosa, com a colaboração de Anabela de Deus Godinho; Coleção Monografias 10; edição do Núcleo de Estudos de População e Sociedade Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho; Guimarães - 2001
O segredo de D. Pedro V
https://archive.org/details/osegrdodedompe00cost/page/6/mode/2up?q=alc%C3%A1cer


Biblioteca Nacional de Portugal em linha
www.purl.pt
O jornal do Porto
Nº270; 3º ano – 26 nov. 1861
Nº271; 3º ano – 27 nov. 1861

Hemeroteca Municipal Digital de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt
Olisipo – Boletim Trimestral - Grupo Amigos de Lisboa
Ano XXV; nº97 – jan. 1962

Documentos para a história da toxicologia em Portugal - O caso do infante D. João (1862) - Relatório dos peritos encarregados da análise toxicológica - Chimica technica - Rev. de Chimica Pura e Ap. — 2º anno — nº 8 — Ago. 1862


https://apambiente.pt/_zdata/Divulgacao/Publicacoes/Tagides/TAGIDES_01.pdf


http://maltez.info/respublica/portugalpolitico/revoltas/1861%20revoltas.htm

Imagens

Biblioteca Nacional de Portugal em linha
www.purl.pt
Cotas
E-3992-P
E. 117 V.
E. 82 V.
Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/EDP/001911
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/EDP/001665

https://historiaschistoria.blogspot.com/2017/07/d-pedro-v-de-portugal.html

http://www.artnet.com/artists/thomas-jones-barker/king-pedro-v-of-portugal-and-brazil-visiting-the-nJksHetQaqeO4RKAIgfO2Q2

 

Canal de rega era o único caminho para a Comporta

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Todos os anos morria alguém, mas não havia alternativa. A circulação fazia-se pelas bermas do canal de rega, até o correio e o abastecimento de alimentos, pois a vasta área entre Alcácer do Sal e a Comporta não possuía qualquer caminho circulável por automóvel.

 

 

A denominada “estrada da Comporta”, que hoje se enche de carros topo de gama com veraneantes em busca do paraíso, é muito recente. Há 50 anos, o único acesso àquela zona costeira eram as bermas do canal de rega, onde todos os anos morriam alguns dos muitos que, de noite ou de dia, a pé, de bicicleta ou motorizada faziam o percurso, hoje usado como trilho turístico e que então era o único possível entre Alcáccomporta - monografia 1945.GIFer do Sal e a costa.
Nesta área de 400 km2, na margem esquerda do rio Sado, habitavam cerca de cinco mil pessoas, mas não existia qualquer caminho publico transitável por automóvel. Em 1969, numa das várias exposições ao governo, o então presidente da Câmara Municipal de Alcácer do Sal, Carlos Xavier do Amaral dizia que estas eram “terras esquecidas pela civilização”, não distantes, portanto da imagem de “África metropolitana” que a Comporta teve durante muito tempo.

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Com a construção, nas duas décadas anteriores, dos canais de rega que levavam a água necessária à agricultura, tinham crescido grandes extensões de arrozal, onde trabalhavam mais de três mil pessoas por campanha.
As condições de acesso, no entanto, continuavam longe de ser ideais. Em vez das areias soltas e escaldantes de antes, quem circulava entre a zona costeira e Alcácer, tinha à disposição as bermas do canal de rega, embora se tenha tentado proibir esse circuito, para evitar mais mortes.

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Essa tentativa deu origem a uma petição com mais de 1300 assinaturas onde se pedia encarecidamente um recuo nessa intenção. “Sem estrada e proibidos de usar o canal, as pessoas dos montes e lugares entre Casas Novas e Comporta receiam ficar isoladas, sem qualquer meio de comunicação, transporte, abastecimento e contacto”, com a sede de concelho, queixam-se os peticionários. Já que até o carteiro e o guarda-fios, que consertava as avarias telefónicas, se deslocavam pelas margens do canal de rega, de motorizada, e era também assim que se fazia o abastecimento de carne e outros bens.
Carlos Xavier do Amaral lamentava que a falta de estrada limitasse o desenvolvimento de toda aquela área, onde se situavam os terrenos mais pobres da região e que permaneciam incultos, porque nem os madeireiros ali queriam comprar o que quer que fosse, não tendo depois forma de o transportar. Referia o fornecimento de produtos e equipamento para a cultura do arroz que se fazia na Comporta como “dramático”, o que explicava que não se atingissem ainda maiores valores de produção e justificava a “ansia de progresso” que fervia no peito de todos quantos “mourejavam por aquelas bandas”.

