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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Portugal revisitado na Grand Exposition

 

vista panoramica paris 1900.jpg

 

Um século depois, moveram-se céus e terra para encontrar as obras que representaram Portugal na “feira do mundo”, a que Paris assistiu em 1900. Algumas estavam irremediavelmente perdidas.

 

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Finda a Exposição Universal de Paris de 1900, um vasto lote de obras-primas da pintura e escultura nacionais perderam-se para sempre num naufrágio. Mas, e se fosse quase tão difícil localizar as peças de arte que regressaram como as que se afundaram? Um século depois, a Gulbenkian quis fazer isso mesmo, mas teve de mover céus e terra e percorrer todo o País. Mesmo assim, não se encontraram todas as “sobreviventes”.

O resultado foi um retrato fidedigno de Portugal um século antes, muito diferente daquele que hoje conhecemos. “Uma enciclopédia completa da nossa civilização ao terminar o século XIX”, como perspetivava Ressano Garcia – Inspetor-geral das secções portuguesas - à entrada da marcante “feira do mundo” na cidade-luz.

Afinal, o nosso País esteve representado com o que de melhor tinha, ali se exibindo bens gerados nos nossos territórios, aquém e além-mar: da agricultura, ao vinho; das madeiras e cortiça, às inevitáveis conservas; da caça, à pesca; passando por exóticos produtos coloniais.

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As diretrizes apontavam para privilegiar as mercadorias que pudessem “vir a ter significação real e valor efetivo na esfera do nosso comércio de exportação”, defendia Elvino de Sousa e Brito, então ministro das Obras Públicas.

Portugal quis mostrar-se moderno, apesar do atraso tecnológico em relação a outras nações europeias, dando a conhecer instituições de ensino, trabalhos de impressão; maquinaria diversa, indústria e mecânica; minério, transportes e projetos de arquitetura. Ainda assim, estivemos ausentes na temática “Eletricidade” e estas áreas, compreensivelmente, tiveram menos de metade do volume dos expositores nacionais presentes nas secções agrícola e de pescas, então com um peso esmagador na débil economia lusa.

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Os pavilhões e todas as áreas comuns ocupadas pelo nosso País estavam profusamente decorados com arte simbólica das nossas gentes, em representações tão variadas como os nós de marinheiro e as rendas. Tetos, frisos, painéis pintados, esculpidos e moldados com o que era Portugal e a sua história, dando destaque à óbvia epopeia marítima. Havia até um vasto “passeio de mosaico à portuguesa” – calçada – já então valorizado pelo comissário Visconde de Faria, como “uma das obras mais genuinamente portuguesas da exposição”.

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Acrescentem-se azulejos, porcelana, ourivesaria, mobiliário intrincadamente trabalhado e, claro, muita pintura (123 quadros) e escultura (38 peças) de artistas de topo em 1900.

Segundo a organização, Portugal recebeu 1508 prémios. Os sectores que granjearam maior número de grand prix e medalhas de ouro foram os nossos vinhos e os produtos alimentares de origem vegetal.

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Em belas artes, alcançámos 32 galardões, com os de maior importância entregues a Columbano Bordalo Pinheiro, José Veloso Salgado (pintura) e António Teixeira Lopes (escultura).

Para um país pequeno e, apesar das colónias que então possuía, apontado como miserável, não parece nada mau, não é?

Postas as coisas em perspetiva, pode entender-se como sinal da nossa relativa irrelevância, a ausência de qualquer referência a artistas portugueses na mostra que, também em Paris, assinalou um século sobre a grande exposição.

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Se a preparação da nossa presença foi polémica, pode dizer-se o mesmo da desmontagem, em que não faltaram peças deixadas para trás, nunca reclamadas pelo governo português e outras que chegaram incompletas.

Algumas obras seguiram diretamente para outras exposições, em Dresden e São Petersburgo.

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Regressaram a Portugal 112 peças de arte, por comboio e em três navios que alcançaram bom porto: os vapores Saint Jacques, Saint Barnabé e Gomes IV.

