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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Quando Portugal abriu fogo contra os americanos

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A Guerra Civil Americana estava a dois meses do seu desfecho quando uma nação neutral ousou disparar contra um navio da União, criando um conflito diplomático que podia ter acabado mesmo muito mal. Resolveu-se com o rolar de umas cabeças e uma certa humilhação do país agressor: Portugal... E, o pior, é que o até tínhamos boas e legais razões para disparar!

Foi do nosso pacífico país, nem mais nem menos, que partiram os únicos disparos estrangeiros contra um navio norte-americano durante a Guerra Civil Americana, conflito que opôs os Unionistas, do Norte, e os Confederados, estados esclavagistas, do Sul. Tudo aconteceu no dia 28 de março de 1865.

Cerca das 10 horas dessa manhã, o couraçado da Confederação, CSS Stonewall, zarpou do porto de Lisboa em direção ao alto-mar. Tinha ali permanecido apenas dois dias, para se abastecer de carvão.

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Atracados nas proximidades estavam o Niagara e a chalupa Sacramento, ambos também navios de guerra, mas da União, que tinham vindo no encalço do navio inimigo. Pouco depois daquele ter abalado, o Niagara levantou ferro e começou a navegar.

Ao ver este movimento suspeito, o oficial de comando na Torre de Belém disparou contra ele vários tiros de canhão. Não satisfeito, repetiu os disparos, até ver a bandeira arreada, em sinal de rendição.

Ora, o militar português estava a obedecer às normas internacionais que definiam que, nos portos neutrais, como o nosso, se deveria aguardar 24 horas após a partida de um navio beligerante antes que outro navio de força contrária pudesse partir. Evitavam-se assim batalhas navais em águas desses estados que não queriam tomar partido. Os navios também não se deviam demorar nestes embarcadouros, acoitando-se aí e, por isso, o Stonewall havia sido instado a permanecer apenas o indispensável no Tejo.

Era a chamada regra das 24 horas, que foi por diversas vezes desrespeitada em outros portos neutrais, mas que o militar responsável da Torre de Belém não podia aceitar que fosse ignorada durante o seu turno

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As duas salvas de tiros dos nossos canhões provocaram danos – uma das fontes consultadas refere um morto, embora essa baixa não seja referida noutras – atingindo, nomeadamente, a chaminé da fragata a vapor Niagara.

Tal ataque, enfureceu o comandante deste navio norte-americano, que alegou não querer partir, mas tão só mudar de posição, aproximando-se de Lisboa. Assegurou também que desceu o estandarte ao primeiro aviso.

Thomas Craven, assim se chamava o Comodoro* comandante do USS Niagara, entendeu a segunda salva de disparos como uma ignóbil ofensa ao seu país, uma afronta inaceitável, praticamente uma declaração de guerra.

Nos dias que se seguiram a esta ocorrência, entraram em campo os políticos e o assunto só azedou. Tanto Thomas Craven, como o ministro** norte-americano em Lisboa, James E. Harvey, exigiram uma retratação oficial e inequívoca do “erro” cometido. Para apaziguar tão importante aliado e impedir uma escalada do conflito, Portugal não teve outro remédio que não fosse pedir desculpa e encontrar bodes expiatórios.

Assim, o comandante da Torre de Belém foi exonerado, o governador daquele forte substituído e dali foi disparada uma salva de 21 tiros em homenagem à bandeira norte-americana ali mesmo içada, enquanto Thomas Craven observava da amurada do seu navio. Somou-se uma reposição dos estragos causados.

Vergamo-nos, assim, perante uma nação “amiga” e, sobretudo, mais forte, sem que se saiba, até hoje, se, de facto, houve erro ou precipitação da nossa parte.

Para tranquilizar o orgulho ferido por esta humilhação com 160 anos, resta-nos o conforto de saber o Comodoro Craven, que tão ofendido ficou com a nossa reação à sua manobra, foi julgado em tribunal marcial porque deveria ter atacado o Stonewall perto de Ferrol (Espanha), quando aquele estava ao seu alcance, mas a sua inação fez com que aquele navio, com uma história própria bastante curiosa (ver À margem), acabasse por se perder.

