Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Estes santos precisam de milagres

 

simulacro do corpo de sao vicente martir pormenor.

Em Portugal há um local com uma concentração anormal de múmias e despojos humanos. Não se trata de um cemitério, nem estes restos mortais são banais. Trata-se da maior coleção de relíquias existente no mundo, fora do Vaticano, que agrega desde corpos inteiros a pequenos fragmentos de osso, unhas, fios de cabelo ou meros pedaços de tecido manchados por fluidos corporais, que se pensa terem pertencido a indivíduos classificados como santos pela Igreja Católica. Enfim, é um estranho conjunto que faria Martinho Lutero dar voltas na sepultura…

São já dezenas de milhar, com as mais variadas proveniências, frequentemente degradadas, maltratadas e a precisar de urgente restauro. Muitas com origem no nosso País – paróquias e organismos estatais - vêm marcadas pelo abandono, relegadas que foram para um qualquer armazém, após a extinção das ordens religiosas e da implantação da República, quando o Estado tomou posse de parte dos bens da Igreja.

simulacro do corpo de sao vicente martir.png

Esta lipsanoteca – museu de relíquias – situa-se no castelo de Ourém e pertence a uma entidade privada reconhecida pelo Papa, a Fundação Histórico Cultural Oureana.

As relíquias de maior porte são santos mártires. Podem revestir-se de diferentes apresentações, sendo comuns os corpos incorruptos – porque receberam complexos tratamentos nesse sentido ou porque assim se mantiveram naturalmente, o que é realmente raro - e os esqueletos armados, paramentados, deitados no interior de grandes expositores de época construídos para o efeito e que habitualmente se designam simulacros*.

simulacro do corpo de santa sabina pormenor.png

 

Alguns apresentam-se com máscaras de grande beleza, que lhes conferem uma aparência angelical, outros têm um aspeto sinistro, macabro, recordando-nos que estamos perante os despojos de pessoas mortas, por muito miraculosas que se pense que tivessem sido e independentemente dos crentes que tenham arrastado.

Há, depois, relicários com ossos grandes – como crânios – outros desenhados para terem a forma da parte do corpo que encerram – uma mão, um braço, uma perna, por exemplo – e outros ainda que são verdadeiras peças de arte, em madeira ou metal, ricamente decorados, pintados, cobertos com tecidos, folha de ouro e semelhantes artifícios.

colunas relicários.png

É chocante, o estado a que alguns chegaram, em resultado do efeito do tempo – séculos a apanhar pó, mas também servindo de pasto e ninho a insetos destrutivos e roedores insensíveis à beatitude - e, ainda, vítimas de reparações malfeitas por “curiosos”, ao longo dos séculos, quando existiam menos meios e escrúpulos para fazer este trabalho.

Tanto que, por vezes, é preciso recriar o revestimento da armação em osso, construído em cera ou papier marchè, que simulava a carne que os indivíduos teriam em vida e permitia que estes fossem vestidos e adornados segundo os costumes da época em que foram criados, complementos, esses, que também necessitam de reparação ou substituição.

relicários.jpg

A pesquisa prévia é igualmente um trabalho meticuloso e que se assemelha ao de um detetive, sendo comum detetarem-se ardilosas falsificações forjadas e escondidas durante centenas de anos. (ver À margem).

Apesar do respeito pela simbologia sagrada associada àqueles objetos, o trabalho é de cariz científico, uma vez que são ali recebidas centenas de relíquias, para estudo, autenticação, conservação e restauro, com vista a que possam, no futuro, nomeadamente, ser expostas ao público.

É que os simulacros de santos voltaram a estar na moda e estão agora a ser resgatados do esquecimento pelos Estados e pela Igreja Católica, enquanto se “produzem” outros já fazendo uso de técnicas e materiais modernos, que resultam numa reprodução mais fiel da aparência humana da pessoa morta e mais agradável à vista, também.

simulacro do padro pio na regalis lipsanotheca.jpg

À margem

simulacro santa concordia.png

O culto das relíquias está documentado pelo menos desde o século II depois de Cristo, mas houve períodos de mais intenso incremento desta crença, fomentada pelos diferentes Papas que, a partir do século XVII, mandaram exumar dezenas de milhar de ossadas de mártires e as distribuíram pela cristandade. Sepultados nas catacumbas do Vaticano, como se vê, não encontraram ali descanso.

