Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

A contrabandista dos mares do sul

joana 1.JPG

Numa atividade lucrativa, mas muito arriscada e dominada por homens, Joana conseguiu impor-se. Saiu-se tão bem que chegaram a duvidar que fosse mulher. Pina Manique desconfiava que fosse espia a mando dos franceses.

 

Extraordinário tino para o negócio, inteligência acima da média e um charme irresistível. Estas são características apontadas a um dos protagonistas do lucrativo contrabando que enxameava o Atlântico Sul em finais do século XVIII e tantas dores de cabeça provocava às autoridades portuguesas. “Pequeno” pormenor: a personagem de quem se fala é mulher, numa atividade dura, cheia de perigos, à qual se dedicavam homens de barba rija e…Joana d’Entremeuse.

joana 4.JPG

 

Sozinha ou associada a outros contrabandistas como os portugueses Eleutério Tavares e António Barbosa Lobo, esta francesa conseguiu durante muito tempo enganar tudo e todos. E fé-lo tão bem que chegaram a duvidar que fosse mulher.


Era alguém que, nas palavras de D. José de Castro, vice-rei do Brasil, “pela sua nação, pela sua viveza, pelo seu carácter insinuante e pelos seus projetos e indústrias, se faz merecedora de ser olhada com circunspeção”.

O alerta surgiu num momento em que a curiosa senhora se deslocava a Lisboa, depois de uma sequência de episódios com o navio Boa Viagem, acusado de vender ilegalmente mercadoria diversa na costa brasileira, em 1799.

joana 8.jpg

O esquema era sobejamente conhecido, mas continuava a dar frutos. Portugal proibira o comércio com embarcações estrangeiras nos seus territórios sul-americanos. Queria preservar a exclusividade e, ao mesmo tempo, impedir que se conhecessem as suas riquezas e defesas.

Não podia, no entanto, recusar guarida a navios em dificuldades.

joana 5.JPG

 

Fazendo uso desta ressalva, os contrabandistas pediam para arribar, alegando transportarem doentes ou precisarem de ir a estaleiro. Aproveitavam a ocasião para vender o que transportavam ilegalmente e sem pagar impostos, carregando com produtos locais que venderiam noutras paragens.


Joana d’Entremeuse surge envolvida em várias movimentações deste género, mas era suficientemente esperta para escapar às malhas da justiça, escondendo ou falseando os livros de carga; pedindo para navegar com pavilhão espanhol ou português, de acordo com as conveniências do momento; alegando que o barco não era seu, que a carga pereceria se não fosse vendida ou ainda que a rota tomada se devia às más condições da embarcação.

Com essas artimanhas, conseguia os favores de gente importante, chegando a ter cartas de recomendação por parte de altos negociantes do Rio de Janeiro e acesso aos armazéns da alfândega para guardar os seus bens.

A francesa, na altura com 32 anos, possuía grande corte de admiradores entre as pessoas mais qualificadas da cidade, por “ser instruída e lidar como ninguém com os negócios”. Foi assim que conseguiu igualmente ver satisfeitas algumas pretensões para comerciar, bem como um empréstimo e benefícios diplomáticos.


Foi só quando decidiu passar por Lisboa que tudo se complicou.

Para começar, o vice-rei do Brasil enviou uma carta a alertar D. Rodrigo de Sousa Coutinho, secretário da Marinha e dos Domínios Ultramarinos, para o comportamento de Joana que, basicamente, lhe cheirava a esturro.


Para averiguar isso mesmo, foi mandada prender assim que pôs o pé na capital do Império, corria setembro de 1799 e era o intendente Pina Manique quem impunha a ordem por estas bandas.


Os sucessos de Joana tinham tal fama que a primeira investigação que se levou a cabo foi à sua identidade sexual. Duas mulheres e dois cirurgiões atestaram que, efetivamente, era uma fêmea e não um macho disfarçado, para espanto dos homens, iludidos que tamanha habilidade estava apenas reservada aos da sua condição.


Percebe-se a precaução das autoridades. É que Joana, era também suspeita de ser uma perigosa espia republicana. Não nos podemos esquecer que a Revolução Francesa tinha feito rolar a cabeça de reis e nobres e, por isso, a propagação de tais ideais aterrorizava as outras nações europeias (ver À Margem).


Ainda assim, mercê do desaparecimento dos documentos que a incriminavam e do empenho do embaixador francês, a investigação sobre Joana d’Entremeuse acabaria por não ir adiante.

joana 3.JPG

Posta em liberdade, perde-se-lhe o rasto. Fica por saber se regressou a França*, se rumou às ilhas Maurícias, onde antes se havia estabelecido como “comerciante”, ou se, quem sabe, retornou à sua antiga atividade de forma tão refinada que nunca mais foi apanhada.