A notícia do ataque português correu mundo e teve ecos do outro lado do oceano. Por cá até se compôs um fado que rezava assim:

Portugal está obrigado

A pagar perdas e danos

Que a Torre de Belém causou

Aos barcos americanos

 

À margem

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O Stonewall foi construído às escondidas no estaleiro de Bordéus do senhor Jean-Lucien Arman, simpatizante da causa dos confederados e, acima de tudo, um homem de negócios, disposto a trabalhar para quem lhe pagasse. A encomenda de um conjunto de navios para reforçar a muito depauperada armada da Confederação acabaria por ser descoberta pelo embaixador norte-americano em Paris e o negócio teve de ser desfeito. De pouco adiantou que tivessem fingido que as embarcações tinham o Egito como destino.

Face a este desaire, dono do estaleiro viu-se a braços com navios que não podia entregar. Tentou e conseguiu vendê-los aos dinamarqueses, que se tinham envolvido num conflito europeu, mas quando foram entregues, não agradaram e esta guerra de curta duração já tinha terminado.

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Jean-Lucien Arman não desarmou e voltou ao plano inicial, congeminando como fazer chegar o navio aos confederados, que estavam destinadas a ser seus donos desde o início.

Assim, o Sphinx (Esfinge), que depois foi Staerkodder (?) e se chamaria Stonewall mudou novamente de bandeira e de nome, numa operação secreta que teve lugar na madrugada do dia 24 de janeiro de 1865, numa breve escala na ilha francesa de Houat, passando a estar às ordens do experiente comandante Thomas Jefferson Page. Antes de chegar a Lisboa, a 27 e março, ainda parou em Ferrol, onde se deu uma espécie de jogo do gato e do rato com o Niagara e o Sacramento, ambos sob o comando do nosso já conhecido Thomas Craven.

Depois de zarpar de Lisboa, alheio ao conflito entre a Torre de Belém e o seu perseguidor, rumou às américas.

Mas, quando finalmente chegou a Havana, em maio, a guerra civil norte-americana já tinha terminado.

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Para não perder tudo, o capitão Page vendeu o Stonewall ao Capitão-General de Cuba por uma maquia que lhe permitiu comprar um rancho, na Argentina.

Quanto ao couraçado, voltou mais tarde para mãos norte-americanas e esteve sem uso durante três anos. Em 1869 foi comprado pela Marinha Imperial Japonesa, ao serviço da qual se manteve até 1888, sob o nome: Kotetsu. Ainda seria rebatizado uma vez mais. Quando foi desmantelado, em 1908, chamava-se Azuma.

Se o Stonewall tem uma história curiosa, o que dizer de James E. Harvey, o embaixador norte-americano em Lisboa, antigo jornalista e grande obreiro da comunicação que deu a vitória a Lincoln. Tentou todos os truques de negociação e diplomacia para evitar a guerra, chegando até a ser acusado de traição pelo próprio partido.

Mas isso é outra história

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*Comodoro é uma patente da Marinha, posto de oficial-general, superior ao de capitão-de-mar-e-guerra e inferior ao de contra-almirante.

**Ministro é o equivalente ao atual cargo de embaixador.

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Nota: A Guerra Civil Americana, também chamada Guerra da Secessão, decorreu entre 12 de abril de 1861 e 26 de maio de 1865. Opunha um conjunto de estados do Sul, que formaram a Confederação e se separaram dos restantes, do Norte: a União. Na base deste afastamento estava a intenção de manter a escravatura, algo que estaria ameaçado com a eleição do presidente Abraham Lincoln, assumidamente abolicionista. A escravatura foi de facto abolida, ainda durante a guerra, que a União venceu, mas Lincoln foi assassinado pouco antes desse desfecho, a 15 de abril.  

 

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Fontes

Lee Kennett, The Strange Career of the Stonewall, 02.1968. Disponível aqui:

The Strange Career of the Stonewall | Proceedings - February 1968 Vol. 94/2/780

 Juan Manuel Pérez, Especialista de Referência, Hispanic Division, Blog da Livraria do Congresso Norte-Americano, 14.06.2019: Under Six Flags: The Curious Career of the CSS Stonewall | 4 Corners of the World

Larry G. Parker, Under Six Flags: The Intriguing Saga of the CSS Stonewall. The Confederate Ironclad that Helped Forge an Empire, Militaru History Online, Under Six Flags: The Intriguing Saga of the CSS Stonewall

