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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Trágicas memórias do teatro Baquet

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Moedas, pulseiras, brincos e pregadeiras em ouro e prata…Cerca de uma centena de objetos retorcidos e fragmentos indistintos compõem a triste memória dos que pereceram na fornalha em que se transformou o Teatro Banquet na madrugada do dia 21 de março de 1888. Entre os bens recuperados, depositados no Arquivo Municipal do Porto, estão vários relógios tristemente parados pouco depois das 2 horas, provavelmente o momento em que aqueles que os transportavam deixaram de viver. Embora nunca se tenha apurado o número exato de vítimas, terão sido, seguramente, entre 88 e 120.

 

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Uma trágica sucessão de pequenos acontecimentos ditou a desgraça do Teatro Baquet, em março de 1888.

A noite ia longa. O espetáculo em benefício do ator Firmino Rosa era composto por vários momentos diversificados, populares e hilariantes, de molde a atrair muito público. A sala estava composta, mas não esgotada. Lá marcava presença uma boa escolha da burguesia portuense, mas também muita gente humilde, família inteiras, também em cena.

O quadro “Os Três Gajos”, da peça La Gran Via, tinha agradado tanto que, embora já se visse o cenário seguinte, a assistência pedia com veemência que se repetisse. Foi essa brusca mudança de planos e consequente troca das bambolinas que fez com que uma destas roçasse numa gambiarra a gás e, instantaneamente, pegasse fogo. Percebendo o perigo, quiseram cortar as amarras da sanefa incendiada, afastando-a das demais, mas não tinham consigo a necessária navalha.

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Na atrapalhação, o pano de fundo caiu bruscamente, logo seguido do pano de boca. Todos pensaram que tinha ocorrido algum engano e alguns espetadores mais gozões chegaram a lançar piadas e bater com os pés. Percebia-se grande movimentação no placo, mas, apesar da inquietação, no imediato, o que estava de facto a acontecer escapou à maior parte dos presentes.

Os bombeiros de piquete foram em busca das mangueiras ligadas às bocas de incêndio de serviço ao palco, mas estas estavam enredadas e acabaram por rebentar.

O alarme de “FOGO” foi finalmente dado por alguém do camarote 24, que conseguiu ver as labaredas que já lavravam. Os ocupantes daquele espaço saíram abruptamente e foi então que o caos se abateu sobre a sala.

Num lampejo, todos perceberam que havia um incêndio na sala e precipitaram-se para as saídas, com enorme alarido. As chamas e, sobretudo, o fumo assassino, foram igualmente velozes em dominar todo o espaço.

A turba apavorada percorreu os corredores em busca da salvação. Os afortunados que a encontraram, espalharam-se pelas ruas circundantes, criando um panorama surreal. Feridos e queimados misturados com artistas ainda envergando os trajes e adereços das personagens que encarnavam minutos antes. Muitos procuravam os familiares extraviados na aflição de sair do inferno. Crianças perdidas choravam e pais desgarrados dos filhos desesperavam.

Na varanda, pedia-se ajuda e, como esta não chegasse, houve quem saltasse para o vazio.

Uma porta lateral desativada aquando das obras mais recentes foi responsável por salvar a maior parte dos que se encontravam perto do palco. Os restantes escaparam pela rua Sá da Bandeira. Foi no acesso à entrada principal, para a rua de Santo António, que o horror assumiu maiores proporções, com cadáveres e moribundos amontoados no interior, vencidos pelos gases e pelo choque entre diferentes fluxos de pessoas que ali confluíram.

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Durante longos minutos, não foi dado sinal oficial de incêndio, pelo que os socorros tardaram e, erradamente, dirigiram-se para a frente virada para a rua Sá da bandeira, quando era na outra que urgia acudir.

O empresário e maestro Cyríaco Cardoso, qual comandante de um navio, foi o último a abandonar o teatro. Pensou que não havia vítimas, mas esteve longe de salvar todos. A sua família, aliás, foi uma das enlutadas, pois, para além do ganha-pão, perdeu um filho.

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Só quando se começaram a revolver os destroços, se percebeu a dimensão da catástrofe, que apenas quem viveu poderia exprimir em toda a sua lastimosa amplitude.

Em uma hora, restavam apenas as paredes exteriores do que fora ao Teatro Baquet.