Só em maio, seis meses após o fim da exposição, é que os numerosos e diversificados volumes começaram a ser entregues aos proprietários, tal a morosidade das formalidades aduaneiras.

Mas, o pior mesmo foi o afundamento do Saint André, onde se perderam cerca de quatro dezenas de óleos, esculturas e documentos.

Para perceber a dimensão do “estrago”, foi preciso recuperar o processo do naufrágio, também ele desaparecido no tempo e na memória.

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Ao todo, o investigador de serviço, José de Quintanilha Mantas, reuniu cerca de 400 páginas, distribuídas por vários locais, entre os quais o esconso e poeirento sótão do Ministério das Finanças. Foi uma busca tão interessante quanto difícil, que demorou dois anos.

Com ocorrências de norte a sul de Portugal, a Gulbenkian conseguiu identificar 96 peças patentes na grande exposição de 1900, mas algumas não puderam figurar na mostra de 2000, devido aos custos incomportáveis envolvidos, embora tenham estado patentes muitos outros objetos e documentação, que ajudaram a compreender quem eram os portugueses na viragem para o século XX.

 

À margem

A Grande exposição realizou-se numa época em que as classes dominantes portuguesas tinham um verdadeiro fascínio por tudo o que fosse francês e, especialmente, parisiense. A elite seguia atentamente as modas com essa origem e era comum e chique o uso de palavras francesas para designar peças de roupa, pratos ou objetos de uso diário. Não é difícil de supor que a visita ao evento só tenha estado ao alcance de um grupo muito restrito de portugueses. António Pereira de Vasconcelos da Rocha Lacerda e Melo foi um destes privilegiados. Natural de S. João Baptista (Ponte da Barca), deixou um raro e fascinante relato na primeira pessoa dos dias que passou, com um grupo de amigos, explorando a feira universal e as outras atrações da cidade.

É muito curioso ver a sua interpretação do que vai vendo. O que o impressionou – o aparato, as construções, bem como as belas mulheres, francesas e não só -; a sua estranheza pelos modos e indumentárias de paragens exóticas e o que lhe suscitou deceção, como alguns espetáculos destinados a “extorquir” os mais incautos e os espaços ocupados pelo nosso País, a começar pelo pavilhão da rua das Nações, “uma espécie de barraca de feira”, passando pelo deficiente atendimento. Elogios, no entanto, aos produtos nacionais, como os vinhos, ou não estivesse este barquense em Paris na companhia de um produtor do famoso néctar.

Uma nota curiosa é a forma como António Pereira de Vasconcelos da Rocha Lacerda e Melo - cujo cosmopolitismo e cultura são evidentes - analisa japoneses e chineses que encontra no certame. Elogia os primeiros, já “europeizados”, e critica os segundos, com os seus trajes tradicionais, algo imundos, “aferrados às suas tradições”, “insuscetíveis de emenda, contumazes no erro”, sendo “encarados com mofa e troça”. Todos riam dos chineses e do seu atraso. Quem será que ri agora?

Mas isso é outra história…

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Já aqui antes falei da exposição de 1900 contando o trágico naufrágio do Saint André:

O dia em que as obras-primas portuguesas foram por água abaixo - O sal da história (sapo.pt)

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Fontes

Le Portugal Portugal à l’Exposition – Organo des exposants portugais

nº1 a 17 – 23 mar - 6 nov 1900

 

Portugal 1900; catálogo de exposição - Museu Calouste Gulbenkian – Lisboa - 29 jun -10 set 2000; Fundação Calouste Gulbenkian

 

1900; catálogo de exposição Galeries Nationales du Grand Paiais – Paris - 14 mar – 26 jun 2000; Réunion des Musées Nationaux

Relato de José de Quintanilha Mantas a quem agradeço também a generosa disponibilização das obras anteriormente mencionadas.

 

 

Arquiteturas expositivas e identidade nacional: Os pavilhões de Portugal em exposições internacionais entre a Primeira República e o Estado Novo; dissertação para obtenção do grau de mestre em Arquitetura de Teresa João Baptista Neto; Instituto Superior Técnico – maio 2016. Disponível em Dissertação · Mestrado Integrado em Arquitectura (ulisboa.pt)

Um Barquense na Exposição Universal de Paris de 1900 – Apontamentos de viagem, de António Pereira de Vasconcelos da Rocha Lacerda e Melo; introdução, notas e transcrição de António Andresen Guimarães, edição da Câmara Municipal de Ponte da Barca – 2013.

