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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

A condessa de Cascais e a jornalista inglesa encontraram-se na cadeia

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Como poderiam aquelas senhoras estar envolvidas em conspirações para derrubar a República? As detenções fizeram correr muita tinta e o julgamento mais parecia uma “tragédia chique”.


Os primeiros anos da República foram, em Portugal, de grande instabilidade política e social. Foi um período marcado diariamente por tumultos, atentados e explosões. Em suma, vivia-se um clima de violência que instigava as inseguras autoridades a farejar conspirações a cada esquina. Este ambiente de desconfiança levou muita gente à cadeia por suspeita de participar em movimentos pró-monárquicos ou contrarrevolucionários da mais variada sorte. De entre as centenas de detidos, duas mulheres se destacaram*. Une-as o interesse que despertaram na opinião pública e os rios de tinta que fizeram os jornais gastar. De resto, não poderiam ser mais diferentes.
Era verão, estávamos em 1912, mas os espíritos ainda não tinham sossegado nessa Lisboa recente e oficialmente republicana. Choviam notícias de ataques e complots protagonizados por cidadãos aparentemente insuspeitos, bons trabalhadores, pais de família, militares. Mas, foram as prisões de Constança Teles da Gama e de Alice Lawrence Oram que mais empolgaram a opinião pública.

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Como podiam aquelas duas respeitáveis senhoras estar envolvidas em intrigas para derrubar o novo regime?
Alice (imagem 2), jornalista, mulher moderna, cosmopolita, independente, foi acusada de promover reuniões políticas tendentes a repor a monarquia no nosso País. Constança, aristocrata, filha do conde de Cascais e descendente de Vasco da Gama, reconhecida por inúmeros atos de caridade, viu-se atrás das grades por socorrer os muitos desvalidos presos à ordem do Estado e suspeitos de atentarem contra a República, incitando-os nessa luta.

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As detenções tiveram lugar com uma semana de intervalo, mas enquanto Alice Lawrence Oram andou num vaivém entre o Aljube, o Arsenal do Exército e a sua casa (na rua da Escola Politécnica), sendo chamada diversas vezes para interrogatório e igual número de vezes recambiada para o lar, no que os jornais chegaram a classificar de “espetáculo extravagante”; Constança permaneceu encarcerada durante cerca de nove meses e chegou a ir a tribunal de guerra, para escândalo da velha aristocracia e gáudio da imprensa.

 

A audiência decorreu no campo de Santa Clara e foi extremamente concorrida, predominando “senhoras vestidas com singela elegância”, num “luto aliviado” condizente com a ocasião, mas deveras contrastante com a normal “fauna” daquele local em dia de Feira da Ladra, como foi o caso.

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A sala estava “cheia como um ovo”. Pelo aspeto da audiência e o seu entusiasmo – alguns dos presentes até treparam para os bancos, para melhor ver o “espetáculo” - poderia pensar-se que se preparava uma “tragédia chique” e não um julgamento. Até os contínuos do tribunal estavam contagiados por tão seleta assistência, moderando os modos para uma inusitada delicadeza que não lhes era habitual.


Constança, de negro, “com o seu ar fidalgo e pisando admiravelmente”, manteve-se serena e altiva. Somente os seus olhos verdes, faiscantes, denunciavam indignação quando respondia a algumas perguntas mais “impertinentes”.

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Numa descrição que comoveu o público, a neta de Vasco da Gama garantiu que se limitava a ajudar os presos políticos, famintos e doentes, que encontrou por prisões em todo o País e lhe escreviam, pedindo auxílio para si e suas famílias, tantas vezes numerosas. Levava-lhes comida, sapatos, agasalhos, medicamentos, promovia-lhes uma defesa mais eficaz ou arranjava-lhes trabalho, uma vez soltos. Só aos presos políticos, frisou, porque considerava os criminosos comuns “repugnantes”.

 

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A acusação pedia uma pena de 18 meses de prisão – não degredo, como seria de esperar, por se tratar de uma senhora - mas as testemunhas ouvidas acabaram por não confirmar nada do que inicialmente se apontava à ilustre ré.