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A via, com cerca de 28 quilómetros, demorou mais de uma década a ser executada. Começou timidamente em 1960, como estrada municipal, estreita e curta. Cinco anos depois, apenas se tinha pavimentado cerca de um quilómetro e deu-se início a fundações e pavimentação de outro troço, com pouco mais de 3 mil metros. Depois avançou-se até à fábrica de concentrado de tomate entretanto construída. A inauguração só teve lugar em 1973, com todas as formalidades e uma grade festa, organizada pela família Espírito Santo, que já era detentora da Herdade da Comporta desde 1958.
Tristemente, as mortes não cessaram. Acontecem agora, a altas velocidades, na tal estrada, batizada EN 253*.

À margem
Foi há um século que a Comporta começou a alterar a imagem que dela se conhecia. O denominado Paul da Comporta era uma zona insalubre, com terras incultas e alagadas, propícias a febres e onde só residiam pescadores e quem era obrigado a ali trabalhar, como os escravos que o Marquês de Pombal trouxe para labutar na agricultura por alegadamente serem mais resistentes à doença, mas que também pereceram, ou os degredados, condenados a ali cumprir pena. Curiosamente, a cultura do arroz, que tão má fama tinha em outros pontos do País, vista como pestilenta, teve, no concelho de Alcácer do Sal, o condão de atenuar a tendência natural dos terrenos pantanosos e das antigas salinas convertidas em canteiros de arroz, embora a persistência de malária fosse realmente impressionante na população até meados do século XX.
Quem podia prever que a Comporta se iria transformar no êxito turístico que é hoje, quando, em 1826, foi decretado que se passaria a chamar Vila Nova da Regente? O topónimo não vingou, mas provavelmente seria mais adequado ao atual usufruto do local.
Mas isso é outra história…
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*Nesta imagem a EN353-1 de acesso a Tróia.

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Já aqui antes escrevi sobre a Quando a bela Comporta era uma espécie de “África metropolitana” onde ninguém queria ir.

 

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Fontes
Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal
EN 253 – Alcácer do Sal - Comporta
PT/AHMALCS/CMALCS/CAMARA/10/03/01/004

Correspondência
Gabinete de Apoio à Presidência

Fundo JF Santiago
Jornal «O Setubalense», suplemento de 4 de Agosto de 1934.

Controlo populacional e erradicação da malária; de Vítor Faustino, citando Dias 2001, 90. Disponível em https://epdf.pub/a-circulaao-do-conhecimento-medicina-redes-e-imperios.html

Gazeta de Lisboa nº152 - 1826

https://books.google.pt/books?id=qOsvAAAAYAAJ&pg=PA1214&lpg=PA1214&dq=%22paul+da+comporta%22&source=bl&ots=fG2WR8qspI&sig=ACfU3U3DqS7-qfOdWRqe95MUuGMrlmi4gg&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwjtsc-O4qzjAhVQ-YUKHaApAp8Q6AEwAnoECAcQAQ#v=onepage&q=%22paul%20da%20comporta%22&f=false

Arquivo Parlamentar da Assembleia da República
ahpweb.parlamento.pt

Controlo populacional e erradicação da malária; de Vítor Faustino, citando Dias 2001, 90. Disponível em https://epdf.pub/a-circulaao-do-conhecimento-medicina-redes-e-imperios.html

