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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

A façanhas da quadrilha do Papa Assucar

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À luz dos nossos dias, as proezas fora da lei do Papa Assucar, da companheira, Bicha Brava, e de toda a volumosa quadrilha que o apoiava podem parecer quase ingénuas, mas o seu nome inspirava medo entre as gentes de vários concelhos do Norte do País. As suas muitas aventuras passaram de boca em boca, transpondo gerações e fronteiras.

 

Em finais do século XIX o País estava mal servido de estradas e de transportes. Viajar era uma tarefa morosa, penosa e perigosa, que devia ser desenvolvida em grupo, para minorar os riscos. Bandos de salteadores esperavam a sua oportunidade nas planícies alentejanas e nas serranias do resto do território. A Norte, nos concelhos de Braga, Guimarães (na imagem), Felgueiras, Santo Tirso e Póvoa de Lanhoso, durante cerca de uma década, o Papa Assucar foi um dos nomes mais temidos. Atravessar a Serra da Falperra era uma verdadeira aventura.

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Os relatos das façanhas deste homem passaram de geração em geração.

Numa época em que a pobreza e a desproteção social constituíam a principal porta de entrada para o mundo do crime. Bernardo José Dinis, de todos conhecido como “Papa Assucar”, não tinha essa desculpa.

Nascido em família privilegiada, onde ressalta um pai representante da autoridade, enveredou por uma vida airada, a solo, de braço dado com a companheira, a Bicha Brava e, sobretudo, liderando uma quadrilha que chegou a ter dezena e meia de elementos.

Durante anos, o grupo de malfeitores semeou o pânico e criou uma impressão de medo que permaneceu na memória coletiva.

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O Papa Assucar sabia ler e escrever, algo raro naqueles tempos e entre os seus apaniguados. Nunca matou, apesar de ser perigoso e, reconhecidamente, homem de numerosos expedientes.

Hoje, os seus crimes parecem-nos quase infantis.

Nasceu a 11 de janeiro de 1862, em Louzela (Vila Nova de Famalicão), num lar relativamente abastado, mas com 11 filhos. Desconhece-se a origem da alcunha, mas era assim já conhecido aos 18 anos, data do seu primeiro crime documentado – o furto de 50 rações de pão que eram transportadas ao destacamento de Infantaria 18, em Guimarães.

Foi em 1883, que se tornou verdadeiramente famoso, ao escapar-se de forma surpreendente da cadeia de Guimarães, onde se encontrava a cumprir pena por outro furto. Escondeu-se por debaixo da cama do carcereiro e, com a maior calma do mundo, aproveitando o descanso daquele, levou as chaves com que abriu as portas da liberdade.

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Cinco anos depois ter-se-á iniciado a relação com Maria Joaquina Ferreira, famosa como “Bicha Brava”. Foi pelo menos por essa altura que a imprensa começou a comentar as artimanhas do par.

A vida desta teve a sua dose de dificuldades. Tendo ficado viúva, levou por diante o negócio que tinha sido do casal, uma taberna (em Alvite, São Martinho de Sande, Guimarães). Era uma tarefa de alto risco, dada a propensão para a ocorrência de conflitos em tais baiucas. Uma mulher, por aqueles dias, estava em especial situação de vulnerabilidade em tal “antro de desordens, rapinagem e prostituição”, como as autoridades caracterizavam o seu estabelecimento.

Foi ali mesmo que teve início o romance e consequente associação criminosa com Bernardo Dinis, o Papa Assucar, junto de quem encontrou proteção, mas também novas fontes de rendimento, nomeadamente provenientes das suas atividades à margem da lei.

O Catarino, o Garracho, o Carolino, o Conca, o Pissarro, o Lourenço ou o Santa Marinha, mais quatro mulheres (Maria Joaquina Ferreira, a Bicha Brava, Carolina Augusta, Catarina Rosa da Silva e Joana Maria Simões, a Carapuceira), com relações de casamento ou mancebia com os elementos masculinos, constituíam as peças nucleares da afamada quadrilha minhota.