Agradeço a António Andresen Guimarães a disponibilização desta obra tão interessante e que eu desconhecia.

Outras imagens

https://commons.wikimedia.org

Recinto da exposição

Lucien Baylac (1851–1913)

Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos: ppmsca.15645

 Autor desconhecido; digitalização de Paul Souze sobre poster original

 

Vasco da Gama perante o Samorim de Calecute - Veloso Salgado

Domínio público

 

Arquivo Municipal do Porto

Gisa (cm-porto.pt)

Caridade – António Teixeira Lopes

Foto Guedes

Identificador 359278 Código parcial F.NV:FG.M:9:1190

 

Museu Nacional de Arte Contemporânea

museuartecontemporanea.gov.pt

Chávena de chá – Columbano Bordalo Pinheiro

 

 

Ainda…Clementina Relvas

E não foram felizes para sempre

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Maria Clementina de Mascarenhas Relvas protagonizou o que era, no seu tempo, um enorme escândalo, especialmente em mulheres de classes altas, como era o seu caso: pediu a separação e depois o divórcio. E, agravando a sua imagem pública já frágil, fê-lo não uma, mas duas vezes. A vida insólita desta filha mais velha do célebre Carlos Relvas já aqui foi sucintamente contada, quando falei de venturas e desventuras do resto do clã, mas no ar tinha ficado a dúvida, sobre qual tinha sido o seu destino após o segundo casamento.

 

As coisas são sempre mais difíceis do que parecem e a vida de Clementina foi bastante complexa.

 

maria clementina2.JPG

 

O primeiro casamento, aos 19 anos, foi imposto pela família e terminou passados apenas três meses.

O processo de separação, no entanto, arrastou-se na justiça por 36 anos, culminando no Supremo Tribunal de Justiça.

Durante esse tempo, Clementina passou por várias fases, maioritariamente sozinha. Esteve isolada 12 anos; viu-se impossibilitada de administrar os seus bens; assistiu ao marido usufruindo dos seus rendimentos; sofreu a humilhação de tentar uma reconciliação, tendo que lidar dentro de casa com outra mulher que ali mandava mais do que ela; viu o seu caso ser avaliado por juízes que eram amigos do marido, também ele juiz…Enfim, o processo de separação da filha mais velha do célebre fidalgo, fotógrafo e toureiro amador Carlos Relvas foi único no contexto de uma época em que o casamento era um contrato perpétuo.

 

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O divórcio só seria obtido em 1912.

 

Seis anos depois, Clementina casa com Manuel Hipólito Ferreira, mas as coisas voltaram a não correr bem.

 

Apesar do enlace ter sido no dia de Santa Rita, advogada das causas impossíveis, cinco meses depois, a esposa volta a sair de casa e interpõe um processo de divórcio litigioso.

casamento de clementina e manuel hipolito ferreira

 

Tal como da primeira vez, o marido tudo fez para denegrir a sua imagem, nomeadamente anunciando publicamente não se responsabilizar por transações feitas por ela e alegando a insanidade da “cara metade”.

Inusitadamente, com acusações de parte a parte, o processo volta a prolongar-se, desta vez por cinco anos.

 

Numa triste coincidência, tudo começou no mesmo ano em que Maria Adelaide Coelho, filha do fundador do Diário de Notícias, foi presa e dada como louca por querer deixar o marido.

 

 

Sem família – os irmãos José e Margarida morreram, respetivamente, em 1929 e 1930 – com uma enorme fortuna delapidada ao longo dos anos pelos morosos e avultados processos judiciais, alguns atos de generosidade acima das posses, uma gestão pouco cuidada e uma vida com luxo e ostentação, no fim, Maria Clementina Relvas viu-se a depender do favor alheio.