Possuir relíquias, especialmente de santos famosos e importantes, era sinal de prestígio e poder, quer para as nações, quer para os seus reis e nobres, as dioceses e as ordens religiosas. Não admita, pois, que logo tenham aparecido os multiplicadores de relíquias, que as comercializavam a preços elevados e, aparentemente, sem problemas de consciência.

pedaco de paramento ensanguentado e um martir do o

No final do século XVIII, o italiano António Magnani foi um dos maiores fabricantes e exportadores de simulacros. Produzia em série, num novo material – a ceroplástica – e decorava as suas produções com adereços que fazem lembrar os soldados e princesas do império romano, hoje disseminadas por toda a Europa.

Assim, séculos passados, encontram-se diversos simulacros do mesmo mártir, outros que, em vez de terem sido construídos com ossos do próprio, o foram com peças falsificadas, moldadas em gesso ou cera, por exemplo.

braco-relicario-sjoao-crisostomo museu de sao roqu

Havia também redes que se dedicavam ao roubo e tráfico de relíquias por encomenda e toda uma série de outros estratagemas destinados a empolar o valor histórico e religioso dos objetos, que se pretendia passar como tendo pertencido aos mártires e santos católicos, como a criação de relíquias por mero contacto com as verdadeiras partes do corpo ou embutindo pequenos fragmentos em peças maiores com origem diversa.

É, portanto, natural que este tema tenha apaixonado escritores, como Eça de Queiroz, que lhe dedica um romance e, em simultâneo, tenha provocado a crítica de alguns sectores da igreja.

Este foi o caso de Martinho Lutero, motor da Reforma Protestante, no século XVI, um acérrimo crítico da venda de indulgências e do culto de relíquias, que também não teria ficado feliz com a coleção de 265 relicários e mais de 500 relíquias de santos, patente na Igreja e no Museu de São Roque, em Lisboa.

Mas isso é outra história…

 

………………….

Nota: Carlos Evaristo, reconhecido perito em relíquias sagradas, é o presidente da Direção da Fundação Histórico-Cultural Oureana.

………………………..

*A designação mais correta, em latim é simulacra sanctorum

……………………………

Já aqui antes falei de outro local onde se encontravam restos mortaos "especiais", mais propriamente estranhas entranhas dos reis de Portugal.

.................................

Fontes

https://www.fundacaooureana.pt/

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2021-06/cristianismo-reliquias-sagradas-acervo-ourem-fatima-portugal.html

 

Joana do Carmo Palmeirão, Tese para obtenção do grau de Doutor em Conservação e Restauro de Bens Culturais, Universidade Católica Portuguesa, Escola das Artes, janeiro 2023. Disponível aqui: https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/43164/1/101734336.pdf

 

https://rafaelaferraz.com/santos-catacumbais-portugal/

 

 

https://scml.pt/media/noticias/relicarios-e-reliquias-um-tesouro-escondido-no-coracao-de-lisboa/

 

Imagens

https://www.fundacaooureana.pt/2021/01/10/a-regalis-lipsanotheca-um-repositorio-de-reliquias-e-centro-de-estudos-de-importancia-mundial/

INÍCIO - Museu de São Roque (scml.pt)

Pela imprensa (27): vacas ambulantes e leitarias espampanantes   

 

vacas ambulantes 1.png

vacarias.png

Um discreto anúncio apresenta aos consumidores a produção de leite de vaca que se faz em Lisboa e que até se vende ao domicílio, sem acréscimo de preço, em meados do longínquo ano de 1887. Sem dúvida, um excelente incentivo ao consumo deste nutritivo alimento, que ainda não estava enraizado nos hábitos dos portugueses.

Aos olhos dos dias de hoje, depressa se destaca o facto de os animais se encontrarem instalados em quatro movimentadas e centrais artérias bem no coração da cidade: Crucifixo, S. Paulo, Trindade e São Bento.