Juntos ou em iniciativas individuais, enfrentaram pelo menos 69 acusações, a maior parte destas relativas a furtos. Mas, não se pense que enriqueceram com tais atividades. Uma coisa é certa: não se pode dizer que fossem esquisitos quanto ao que levavam.  Com o mesmo empenho desviavam animais (como perdizes, cabras, galinhas e outras aves de galinheiro); davam descaminho a sacas de cereais, salgadeiras cheias de carne ou odres de azeite, peças de roupa branca ou de vestir e, claro, também dinheiro e outros objetos de valor, subtraídos de casas particulares, estabelecimentos comerciais e igrejas, usando para isso chaves falsas ou ferramentas para facilitar o arrombamento.

Não admira que o Papa Assucar tenha sido durante muito tempo presença assídua nos jornais, com as suas proezas exploradas à exaustão, o que acabaria por jogar contra a vedeta, pois terá sido devido a uma notícia indiscreta que foi finalmente capturado, em 1890, o que o fez nutrir um ódio de estimação pelos jornalistas.

Face a tão animada existência, todos os elementos da quadrilha foram detidos em diferentes momentos e períodos. O líder, com alcunha de guloso, depois de vida tão atribulada e várias prisões, acabou degredado por oito anos em Angola (na imagem, a fortaleza de São Miguel, que albergou o Depósito de Degredados de Luanda).

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Teve a sorte de ser abrangido por um indulto que o libertou antes de tempo. Regressou à casa paterna e não há registo que tenha retornado à “má vida”.

Mas, uma existência pacata na sua terra também não era para ele.

Em 1898, aos 36 anos de idade, ainda com muito para viver, embarca para o Brasil, onde se lhe perde o rasto.

 

À margem

Entre as décadas de 1880 e 1932, entre 16 e 20 mil prisioneiros portugueses foram condenados à pena de degredo em África, a maioria para Angola. Era frequente os degredados não sobreviverem ao clima inclemente e às doenças exóticas que ali encontravam, mas também acontecia serem libertados antes de tempo, devido a amnistias, como aconteceu com o Papa Assucar, e permanecerem naquela colónia, ascendendo até na escala social local. Igualmente possível era os presos gozarem de uma certa liberdade, que lhes permitia dedicarem-se a atividades lícitas e ilícitas.

À medida que o expediente do degredo se vulgarizou, também cresceu o impacto destes prisioneiros na população local e, em finais do século XIX correspondiam a 12 por cento dos brancos presentes.

Existiam várias categorias de presidiários no Depósito de Degredados de Luanda, para além dos criminosos comuns, como o Papa Assucar. Uma quantidade considerável eram vagabundos ou vadios, mas havia também os deportados, condenados por crimes políticos.

Igualmente em 1891 aquela prisão recebeu um deportado famoso. Tratava-se do jornalista João Pinheiro Chagas*, preso pelo alegado incitamento da revolta de 31 de janeiro, no Porto, em consequência do ultimato britânico. Em novembro, conseguiu fugir e chegar a Paris e, tendo sido novamente detido, voltou a fugir, para o Brasil. Cerca de 20 anos depois, seria o primeiro presidente do ministério (Primeiro-Ministro) após a implantação da República.

Mas isso é outra história…

 

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*Não confundir com o primo, Manuel Pinheiro Chagas, igualmente polémico, igualmente jornalista e ministro e um dos fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa, que estaria na origem de um conjunto de expedições destinadas a reforçar a posição portuguesa em África.

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aqui antes falei de outra perigosa quadrilha, que punha as beiras a ferro e fogo.

