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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

A casa dos 26 reis

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Muito têm que contar os retratos dos reis de Portugal expostos na Moita. Destinada à hospedaria de um convento, a coleção foi nacionalizada, esquecida, desprezada, desmembrada e finalmente exposta em lugar de destaque para quem a quiser apreciar.

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Vinte e seis rostos solenes onde olhos perscrutantes parecem acompanhar os movimentos de quem passa. São mais de sete séculos de poder que nos observam, com as suas insígnias, armas, mantos e coroas. E pensar que estas grandes telas vieram para aqui por cunha de um obscuro proprietário agrícola bem relacionado e estiveram perdidas cerca de um século. O salão nobre da Câmara Municipal de Moita é a casa de todos os reis.
A versão oficial conta que um tal Salvador José Castanha (ver À Margem) intercedeu junto do poder político no sentido de “desviar” para a Moita a coleção régia que antes decorava as paredes da hospedaria do Mosteiro de Alcobaça, onde, aliás, existe uma Sala dos Reis, que reúne estátuas dos soberanos.
A Câmara terá pedido a cedência das obras, que se encontravam à guarda da Academia Real das Belas Artes de Lisboa desde a extinção do mosteiro, em 1835. É o próprio presidente do Conselho de Ministros, António Maria Fontes Pereira de Melo, que assina o despacho, em 17 de agosto de 1874, aprovando essa pretensão, mas não referindo o suposto intermediário.

d afonso V.JPGNa Moita, o interesse em mostrar os retratos dos nossos reis parece, no entanto, não ter sido muito intenso ou rapidamente ter esfriado, uma vez que há nota de os 26 retratos terem estado desaparecidos até meados do século XX. Permaneceram enrolados, amontoados, cheios de pó e esquecidos durante décadas nos desvãos do edifício.

Só viram a luz do dia pela mão do estudioso Ernesto Soares que, sabendo da sua existência, os foi resgatar desse destino infeliz. Foram então colocados em molduras e puderam cumprir o seu propósito.
As telas são obra de Miguel António do Amaral, um pintor que embora não tenha sido brilhante ou particularmente imaginativo, especializou-se em retratos, tendo até recebido uma encomenda de “um agente da imperatriz a Rússia”, o que lhe granjeou fama e proveito.

Esta preferência temática demonstra talento da sua parte, mas também muito bom senso, uma vez que qualquer retratista se via obrigado a adoçar algumas características menos apelativas nos retratados, sob pena de estes não se reverem no produto final e, com isso, fazer perigar encomendas futuras.

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Nesta época, aliás, faltavam em Portugal artistas com estes atributos, o que dificultava a sempre necessária publicidade às princesas casadoiras, por não se conseguir mostrar o seu aspeto aproximado.


Miguel António do Amaral produziu ainda pintura narrativa para conventos, baseando-se em estampas antigas. Foi também essa a base para a coleção régia, pintada na fase final da vida do pintor, que morreu em 1780.

Guiou-se pela obra Elogio aos Reis de Portugal, publicada em 1603 por Frei Bernardo de Brito e, durante séculos, tida como verdade absoluta quanto ao aspeto dos monarcas. Para os soberanos mais recentes, usou igualmente retratos pré-existentes.

Em ambos os casos, limitou-se a copiar as fisionomias, pois as poucas alterações são nos adereços, insígnias e vestuário presentes, muito provavelmente por indicação do cronista da ordem religiosa que fez a encomenda, frei Manuel Figueiredo.

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O conjunto, que atualmente pertence acervo do Museu Nacional de Arte Antiga, mostra os governantes de Portugal durante mais de setecentos anos, do Conde D. Henrique a D. João VI e Carlota Joaquina. Faltam, no entanto, alguns destes rostos: Filipe I, que já desapareceu após a transferência para a Moita; D. João IV; D. Maria II e D. Pedro III, que ali não chegaram a dar entrada e cujo paradeiro certo se desconhece.

 

 

salao nobre cm moita.JPG

 

 


À Margem

palacete quinta da fonte da prata.JPG

 

Salvador José Castanha, apontado como responsável pela transferência para a Moita desta preciosa coleção de retratos dos reis de Portugal, nasceu em Lisboa. Casou na mesma cidade, na Ermida de Santo António, pertença do Barão de Samora Correia, com Carolina Amália do Carmo Basto. No mesmo local seria batizado o filho, Eloy António Basto Castanha, em 1862. Desconheço de onde lhe vinha a fortuna, mas Salvador detinha grandes propriedades agrícolas e também marinhas de sal naquele concelho da Margem Sul do Tejo e foi um dos numerosos capitalistas que, em resultado da crise financeira de 1891 e dos tempos difíceis que se lhe seguiram, emprestou dinheiro ao Estado, mais especificamente à Câmara Municipal de Lisboa. A juros, claro.
O filho, Eloy Basto Castanha ficou localmente conhecido por ter mandado construir, no sítio da Fonte da Prata, um imponente palacete ao estilo neorromântico, com torreão, capela e pormenores arquitetónicos copiados de monumentos nacionais.
Entre outros cargos, pertenceu à direção da Real Associação de Agricultura; foi secretário da assembleia – geral da Companhia das Lezírias do Tejo e Sado e presidente do Centro Monárquico da Moita. Tinha uma intensíssima vida social, onde não faltavam vilegiaturas no estrangeiro, matinés de esgrima, jantares concerto e muita diversão. Pouco depois de morrer, em 1929, todos os seus bens foram vendidos em hasta pública, por má gestão ou porque terá caído em desgraça, já que continuou monárquico mesmo após a implantação da República, chegando a ajudar Paiva Couceiro nas suas incursões para recuperar o País.
Mas isso é outra história….
…………………….