Imagens

Arquivo Pessoal de Fernando Horta em:
https://www.sabado.pt/vida/detalhe/a-incrivel-historia-da-proprietaria-do-restaurante-dona-bia-na-comporta

http://www.herdadedacomporta.pt/pt/gca/index.php?id=14

http://maiscomporta.blogspot.com
https://www.jornalmapa.pt/2016/03/30/8283/

https://www.facebook.com/fundacaohdc/photos/?ref=page_internal

Instantâneos (65): no princípio era a truta

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Comer peixe de “aquário” pode parecer coisa destes tempos em que nos oceanos abunda o plástico e escasseia a vida, mas há muito que existem experiências consistentes nessa área. No nosso país, onde tal sector só tardiamente se implantou, há mais de cem anos produziam-se trutas que tinham como destino dar vida os rios portugueses, já nessa época “em despovoamento rápido e contínuo”.

 

 

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A Estação Aquícola do Rio Ave foi criada em 1893 e instalada em Vila do Conde. Dos seus tanques saiam anualmente mais de dois milhões de peixes para repovoamento.
Parte importante deste trabalho era desenvolvida nos laboratórios, caixas de encubação, aparelhos para agitar os óvulos que necessitam de movimento para eclodir, tanques de reprodução, lagoas e maquinaria para bombagem, filtragem e circulação de água, captada diretamente no rio Ave. A alimentação dos peixes era preparada em cozinha própria!

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As principais espécies ali criadas artificialmente eram a truta vulgar, a truta americana, o salmão e o sável. Em 1908, a novidade era a cultura de truta dos lagos da Suíça, para ganhar novo lar nas lagoas da serra da Estrela

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Dois nomes se destacam no arranque deste empreendimento pioneiro em Portugal: Bernardino Machado, que viria a ser Presidente da República, e Augusto Nobre (na imagem), político, mas sobretudo cientista, ao qual se devem os primeiros passos na zoologia moderna e no estudo da biologia marinha no nosso País. Este, dedicou 40 anos da sua vida à Estação Aquícola do Rio Ave, de onde se reformou aos 68 anos. Deixou ainda uma notável coleção de desenhos científicos de espécies marinhas.

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A estação seria ainda alargada e continuaria o seu percurso, sendo formalmente extinta em 1996, altura em que já se denominava Centro Aquícola do rio Ave.
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Fontes
Hemeroteca Digital de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/
Illustração Portugueza
Nº127 – 27 julho 1908

A História da Estação Aquícola de Vila do Conde – Augusto Maia
file:///E:/AAhist/AAAfazer/primeiro/centro%20aquicola%20rio%20ave/A_Historia_da_Estacao_Aquicola_de_Vila_do_Conde.pdf

Evolução histórica dos organismos no âmbito da administração pública florestal (1824-2012) - João Pinho
Gabinete de Apoio ao Conselho Diretivo. Disponível em:
file:///E:/AAhist/AAAfazer/primeiro/centro%20aquicola%20rio%20ave/Administracao-publica-florestal-ICNF-v143b%20estacao%20aquicola.pdf

Contributo para a conservação preventiva de conjunto de desenhos científicos de Augusto Nobre do acervo da BPMP - Relatório de Estágio de Especialização em Conservação Preventiva de Documentos Gráficos e Fotográficos de Manuela Paulos; Faculdade de Letras da Universidade do Porto – 2018. Disponível em: https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/17441.pdf

https://repositorio-tematico.up.pt/handle/10405/23071


https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Pereira_Nobre

 

Alcácer recebia água envenenada por três minas

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Há mais de 150 anos, a poluição do rio Sado já preocupava os alcacerenses, que protestavam contra a contaminação proveniente de outros concelhos, com graves consequências na mortandade no peixe e na produção local de arroz.

A poluição do Sado é algo que há muito preocupa as gentes de Alcácer do Sal, bem cientes do despejo de esgotos que até há bem pouco tempo conspurcava este importante curso de água, um dos principais elementos que definem, desde sempre, o território do concelho. Poucos saberão, no entanto, que esta é uma questão bem mais antiga e que, a juntar às águas residuais, o rio recebia contaminação de várias minas, situadas nos concelhos de Grândola e Aljustrel. Há mais de 150 anos, já a população de Alcácer protestava contra o veneno lançado nas águas em vários pontos e que tinha graves consequências para a vida e a economia da então vila.