Aos pequenos objetos retirados das ruínas mencionados no início desta história, juntaram-se outros de grande porte. Ferros retorcidos, pedaços de decorações, retalhos indefinidos, que lembram tristemente os que pereceram na tragédia e assinalaram depois o local onde todos foram enterrados, no Cemitério de Agramonte (na imagem).

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À margem

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O Teatro Baquet, nascera três décadas antes, da iniciativa do alfaiate António Pereira (na imagem), que se tornou “Baquet” depois da primeira viagem a Paris. O fundador e financiador também traçou a planta, embora, felizmente, tenha deixado a fachada a cargo de alguém mais habilitado, o professor Guilherme A. Correia. Os interiores tinham abundantes pinturas a fresco e decorações ao gosto de época.

Apesar da complexidade, a obra “relâmpago” demorou apenas 11 meses e custou 50 contos de réis.

A inauguração deu-se em 13 de fevereiro de 1859, por entre mascaras e partidas de Carnaval. Por altura do primeiro espetáculo, a sala comportava cerca de 700 pessoas.

O grande desnível do terreno, entre duas ruas, obrigou a adaptações e “enterrou” boa parte dos bastidores do edifício, o que levou a sucessivas obras posteriores, por questões de segurança e funcionalidade. Ainda assim, como se viu, não foram suficientes para prevenir a tragédia.

A sala nunca chegou ao sucesso inicialmente previsto. Esteve boa parte da sua existência sem companhia residente e pode dizer-se que, quando ardeu, estava no auge de popularidade e assistência. Embora sempre com défice de resultados, por ali passaram, muitas companhias e artistas de renome, como a célebre Emília das Neves (1820-1883).

Baquet, aliás, foi responsável pela sua polémica expulsão, em resultado de um desentendimento sobre quem mandava no espaço, numa altura em que Emília das Neves o tinha arrendado. Rancoroso, Banquet até definiu em testamento que a maior diva do teatro nacional nunca ali pudesse voltar a atuar.

Nunca se conseguiu saber exatamente quantos morreram no Teatro Banquet ou quem era quem entre os corpos carbonizados.

Na triste listagem dos identificados, estava Antónia Custódia da Silva Neves. Muito conhecida na sociedade portuense, ganhou a alcunha de mulher-homem por ter vivido com pessoa do sexo masculino durante a primeira parte da sua vida.

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Mas isso é outra história

 

Fontes

Jayme FILINTO, A grande catastrophe do Theatro Baquet narrativa fidedigna do terrível incêndio ocorrido em a noite de 20 para 21 de Março de 1888, precedida da história do Theatro, Porto, Casa Editora Alcino Aranha & Cª, 1888. Disponível aqui:

https://books.google.pt/books?id=nio6AQAAMAAJ&printsec=frontcover&hl=pt-PT&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false

Francisco Ferreira Queiroz, Marcelina das Graças de Almeida, Teatro Baquet – Ruínas e Memórias, in Boletim de 2008, 3ª série, nº26; Associação Cultural Amigos do Porto. Disponível aqui:

chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/http://www.franciscoqueiroz.com/Teatro_Baquet_tumulo_das_vitimas.pdf

 

Laurinda Ferreira, O Teatro no Quintal do Sr. Baquet, 2012. Disponível aqui:  https://www.academia.edu/75904879/O_Teatro_do_quintal_do_senhor_Baquet

 

Biblioteca Nacional de Portugal

www.purl.pt

Diário Illustrado, 22.03.1888, 23.03.1888, 24.03.1888.

 

Arquivo Municipal do Porto

https://gisaweb.cm-porto.pt/

Relação dos objetos que se encontravam na sala do Museu Histórico da Cidade e que, por determinação do presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal do Porto, em virtude da resolução de 6 de Julho de 1925 que extinguiu aquele Museu, foram entregues pela 4ª Repartição ao "Arquivo Histórico do Porto" em 10 de agosto do mesmo ano, PT-CMP-AM/PUB/CMPRT/FANT/083.

 

 

Imagens

Arquivo Municipal do Porto

https://gisaweb.cm-porto.pt/

PT-CMP-AM/COL/HPC/0002

PT-CMP-AM/COL/GRA/D.GRA:1.22.105

PT-CMP-AM/COL/GRA/D.GRA:1.22.106

PT-CMP-AM/COL/GRA/D.GRA:1.22.103

PT-CMP-AM/PUB/CMPRT/FANT/083

PT-CMP-AM/PUB/CMPRT/DSCC-DAH/1687/F.P:CMP:10:493

PT-CMP-AM/COL/PST/D.PST:2476

PT-CMP-AM/COL/GRA/D.GRA:1.22.101

 

Hemeroteca Digital de Lisboa

Hemeroteca Digital

A Illustração Portugueza, 26.03.1888

Pontos nos ii, 05.04.1888

Imagem do busto de João Pereira Baquet, retirada de J. Francisco Ferreira Queiroz, Marcelina das Graças de Almeida, Teatro Baquet – Ruínas e Memórias, in Boletim de 2008, 3ª série, nº26; Associação Cultural Amigos do Porto.