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Fontes

Vítor Emanuel Mendes de Oliveira No encalço da Quadrilha do Papa Assucar, célebre bando de ladrões e salteadores: um estudo de caso sobre representações de pequena criminalidade em finais de Oitocentos, dissertação de Mestrado em História, Universidade do Minho - Instituto de Ciências Sociais, 2020. Em https://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/67982

 

Timothy J. Coates,The Depósito de Degredados in Luanda, Angola: Binding and Building the Portuguese Empire with Convict Labour, 1880s to 1932, Cambridge University Press, 2018. Disponível em https://www.cambridge.org/core/journals/international-review-of-social-history/article/deposito-de-degredados-in-luanda-angola-binding-and-building-the-portuguese-empire-with-convict-labour-1880s-to-1932/55837A97ED8C078867FDD783C8976535

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Chagas

https://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Pinheiro_Chagas

 

Imagens

Gravura de autor desconhecido tirada a partir de fotografia de Antero Frederico de Seabra. Arquivo Pitoresco, 1864, p. 377, retirado do blog Memórias de Araduca:

Guimarães em 1864

Fortaleza de São Miguel de Luanda - Wikiwand

Imagens criadas por IA, em Adobe Firefly

Europa arrombada, trancas aos fatos de banho

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Com o continente em guerra e o País rejubilante por causa da comemoração os centenários e da Exposição do Mundo Português, seria de esperar que os nossos governantes tivessem o suficiente com que se entreter. Mas, não! O desenho dos fatos de banho é que ameaçava verdadeiramente as fundações do regime e a frágil moral lusa. Caberia a dois militares e um arquiteto definirem o tamanho e o desenho dos fatos de banho autorizados nas douradas praias nacionais, a partir de 1941.

 

O verão de 1940 foi de sobressalto. A Europa estava em guerra e, de todos os países ameaçados pelos avanços alemães, grupos de pessoas deslocavam-se para Sul, rumando a Portugal em busca de proteção e, sobretudo, de uma oportunidade para abandonar o continente em convulsão, de barco ou através dos dois aeroportos de Lisboa. A capital vibrava com todos estes estrangeiros, atraídos também pela grandiosa Exposição do Mundo Português, rejubilando com a coincidência divinamente forjada de então se comemorarem oito séculos da fundação de Portugal e três sobre a Restauração da Independência. Seria de supor que, com tanto a temer e a comemorar, o Estado Português tivesse o suficiente com que se entreter, mas o que, de facto, abalou as fundações do regime então em ampla afirmação, foram os indecentes fatos de banho que, inesperadamente, invadiram as praias portuguesas, de Norte a Sul.

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Era um panorama de “nudez sem pudor a exibir-se em maillots inconvenientíssimos” e tamanha “imoralidade de costumes a ostentar-se nos banhos de sol”, que os alicerces do Estado Novo tremeram de vergonha e receio pela virtude das recatadas portuguesas, expostas à influência das europeias migrantes, que aproveitavam a passagem por terras lusas para exporem as frescas carnes ao sol.

“Alvas, esbeltas, quase sempre nordicamente louras”, em vez de se cobrirem em sinal de luto pelos seus países em risco, descobriam as suas privilegiadas formas aos olhares vorazes dos machos latinos, “estendendo até às almas desprevenidas o perigo que as perturba e desencaminha”.

Nunca tanta pouca-vergonha se tinha visto por cá. Jamais os olhos portugueses tinham vislumbrado tamanha ameaça. De que importava a guerra, se a decência lutava contra o descaramento e a perdição aqui mesmo, dentro de portas, nos areais deste pequeno retângulo, resguardado dos nevoeiros e dos ventos bélicos?

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No meio de tanta indecência, onde não se distinguiam as estrangeiras e as nacionais que, influenciadas por tais visões de pecado, também se começaram a destapar, só as virginais lusitas da Mocidade Portuguesa Feminina mantinham o decoro, exibindo orgulhosamente os seus modestos fatos de banho, aprovados pelos rígidos critérios governamentais.

