Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

As robustas e selecionadas vacas da Comporta

lavrando os canteiros de arroz.png

 

Uma manada com 40 animais, escolhidos entre os mais robustos que se apresentavam à venda, constituiu o trunfo da Companhia das Lezírias do Tejo e do Sado para criar uma raça de vacas específica da Comporta, adaptada às péssimas condições que ali se viviam, mais semelhantes a paragens africanas do que ao paraíso à beira-mar plantado em que aquela zona se tornaria mais de um século depois.

 

Corria 1888, cerca de um século antes da “descoberta” do destino turístico da moda.  Em vez do glamour das cabanas milionárias, do chic com o pé na areia, dos sunsets à beira-mar, a Companhia das Lezírias do Tejo e do Sado teimava, sem grande sucesso, em querer retirar algum rendimento das suas insalubres terras na Comporta. Nesse ano, a administração resolveu arriscar em algo diferente: dar os primeiros passos para criar uma raça bovina específica desta região, especialmente vigorosa e saudável para resistir às péssimas condições que caracterizavam aquela propriedade.

comporta mapa.png

Em vez de empreendimentos turísticos e carros topo de gama, a grande aposta da Comporta desses tempos longínquos eram vacas.

Assim, adquiriu-se, na feira de São João, em Évora, uma vacada constituída por 40 rezes, das mais robustas e novas que estavam disponíveis. Eram o ponto de partida para constituir um desejado centro de criação, que produzisse animais destinados à distribuição por outras herdades da companhia.

Embora houvesse otimismo, logo especialistas na matéria recearam pela saúde dos animais, dadas as condições “atmosféricas e bromatológicas”, o ar, os pastos e as águas de que dispunham naquela espécie de pedaço de África em território europeu, que era como a Comporta se apresentava à opinião pública daqueles tempos.

PT_AHMALCS_CMALCS_FOTOGRAFIAS_ 01_ 0693.jpg

Apesar de algumas melhorias, aquela zona era ainda conhecida pelas suas “condições anti-higiénicas” que lhe davam muito má fama, pelo que havia fundados receios quanto ao sucesso deste projeto.

Elogiava-se a escolha criteriosa dos animais e o facto de virem “de pior para melhor”. Isto é: vinham das pastagens pobres e áridas do Alentejo interior, para umas que se pensava poderem ser mais ricas, no litoral, algo que seria sempre positivo.

A vacada era de uma raça alentejana com tradição noutras áreas do concelho de Alcácer do Sal, onde as condições não diferiam muito das da Comporta, pelo que existiam esperanças que também se desse bem por lá.

PT_AHMALCS_CMALCS_FOTOGRAFIAS_01_1567.jpg

Serviriam sobretudo como força de trabalho nas extensas explorações agrícolas, já que tinham pouca aptidão para a engorda – compreende-se, a elegância acima de tudo! Por isso, produziriam sempre pouca quantidade de carne limpa e de qualidade inferior.

Não se tratava de uns quaisquer bovinos mansos e pacatos, mas sim semi-selvagens que, pelas suas particularidades, não eram dados a estarem em estábulo, preferindo o ar livre.

A sua rusticidade, pensava-se, dava-lhes mais possibilidades de resistir ao difícil ambiente em que iriam viver.

PT_AHMALCS_CMALCS_FOTOGRAFIAS_ 01_ 0693.jpg

Mas, a Companhia das Lezírias do Tejo e do Sado tinha altas expetativas. Entendia que, com “cruzamentos judiciosos” conseguiria aprimorar esta raça de forma que também pudesse ser uma fonte válida de carne.

Basicamente, queria o melhor de dois mundos e sem grandes gastos, que o tempo não estava para devaneios.

Os especialistas é que não acreditavam que tal fosse possível: nenhum boi esgotado de trabalhar no duro uma vida inteira estaria tenrinho quando chegasse em forma de bife ao prato das pessoas!

Desconheço se esse projeto deu resultado, mas sei que, cerca de 50 anos depois, em 1945, a Herdade da Comporta tinha já mais de 720 hectares de arroz plantado. Mantinha a vertente pecuária, com cavalos, ovelhas e porcos, para além de continuar a produzir bovinos, mas exclusivamente para trabalho.