Naval War College Archives, Thomas Craven court-martial document, 1865 Nov 7, File — Box 4: [Barcode: TRF107625449], Folder: 20, MSC-364- File MSI 043. Disponível aqui: Niagara (Frigate) | U.S. Naval War College Archives

Neil P. Chatelain, When Portugal Bombarded a U.S. Warship to Protect a Confederate Ironclad!, 01.17. 2024. Aqui: Emerging Civil War

James Harvey, Musselman Library’s Special Collections and College Archives Catalog, Gettysburg College, CWVFM-038: Letter from James E. Harvey at Washington, D.C, to L.I. Cist, Esq., at St. Louis, Mo., March 25, 1868. Aqui: Harvey, James, 1817-1893 | Musselman Library’s Special Collections and College Archives Catalog

DANIEL  W.  CROFTS,         James  E.  Harvey  and the Secession  Crisis, Trenton  State  College, Penn State University Aqui:    View of James E. Harvey and the Secession Crisis

https://journals.psu.edu 

Harper's Weekly. A Journal of Civilization / Volume IX, Issue 437, 13 maio 1865. Disponível aqui: University of Michigan Library

The New York Times: FOUR DAYS LATER FROM EUROPE.; Arrival of the New-York at this Port and the Moravian at Portland. The Rebel Ram Stonewall Ordered To Leave Lisbon. The Niagara and Sacramento Ordered to Remain in Port. They Attempt to Leave and are Fired On... The Niagara Struck and One Man Killed. Five-Twenties Advanced Three Per Cent. THE DISHONORED REBEL DRAFTS PAID, INTERESTING CONTINENTAL NEWS. AMERICAN TOPICS. THE REBEL RAM STONEWALL COMMERCIAL BEARINGS OF THE WAR. THE STOCK OF COTTON. OUR BONDS IN FRANKFORT. MISELLANEOUS - The New York Times

Pinto de Carvalho (Tinop), História do Fado, Lisboa, Livraria Moderna-Editora, 1903, edição fac-simile, A Bela e o Monstro – Rapsódia Final, Coprodução Museu do Fado no âmbito do Plano de Salvaguarda da UNESCO, 2016,

A Torre de Belém e a Guerra Civil Americana - Paixão por Lisboa

 

Imagens:

Gravura da guarnição da Torre de Belém a abrir fogo contra um navio americano da União. 1865. : r/portugal

Harper's Weekly. A Journal of Civilization / Volume IX, Issue 437, 13 maio 1865. Disponível aqui: University of Michigan Library

Thomas Tingey Craven (admiral, born 1808) - Wikipedia

Thomas Jefferson Page - Thomas Jefferson Page - Wikipedia

Naval Encyclopedia: CSS Stonewall/Kōtetsu/Azuma (1864)

O pintor Simão Rodrigues e o caso da criança monstruosa

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Este alcacerense nascido em 1560 aprendeu em Roma com os melhores do seu tempo e tem obras grandiosas espalhadas por todo o País. Curioso é que, a juntar a todas estas representações divinas, nos tenha deixado o estranho retrato de uma criança monstruosa nascida na Mouraria e que assim ficou ligada Codex Casanatense, livro raro e especialmente intrigante.

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Simão Rodrigues foi um dos mais reconhecidos pintores da sua época e é mais um alcacerense ilustre praticamente desconhecido na sua terra. Pintou sobretudo temas religiosos, certamente centenas de imagens da Virgem, de Jesus, de diversos santos e outras figuras importantes para a fé católica.

Curioso é que, a juntar a todas estas representações divinas, nos tenha legado o estranho retrato de uma criança monstruosa nascida na Mouraria, em 1628, fenómeno visto como premonitório de grande desgraças e sinal do infortúnio que se tinha abatido sobre este reino, então governado por espanhóis. O desenho foi encontrado no misterioso Codex Casanatense, um livro único e muito famoso que poderá ter pertencido ao próprio Simão Rodrigues.

O artista nasceu em Alcácer do Sal, corria o ano de 1560, filho de um boticário local. Cedo se instalou em Lisboa e, já aos 23 anos, tinha oficina montada na freguesia do Socorro. Tem uma muito vasta e elogiada produção, tanto por mão própria, como elaborada por elementos da sua “casa” e inúmeros discípulos. Veio a morrer em 1629, aos 69 anos, idade bastante avançada para a época.