Eram o exemplo a seguir! Até porque era preciso pôr cobro a tamanha desfaçatez.

O de 1940 seria o último verão com fatos de banho em insolente liberdade.

Logo em fevereiro do ano seguinte, ainda a braços com o frio invernal, o governo, através dos ministros do Interior, Marinha e Educação Nacional, nomeava uma comissão para “propor o critério a seguir quanto ao uso de fatos de banho nas praias e estudar o conjunto de medidas a adotar para regular o assunto”. Faziam parte desta comissão com a espinhosa tarefa descrita dois militares e um arquiteto, respetivamente, João Sales Henriques (primeiro tenente), Mário José Pereira da Silva (tenente de infantaria) e Guilherme Rebelo de Andrade, todos certamente especialistas em indumentárias estivais de banho.

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Três meses depois eram conhecidos os resultados do afanoso trabalho destes senhores. Com o intuito de “zelar pela moralidade pública” e “evitar a corrupção dos costumes”, o Estado determinava que não se repetissem os excessos do verão anterior, salvaguardando a decência e até as conceções estéticas que os povos civilizados não dispensavam. Isto não se pretendendo, de forma alguma, regressar aos padrões do século XIX, ou sequer do início do século que então corria.

Ainda assim, alertava-se logo que, quem viesse a queixar-se da fiscalização, não tinha tido os devidos cuidados para acautelar não ser multado. A coima podia ir até aos 5 mil escudos e o seu não pagamento imediato podia implicar a prisão.

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A exigência era ao centímetro. O traje de praia das senhoras tinha obrigatoriamente saiote sobreposto ao tecido do calção, sendo que este teria um comprimento mínimo de dois centímetros e seria ajustado à perna. À frente, todo o tronco deveria ficar coberto e, nas costas, o decote tinha que ser, no mínimo, dez centímetros acima da cintura e com cavas cingidas às axilas.

Os senhores tinham a possibilidade de usar duas peças, mas igualmente capazes de cobrir o tronco, à frente e atrás. Os calções regiam-se pela mesma medida concedida às senhoras: 2 centímetros.

Tecidos transparentes e demasiado elásticos estavam totalmente fora de cogitação e nenhuma destas vestimentas poderia ser usada fora de zona balnear. Só nas provas de natação se poderia prescindir do saiote e, nos homens, da parte de cima do conjunto, mas isso apenas em condições muitíssimo especiais.

Cinco anos depois, o biquini apresentava-se ao mundo, mas por cá ninguém daria por nada.

 

À margem

Só em 1937 é que os portugueses, e, ainda assim, uma pequena elite, adquiriram o direito de gozar férias, ausentando-se dos seus empregos por período previamente determinado. Os trabalhadores agrícolas, por exemplo, foram totalmente ignorados nesta legislação. No entanto, desde há muito que as famílias mais abastadas abandonavam as suas casas urbanas para passar os meses de verão em vilegiatura, elegendo locais específicos para essas atividades. Essas escolhas, bem como o tempo de permanência, aliás, determinavam o estatuto social das estâncias, elevando ou depreciando os veraneantes.

Foi por ser a praia preferida da família real que Cascais se promoveu enquanto paisagem ideal para os nomes mais sonantes passarem o verão, a partir do reinado de D. Luís. Já com D. Carlos, a hora do banho do príncipe real era aguardada pelos mirones e obedecia a todo um ritual digno de ser visto.

A partir dos anos 40, em período de guerra, eram outras as famílias reais, com seus príncipes e princesas, que ali encontraram o seu refúgio, reforçando o carácter elitista daquelas praias tão próximas de Lisboa.

Mas isso é outra história...

