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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Na opulenta e decadente cidade dos mortos

 

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Passeio por entre monumentos funerários, seguindo as pistas deixadas pelos finados sobre aquilo que foram em vida e a forma como querem ser recordados por quem cá fica. Onde se prova que mesmo na morte, grande niveladora porque toca a todos, há hierarquias, vaidades e tanta ostentação como na vida.

 

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O grasnar das gaivotas é o som mais permanente nas ruas, de outra forma silenciosas. O seu esvoaçar quebra a quietude reinante a chega a arrancar-nos do pensativo contemplar das diferentes construções, memoriais e estátuas, tão belas quanto surpreendentes, que povoam cada vereda.

Os gatos, que também abundam, são mais discretos e quase não se dá por eles. Fundem-se com os túmulos do cemitério de Agramonte, assumindo como sua a serenidade do lugar.

Estamos no centro do Porto e, no entanto, isolados do bulício para lá dos muros. Um ou outro turista arrisca a visita, mas ali impera a imutabilidade e só mesmo lá ao fundo é que vemos sepulturas que indiciam um tempo mais recente, flores ainda com cores vivas, pessoas saudosas a cuidar da memória dos seus entes queridos.

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Até lá – apesar das árvores, das surpreendentes manchas amarelo-mostarda criadas pelos líquenes e das hortências desbotadas pelo sol que espreitam aqui e ali  - tudo é mais ou menos cinzento, imóvel, sem vida, como seria expetável num cemitério, aliás.

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Mas, não é por isso que o que vemos é menos interessante. Há a importância arquitetónica e artística de muitos sepulcros, o relevo em vida daqueles que jazem no seu interior, sumariamente anotado em pequenas placas metálicas; a imponência das construções fúnebres destinadas a elevar aos píncaros o morto homenageado.

Nas inscrições, assiste-se ao desfilar de capitalistas, negociantes, industriais, banqueiros, beneméritos que hoje já ninguém recorda senão ali. Artistas de diferentes áreas, mães extremosas e esposas amantíssimas acompanham o cortejo anterior. Os nomes conhecidos ainda hoje são uma minoria.

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Há autênticos palácios fúnebres, arruinados, abandonados, sem uma explicação para tanto aparato e esquecimento; há representações em pedra ou bronze das pessoas que ali repousam e agora nos observam com olhos vazios e há o olhar perscrutante das fotografias esbatidas, daqueles que parecem ver-nos a partir de uma outra dimensão, envergando indumentárias próprias de um filme de época.

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Há expressivas esculturas de talentos famosos e outras não menos tocantes, embora de autor desconhecido. Uma autêntica cidade dos mortos, com as suas hierarquias e ostentações de posição social.

Ninguém diria, observando a opulência de algumas construções funerárias, que Agramonte, na origem, recebeu sobretudo as vítimas da cólera mórbus, que assolou o nosso território em meados do século XIX (1855), bem como os pobres do Porto.

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Isto porque os ricos preferiam o Prado do Repouso, aberto anteriormente e por esse tempo com maior dignidade e organização.

Agramonte foi aberto à pressa para acudir à urgência sanitária de enterrar os muitos que pereceram com a doença contagiosa, a capela era em madeira e todo o recinto se apresentava algo improvisado, até que as irmandades religiosas ali decidiram instalar os seus panteões, atraindo, com isso, famílias mais ilustres e abastadas, dando estatuto a este campo sagrado localizado junto à rua da Boavista.

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A interdição de enterramentos nas igrejas, decretada anos antes (1835) e altamente polémica, criou necessidades, não só em termos de espaço, como de representação e acompanhamento. Depois da repulsa inicial, percebeu-se que, nos novos cemitérios, as pessoas podiam firmar livremente o seu legado, erigir a forma como queriam ser vistas depois de se irem ou de como os seus descendentes entendiam recordá-los.

Havia também toda uma nova possibilidade de chorar os que partiam, visitando as suas campas, embelezando-as e orando pelas suas almas em espaço de mais fácil acesso.

Quem cá ficava tinha assim oportunidade de expressar de diferentes formas o sofrimento e mortificação que a ausência do outro lhe provocava, muito ao gosto do exacerbar de sentimentos do Romantismo, estética então dominante. Com a atenção focada nas representações fúnebres, relegava-se ao esquecimento ou à ignorância a imagem do corpo em decomposição, crua realidade da morte física.

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No monumento funerário, o finado ganhava a imortalidade na pedra, elemento duradouro que lhe serve de base.

Os cemitérios oitocentistas eram construídos à imagem dos jardins do mesmo período, com uma paisagem bucólica assente em caminhos ladeados de árvores e arbustos, decorada com monumentos públicos dignos de admiração.