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Ganhou nome e teve o privilégio de estar em Roma numa época de grande vitalidade e produção de pintura, aprendendo assim com os melhores exemplos do seu tempo, “bebendo” as inovações estéticas que então se experimentavam, influência que denota em pormenores dos numerosos trabalhos que desenvolveu depois no nosso País.

A atestar a sua importância estão algumas pinturas que lhe foram encomendadas e que podem ainda ser apreciadas, quer nas igrejas para as quais foram criadas, quer em museus, com o Museu Nacional de Arte Antiga, o Museu Nacional Grão Vasco, o Museu Nacional de Machado de Castro ou o Museu Nogueira da Silva.

Era considerado “pintor de alto estatuto”, e, tal como os mestres italianos lhe serviram de exemplo, assim Simão Rodrigues foi imitado por outros artistas portugueses de menor nome.

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Estava já no final da sua longa e ativa vida quando aparece ligado ao importantíssimo códice atualmente à guarda da Biblioteca Casanatense de Roma.

Trata-se de um conjunto de 75 preciosas iluminuras sobre os povos orientais, os usos e costumes, aparência e vestuário, a fauna e a flora, bem como a presença dos portugueses na África e na Ásia, com legendas na nossa língua (na imagem). É uma rara fonte de informação iconográfica sobre essas gentes de longínquas paragens, desconhecidas da maioria, mas que despertavam enorme curiosidade entre os europeus.

O seu autor terá sido um indiano e é ainda hoje um dos mais importantes testemunhos das culturas distantes com que nos cruzámos ao longo da nossa expansão marítima. Apesar de datar do século XVI, só foi dado a conhecer em 1956.

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Ora, no meio destas imagens exóticas surge o retrato de um menino nascido em Lisboa com graves deformações e que viveu apenas poucos dias. Esta criança, tida como sobrenatural, causou enorme comoção na época, daí se ter solicitado a alguém habilitado para tal que fizesse o desenho da sua aparência.

O pintor encarregue de tal trabalho foi precisamente o já idoso Simão Rodrigues.

O bebé, de pai estrangeiro e mãe nacional, nascido em 10 de abril de 1628, tinha a cabeça e membros deformados, apresentava-se coberto de duras escamas e, no peito, era visível uma cruz vermelha, cor que também se via nos seus olhos.

Foi rejeitado pelos pais, que o deram a criar a umas amas da rua Suja, tendo morrido e sido enterrado cinco dias após o nascimento. Foi depois desenterrado por ordem do arcebispo D. Afonso Furtado de Mendonça, para se registar os sinais que tanto alarmaram quem o viu.

O desenho, feito pelo pintor de renome, foi depois incluído no referido códice, como mais uma bizarria a acrescentar às outras ali narradas, pelo que se pensa que seria o próprio Simão Rodrigues o possuidor do valioso livro, que também serviu de inspiração para representações do oriente então pintadas em alguns locais.

Produziu igualmente um pequeno quadro destinado a ser visto pelo rei, na corte de Madrid, para que tivesse conhecimento da criança prodígio. O caso foi tão badalado, que outras reproduções foram feitas e o nascimento de semelhantes “monstros” e desgraças foi relatado naquele ano, em todo o País.

E é assim que este alcacerense, reconhecido pintor maneirista, um dos mais apreciados do seu tempo, fica ligado a esta criança prodigiosa, vista como anúncio do fim de uma era: a do domínio filipino em Portugal.

 

À margem

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Ao longo da sua vida, muitas foram as importantes pinturas encomendadas a Simão Rodrigues, casos dos grandes painéis da Igreja do Carmo ou do grandioso retábulo da capela-mor da igreja do poderoso mosteiro também coimbrão de Santa Cruz, que desenvolveu a partir de 1605, com Domingos Vieira Serrão. Este seu trabalho, aliás, tanto terá agradado, que, sete anos depois, fica encarregue, com o mesmo companheiro, de pintar o retábulo da Capela de São Miguel, do Paço da Reitoria da Universidade de Coimbra, que se queria ainda mais rico e elaborado do que o anterior.

Outra obra da sua autoria é o painel com destino à igreja da Companhia de Jesus de Luanda, em Angola, tal como uma série de pinturas para a Igreja de Santo Estêvão de Alfama, para a de São Domingos, de Elvas, a Sé de Leiria, as igrejas de Marvila e da Misericórdia de Santarém.