 

 

 

Fontes

Hemeroteca Digital de Lisboa

Mocidade Portuguesa Feminina : boletim mensal [1939-1947]

Mocidade Portuguesa Feminina (boletim mensal), nº16, 08.1940

Mocidade Portuguesa Feminina (boletim mensal), nº17, 09.1940

Mocidade Portuguesa Feminina (boletim mensal), nº28, 09.1941

 

Diário de Notícias, 11.09.1940

Fundação Mário Soares

http://casacomum.org/cc/diario_de_lisboa/

Diário de Lisboa, 23.02.1941, 05.05.1941, 07.05.1941

Susana Lobo, O Corpo na Praia: a Cultura Balnear em Portugal no Século XX, in Revista História das Ideias, volume 33, Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2012. Disponível aqui: (PDF) O corpo na Praia: A cultura balnear em Portugal no sÉculo XX

 

Pedro Alexandre Guerreiro Martins, Contributos para uma História do Ir à Praia em Portugal, Dissertação de Mestrado em História Contemporânea, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, set. 2011. Disponível aqui: RUN: Contributos para uma História do Ir à praia em Portugal

 

fatos de banho | Memória Comum

https://aterrememportugal.blogspot.com/2011/06/fatos-de-banho-imoralidade-de-costumes.html

Os poucos portugueses nomeados e a mulher que se propôs para o Nobel

 

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Martina Maldonado escreveu aos monarcas suecos candidatando-se para receber um Prémio Nobel, algo que foi arrojado mas insensato, pois fez com que fosse automaticamente excluída das nomeações. De resto, na primeira metade do século XX contam-se pelos dedos das mãos os portugueses que tiveram essa honra.

A lista de nomeados para os Prémios Nobel é secreta durante meio século. Nos primeiros 70 anos de atribuição, sabemos que só um português recebeu o galardão e, nos dados já tornados públicos, percebemos que os nossos compatriotas candidatos contam-se pelos dedos das mãos – nove apenas. A informação oficial, no entanto, não fala de uma portuguesa que teve o descaramento de se auto propor, algo raro, até porque não é permitido.

Chamava-se Martina Carolina Reboli de Bulhões Maldonado e, em 1906, resolveu escrever aos reis da Suécia, sugerindo-se para receber o Prémio Nobel da Literatura ou o da Paz. Achava que a sua atividade como escritora a candidatava ao primeiro e que as suas boas ações em prol dos outros a tornavam elegível para o segundo.

Reuniu um conjunto de cartas abonatórias da sua pretensão, entre as quais se contavam missivas das rainhas Maria Pia e D. Amélia e, ainda, da rainha de Espanha. Somavam-se, entre outros, testemunhos do escritor Bulhão Pato, do núncio apostólico em Portugal e do bispo de Pouso Alegre, ambos veiculando a bênção apostólica dos papas Leão XIII e Pio X, o que indicia que preparara a candidatura com antecedência de pelo menos três anos. Pediu também aos representantes da Suécia em Portugal e português naquele país que intercedessem por ela.

Não admira que o seu trabalho tivesse o aval da igreja, já que Martina era muito religiosa e, nas suas obras** – que enviou aos monarcas suecos - predomina esta temática.

Enunciava igualmente as suas atividades beneméritas, procurando, assim, encaixar-se tanto no prémio ”na parte destinada às letras”, como no instituído “para quem alguma coisa de bom, de útil tenha feito em prol da humanidade”. Apostava no dois em um, pensando aumentar as suas probabilidades de ser galardoada.

Escusado será dizer que não teve sucesso, até porque o facto de se ter proposto a excluiu automaticamente, de acordo com os regulamentos, pois, as nomeações cabem a individualidades e instituições escolhidas pelo comité.

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A primeira mulher portuguesa a ser oficialmente nomeada seria a poetisa e escritora Maria Madalena de Martel Patrício (1884-1947), em 1934 (na imagem). Repetiu a proeza por 14 anos, mas apesar da insistência, jamais ganhou. Foi a única compatriota do sexo feminino a conseguir a nomeação até 1971 e também foi homenageada pela Santa Sé, devido ao seu trabalho beneficente, coisa que Martina, que se saiba, nunca almejou conseguir, mesmo tendo mandado erigir uma capela como sinal de agradecimento por ter sobrevivido às febres, quando era professora, na Índia. Teve sim, durante algum tempo, uma rua com o seu nome, em Lisboa*.