O mesmo aconteceu no caso de Alice Lawrence Oram, no qual se provou que a jornalista se dava com os realistas, apenas porque estes lhe forneciam importantes informações com as quais escrevia notícias para o Daily Mail, do qual era correspondente em Portugal.
Em ambos os processos se fizeram buscas às residências e, no que toca a Alice Oram, também ao hotel pertença da sua mãe e que ainda hoje é um dos mais emblemáticos de Sintra e o mais antigo da península Ibérica.**
Nada de comprometedor foi encontrado.
Não espanta pois que ambas as senhoras tenham sido ilibadas das acusações e postas em liberdade – com a família de miss Lawrence a pedir uma indemnização pelo envolvimento da sua unidade hoteleira em tal história.

Em duas semanas, Alice voltou às suas reportagens e às animadas soirées nas casas da alta sociedade lisboeta. Constança só seria absolvida em abril de 1913, mas pouco tempo depois regressava aos “seus” presos, reforçando a imagem de santa que já tinha antes de ser detida.

 

À margem


aljube 2.jpgO Aljube (a palavra significa prisão) alberga hoje um museu dedicado à resistência ao fascismo e a todos os que ali foram fechados por delitos políticos durante o “reinado” de Salazar, mas os primeiros cativos deram ali entrada 12 séculos antes, ainda durante a ocupação muçulmana de Lisboa. O espaço passou a prisão eclesiástica, depois recebeu presos comuns e durante outra época acolhia exclusivamente mulheres.
Embora o edifício não tenha sido grandemente afetado com o terramoto, a reconfiguração do traçado das ruas de Lisboa levou à sua reconstrução. No entanto, como seria de esperar em tão antigas instalações, as condições de reclusão deterioram-se horrivelmente em alguns períodos, tornando-se degradantes a todos os níveis.

Com a implantação da República chegariam os primeiros presos políticos. A problemática fez correr muita tinta e mereceu até reprovação internacional, nomeadamente dos nossos “amigos” ingleses, sempre convencidos do seu ascendente sobre Portugal. Sir Artur Conan Doyle, o autor do célebre Sherlock Holmes, foi uma das vozes críticas.


A “vocação” como prisão política prevaleceu durante o Estado Novo, período em que se refinaram as técnicas de tortura e interrogatório. Ficaram especialmente conhecidas as 13 pequenas celas de isolamento, feitas à medida de um homem deitado e que eram conhecidas como curros ou gavetas. Muitos foram os que não regressaram do Aljube ou de lá saíram transformados para sempre.

Muitos foram os que não regressaram do Aljube ou de lá saíram transformados para sempre.
Mas isso é outra história...

 

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* Muitas outras mulheres - e muitos mais homens – foram detidos nesta época. Numerosas figuras anónimas e alguns nomes sonantes - casos de Júlia de Brito e Cunha e Catarina de Sousa Coutinho - como os aqui mencionados e cujas histórias foram escolhidas num mero exercício de liberdade narrativa.

** Trata-se, obviamente, do Lawrence's Hotel, fundado em 1764 e que, ao longo da sua longa história, teve hóspedes bem famosos, como Lord Byron, William Bekcford. Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Camilo Castelo Branco e Bulhão Pato entre tantos outros. É o segundo hotel mais antigo do Mundo em funcionamento.
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Já aqui falei deste período conturbado em que havia conspirações a cada esquina e explosões diárias. Pode ler em:

Um prédio de conspiradores

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Fontes

Hemeroteca Digital de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/
Jornal A Capital
nº722, 3º ano – 1 ago. 1912 a nº752 – 31 ago. 1912
nº958, 3º ano – 1 abr. 1913 a nº987 – 30 abr. 1913

nº1019, 3º ano – 1 jun. 1913 a nº1047 – 29 jun. 1913

O Occidente – Revista illustrada de Portugal e do estrangeiro
35º ano, XXXV volume, nº1210 – 10 ago. 1912

Illustração Portugueza

nº372, 7 abr. 1913

https://issuu.com/axiusdesigns/docs/republicabook_part1

https://geneall.net/pt/nome/41079/d-constanca-maria-teles-da-gama/

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/pt/

Autor não assinalado

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/ACU/000136