De sua arte, também um conjunto de pinturas sobre a vida de Jerónimo de Estridão, para o Mosteiro dos Jerónimos; retábulos para a Sé de Portalegre e a Sé Velha de Coimbra, os mosteiros do Carmo de Vidigueira e de Lisboa, o mosteiro dominicano de Vila Real, o cisterciense de Alcobaça, ou o jesuíta de São Roque, para onde desenvolveu, com André Reinoso, 20 telas com passos da vida e milagres do beato Fran­cisco Xavier, antecipando a sua canonização, que ocorreu pouco depois.

Este é, diga-se, “unanimemente reconhecido pela história da arte portuguesa”, como “uma das melhores obras, senão a melhor, de pintura religiosa do século XVII, pela qualidade do desenho, pelo exotismo das composições, pelo forte gosto naturalista que exala da maioria das cenas e pelo conhecimento que revela ter das vivências, usos e costumes asiáticos, a denunciar boas fontes de inspiração”, como o códice atrás referido.

Em Alcácer do Sal, sua terra natal, Simão Rodrigues é discretamente homenageado na toponímia do bairro do Olival da Boa Vista e há a registar apenas uma obra presente: um quadro pertencente ao convento franciscano de Santo António, de Alcácer do Sal, que se encontra exposto na igreja de Santa Maria do Castelo.

E, quem seria o misterioso pintor cuja identidade se desconhece, que chegou a ter a sua oficina na Igreja do Espírito Santo, atual Museu Municipal Pedro Nunes, na mesma cidade?

Isso é, certamente, outra história...

 

Fontes

Vítor Serrão, Simão Rodrigues em Roma - A Influência do Oratorio del Crocifisso na Pintura Maneirista Portuguesa, in PROMONTORIA 2002 / 2003, Faculdade de Letras de Lisboa. Aqui: https://share.google/uBj9CUEgmgwT2Qf9n

Vítor Serrão, Pintor Simão Rodrigues, a Posse do Codex Casanatense em 1628, Fortuna, Atribulações e Influências Artísticas, in ANAIS DE HISTÓRIA DE ALÉM-MAR, Vol. XIII, 2012, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Aqui: https://revistas.rcaap.pt/aham/article/view/37161

Antiguidades e Obras de Arte, Pinturas e Joias, Cabral Moncada Leilões, citando Vítor Serrão, Quatro Telas Desconhecidas do Pintor Maneirista Simão Rodrigues, Disponível aqui: chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://catalogos.cdn.cml.pt/pdfs/2009/leilao106.pdf

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sim%C3%A3o_Rodrigues_(pintor)

 

Imagens

ANAIS DE HISTÓRIA DE ALÉM-MAR, Vol. XIII, 2012, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%B3dice_Casanatense#/media/Ficheiro:Codice_Casanatense_War_Elephant.jpg

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_pinturas_de_Sim%C3%A3o_Rodrigues#/media/Ficheiro:Sim%C3%A3o_rodrigues,_il_diavolo_toglie_i_libri_buoni_a_san_girolamo_e_d%C3%A0_lui_libri_malvagi,_xvi_secolo_b.jpg

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_pinturas_de_Sim%C3%A3o_Rodrigues#/media/Ficheiro:Sim%C3%A3o_rodrigues,_storie_del_battista,_1600-25_ca_b.jpg

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_pinturas_de_Sim%C3%A3o_Rodrigues#/media/Ficheiro:Sim%C3%A3o_rodrigues,_storie_del_battista,_1600-25_ca_d.jpg

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sim%C3%A3o_rodrigues,_partenza_di_san_girolamo_per_l%27oriente,_xvi_secolo_b.jpg

 

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Obras de Simão Rodrigues aqui representadas:

O Diabo troca os livros bons pelos livros maus a São Jerónimo, pintura de Simão Rodrigues, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa

Partida de São Jerónimo para o Oriente (século XVI), pintura de Simão Rodrigues, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.

Nascimento de São João Baptista (1590-1610), pintura de Simão Rodrigues, no MNAA, em Lisboa

Martírio de São João Baptista (c. 1590-1610), pintura de Simão Rodrigues, no MNAA, em Lisboa

 

 

Mulheres de fora, paz dentro dos teatros

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As mulheres, como se sabe e desde tempos imemoriais, são fonte das maiores imoralidades e perturbações da pura alma masculina. Não admira, pois, que, a somar a todas as restrições que sempre enfrentaram, em pleno século XVIII, quando toda a Europa já se abria à modernidade, estas tenham sido totalmente banidas dos teatros portugueses. Durante cerca de duas décadas, não podiam sequer estar nos bastidores, deixando todo o trabalho – e também o divertimento - para os homens. Do canto, à representação e à dança, todos os papéis eram desempenhados por machos, fazendo com que muitos espetáculos que se queriam sérios, facilmente resvalassem para o ridículo.