O meu agradecimento a Vítor Mendes (Câmara Municipal da Moita)
………………………
Fontes
A Série Régia de Miguel António do Amaral na Câmara Municipal da Moita; in I Jornadas de História e Património Local; intervenção de Anísio Franco (Museu Nacional de Arte Antiga) e Pedro Penteado (Instituto de Arquivos Nacionais – Torre do Tombo); Câmara Municipal da Moita – 2004
Homeroteca Digital de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt
O Occidente – Revista Illustrada de Portugal e do Estrangeiro
10º ano; vol X; nº305 – 11 jul. 1887

O Tiro Civil – Órgão do Sport Nacional
Ano IV; nº145 – 1 set. 1898

A Ideia Nacional
Nº17 – 12 mai 1915

Biblioteca Nacional em linha
www.purl.pt
Diário Illustrado
5º ano; nº1331 – 7 set. 1876
35º ano; nº11.667 – 25 ago. 1905
32º ano; nº12.192 – 4 abr. 1907
39º ano; nº12.775 – 12 fev. 1909
39º ano; nº12.831 – 21 abr. 1909
39º ano; nº12.957 – 17 set. 1909
40º ano; nº13.100 – 5 mar. 1910
40º ano; nº13.237 – 13 ago. 1910


O Campeão das Províncias
Ano XLI; nº4.237 – 13 fev. 1893
Ano XLIII; nº4.262 – 13 mai. 1893
Disponível em:
http://asw.pt/jornais/Campeao_das_Provincias/?folder=Campeao_das_Provincias

A Construção Moderna
Nº317 – 1 fev. 1910
Disponível em:
http://ric.slhi.pt/A_Construcao_Moderna/visualizador?id=11214.010.017&pag=8

Gazeta dos Lavradores
4º ano; nº135 – fev. 1908
Disponível em
https://archive.org/details/gazetadoslavrado4133na/mode/2up

Notícias de Montijo
Ano I; nº11 – 8 jun. 1930
Ano 1; nº9 - 1 mai. 1932
Disponível em: https://www.mun-montijo.pt


Hemeroteca Digital Brasileira
http://memoria.bn.br
Jornal do Brasil
Ano XV; nº146 – 26 mai 1896

A Noite
Ano XVI; nº6334 – 5 jul. 1929


Os espaços de culto privados na transição do século XIX para o XX, de António Francisco Arruda de Melo Cota Fevereiro; in Atas do 2º Colóquio “Saudade Perpétua” – Arte, Cultura e Património do Romantismo; edição CEPESE - Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade – dez 2017. Disponível em: www.cepese.pt

Paiva Couceiro – Diários, Correspondência e Escritos Dispersos, de Filipe Ribeiro de Menezes; Dom Quixote – set 2011.
Parcialmente disponível em:
https://books.google.pt/books?id=aFVAHpm-utIC&pg=PT130&lpg=PT130&dq=%22Eloy+Castanha%22&source=bl&ots=m6FlA6GNko&sig=ACfU3U1_vTLi0Ym92k4LFOGIPb1Od0Txow&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwiW6tX73tHoAhVZCWMBHY-bDMAQ6AEwBXoECAsQMg#v=onepage&q=%22Eloy%20Castanha%22&f=false
A crise Financeira de 1891: uma tentativa de explicação; de Luís Aguiar Santos; in Análise Social Vol. XXXVI (158-159) – 2001 (185-207). Disponível em: http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1218726298J7kLR2hh1En65AF7.pdf

Registos paroquiais - Lisboa
Sacramento
Santa Justa
Sistematizados em: www.tombo.pt

https://www.cm-moita.pt/pages/1110

www.geneal.net.pt

 

3 comentários

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    CV 28.04.2020

    Olá! Muito interessante o vosso texto, que li em https://www.mitologia.pt/em-busca-da-origem-e-significado-do-297961
    Quem será, de facto a Maria Cachucha? Eu inclino-me para achar que a origem está na dança e o Maria foi um nome dado pelos portugueses, que batizam de Maria todas as mulheres cujo nome desconhecem. A música devia ser dançada pelos locais de boémia do país e à mulher que a dançava em público, de reputação duvidosa - como todas as mulheres com essa ousadia em meados do séc. XIX - foi dado esse nome. Se calhar quem foi a primeira 'Maria' Cachucha foi a bailarina Fanny Essler, que levou a Cachucha para outros voos, ficando popularmente associada a ela . Não sei se existe uma só resposta, mas esta é a explicação que me parece mais lógica. Obrigada!
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    mitologia 28.04.2020

    Okay, obrigado pela partilha. Continuamos curiosos se existiram histórias de uma Maria Cachucha antes das canções, mas mais cedo ou mais tarde lá o conseguiremos descobrir...
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