A margem


Duguay-Trouin_Rio_de_Janeiro_Navy_Battle_1711.jpg

 

As autoridades portuguesas tinham muitas razões para suspeitar de estrangeiros. A história recente tinha provado que o conhecimento sobre as defesas do território podia ser nefasto para os interesses nacionais. Em 1711, o Rio de Janeiro foi invadido, saqueado e sequestrado pelo famoso corsário francês René Duguay-Trouin, tendo por base um extenso relatório sobre as capitanias do sul do Brasil, elaborado por outro indivíduo da mesma nacionalidade – Ambrozio Jauffet, que ali viveu durante trinta anos.


O terror pelo ataque perdurou todo o século XVIII e agravou-se com a Revolução Francesa, que fez os oriundos daquela nação serem vistos como potenciais espiões e mensageiros de ideais que apavoravam as casas reais da Europa. As desconfianças sobre Joana tinham razão de ser, tanto mais que, na sua posse, se encontraram manuscritos de obras de Rosseau e Alexander Pope, entre outros autores vistos como “abomináveis” para as monarquias.


Por coincidência ou não, no mesmo navio em que Joana d'Entremeusse chegou ao Rio de Janeiro antes das peripécias relatadas, viajava José Pedro de Azevedo Sousa da Câmara, “o mais importante tradutor de escritos de Voltaire” para a nossa língua. A coberto do desempenho das suas funções de desembargador na Baía, conseguiu durante anos ludibriar a censura portuguesa, publicando clandestinamente diversas obras do filósofo francês.


Mas isso é outra história...
…...........

* Joana ou Jeanne d'Entremeuse era viúva. Teve pelo menos duas filhas, uma das quais viveria com o avô em França. Instalou-se nas ilhas Maurícias em 1792 e terá sido a partir dessa localização que iniciou a sua vida de contrabandista.

…........................

Fontes

Ministério da Educação e Saúde, Documentos históricos, Consultas do Conselho Ultramarino; Rio de Janeiro – Bahía 1758-1803- Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro), Divisão de Obras Raras e Publicações – 1952; Gráfica Tupy Lda Editora. Disponível em http://memoria.bn.br/pdf/094536/per094536_1952_00095.pdf

O Arquivo nacional e a história luso-brasileira – Joana d'Entremeuse. Disponível em: http://historiacolonial.an.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4072:joana-dentremeuse&catid=202&Itemid=215

O Arquivo nacional e a história luso-brasileira - Temor, cumplicidade e sedução: relações entre franceses e portugueses no Brasil colonial, por Maria Fernanda Bicalho, profª adjunta do Departamento de História – UFF, disponível em http://historialuso.arquivonacional.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5259&Itemid=393

O tradutor dos abomináveis princípios: José Pedro de Azevedo Sousa da Câmara, in História (São Paulo), de Pablo Iglesias Magalhães, Universidade Federal do Oeste da Bahía; 2016. Disponível em : http://www.scielo.br/pdf/his/v35/0101-9074-his-35-00101.pdf

Women in Port: Gendering Communities, Economies, and Social Networks in Atlantic Port Cities, 1500-1800, Douglas Catterall e Jodi Campbell; Brill; Leiden-Boston; 2012. Disponível em:
https://books.google.pt/books?id=gfsyAQAAQBAJ&printsec=frontcover&hl=pt-PT&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false

“Can she be a woman?” Gender and contraband on the revolutionary Atlantic, de Ernst Pijning, disponível em https://brill.com/previewpdf/book/edcoll/9789004233195/B9789004233195_011.xml

Imagens (meramente indicativas do tema)
allposters.com.br
On a Sailing Ship de Caspar David Friedrich. Disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f9/On_a_Sailing_Ship_by_Caspar_David_Friedrich.jpg

Gravura de W.Alexander - Vista do Rio de Janeiro, final do século XVIII. Disponível em: Arca com histórias

Pinterest

Frau vor untergehender Sonne de Caspar David Friedrich. Disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7e/Caspar_David_Friedrich_-_Frau_vor_untergehender_Sonne.jpg

Domena publicznazobacz zasady
Duguay-Trouin, Rio de Janeiro Navy Battle 1711. Disponível em:
https://pl.wikipedia.org/wiki/Bitwa_o_Rio_de_Janeiro_(1711)#/media/File:Duguay-Trouin_Rio_de_Janeiro_Navy_Battle_1711.jpg

 

2 comentários

  • Imagem de perfil

    CV 21.06.2019

    Verdade! Custa pensar como é que estas mulheres (há mais, em tantas áreas) se conseguiram impor em tempos adversos. Deve ter sido extremamente difícil. Obrigada.
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.