 

Cemitério de Agramonte, fotografia da autora.

Ainda, o pobre Luiz a quem um relâmpago tirou a vida

Como tudo se passou nessa trágica manhã

 

 

 

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O discreto memorial continua a suscitar a curiosidade de quem passa na estrada nacional nº 5, entre Alcácer do Sal e o Torrão, mas a história da tragédia que ali se recorda está há muito esquecida…ou talvez não.

Cerca de sete anos e meio depois de ter vasculhado nos assentos paroquiais e na imprensa da época para perceber o que tinha acontecido ao desafortunado Luiz que sua mãe chora nas frases gravadas naquela pedra manchada, um leitor atento e interessado abre-me mais uma janela para a vida desse adolescente que tão tragicamente se finou em 1870, fulminado por um raio.

Uma pesquisa desenvolvida 84 anos depois do funesto acontecimento, pelo conhecido médico Luís Cabral Adão (1910-1992), ajuda a explicar os versos que ainda hoje podemos ler no pequeno monumento à beira da estrada*.

Aqui perdeu de tenra idade

Uma extremosa mãe o seu Luiz

Perdeu-o porque Deus assim quis

Por efeito de horrorosa tempestade

 

Porção caiu de eletricidade

Dois cavalos matou e o infeliz

Ficam vivos um tio e outro se diz

Estando todos juntos fatalidade

 

Compreenda lá a humanidade

Os ocultos juízos dos altos Céus

Impossível e diga-se a verdade

 

Do coração arranca e lábios seus

Um sussurro da eterna saudade

A terna mãe que lhe lega oh meu Deus

 

Naquele dia 4 de outubro de 1870, Fernando António Fialho acordou de madrugada, em Vila Nova da Baronia, para, a cavalo, dirigir-se a Alcácer do Sal, onde iria esperar duas irmãs viúvas que regressavam de Setúbal. Quis acompanhá-lo o sobrinho Luiz António, filho de uma dessas senhoras, Maria Francisca de seu nome.

O amanhecer estaria agradável e morno, mas já próximo do destino, levantou-se um vento frio, o céu cobriu-se de nuvens negras e começaram a ser fustigados pela chuva, que não esperavam e para a qual não vinham preparados. Foi já perto da Barrosinha que encontraram um cantoneiro, abrigado sob uma espessa manta de lã. Vendo-os tão expostos, o homem ofereceu-lhes aquela proteção e seguiram os três, lado a lado, partilhando o mesmo agasalho.

Foi assim mesmo, abraçados pela manta protetora, que um raio, fugidio, mas fatal, os atingiu. Caíram no chão, com as montadas, ainda tentando perceber o que tinha acontecido, estonteados, entorpecidos, alarmados com o impacto do que não viram, mas ouviram em enorme estrondo e certamente sentiram de uma forma que seria muito difícil de explicar.

Fernando, o tio a que alude o poema, depressa percebeu que estava bem, apenas com uma perna insensível. Com horror, pensou até ter sido o único sobrevivente, já que os animais, o cantoneiro e o sobrinho não davam acordo de si. Entendeu depois a desgraça com que lidava: o homem que tinha acabado de conhecer estava vivo, mas atordoado (o outro, a que alude o poema) e Luiz estava morto.

Inconsolável, mas resoluto, resolveu ir a pé a Alcácer do Sal, pedir ajuda e comunicar o ocorrido.

Pertencendo a família conhecida na terra, foi bem recebido e logo correu a notícia nos quatro cantos da vila. O administrador do concelho, acolheu-o em sua casa e, a pedido de Fernando, pediu à população para ser discreta, ocultando das senhoras, esperadas a qualquer momento, a terrível realidade. Ao mesmo tempo, mandou-se um grupo ao encontro do cantoneiro, para o socorrer, e enterraram-se os cavalos mortos à beira da estrada.