Nem o facto de o dono atestar o “maior asseio” das vacarias, a robustez e saúde das vacas, apresentando até os nomes dos veterinários responsáveis - cuidado pouco vulgar - nos evita alguma estranheza pensar como seria esta sã convivência entre humanos e bovinos em plena Baixa-Chiado e junto à Assembleia da República.

Mais interessante nos parece tal realidade quando, fazendo alguma pesquisa, ficamos a saber que, naquela época havia cerca de 200 vacarias no distrito de Lisboa, maioritariamente urbanas, onde viviam e “trabalhavam” quatro mil animais.

vaca leiteira.jpg

Estas vacarias serviam leite no local, onde este competia com outras bebidas mais populares.

Vendiam-no também em bilhas, mas, para além das produtoras “encartadas” e estabelecidas, havia imensas vacas a deambular.

Parando ao chamamento de um cliente, os seus donos mungiam-nas ali mesmo, servindo o leite a copo, num processo o mais natural possível.

No entanto, por peculiar que isso nos possa hoje parecer, em Portugal, reinava o ditado “Leite de cabra, manteiga de vaca, queijo de ovelha”, pelo que as cabras ambulantes eram ainda mais vulgares.

cabras ambulantes.PNG

Foi mais ou menos por esta altura que se começou a afirmar aquela que hoje todos conhecemos como a leiteira por excelência, com pelagem branca e malhas pretas.

Já residia no nosso País pelo menos desde o século XVIII, mas ainda não tinha ascendido à categoria de preferida, tanto porque, no Norte, teve de competir com outras raças pré-existentes, como porque as condições que encontrou em Portugal não eram tão favoráveis como as da sua Holanda natal.

vacas ambulantes2.jpg

Efetivamente, a vaca Frisia – ou Turina, como foi batizada por cá – não pôde fazer valer a sua especialização, porque em terra pobre como a nossa, uma vaca não podia ser exclusivamente leiteira.

Tinha, digamos, de ser polivalente, contando como força de trabalho e razoável fornecedora de carne. Ora, esta nossa amiga não tinha esses dotes e, ainda, o seu leite era menos gordo, logo, pouco favorável para manteiga ou para adulterar com água, algo comum entre os produtores sem escrúpulos.

 

Essa eleição para o papel principal de leiteira não foi, portanto, um processo fácil e sem espinhos.

vacas ambulantes.PNG

A maioria dos animais vivia em pequenas unidades, em meio citadino, mas também nas hortas dos arrabaldes.

Com o tempo, o aparecimento de doenças e a consciência da falta de condições de higiene com que as vacas eram tratadas e o leite era recolhido, as autoridades acabaram por proibir as vacarias urbanas – que passaram a leitarias - e a circulação gado pelas ruas, o que aconteceu em 1920.

Escusado será dizer que outros produtos hoje tão comuns, como o iogurte, ainda tiveram um caminho mais longo a trilhar até se implantarem num país onde, dizia-se lá fora, a arraia miúda mais facilmente bebia vinho e cerveja, do que um copinho de leite, que tantas vidas ajudou a salvar.

 

 

Fontes

Biblioteca Nacional de Portugal

www.purl.pt

Diário Illustrado, 26.10.1887

 

Hemeroteca Digital de Lisboa

Illustração Portugueza, 09.05.1910

 

Maria Carlos Radich, «Uma vaca urbana e cosmopolita», Ler História [En línea], 52 | 2007, Puesto en línea el 20 marzo 2017, consultado el 28 mayo 2024. URL: http://journals.openedition.org/lerhistoria/2536; DOI: https://doi.org/10.4000/lerhistoria.2536

Uma vaca urbana e cosmopolita (openedition.org)

 

Imagens

Joshua Benoliel, Illustração Portugueza, 09.05.1910

Diário Illustrado, 26.10,1887

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

José Artur Leitão Bárcia, PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/BAR/000905

Joshua Benoliel, PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/000112

José Chaves Cruz, PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/CRU/000788