 

Terá passado muitas necessidades e provações, mas não há registo que tenha, de facto, enlouquecido ou pedido esmola à porta do Teatro D. Luís, como José Hermano Saraiva divulgou num dos seus programas.

 

Uma das “figuras mais interessantes e brilhantes da aristocracia portuguesa”, “senhora de alta linhagem, nobre pelo coração e pelo sangue que, tendo nascido em berço de ouro, quase morreu no desamparo”, “reduzida à mais extrema miséria”. Foi assim que o jornal Diário de Lisboa – que pouco tempo antes tinha lançado uma campanha para a ajudar - descreveu Maria Clementina Relvas na notícia que dava conta da sua morte, no serviço de banco do Hospital de S. José – onde “teve de acolher-se” devido à falta de meios.

 

“Como uma luzinha que se apaga crispada pela mão do vento, extinguiu-se docemente” às 11 horas do dia 17 de abril de 1934, aparentemente sem nunca ter encontrado a felicidade.

 

 

 

Fontes

Clementina Relvas e a condição feminina no seu tempo (1857-1934), de Manuela Poitout, publicado no nº 25 da revista Nova Augusta, Torres Novas, 2013.

 

Agradeço à autora a generosidade de ter partilhado comigo o seu interessantíssimo trabalho de investigação, que vem desmistificar tantos equívocos existentes em torno desta filha de Carlos Relvas.

 

Fundação Mário Soares

www.casacomum.org

Jornal diário de Lisboa

Ano 14; nº4102 – 18 abr 1934

 

Os estranhos destinos das filhas de Carlos Relvas   - O sal da história (sapo.pt)

 

 

 

Instantâneos (77): e do céu caíram as mais estranhas coisas

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Uma chuva de flocos brancos como a neve e leves como o algodão surpreendeu a população de Lisboa e arredores, corria o dia 6 de novembro de 1811. O povo, pouco dado a explicações científicas, começou logo a ver em tão desusado fenómeno um sinal de grandes males que se aproximavam e, não fosse o diabo tecê-las, apressou-se a rezar pedindo misericórdia.

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Nesse estranho e até então sereno dia de outono, pela hora do almoço, as pessoas viram cair lenta e delicadamente dos céus esses frágeis filamentos que em alguns locais cobriram árvores, telhados, ruas e campos até onde a vista alcançava, tomando todos de espanto numa vasta área, pois o prodígio foi relatado também Tejo acima, em Valada e, mais para Sul, em Palmela e Azeitão.

A meio do rio, embarcações ficaram pejadas deste curioso tecido semelhante a gaze, mas ainda mais fino e leve, uma espécie de lanugem que ninguém tinha visto por estes lados.

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Foi precisamente da observação de quem se encontrava a bordo que surgiram as primeiras explicações sobre o que se via. Num convés, com pouca escapatória, foi fácil de perceber que o que caia do céu eram teias com as respetivas aranhas que, em terra, rápidas e pequenas como eram, depressa desapareciam sem deixar rasto ou confundiam-se com outros insetos do mesmo tipo que existem um pouco por todo o lado.

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Devemos esta memória a Sebastião Francisco Mendo Trigoso. Este membro da Academia Real de Ciências de Lisboa, – em complexa explicação com o fim de afastar toda a superstição que rapidamente envolveu esta inusitada chuva – alvitrou logo que o mais plausível era tratar-se de jovens aranhas, recentemente saídas dos seus ovos, que se encontrariam como que suspensos na atmosfera devido às condições dos dias anteriores ao facto.

Não terá andado longe, até porque o fenómeno já foi narrado em outras paragens e, apesar de pouco usual por cá, faz parte do processo de migração de algumas espécies de aracnídeos.

Curioso é que este senhor tão entendido nos mistérios da natureza tenha ficado para a história mais como político. Foi censor régio e fez parte da comissão que elaborou o projeto constitucional de 6 de outubro de 1820, sendo de sua autoria uma proposta conciliadora para a convocação das cortes, algo de grande valor em tempos conturbados como aqueles e que, lamentavelmente, não foi por diante, porque, entretanto, D. Miguel resolveu tomar o poder e impor a sua lei.