Seriam as descendentes dessas vacas originais, adquiridas em Évora?

 

 

À margem

PT_ AHMALCS_CMALCS_FOTOGRAFIAS_01_1241.jpg

No concelho de Alcácer do Sal existiam alguns exemplos positivos de cruzamentos bem-sucedidos, entre touros zebus (indianos) e vacas bravas nacionais, mistura que terá sido a opção da Companhia das Lezírias do Tejo e do Sado para fazer vingar as vacas da Comporta.

Em 1888, no matadouro de Setúbal, o que mais surgia para abate eram precisamente animais resultantes desta fusão, mas provenientes da Herdade de Palma.

A Casa Real também tinha feito semelhante experiência numa manada de Mafra, que produziu rezes para outras propriedades, nomeadamente a Herdade do Pinheiro, também no município de Alcácer do Sal.

Por essa altura, apesar de continuar a não ser a zona mais atrativa para viver, já havia quem percebesse que a Comporta possuía “uma praia de banhos” que deveria ser “a maior e a mais serena do País” e que, num futuro ainda desconhecido, deveria “tomar um desenvolvimento extraordinário”, tornando-se “não só um grande centro de produção e trabalho, mas de turismo”, pois para tal tinha “excelentes condições”.

Ainda demoraria umas décadas...e as previsões acabariam por se concretizar, com ou sem vacas…

Mas isso é outra história…

 

Fontes

Biblioteca Municipal de Setúbal

Gazeta Setubalense, 04.03.1888, 10.06.1888, 17.06.1888, 01.07.1888, 08.07.1888, 15.07.1888, 29.07.1888, 05.08.1888, 19.08.1888.

Arquivo Municipal de Alcácer do Sal


Jornal «O Setubalense», suplemento de 4 de Agosto de 1934.

 

Pedro Muralha, Monografias alentejanas, Imprensa Beleza, Lisboa, 1945

 

Imagens

Pedro Muralha, Monografias alentejanas, Imprensa Beleza, Lisboa, 1945

Instituto Geológico e Mineiro, Carta Geológica de Portugal, Folha explicativa da Folha 38-B Setúbal. Lisboa, 1999. Disponível em:

https://www.academia.edu/34570833/Carta_Geol%C3%B3gica_de_Portugal_na_escala_de_1_50_000_Not%C3%ADcia_Explicativa_da_folha_38_B_Set%C3%BAbal_

Arquivo Municipal de Alcácer do Sal

PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/01/692

PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/01/693

PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/01/692

PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/01/1241

PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/01/1567

Instantâneos (127): um ano cheio de más notícias

 

 

Captura de ecrã 2026-01-01 154348.png

Há exatamente um século, o ano começou tumultuoso. Igual, portanto, aos anteriores. No início de 1926, Portugal encarava ainda as ondas de choque do escândalo do Banco Angola e Metrópole, leia-se das tropelias do burlão Alves dos Reis, esmiuçando um outro grave caso de falsificação de moeda, na Hungria e com ligações aos governantes daquele país. Secretamente, os portugueses regozijavam -se por terem companhia nesta onda de falcatruas. Do céu continuavam a despencar-se aviões e aviadores, a uma cadência que rivalizava com a queda de governos. O mais recente, empossado em dezembro, fora o 5º de 1925 e o 45º desde a implantação da República.

Nada de novo, portanto.

Captura de ecrã 2026-01-01 153747.png

Os jornais tanto se ocupavam do défice orçamental que foi discutido em “ambiente de barafunda”, no Parlamento, como dos mais escabrosos e fresquinhos casos: a polícia, que abateu por engano o sapateiro conhecido como “o surdo do Bairro Alto”; a rocambolesca morte do “Leão do Chiado”, bon vivant caído em desgraça, que sucumbiu fulminado ao encontrar a vizinha enforcada; o crime de Campolide, responsável pelo fim de José Faustino “Beato”, membro de tantos grupos revolucionários, que não faltavam suspeitos de lhe quererem limpar o sebo e outros tantos  dramas de toda a espécie, que os ventos de então eram bem mais violentos que os que hoje sopram.