O jovem falecido foi transportado para uma igreja – presumo que a da Misericórdia - à porta da qual passaram as entretanto chegadas mãe e tia, bem como dois miúdos que com elas viajavam, irmãos do pobre Luiz. Só não entraram para rezar a uma imagem de que eram devotas, porque disso foram dissuadidas por quem as acompanhava.

Logo informadas sobre o mal-estar do familiar, alegadamente acometido de uma constipação, foram ao seu encontro e só no dia seguinte seguiram todos para Vila Nova da Baronia.

Foi apenas na noite seguinte que se contou toda a triste verdade. A difícil tarefa coube ao professor da terra, José Bernardino Pinto de Melo, amigo da família, que também seria o autor do soneto gravado no memorial, que continua a suscitar curiosidade e tristeza, 155 depois, à beira da Estrana Nacional nº5, entre Alcácer e o Torrão (perto do km 66).

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*Luís Cabral Adão baseia-se no relato de Francisco Manuel Fialho, filho de Fernando António Fialho.

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Fontes

Agradeço a António Cunha Bento o envio de nova documentação sobre este tema:

Excerto do livro Flores do Rio Azul, de Luís Cabral Adão; excerto do jornal O Distrito de Setúbal, - Soneto do Luiz, 26.01.1955, Cabral Adão; excerto do jornal O Setubalense, Três Epitáfios, Falcão Machado, 13.03.1954.

Texto do blog

O jovem Luiz a quem um relâmpago tirou a vida - O sal da história

A real hora do banho

 

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Com a entrada de setembro, tudo o que é a sociedade lisboeta que importa transfere-se de Sintra para Cascais, onde enfrenta a vilegiatura marítima com grande entusiasmo. É a mudança da família real a marcar o início desta nova etapa de diversão e todos os seus passos são seguidos com especial atenção, em especial na praia, onde a etiqueta parece mais leve. Nem os reais canídeos escapam a esta moda de ir a banhos.

 

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Grupos de senhoras com saias engomadas, tendo pela mão meninas que ostentam laços ou chapéus de palha sobre os cabelos, acotovelam-se para conseguir ver toda a comitiva. As janelas apresentam-se decoradas, flores atapetam as ruas ou erguem-se nas mãos ansiosas de as entregar à rainha…

O dia da entrada da família real em Cascais dita a abertura da vilegiatura marítima na vila, movimento acompanhado com grande curiosidade e entusiasmo pela comunidade local. A maior animação, no entanto, ainda está para vir.

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É assim todos os verões, desde que D. Luís iniciou tal tendência, lá pelos anos 70 do século XIX. Terminada que está a estadia em Sintra, durante o período de maior calor estival, dá-se início à temporada seguinte, junto ao mar. A chegada das reais pessoas marca esta mudança de ares e representa uma transformação profunda na pacatez que reinava até ali.

Toda a corte e as famílias que gravitam em torno do rei - ou aspiram gravitar - seguem as suas pisadas e transferem-se para Cascais. Está inaugurada a época de banhos, mas também a quadra das festas, das digressões pelo passeio Maria Pia, obrigatórias para quem quer ver e ser visto. O número de cabeças tituladas por metro quadrado não tem paralelo em outro local do reino.

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A localidade fervilha de quermesses para ajudar os pobrezinhos, jogos, saraus de música e teatro, matinés e soirées no Casino da Praia, entre a roleta, os jogos de cartas e os bailes animados.

Organizam-se touradas, regatas, partidas de ténis e outros eventos sportivos, dos quais D. Carlos é especial entusiasta.

Quase todos os anos há uma qualquer moda nova. Em 1907, por exemplo, a grande sensação é o jogo Diábolo, que ranchadas de pessoas, sobretudo senhoras e crianças, fazem girar, soltando gritinhos de excitação.

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Esses momentos são aguardados com feliz anseio pela melhor sociedade lisboeta, momentaneamente desterrada. Mas é na praia que as atenções se concentravam, na primeira parte do dia. Ali a família real está mais próxima – embora nunca misturada – com os outros comuns mortais.

D. Carlos é um apaixonado pelo mar. Passa horas a bordo e zarpa nos seus escaleres ali mesmo, da praia. A hora do banho do rei e dos príncipes é acompanhada com curiosidade por todos e estranheza por parte dos pescadores, obrigados a partilhar com tão ilustres banhistas o areal, onde, durante o resto do ano, costuram as suas redes.

Nos estendais, os aprestos da faina são substituídos pelas elaboradas indumentárias dos banhistas.