Também ali se passeava, para ver e ser visto.

E, a morte, sempre niveladora porque toca a todos, acabava por evidenciar as discrepâncias que, em vida, existiam entre as posses de cada um, patentes na localização, dimensão e forma como o defunto se apresenta ao mundo.

 

 

 

À margem...

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A transferência dos enterramentos do espaço das igrejas para os cemitérios de gestão municipal, foi polémica a vários níveis. Não só suscitou no povo receios quanto ao eficaz encaminhamento das suas almas para Deus, como deu origem a uma disputa entre as autoridades da igreja e da administração pública. No Porto, em 1838, foi necessário que a quinta do Prado do Bispo passasse da Mitra para posse da câmara, presidida por Luciano Simões de Carvalho, algo que não agradou ao Bispo, então D. Manuel de Santa Inês. O impasse só se resolveu com um “puxão de orelhas” de D. Maria II, instando a que o prelado parasse de erguer obstáculos à transação e ali se pudesse instalar o que foi batizado como cemitério do Prado do Repouso.

A presença da igreja, no entanto, fazia-se sentir mesmo nos cemitérios camarários, que eram benzidos antes de começarem a receber defuntos e possuíam (possuem ainda) capelas católicas.

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Em finais do século XIX, embora se vissem outras tipologias, o mais comum eram os jazigos em forma de capela, abundando outros símbolos, como figuras de anjos e santos e, claro, a cruz identificada com o martírio de Cristo.

Isto a par de elementos de ostentação da posição social do morto, como a grande escala e magnificência de alguns túmulos e até a imposição de pedras de armas, aludindo às famílias nobres de quem ali estava sepultado. A mudança de regime, em 1910, com a Implantação da República, iria mudar drasticamente este panorama, com a separação entre a Igreja e o Estado e a abolição das cartas de brasão de armas.

Os símbolos do passado deixaram de ser bem-vistos.

Mas isso é outra história...

 

Fontes

Visita livre ao cemitério de Agramonte, no Porto.

Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, Ser e Estar Perante a Morte no Porto dos Séculos XIX e XX: Reflexos no Património Cemiterial, in Lusitania Sacra, 2' série, 6, pp 309-325, 1994.

 

Alda Mónica Coelho Bessa, Memória e Saudade - Os túmulos de João Henrique Andresen e João Henrique Andresen Júnior, no Cemitério de Agramonte, dissertação de Mestrado, 2º Ciclo de Estudos em História da Arte Portuguesa, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2012. Disponível em: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/75519/3/28285.1.pdf

 

Imagens

Da autora, recolhidas no Cemitério de Agramonte, em 11 de julho.

 

 

 

Apresentação em Alcácer do Sal

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É já no próximo sábado, dia 19 de julho, que o livro Mas isso é outra história... - em boa parte baseado neste blog e na abordagem histórica que aqui faço - será apresentado em Alcácer do Sal. É às 18 horas, na igreja do antigo Convento de Nª Sª de Aracoeli, atual Pousada D. Afonso II, no castelo da cidade. 

A apresentação estará a cargo do editor Pedro Cipriano (Editorial Divergência - Verbi Gratia) e da historiadora Maria Teresa Lopes Pereira, uma das pessoas que mais tem investigado e publicado sobre Alcácer do Sal e uma das principais especialistas na sua história. 

Responderei às questões que me colocarem e terei o maior gosto em falar sobre o livro e sobre o mais que quiserem, após o que se segue uma sessão de autógrafos para os que quiserem os meus gatafunhos nos livros que entendam comprar.

Todos são bem-vindos!

Instantâneos (125): a senhora que pintava nus

 

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Corpos verdadeiros, com formas e cores reais, palpitantes até, como se respirassem, sentissem, vivessem. Assim eram os nus de Emília dos Santos Braga (na imagem), que teve a ousadia de despir as suas modelos e as retratar desta forma, expostas aos comentários maliciosos e ao preconceito vigente em inícios do século XX.

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A coragem valeu-lhe alguns dissabores.

O talento que, sem dúvida, possuía, abriu-lhe as portas dos salões, mas o facto de ser mulher impediu-a de assumir o papel devido na história da arte em Portugal.

Foi uma verdadeira revolução. Até Emília dos Santos Braga (1867-1949), a pintura portuguesa de inícios do século XX tinha poucos nus e os que arriscavam nessa vertente, justificavam-na na elaboração de divindades ou alegorias. Não representavam mulheres nuas, mas sim figuras femininas heroicas e imaginárias.