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Os problemas começaram na segunda metade do século XIX, com a prospeção mineira em Canal Caveira, Lousal e Aljustrel. Ali exploravam-se as pirites, para extração de vários minérios e, em especial, produção de ácido sulfúrico, da qual resultavam águas sulfatadas lançadas nas ribeiras e que depois afluíam ao Sado, em Alcácer, prejudicando o já existente cultivo de arroz e provocando a mortandade do peixe.

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Datam desta primeira época as reclamações dos alcacerenses e, fazendo eco destas, queixas da própria Câmara Municipal de Alcácer do Sal contra as descargas de Aljustrel, especialmente graves no verão – quando o caudal do rio era menor – e no período de maior incremento desta mina (1871-81). Apesar das reivindicações, sabe-se que a questão persistiu, embora em 1912 o município tenha conseguido pelo menos ser avisado antes dos despejos, o que não deve ter servido de grande consolo, diga-se.
Em 1916, a Associação do Comércio e Indústria da vila de Alcácer do Sal une-se à câmara e às juntas de freguesia para exigir do governo a proibição “do desaguamento das águas das minas para o rio Sado”, mas, mais uma vez, tal pedido caiu em saco roto. Sabemos que assim foi, porque, dez anos depois (1926), é a Junta de Freguesia de Santiago que se dirige ao Ministro do Comércio, alertando para os “muitos prejuízos resultantes do despejo das águas minerais da mina do Lousal para o rio Sado”. É António de Jesus Cigarra que assina a carta, na qual diz que a poluição envenena o peixe, ficando a povoação “privada de um tão importante, apetecível e económico alimento” e muitos pescadores que neste têm “o seu único ganha-pão, ficam na miséria”.
Ora, sabe-se bem que, embora possam ter sido introduzidas melhorias nos impactos ambientais da extração do minério, a poluição só terminou efetivamente quando encerraram as minas. Lousal até teve um grande incremento de produção já nos anos 50 do século XX, só vindo a encerrar em 1988, enquanto que Canal Caveira esteve em funcionamento, embora em ritmos variados, praticamente cem anos, fechando nos anos 60 do século passado. Em Aljustrel, depois de um período de inatividade, as minas reabriram em 2009.
Com tantos anos de falta de cuidado e contaminação, é caso para nos admirarmos com a vida que este rio ainda possui e gradualmente vai recuperando, agora que as ameaças são menores, nomeadamente com o tratamento de esgotos domésticos. Se, ainda assim, há peixe, camarão, ameijoa, milhares de aves e outros animais, é caso também para nos questionarmos quão rico em ternos de fauna e flora seria o Sado se, ao longo dos séculos, o Homem o tivesse respeitado mais.
À margem
As minas provocavam assinalável poluição, mas também davam trabalho e pão a muitas famílias. No início dos anos 30 houve despedimentos alargados em Aljustrel e São Domingos, que coincidiram com outra crise, na lavoura, e com o regresso de muitos que haviam emigrado para Espanha. Enquanto alguns sobreviviam com dificuldades, trabalhando apenas alguns dias por semana, outros encontraram numa mina de carvão de Santa Susana, também no concelho de Alcácer do Sal, a resposta para as suas necessidades. A mina de Jungeis também denominada do Moinho da Ordem - camadas de hulha intercaladas em conglomerados, arenitos e xistos argilosos - havia sido dada à exploração inicialmente em 1839, mas só o seria mais efetivamente já no início do século XX. Encerrou em 1940, deixando uma forte memória que ainda persiste nas gentes que vivenciaram a experiência mineira da pequena aldeia. O carvão de Santa Susana, semelhante ao extraído em Newcastle, no Reino Unido, era o melhor que já se tinha descoberto em solo nacional.

Mas isso é outra história...