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A honra da primeira nomeação formal, no entanto, tinha cabido ao dramaturgo João da Câmara (1852-1908) - na imagem, logo em 1901 e apenas uma vez. Seguiu-se, em 1907, João Bonança (1836-1924), que por aí se ficou.

Depois houve um grande interregno, de 26 anos, pois só voltariam a registar-se portugueses designados em literatura no ano de 1933. Foi o poeta António Correia de Oliveira (1879-1960) que quebrou esse jejum. Foi proposto por 20 elementos da Academia de Ciências de Lisboa e reapareceu mais 14 vezes em anos posteriores, mas este recorde de nada lhe valeu.

 

Em 1942 dá-se a primeira das cinco designações de Teixeira de Pacoaes e, de entre os dados já revelados, até 1971, foram estes os escassos portugueses indicados na área da literatura, ainda assim, aquela com maior presença lusitana e onde acabaríamos por vencer, com José Saramago, mas só em 1998, quase um século após a primeira nomeação. Só no futuro saberemos quais e quantas vezes outros escritores portugueses surgiram nesta lista restrita, a partir de 1971.

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Quanto a Martina (na imagem), morreria em dezembro de 1909, aos 62 anos, sem alcançar o reconhecimento desejado. Não deixou filhos, nem testamento, mas no assento de óbito consta o cargo que muitos anos antes ocupara, de professora e diretora do recolhimento de Nossa Senhora da Serra, em Nova Goa, do qual se orgulhava. Talvez cumprindo uma vontade sua, foi fotografada no féretro e enterrada na companhia dos seus amados livros.

 

À Margem

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Entre 1901 e 1971, nenhum compatriota logrou destacar-se com uma nomeação para os prémios da física ou da química, o que atesta a fraca imagem que a investigação nacional tinha nestas disciplinas.

De facto, apenas fomos nomeados também para as categorias de Prémio Nobel da Paz e da Medicina, no qual acabámos por vencer, em 1949, após 18 nomeações.

Foi Egas Moniz (1874-1975) o único português a ser galardoado com o Prémio Nobel da Medicina, pelas suas investigações e descobertas sobre o funcionamento do cérebro humano. Mas não foi o único nomeado nesta categoria. O cirurgião António de Sousa Pereira (1904-1986) foi designado em 1953, pela sua investigação nos domínios da anatomia e cardiologia.

Aldo Castelloni (1874-1971), patologista e bacteriologista, foi nomeado 61 vezes ao longo de 48 anos! E, nada ganhou. Embora italiano, viveu muito tempo em Portugal, onde se exilou após o final da II Grande Guerra. É por isso que as suas últimas quatro nomeações surgem englobadas nas do nosso País.

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Falta ainda referir o único – que se conheça - nomeado português para a categoria de Prémio Nobel da Paz: Sebastião Magalhães Lima (1850-1928) - na imagem. Republicano, maçon, fundador do jornal O Século, foi indicado em 1909, pelo seu trabalho no Gabinete Internacional Permanente Para a Paz, ainda antes de ser deputado e ministro e de ter fundado a Liga Portuguesa dos Direitos do Homem (1921).

Em 1928, com a mesma veemência que havia usado nos textos contra a monarquia, criticou aquele novo regime que então já oprimia Portugal, limitando as liberdades dos cidadãos.

Não podia prever que tudo ainda estava a começar e que o tal regime só cairia 46 anos depois.

 

Mas isso é outra história…

…………………

*Atual rua Andrade Corvo, perpendicular à avenida Fontes Pereira de Melo, entre esta e a avenida Duque de Loulé.