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Isto acontecia porque os pintores, maioritariamente homens, tinham dificuldade em conseguir modelos que para eles de desnudassem e, depois, porque não caía bem em círculos conservadores a presença sempre perturbadora de mulheres sem roupa, o que podia suscitar segundas e terceiras interpretações.

Com Emília dos Santos Braga foi diferente. As “suas” musas eram fêmeas de verdade, com defeitos e virtudes, com vícios e vergonhas, sensuais e humanas.

E, como eram pintadas por outra mulher, eram toleradas estas exposições, embora não faltassem vozes de censura por tal descaramento. A tela de grandes dimensões Fumadora de Ópio - na imagem anterior - causou especial escândalo e chegou a ser golpeada numa das ocasiões em que foi exposta.

Os mais sérios, no entanto, reconheciam o valor da artista, embora a subalternizassem.

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A sua produção, no entanto, não se limita aos nus. São bem conhecidos outros trabalhos, sobretudo retratos, mas foram aqueles que mais a destacaram.

Ainda que a sua identidade como pintora fosse distinta e bem marcada, para muitos seria simplesmente a mais dotada discípula do mestre Malhoa. Não lhe perdoaram o facto de não ter formação institucional e de pertencer ao “sexo fraco”.

Emília dos Santos Braga teve a sorte de a sua família apoiar o pendor artístico, que desde cedo a marcou, rejeitando, no entanto, a vocação inicial para cantar.

Teve incentivo, mas não disponibilidade financeira para cursar artes em Paris, como fizeram outras de famílias ilustres. Suportaram, antes, aulas com José Malhoa, nome grande da pintura nacional, que lhe transmitiu conhecimento, mas acabaria por condicionar o reconhecimento.

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Teve igualmente uma persistência que foi para além do matrimónio, não desistindo do seu percurso mesmo depois de se tornar uma mulher casada, etapa que, para muitas jovens promissoras, constituía o ponto final nas aspirações artísticas.

Tornou-se, depois, ela própria, mestre de muitas pupilas, entre as quais Maria Helena Vieira da Silva, Eduarda Lapa ou Mily Possoz.

Participou em numerosas exposições, em Portugal e no estrangeiro – nomeadamente na Exposição Universal de Paris, em 1900, de tão má memória para os portugueses – mas acabaria por se proteger em mostras no seu próprio espaço e atelier.

Como aconteceu a muitas mulheres em vários domínios, a história não fez justiça ao seu talento. São raras obras suas em museus, mas abundantes em coleções particulares.

 

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Fontes

Nuno Saldanha, Emília dos Santos Braga – (1867-1949), um triunfo no feminino, in Margens e Confluências – Um Olhar Contemporâneo Sobre as Artes, Mulheres artistas, argumentos de género, Escola Superior Artística do Porto – Guimarães, dez 2006.

 

Hemeroteca Digital de Lisboa

Illustração Portugueza, 25.05.1908, 10.06.1912

O Occidente, 20.04. 1905; 20.04.1908

 

https://mulheresilustres.blogspot.com/2012/10/emilia-santos-braga.html

 

https://lisboa-e-o-tejo.blogspot.com/2019/09/emilia-santos-braga-1867-1950-iv-de-iv.html

 

https://lisboa-e-o-tejo.blogspot.com/2019/09/emilia-santos-braga-1867-1950-ii-de-iv.html

 

 

 

Na Feira do Livro da Maia

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No próximo sábado, dia 12 de julho, vou estar na XIX Feira do Livro da Maia, para nova apresentação do meu livro. É uma oportunidade para os leitores da zona do Porto conhecerem um pouco mais deste trabalho. A apresentação decorre às 15 horas, no Palco-Praça e é seguida de uma sessão de autógrafos, durante a qual também estarei disponível para conversar com os presentes.

A Feira do Livro da Maia decorre na Praça do Fórum da Maia até 14 de julho. É uma organização da Câmara Municipal da Maia e celebra quase duas décadas de história, oferecendo um evento repleto de atividades culturais e educativas.

Agradeço à Editorial Divergência mais esta oportunidade de divulgar o Mas Isso É Outra história... e desafio os leitores do blog, todos os amantes de livros e interessados em histórias da história a aparecerem na Maia, será um prazer receber-vos.

Neste livro conto histórias que foram determinantes na sua época - século XIX e início do século XX - mas que a voracidade do tempo apagou da memória coletiva.
Revelo personagens surpreendentes, locais concorridos, acontecimentos decisivos, viagens apoteóticas e inúmeras ligações improváveis, porque, afinal, há sempre outra história...
São 25 histórias da história, relatadas com rigor, por vezes com humor, numa abordagem descontraída, mas fiel à realidade dos factos.