 

………………

 

Fontes

Memórias de Mathemática Physyca da Academia R. das Ciências de Lisboa; Tomo III, parte II – Lisboa 1814. Disponível em Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa - Google Livros

 

Hemeroteca Digital de Lisboa

Hemeroteca Digital (cm-lisboa.pt)

Ilustração Portugueza

2ª série; nº916 – 8 set 1923

maltez.info/respublica/topicos/aaletraa/Academia das Ciencias de Lisboa.htm

Autor:Sebastião Francisco Mendo Trigoso - Wikisource

Trigoso, Sebastião Francisco Mendo (1773-1821) | Politipedia

Arquivo Municipal de Lisboa

Arquivo Municipal de Lisboa (cm-lisboa.pt)

PT/AMLSB/ATF/000612

 

Sintomas de alergia? Não culpe o algodão das árvores (proteste.pt)

Quando a ópera chegou pelo telefone

 

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Nos primórdios do telefone em Portugal, o luto do rei levou-o a estrear o novo serviço que pretendia levar a música a casa de quem a pudesse pagar. Tornou-se o nosso primeiro monarca a figurar na lista telefónica.

 

Em pleno século XIX, muito antes dos modernos telemóveis onde podemos fazer quase tudo e “estar” em todo o lado, já em Portugal se assistia a espetáculos através do telefone. A inovação foi estreada por D. Luís I, como forma de contornar um período de luto que o impedia de frequentar as salas de teatro. Um ano depois, já a companhia de telefones vendia aquele serviço a quem quisesse – e tivesse o dinheiro necessário – para tal luxo.

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O rei já se tinha manifestado um entusiasta dos novos aparelhos - ficando surpreendido com a nitidez do som quando assistiu a uma experiência telefónica entre o Observatório Astronómico da Tapada da Ajuda e o Observatório Meteorológico da Escola Politécnica de Lisboa, em 1878. Aí, espantou-se ao reconhecer o timbre de voz de quem estava do “outro lado” da linha e distinguiu melodias tocadas em flauta e harmónio.

A Edison Gower Bell Telephone Co. of Europe, Limited, primeira concessionária de redes telefónicas em Portugal, como se vê, fez questão de, desde o início, mostrar a competência dos aparelhos para a audição musical.

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Com efeito, na inauguração oficial da rede de Lisboa, a 26 de abril de 1882, a empresa promoveu a difusão de um concerto executado na sala de experiências da rua do Alecrim e ouvido através dos tubos com auscultadores em cerca de duas dezenas de primitivos telefones (como os da imagem), instalados na rua Nova do Carmo.

Entre as composições tocadas, estava o hino do rei D. Luís, que acabaria por ser o nosso primeiro monarca a ter uma ligação em casa – leia-se Palácio Nacional da Ajuda - logo em 1882, figurando - pelo menos teoricamente - entre os 22 assinantes presentes na primeira lista telefónica portuguesa.

As condições estavam criadas. Faltava só juntar o útil ao agradável.

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Dois anos depois, morre a princesa Maria Ana, irmã do rei. Este, por muito condoído que estivesse com tal perda, muito lamentava que não pudesse frequentar os salões e espetáculos durante o período de luto – até para esquecer a dor - tanto mais que estreava a muito aguardada ópera Lauriana, que o maestro português Augusto Machado tinha dedicado ao próprio soberano.

Como é que este poderia falhar a apresentação?

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Não falhou!

A Edison Gower Bell Telephone instalou um telefone no teatro e o rei assistiu a tudo no conforto do lar e em família,”sentado no trono de manto de arminhos ou deitado na cama de barretinho de algodão”, conforme lhe pareceu mais confortável, embora privado de bater palmas, não fossem cair os dois tubos telefónicos que lhe permitiam deleitar-se com a música.

A proeza deve ter agradado, porque valeu à companhia a Ordem Militar de Cristo e um novo serviço para vender, o que impulsionou a divulgação do telefone entre os melómanos da Capital.