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Imagine-se uma virginal menina com uma copiosa barba, cantando enquanto apanha flores com os seus braços musculados e peludos…ou um grupo de pastoras saltitando, fazendo o palco tremer com o seu peso, de cada vez que aterravam…O teatro português era assim, cheio destas incongruências grotescas que deixavam os visitantes estrangeiros de queixo caído, transidos de riso ou vergonha alheia.

No reinado de D. João V já havia limitações à permanência de mulheres nos teatros, mas tudo se agravou com D. José, especialmente a partir de 1770, alegadamente devido aos ciúmes da rainha Mariana Vitória que, como se sabe, tinham razão de ser na conduta do monarca seu marido.

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Quando o rei morre, em 1777, cumpriu-se um período de luto de dois anos, sem que se realizassem espetáculos. Quando estes são retomados, D. Maria I (na imagem), extremamente religiosa e púdica, coadjuvada pelo intendente-geral da polícia, Diogo Inácio de Pina Manique, preocupadíssimo com os tumultos que sempre ocorriam quando pessoas de ambos os sexos se juntavam, ainda que fugazmente sob o mesmo teto, proibiu as mulheres de participar e assistir a espetáculos teatrais. A sua presença foi primeiramente restringida aos camarotes, não podendo andar pelos corredores ou estar na plateia. Depois deixaram mesmo de ter autorização para pôr os seus delicados pezinhos nos edifícios dos teatros.

Para que uma determinada peça fosse aprovada pela Real Mesa Censória, o autor tinha de se comprometer a não usar senhoras nos elencos.

Em causa estava a garantia da moral e dos bons costumes, pois os teatros eram vistos como antros de devassidão, sendo frequentes desonras e deboche dentro das suas quatro paredes. Pelo menos era assim que a intendência de polícia encarava a coisa…e a rainha também.

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Se a simples presença de mulheres era vista como o elemento desestabilizador, imagine-se então se pertencessem à classe dos artistas, como se sabe, especialmente suscetível dos mais ousados atentados ao pudor e à decência, à virtude própria e alheia.

Não eram admitidas como autoras, em cena, na assistência, nem sequer em qualquer ocupação relacionada com os cenários ou o guarda-roupa. Muito menos era permitido, é claro, qualquer meretriz que ali pudesse ser chamada a cumprir o seu serviço. Nada!

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Só os homens podiam assumir todas estas funções e papeis e assistir aos mesmos. Era uma sensaboria!

Mas também se tornava uma caricatura que, não poucas vezes, criou cenas verdadeiramente hilariantes.

As vozes femininas eram interpretadas por eunucos e eram homens de barba rija que assumiam todos os papéis, tornando os momentos de bailado especialmente incongruentes e deixando os forasteiros completamente estarrecidos.

 Tal era o zelo de Diogo Inácio Pina Manique (na próxima imagem), que até o novo teatro lírico – mandado construir porque a Ópera do Tejo ruiu com o grande terramoto de 1755  - mudou de nome. Deixou de ser Teatro Princesa do Brasil, passando a Real Teatro São Carlos*.

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As restrições só começaram a abrandar com a subida ao trono de D. João VI, primeiro como regente, em 1799, face à loucura da mãe, depois como rei de pleno direito. Ainda assim, foi uma mudança a conta-gotas, com pedidos de autorização caso a caso e algumas negas.

Escusado será dizer que, quando as proibições caíram por terra, após tantos anos de separação forçada de homens e mulheres no meio teatral,  choveram queixas de atitudes indecorosas e rebaldaria diversa, quer em cena, quer nos bastidores e em convívios após os espetáculos. Foi uma alegria!

 

À margem

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Em Portugal, mais do que nos outros países europeus, as mulheres eram vistas exclusivamente como esposas e mães. Só no século XVIII se começou a falar da educação das raparigas, mas essa discussão era tida exclusivamente por homens. A sua presença nos teatros era rara e protagonizada sobretudo por estrangeiras.