Deixo aqui link da editora, onde, para além de adquirir o livro, poderão obter mais informação sobre o mesmo e sobre a autora.

https://divergencia.pt/loja/mas-isso-e-outra-historia/

Os intelectuais também se conquistam pelo estômago

 

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Os escritores são homens e, como tal, diz a sabedoria popular, são conquistados pelo estômago. Poderá ser, mas, em meados do século XIX, em Portugal, eram os escritores que usavam a culinária para seduzir os seus leitores e não era só com descrições de opíparos banquetes – que também abundavam na literatura – mas metendo literalmente as mãos na massa e arriscando confecionar complexas e sofisticadas iguarias que depois exibiam em encontros que tinham tanto de literário, como de culinário, satisfazendo o espírito, bem como a barriga. Foi uma verdadeira moda a que poucos intelectuais escaparam, resultou em alguns pratos criativos e numa compilação em livro.

 

Poetas, dramaturgos, jornalistas, ilustradores, historiadores, folhetinistas…esqueceram divergências literárias e uniram-se à volta da mesa. Por momentos, largaram a pena e dedicaram-se a conceber sonetos doces, romances de sabor, crónicas de aromas deliciosamente inebriantes, odes suculentas ao melhor que a imaginação humana consegue criar fazendo uso de simples alimentos e condimentos.

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Multiplicam-se relatos que atestam a mão que muitos dos nossos literatos da segunda metade do século XIX tinham para a cozinha. Tanto, que as suas receitas até serviram de base para um livro que foi um verdadeiro sucesso de vendas, publicado pelo criador de rosas, ourives e editor Paul Henry Plantier, pessoa muito conhecida e respeitada nos meios intelectuais.

A casa de Domingos Martins Peres, na Ameixoeira, era outro ponto de encontro de muitas destas mentes brilhantes, que ali convergiam noite dentro, depois de passarem pelo teatro ou pela ópera, e experimentavam os seus dotes frente ao fogão, incentivados pelo proprietário do espaço e pelos outros convivas, sempre ávidos de novas degustações.

Um exemplo notório de grande gastrónomo é o escritor Bulhão Pato (na imagem). Tendo ficado célebre por uma ameijoas que não cozinhou, apresenta-se, ao invés, como especialista numa célebre açorda à Andaluza e criador de uma muito aclamada forma de cozinhar lebre no espeto, aromatizada com as ervas do campo alentejano, envolta em toucinho e pensada para consumir em ambiente de caça. Era um mestre da cozinha das emoções, entusiasta do colorau, e suas são também preciosas indicações para umas perdizes à castelhana e um arroz opulento (com queijo).

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Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias, ressalvando que não inventou a receita que apresenta, ensina a fazer ovos verdes à figueirense e Júlio César Machado (na imagem), o trágico escritor bem-humorado, resolveu inovar uns prosaicos ovos mexidos para surpreender num final de refeição com amigos igualmente letrados. Mas, o seu contributo vai além disso, pois deixou uma receita de caldeirada - com caril e vinho do Reno, para inebriar e alegrar os últimos momentos da enguia aí sacrificada.

Teixeira de Vasconcelos, político e jornalista que, simbolicamente, deu o título O Prato de Arroz Doce a um romance sobre a revolução da Maria da Fonte, inventou umas deliciosas sardinhas recheadas e um outro arroz, à moda de Valencia.

Aos seus escritos para o teatro, Luis d’Araújo (na próxima imagem) juntou muitos pratos, com destaque para umas ostras imperiais e a ousadia de se ter abalançado a improvisar umas “sardinhas de surpresa”, pressionado pelo Domingos Martins Peres, que o queria a inovar. O resultado foi uma espécie de fricassé, bem diferente das outras duas propostas de sardinhas do romancista Francisco Gomes de Amorim, no forno com ovos e queijo e recheadas com marisco.

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Luciano Cordeiro, historiador e escritor, deixou-nos uma leve salada de lagosta e o célebre caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro criou uma peculiar receita de “eirós do mar à patriota”.

E, o que dizer da sopa de caldo de peixe com camarão e azeitonas que Henrique Lopes de Mendonça somou a uma obra literária vasta e diversificada?

Ramalho Ortigão (na próxima imgem), mais conhecido pelas suas irónicas páginas de “Farpas” e tantas outras obras, cunhou um “método soberano e infalível” de fazer batatas soufflé verdadeiramente etéreas, enquanto Fialho d’ Almeida, celebrizado por Os Gatos, era perito na confeção de bacalhau guisado à espanhola.