No ano seguinte, a Edison Gower Bell Telephone desdobrou-se em manobras de relações públicas, convidando jornalistas e outros fazedores de opinião – hoje dir-se-ia opinion makers ou influencers - para experiências semelhantes à vivida pelo rei D. Luís, pois já então se alugavam circuitos para a temporada de ópera do Real Teatro de São Carlos e era necessário promover tal serviço.

companhia telefónica.JPG

 

Assim, os diletantes podiam apreciar a sua música, agarrados aos tubos do telefone, “quais monstros fantásticos”, “sem ter de fazer toilete ou emporcalhar-se nas lamas viscosas do Chiado” e, enfim, à luz da época, com razoável qualidade de som.

Diz quem experimentou que se ouvia tudo ”muito nitidamente”, com “sinfonia, coros, rondós, recitativos, bailados, árias” e até as fífias e o “obscuro ponto”.

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Mas, havia algo em que o novíssimo telefone era incompetente: não permitia ver - quer fosse o decote da mulher desejada, quer os opulentos cenários e adereços – nem ser visto.

E isso era um grande obstáculo, que isto de ir à ópera não tem só que ver com amor à música.

 

 

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À margem

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O que impediu D. Luís de comparecer no teatro foi o período de nojo devido pela morte prematura da sua irmã Maria Ana, feita princesa da Saxónia por casamento com o príncipe Jorge, aos 15 anos de idade. Foi um casamento pouco feliz, mas, no entanto, tiveram oito filhos. Foi depois de tratar de um destes durante uma doença que durou vários meses que Maria Ana morreu, de “esgotamento”, dizem as crónicas, antes mesmo do marido subir ao trono.

Mas, há coincidências curiosas. Na noite em que D. Luís não pôde assistir ao vivo à ópera de Augusto Machado, esteve no Real Teatro de São Carlos uma outra princesa, ou pelo menos com pretensões a tal título: Aldegundes de Bragança (na fotografia), quinta filha do ex-rei D. Miguel.

Também ela teve um matrimónio infeliz, celebrado pouco antes de comemorar os 18 anos, com Henrique de Bourbon-Parma, Conde de Bardi. Não tiveram filhos, pois todas as suas nove gestações culminaram em aborto espontâneo.

Aldegundes, no entanto, ficaria para a história por outro motivo: foi uma das principais entusiastas do Pacto de Dover, assinado em 1912 com vista a dar aos descendentes de S. Miguel privilégios no acesso ao trono de Portugal, caso se extinguisse o ramo de D. Manuel II, o que viria acontecer mais tarde. A pretendente a princesa chegou a angariam armas, munições, comida e outros apoios para os militares de Paiva Couceiro que, a partir de Espanha, prosseguiam com as suas manobras ainda mantendo a esperança de derrotar a nossa jovem República, então com apenas dois anos.

Mas isso é outra história…

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Nota: as imagens 1, 3 e 4 são produto da imaginação de Rafael Bordalo Pinheiro que, como era seu timbre, caricaturou o rei durante a audição. Seria, mais tarde, convidado a participar numa destas sessões – durante a ópera Guilherme Tell – mas não são dele os relatos sobre a mesma que aqui figuram. Pertencem a Casimiro Dantas, também participante na experiência.

As fotografias são meramente ilustrativas do tema.

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Fontes

O Real Theatro de S. Carlos – memórias 1883-1903, por Francisco da Fonseca Benevides, da Academia Real das Ciências; tipografia e litografia de Ricardo de Souza & Salles; Lisboa – 1902. Disponível em

O Real Theatro de S. Carlos de Lisboa desde a sua fundação em 1793 até á actualidade : estudio historico : Benevides, Francisco da Fonseca, 1835- : Free Download, Borrow, and Streaming : Internet Archive

 

Se esta peça falasse mês junho 2017 - Fundação Portuguesa das Comunicações | Museu das Comunicações (fpc.pt)

A introdução do telefone em Portugal, de Maria Fernanda Rollo, publicado na Revista Ingenium N.º 117 – Maio/Junho de 2010. Disponível em: Ordem dos Engenheiros (ordemengenheiros.pt)

Hemeroteca Digital de Lisboa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt

A Illustração Portugueza -  Semanário – Revista Litterária e Artística

Texto de Casimiro Dantas

2º ano; nº18 – 16 nov. 1885

O Occidente – Revista ilustrada de Portugal e do Estrangeiro

1º ano, Vol I; nº 3 – 1 fev 1878

7º ano, Vol VII; nº 188 – 11 mar 1884

O António Maria

Ano 6º; mnº249 – 6 mar.1884

 

Biblioteca Nacional de Portugal em linha

www.purl.pt

Diário Illustrado

13º ano; nº3890 – 2 mar 1884

13º ano; nº3891 – 3 mar 1884

5º ano; nº4642 – 29 mar 1886

 

Lisboa, o S. Carlos e Adelina Patti; de Patrícia Moreno; Coleção Ecos de História - Chiado Editora; Lisboa – 2018. Agradeço à autora a disponibilização desta obra inspiradora.

 

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

Arquivo Municipal de Lisboa (cm-lisboa.pt)

Joshua Benoliel

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/002801

Alberto Carlos Lima

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/002869

 

O universo de vaidade da Madame Campos

 

 

 

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No início do século XX, uma viúva da província criou um império de glamour, colocando os seus conhecimentos científicos ao serviço da vaidade e do bem-estar das mulheres.

Tratamento completo e rigoroso! Há mais de cem anos, quando abriu a primeira Academia Científica de Beleza, Inácia Camila de Oliveira Campos oferecia nada menos às suas clientes: um inédito espaço onde podiam fazer uma revisão geral da sua aparência, do cabelo e unhas, às rugas e pontos negros; das dores nas costas, ao desenvolvimento dos seios e emagrecimento. Madame Campos, como preferencialmente era tratada, apresentava um conceito global inovador e constituiu um enorme e duradouro sucesso de que muitos ainda se lembrarão ou terão ouvido falar.

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Ousado e incomum era também a responsável científica por todas estas maravilhas ser uma mulher, quando a estas estavam ainda maioritariamente destinados trabalhos subalternos – nas classes mais baixas – ou o universo fechado das suas casas e filhos, nas camadas mais favorecidas da sociedade.

Talvez por isso, nos abundantes anúncios publicados na imprensa, Madame Campos fizesse alarde das suas qualificações - “laureada pela Escola Superior de Farmácia da Universidade de Coimbra, diplomada com frequência em massagem médica, estética, manicure e pedicure e tintura dos cabelos pela Escola Francesa de Paris d’Ortopedia e Massagem”  - e ampla experiência profissional: “ex-massagista assistente  do hotel Dieu de Paris”, “antiga professora diplomada, inscrita e premiada em diferentes cadeiras” e, ainda, “química-perfumista, sócia efetiva de diferentes sociedades científicas, etc.”

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A senhora que orgulhosamente posava junto à lista de tratamentos disponíveis, envergando um complexo penteado – certamente ao dispor das clientes – e joias a condizer, será a própria Inácia, então com 43 anos de idade (imagem 1) e mentora de um império que ganhava forma.

 

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Havia nascido no dia 22 de janeiro de 1875, no lugar de Cercal, freguesia de Santa Catarina da Serra, Leiria. Era um bebé tão frágil que, estando em perigo de vida, foi a parteira, Bernarda de Jesus, que a batizou. Ninguém diria que, décadas mais tarde, já viúva e mãe, obteria o diploma de farmacêutica num curso (1907-1908) frequentado quase exclusivamente por homens na Escola de Farmácia de Coimbra.

exterior instalacoes rua alexandre herculano 23.PN

 

O primeiro contacto com esta área terá sido através do marido, Eduardo Mateus de Campos, em cuja farmácia trabalhou entre 1894 e 1904, ano do falecimento deste.

Depois do curso nacional, rumou a Paris, onde obteve os restantes diplomas aludidos, a prática na área da massagem e o afrancesado da marca que criou e inaugurou o primeiro estabelecimento em 1912: Madame Campos.

Na época, A Academia Científica de Madame Campos vendia “aparelhos, perfumes e produtos das melhores casas de Paris”, mas posteriormente tinha absolutos exclusivos para solo nacional e desenvolveu os seus próprios artigos, conhecidos pelo requinte e qualidade.