** Nomeadamente: Vida de Todos os Santos. Escreveu igualmente Duello de Morte. Critica aos livros de Guerra Junqueiro e Padre Senna Freitas.

 

………….

 

Martina Maldonado foi o grande amparo de Maria Clementina Relvas, de cuja difícil vida já escrevi aqui: Os estranhos destinos das filhas de Carlos Relvas   - O sal da história

E aqui: Ainda…Clementina Relvas - O sal da história

 

Fontes

Manuela Poitout, Clementina Relvas e a condição feminina no seu tempo (1857-1934, in revista Nova Augusta, nº 25, Torres Novas, 2013. Agradeço à autora a generosidade de ter partilhado comigo o seu interessantíssimo trabalho de investigação, que vem desmistificar tantos equívocos existentes em torno de Clementina Relvas Relvas.

https://www.nobelprize.org/nomination

https://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Madalena_de_Martel_Patr%C3%ADcio

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Gon%C3%A7alves_Zarco_da_C%C3%A2mara

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_de_Sousa_Pereira

https://en.wikipedia.org/wiki/Aldo_Castellani

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sebasti%C3%A3o_de_Magalh%C3%A3es_Lima

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Correia_de_Oliveira

 

António da Silva Pinto, Para o fim : 1908-1909,  Lisboa, A. M. Pereira, 1909. Disponível aqui: Para o fim : 1908-1909 : Silva Pinto, Antonio da, 1848-1911 : Free Download, Borrow, and Streaming : Internet Archive

Brito Aranha,  Diccionario Bibliographico Portuguez, Estudos de Innocencio Francisco da Silva aplicáveis a Portugal e ao Brazil, continuados e ampliados por Brito Aranha, Tomo 20º, 12ºdo Suplemento V-A, Lisboa, Imprensa  Nacional , 1911. Disponível aqui: Baixar - Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (livrozilla.com)

 

Museu da Presidência da República, Convite de Maria Clementina Relvas a Teófilo Braga, PT/MPR/BPARPD/ATB/CX132/025

Arquivo Municipal de Lisboa, Venda do lote de terreno, designado pela letra H, situado na avenida Fontes Pereira de Melo e rua G, a Martina Carolina Reboli de Bulhões, PT/AMLSB/CMLSBAH/FNAJ/001/0051/046.

Arquivo Municipal de Lisboa, Edital da Câmara Municipal de Lisboa que publicita a atribuição da designação Rua D. Martina, à rua G, cortada pela rua Fontes Pereira de Melo, PT/AMLSB/CMLSBAH/CHC/011/018/0038

Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Inventário Facultativo, PT/TT/JUD/TCLSB/217657.

Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Registos Paroquiais, Lisboa, São Sebastião da Pedreira, óbitos, PT-ADLSB-PRQ-PLSB50-003-O36

Arquivo da Direção-Regional de Cultura dos Açores, Convite de Maria Clementina Relvas a Teófilo Braga, solicitando a sua comparência no erigir de um túmulo à memória de D. Martina carolina Reboli de Bulhões Maldonado, PT/BPARPD/PSS/TB/132/025.

 

Diário do Governo, 29.12.1899; 02.03.1910, 23.06.1910, nº114, 1911.

 

Imagens

Prêmios Nobel: História, Controvérsias e Conquistas de 2024 – The Bard News

Maria Madalena de Martel Patrício - Maria Madalena de Martel Patrício – Wikipédia, a enciclopédia livre

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, cadáver de Martina Maldonado, PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/ACU/00241

Serões: revista mensal ilustrada, N.º 32, fev. 1908, in João Gonçalves Zarco da Câmara – Wikipédia, a enciclopédia livre

Prof. Egas Moniz – O Nobel Português de Medicina e Fisiologia | Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

Sebastião de Magalhães Lima (1851-1928) - Livro "Pela Patria e pela Republica", Porto 1891, em Sebastião de Magalhães Lima – Wikipédia, a enciclopédia livre