Os primeiros espetáculos públicos foram levados a cabo por companhias espanholas e, depois, eram as italianas que se apresentavam em maior número, até porque o nosso teatro lírico seguia o modelo italiano.

Para serem admitidas, no entanto, necessitavam de autorização masculina. Dos pais, se fossem solteiras; dos maridos, se fossem casadas. Estes “tutores” tinham igualmente de fazer parte de companhia, visto que a lei impedia as atrizes de serem contratadas individualmente. Não se podiam vestir de homem, nem expor-se ao público, o que quer que isso quisesse dizer, naquele tempo...

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Ironia das ironias, a mais famosa artista lírica de então, Luísa Todi (na imagem anterior), era portuguesa. Ela própria banida dos teatros do seu país, foi aclamada com um sucesso estrondoso por toda a Europa.

Mas foi preciso uma autorização especial e a intermediação da imperatriz da Prússia para que viesse atuar nas comemorações do nascimento da princesa Maria Teresa, em 1893. A mulher que por toda a parte fazia levantar em êxtase os teatros, recebeu indiferença do público português e a família real não se dignou marcar presença no espetáculo.

Tanta regra contribuiu para um atraso generalizado no teatro produzido no nosso País e, sobretudo, no desenvolvimento do verdadeiro potencial das mulheres nesta área.

Mas, como sempre, a moral era só para alguns: o filho do Marquês de Pombal, Henrique José de Carvalho e Melo, por exemplo, teve como amante a soprano italiana Anna Zamperini (na imagem), uma autêntica destruidora de lares e fortunas que arrebatou Lisboa com os seus muitos talentos.

Mas isso é outra história...

 

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*Não reúne consenso a origem do nome, dividindo-se as opiniões sobre se resulta de ter sido desenhado à imagem do S. Carlos, de Nápoles ou por alusão a D. Carlota Joaquina, a Princesa do Brasil, a mesma à mulher em cuja honra fora inicialmente batizado.

 

 

Fontes

Bruno Schiappa, Mulheres Fora do Teatro, in Sinais de cena, Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, 12.2009.

Maria Brites Rosa, Indecências e obscenidades - As mulheres nos palcos portugueses (1774-1804), in Sinais de Cena, Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, 2014.

Marta Brites Rosa, O paradoxo feminino no teatro português do século XVIII, in Faces de Eva – Estudos sobre a Mulher, nº50 Lisboa, 12.2023  

https://doi.org/10.34619/hpw5-hfog 

Annina Zamperini - Wikipedia

William Beckford, Viagens de Beckford a Portugal, carta VIII, in O Panorana, 1855

Christoph Muller, Martin Neumann, O Teatro em Portugal nos séculos XVIII e XIX, Lisboa, 03.2015

 

Imagens

Maria I, Queen of Portugal - Giuseppe Troni, atribuído (Turim, 1739-Lisboa, 1810) - Google Cultural Institute - Maria I de Portugal – Wikipédia, a enciclopédia livre


Mais detalhes

Maria I, Queen of Portugal. Thomas Hickey or Giuseppe Troni (attributed). Oil on canvas. 122 x 94 cm. NATIONAL PALACE OF QUELUZ. Via Google Cultural Institut

Ficheiro:Roupas e costumes de Portugal. século XVIII.png – Wikipédia, a enciclopédia livre

 

https://www.bing.com/ck/a?!&&p=f112573ac4d4faf5cdb9af177b927b74e1e2b7d43b543c0e12b91549623b1712JmltdHM9MTc2MjA0MTYwMA&ptn=3&ver=2&hsh=4&fclid=3b563d19-9a12-60d9-1bae-2b819ba1619e&psq=os+prazeres+do+baile+antoine&u=a1aHR0cHM6Ly93d3cud2lraWFydC5vcmcvZW4vYW50b2luZS13YXR0ZWF1L3RoZS1wbGVhc3VyZXMtb2YtdGhlLWJhbGwtMTcxNA

ARTE INGLESA NO SÉC. XVIII (Aula nº 75) - VÍRUS DA ARTE & CIA - Lu Dias Carvalho

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Signora Anna Zamperini, b. c 1745. Italian singer by John Finlayson | National Galleries of Scotland

Madame Lebrun - Luísa Todi - Luísa Todi – Wikipédia, a enciclopédia livre