Captura de ecrã 2026-01-01 151816.png

No tribunal julgava-se o crime do canil das Amoreiras, nas ruas comentava-se o mais recente combate do nosso pugilista Santa Camarão, a par dos últimos jogos de foot-ball, com clubes que davam os primeiros passos e as rivalidades Norte-Sul já bem acesas (na imagem, a partida entre o Sporting e o Vitória de Setúbal).

O povo sofreu com a tragédia da rua da Junqueira, um despiste automóvel que tirou a vida a duas pessoas, e a Lisboa mundana estremeceu com a misteriosa morte do gerente do Club dos Patos, o italiano Ercole Mazzollini. Aqui e ali encontravam-se bombas.

Tudo isto nas mesmas páginas onde se questionava o tumultuoso caminho moral que trilhávamos, pois se, na Capital, já havia uma média de um divórcio por dia…uma bandalheira!

Tudo culpa da República, que tinha dado ao povo uma liberdade com a qual este, aparentemente, não sabia lidar.

O ano teria muitas surpresas. Nenhuma especialmente boa e algumas trágicas.

Captura de ecrã 2026-01-01 153946.png

Em março, um País habituado a emoções fortes encontrou sensibilidade para se chocar com o bárbaro assassinato da conhecida atriz Maria Alves (na imagem) e os estragos provocados pelo terramoto ocorrido no mês seguinte, na ilha do Faial, nos Açores.

Sucediam-se tumultos e tentativas de rebelião de diferentes sensibilidades.

No ar andava um estranho ambiente de irritabilidade, de panela prestes a rebentar, de insatisfação. O que seria?

Em 7 de janeiro já a Capital falava de uma revolução iminente, divagando sobre qual seria o tipo de regime para o qual iríamos cair. A 28 de maio, abria a primeira página fazendo um apelo em letras garrafais: É PRECISO SALVAR A REPÚBLICA E A LIBERDADE.

Captura de ecrã 2026-01-01 152628.png

O futuro mostraria que a 1ª República estava morta e a liberdade passaria a estar mesmo muito limitada.

Não se pode dizer que os 16 anos que haviam decorrido após a deposição da monarquia não tivessem sido férteis em intentonas, conspirações e revoltas. Mas nenhuma tinha mudado o que quer que fosse no estado das coisas.

Até ao dia 28 de maio de 1926, em que se deu o que ficou conhecido como Revolução Nacional.

Poucos dias após o golpe militar, nas páginas da “sua” revista Ordem Nova, Marcello Caetano manifestava logo a sua adesão à ditadura que já se antevia.

Curiosamente, entendia-a como transitória, como todas as ditaduras deveriam ser, dizia, porque entendia que só um rei poderia corresponder ao futuro que o País precisava.

Enganou-se. O regime que ali despontava foi tudo menos transitório. Permaneceu por mais de quatro décadas.

O rei nunca veio, só Salazar.

Em 1926 não se podia adivinhar que a mudança que então se forjou seria tão grande e permanente. Não se sabia que daria origem à 2ª República e, anos mais tarde, com a Constituição de 1933, ao Estado Novo, que nos governaria até 1974.

Nem Marcello Caetano poderia prever que seria ele a levar a ditadura ao seu último estertor.

Cada ano tem as suas surpresas...aproveitemos bem este que agora se inicia!

Fontes

Hemeroteca Digital de Lisboa

Hemeroteca Digital

Ordem Nova, nº4 e 5, jun-jul 1926

Jornal A Capital, edições 1926

Domingo ilustrado, 15.01.1926, 07.02.1926, 28.02.1916, 11.03.1926, 06.06.1926

 

Imagens

Domingo ilustrado, 15.01.1926, 07.02.1926, 28.02.1916, 11.03.1926, 06.06.1926

 

https://restosdecoleccao.blogspot.com/2025/10/club-dos-patos.html