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Fontes
Indústria e conflito no meio rural – os mineiros alentejanos (1858-1938), de Paulo Eduardo Guimarães; Publicações do Cidehus; Edições Colibri – 2001. Parcialmente disponível em:
https://books.google.pt/books?id=9Tf0DQAAQBAJ&pg=PA206&lpg=PA206&dq=mina+susana+alc%C3%A1cer&source=bl&ots=gFoCQm41GN&sig=ACfU3U24vaXcHh2hx9iNtzuCaY1cXrQR8A&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwi4nOq3v7TqAhUPohQKHamRBZYQ6AEwCHoECAsQAQ#v=onepage&q=mina%20susana%20alc%C3%A1cer&f=false

 

https://www.mindat.org/loc-218095.html

Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal
Fundo Junta de Freguesia de Santiago
Collecção de leis e outros documentos oficiais publicados desde o 10 de setembro até ao 31 de dezembro de 1839 5ª série – Lisboa 1839 – disponibilizado pela Universidade de Lisboa – Faculdade de Direito – Instituto da História do Direito e do Pensamento Público

Imagem

pt/ahmalcs/cmalcs/fotografias/02/01/0063

Hemeroteca Digital de Lisboa
A Capital
Nº3572; 11º ano – 11 jul 1920

https://sicnoticias.pt/programas/perdidoseachados/2011-11-16-as-minas-do-lousal

https://www.infopedia.pt/$pirite
https://pt.wikipedia.org/wiki/Mina_de_Lousal
https://www.correioalentejo.com/?diaria=18091&tipo=1

Instantâneos (64): homens de aço

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São homens que vemos na imagem, embora apenas lhes descortinemos os contornos, a sombra. Labutam aparentemente indiferentes ao que se passa à sua volta, ao espectro da chaminé que vomita um fumo espesso, avassalador, que subjuga tudo em redor. São operários da indústria que simboliza o desenvolvimento do País, mas aos nossos olhos parecem estátuas negras, peões insignificantes, mas primordiais, no desígnio maior que era dotar Portugal de capacidade para produzir aço - a referência máxima do progresso industrial português.
O instantâneo, de 1973, foi captado na Siderurgia Nacional, em Paio Pires, concelho do Seixal, à beira Tejo. Foi ali que, cerca de 20 anos antes, se decidiu instalar a “rainha das indústrias”, como foi batizada por António Champalimaud, quando, em 1954, recebeu do Estado a concessão e o monopólio da produção de aço em Portugal. A unidade industrial seria inaugurada em 1961.
Durante uma década, a Siderurgia Nacional foi um dos principais motores da economia nacional e uma referência empresarial inquestionável, mas este instantâneo foi precisamente captado no início do fim desse idílio, manchado pela poluição gerada, de que pouco ou nada se falava.
O primeiro choque petrolífero e o 25 de abril de 1974 ditaram o fim dessa era. A Siderurgia foi nacionalizada em 1975, reprivatizada em 1994; dividida e vendida. Hoje chama-se SN Seixal e depende de capitais espanhóis.
A produção de aço por via integrada terminou em 2001. O gigantesco alto-forno, elemento fundamental ao processo e dominante no recinto, foi substituído por um forno elétrico, que fabrica aço a partir de sucata.
Hoje, o colosso ainda lá está, mas já não labora. Marca o território e a memória, como testemunha de tempos que não se repetem.*


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*O alto-forno da Siderurgia Nacional está classificado como Monumento de Interesse Público desde 2012.
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Fontes

Imagem
Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt
Eduardo Gageiro

PT/AMLSB/EGA/000053


http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/6716240


https://observador.pt/2019/02/15/siderurgia-nacional-afirma-que-nada-na-sua-producao-justifica-poluicao-em-paio-pires/


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/24-dez-2019/aconteceu-em-criada-a-siderurgia-nacional-11650019.html


https://www.dinheirovivo.pt/starcompany/siderurgia-nacional-criada-para-tirar-o-pais-da-horta-hoje-vira-se-para-fora/


https://dre.pt/application/dir/pdf2sdip/2012/12/248000001/0006400065.pdf