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A proprietária (na imagem, com um dos filhos), para além dos conhecimentos científicos, tinha um enorme tino comercial.  Galardoada em outros certames, em 1922 veio da Exposição Internacional do Rio de Janeiro com um “grad-prix”, o único obtido por expositores na categoria de beleza e perfumaria, justificado pelo bom gosto e variedade dos produtos.

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O sucesso do outro lado do Atlântico foi tal que ali fundou um dos seus institutos, aberto ao público com enorme aparato e frenesim social, em 1923 (na imagem).

 

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Por cá, chegou a ter instalações em várias cidades. Para além de Lisboa, onde teve várias localizações (avenida da Liberdade, rua Alexandre Herculano e rua do Carmo), também Porto e Tomar receberam as academias Madame Campos, sendo frequentes as ações de formação entre as suas técnicas de beleza.

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Inácia Campos morreria em 1932, mas o seu trabalho seria seguido por filhos e netos, até anos 80 do século XX.

 

 

 

 

À margem

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Os anúncios que Madame Campos mandava publicar profusamente na imprensa divulgam tratamentos de massoterapia, eletroterapia e mecanoterapia; a cura para a obesidade e a solução para quaisquer indesejadas imperfeições na pele. Em 1918, por exemplo, apregoam um processo de impedir o embranquecimento do cabelo e resultados surpreendentes em apenas três dias, através de um método “absolutamente novo” de fazer crescer e arrijar os seios.

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Na panóplia de serviços oferecidos havia outros bem mais prosaicos, como manicure e pedicure; lavagem e secagem (por apenas 50 centavos); “tintura do cabelo em todas as cores”, com a fabulosa garantia de 2 anos!!!.

Da mesma forma, Madame Campos não queria deixar ninguém de fora, propondo “tratamento por correspondência para as excetíssimas clientes da província”

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Na época, abundavam os anúncios com promessas difíceis de acreditar à luz dos nossos dias. Embora Madame Campos se escudasse numa base alegadamente científica, estes quase “milagres”, anunciados chegaram a ser parodiados em jornais humorísticos (na última imagem), o que não parece ter perturbado a enorme projeção da marca.

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Mas isso é outra história…

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Na época havia muitos anúncios sobre "milagres" no aumento dos seios, uma questão que parece comum a muitas épocas.

 

Já aqui antes falei desta exposição e das peripécias do nosso presidente para lá chegar.

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Fontes

A Escola de Farmácia de Coimbra (1902-1911), de João Rui Pita; Imprensa da Universidade de Coimbra; 2009. Disponível em

A Escola de Farmácia de Coimbra (1902-1911)

books.google.pt › books

 

Hemeroteca Digital de Lisboa

Hemeroteca Digital (cm-lisboa.pt)

Illustração Portugueza

II série; nº631 – 22 abr 1918

II série; nº671 – 30 dez 1918

II série; nº732 – 1 mar 1920

II série; nº916 – 8 set 1923

II série; nº917 – 15 set 1923

Ano 5º; nº109 – 1 jul 1930

 

Fundação Mário Soares

www.casacomum.org

Diário de Lisboa

Ano 3º; nº801 – 15 nov 1923

 

Outras imagens

FABULÁSTICAS,: MADAME CAMPOS (mulheresilustres.blogspot.com)

Academia Científica de Beleza Madame Campos (facebook.com)

 

 

 

 

Relatório de Estágio e Monografia intitulada “Couto — uma instituição centenária (1918 – 2018): divulgação e publicidade”, de Daniela Barbosa Correia – Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas - Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra – Jun 2018, citando o poster “Madame Campos, pioneira da cosmetologia moderna em Portugal – a promoção da saúde e da qualidade de vida”, de João Rui Pita, Sara Rito, Bruna Lopes e Maria de Lourdes Rebelo, apresentado ao 1º Congresso Nacional de Ciências Dermatocosméticas – Faculdade de Farmácia de Universidade de Coimbra - Out 2007. Disponível em DOCUMENTO ÚNICO CORRIGIDO versão 2- daniela correia.pdf (uc.pt)