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Ficou ainda mais conhecido o seu arroz de perdizes, que provocou “um deslumbramento”, quando servido numa célebre ceia de 1901 na qual os escritores se vestiram como algumas das suas personagens, nomeadamente femininas. Noutro ano, segundo o autor, este pitéu terá sido até responsável pela ressurreição de Jesus Cristo, três dias antes da Páscoa!…que os católicos lhe perdoem a heresia.

Efetivamente, são muitos os exemplos atestando que “os literatos portugueses atiraram-se ao petisco como gato a bofes”. A maioria aventurava-se em pratos salgados, mas o visconde de Benalcanfor, por exemplo - que nos deixou um volume dedicado a restaurantes e petisqueiras de boa memória - atreve-se num bolo real inspirado na receita das freiras clarissas do convento de Nª Sª de Aracoeli, de Alcácer do Sal, e o especialista em língua portuguesa, Cândido de Figueiredo, que chegou a viver naquele mesmo concelho alentejano, enriquece este verdadeiro manual de bem confecionar e comer com um doce de tomate à sua maneira.

Finalmente, João da Câmara, o primeiro português a ser nomeado para o Prémio Nobel, furtou-se à receita que Plantier lhe pediu, mas partilhou a memória de umas sandwiches de agrião apanhado num riacho, que lhe souberam a faisão em momentos de grande aperto alimentar. Quem dá o que tem…

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À Margem

A recolha de Paul Henry Plantier não podia ter um resultado mais diversificado, quer nas propostas gastronómicas, quer nos autores, quer, ainda, na exposição das suas participações na obra O Cozinheiro dos Cozinheiros: receitas em prosa, em verso, em carta ou notícia… Perto de 800 páginas, das quais 700 são dedicadas à conservação e preparação dos alimentos, o que faz com muito detalhe. Mais de 1500 receitas e contributos de três dezenas de intelectuais, portugueses e estrangeiros.

Muitos são nomes que então representavam o melhor e mais moderno da produção literária nacional, com vasta e aclamada obra, quer em livros vendidos, folhetins publicados, crónicas aplaudidas, peças de teatro representadas. Eram verdadeiras vedetas. Hoje, são nomes praticamente esquecidos, salvo algumas honrosas exceções.

A Eça de Queiroz, é um nome maior desta mesma geração. Desconheço a queda para a cozinha, mas é notória na sua escrita uma quase obsessão pela gastronomia, com perto de mil descrições de refeições, entre jantares, almoços e ceias, para além de incontáveis referências a alimentos e pratos mais ou menos elaborados, num completo repertório daquilo que era serviço à mesa em Portugal, até ao final do século XIX.

Mas isso é outra história...

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Já aqui antes falei de cozinheiros, nomeadamente o nosso primeiro chef-estrela, João da Matta.

 

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Fontes

O Cozinheiro dos Cozinheiros – Collecção de mais de 1500 receitas, Lisboa, Paul Plantier editor, 1905. Disponível aqui: https://pdfcoffee.com/o-cozinheiro-dos-cozinheiros-pdf-free.html

Hemeroteca digital de Lisboa

Binóculo, 10.12.1870

Brasil – Portugal, 16.06.1908

Illustração Portugueza, 17.09.1906, 13.01.1908

Almanach Bertrand, 1903

 

Maria Alzira Seixo (Universidade de Lisboa),  Os Sabores da Literatura ou: como a gastronomia se apoia nos modos de dizer, in Revista do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da UFF, Vol. 6, n° 12, abril de 2014, Universidade Federal Fluminense,

Maria Antónia Goes, À Mesa com Eça de Queiróz, Colares Editora: https://loja.feq.pt/loja-online/a-mesa-com-eca-de-queiros/

https://e-cultura.blogs.sapo.pt/tag/paulo+plantier

https://vejacavejala.com/bolinhos-de-bacalhau/

https://panelasemdepressao.wordpress.com/2016/11/15/recuando-ao-seculo-xix/

https://almada-virtual-museum.blogspot.com/2014/06/rosas-do-pombal.html

https://asreceitasdaavohelena.blogspot.com/2023/01/paul-plantier-paulo-henrique-plantier.html

https://panelasemdepressao.wordpress.com/2016/11/15/recuando-ao-seculo-xix/

 

 

Imagens

Desenho de Rafael Bordallo Pinheiro, Binóculo, 10.12.1870

Desenho de Rafael Bordallo Pinheiro, Dicionário das Personagens da Ficção Portuguesa: PATO, Bulhão

Fotografia de Joshua Benoliel, Illustração Portugueza, 13.01.1908

Illustração Portugueza, 17.09.1906

Almanach Bertrand, 1903