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É um tempo de especial azáfama para os banheiros, a braços com uma enchente de temerosos veraneantes, ávidos de se mergulharem nas águas límpidas, aconselhadas pelos médicos para um vasto conjunto de maleitas e desconfortos. As embarcações de pesca convertem-se em barcos de banhos e proporcionam um rendimento extra.

A praia enche-se de alvas barracas, onde gente importante passa a manhã, cavaqueando. Numerosos petizes com fatos de marinheiro ou macacões às riscas saltitam por todo o espaço, observados pelas amas e criadas da casa.

Há lugar para o flirt entre os jovens casadoiros, discretamente tolerado pelas mães, se o rapaz é da família certa. Tempo para as senhoras falarem de moda e dos últimos escandalozinhos, enquanto os cavalheiros discorrem sobre política, esse tema eterno e polémico que, com os pés quase na água, parece, de repente, mais longe e quase tolerável.

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Até os canídeos de companhia da família real são arrastados para esta espiral de campo e praia. Tejo e Sado, dois cães de água, são vistos frequentemente com os seus tratadores, banhando-se também e até com mais alegria que muitos cidadãos, quiçá acabrunhados por se verem assim, encharcados perante estranhos.

E é neste alegre dia-a-dia que se chega à altura do regresso a casa, onde aguardam outras preocupações inadiáveis, como a toilete a adotar para a abertura de época lírica, no São Carlos, que assinala o início de mais uma etapa no quotidiano dos privilegiados lisboetas.

 

À margem

Em inícios do século XX, as praias em torno de Lisboa apresentavam uma estratificação social bastante rigorosa. Havia poucas misturas entre os grupos sociais. Se os pequenos burgueses animados e barulhentos escolhiam Pedrouços, a praia chic na geração anterior; Caxias oferecia um cenário de descanso e reflexão propício à engorda dos senhores com alguma posição, mas pouca disposição. Paço d’Arcos dividia-se em três zonas distintas, sendo a central aquela com mais alta cotação e estatuto. No conjunto, era a praia mais frequentada da região, onde se replicava o movimento da baixa lisboeta e a frequência da missa na igreja do Loreto, ao Chiado. A vizinhança do resto do ano repetia-se no areal.

A vilegiatura marítima fazia-se sobretudo em toda a costa a Norte da Capital: Ericeira, Nazaré, Figueira da Foz, Espinho, Povoa do Varzim, Vila do Conde, Granja, Moledo, Foz (Porto) eram das mais mencionadas. A sul, apenas Setúbal dava nas vistas e oferecia já um fabuloso estabelecimento de banhos.

Estávamos ainda longe da descoberta do Algarve e, depois, da costa Alentejana, nomeadamente da Comporta, que hoje tanto dá que falar.

Mas isso é outra história…

 

 

 

Fontes

Hemeroteca Digital de Lisboa

Hemeroteca Digital

Illustração Portugueza, 16.10.1899, 26.09.1904, 03.10.1904, 11.11.1907

 

Ramalho Ortigão, As Praias de Portugal, Porto, Livraria Universal, 1876.

https://www.cascais.pt/historia-casino-da-praia

 

 

Rota D. Carlos, Um rei em Cascais, Câmara Municipal de Cascais,

chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.cascais.pt/sites/default/files/anexos/gerais/new/rota_dcarlos_port_final_low.pdf

Fundação D. Luís I

 

Imagens

Ir A Banhos – Moda Que O Rei Lançou |

Arquivo Municipal de Cascais

X-arqWeb

Tejo e Sado, cães de água de D. Carlos, nadando acompanhados do tratador, PT/CMCSC-AHMCSC/AFTG/CAM/A/00131

Banhistas e banheiros em barcos junto à Praia da Ribeira, PT/CMCSC-AHMCSC/AFTG/CAM/A/00189

Rei D. Carlos com banhistas, na Praia da Ribeira, Cascais, PT/CMCSC-AHMCSC/AFTG/CAM/A/00924

Banhistas e banheiros na Praia da Ribeira, PT/CMCSC-AHMCSC/AFTG/CAM/A/00078

Mulheres e crianças jogando diábolo no campo de ténis do Sporting Club de Cascais, PT/CMCSC-AHMCSC/AFTG/CFCB/014 

Barracas de banho da Praia da Ribeira e Casino da Praia, PT/CMCSC-AHMCSC/AFTG/CAM/A/00446