Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

A cura nas alturas e o mal na terra

 

inauguracao com d carlos e d amelia.JPG

 

Na inauguração do sanatório para tísicos, o casal real foi recebido com extraordinárias manifestações de jubilo pelas gentes da Guarda, mas o País urbano rebelava-se já contra a ditadura instaurada na semana anterior. Os revigorantes ares da serra e os pretensos milagres do Dr. Sousa Martins, não seriam suficientes para salvar a monarquia.

 

Quando, em 1907, D. Carlos e Dona Amélia se deslocaram à Guarda para inaugurar a primeira estrutura de altitude criada em Portugal para o tratamento de tuberculosos, foram brindados com uma receção apoteótica. Noutras paragens, Portugal estava em ebulição e, mesmo durante a visita, houve sinais de estar a monarquia já ferida de morte. Nem os revigorantes ares daquela região ou os pretensos milagres de Sousa Martins, que daria nome ao sanatório, seriam capazes de a salvar.

aspeto de uma das ruas decoradas para receber os r

 

Foi a 18 de maio. As reais pessoas foram recebidas por um “extraordinário concurso de povo” daquela cidade e vindo das cercanias, que as vitoriavam, aplaudiam e lhes lançavam flores. Queimaram-se girandolas de foguetes e as ruas, pejadas de gente, estavam decoradas com “flamulas, galhardetes, arcos triunfais”, bandeiras e “outros enfeites surpreendentes”. Nas janelas, apinhadas, viam-se colchas de seda.

multidao em volta do sanatório no dia da inaugura

 

Foi, portanto, em ambiente de grande festa – na qual nem faltou um orfeão de 350 crianças cantando um inédito hino de homenagem à rainha (imagem 8) - que se inaugurou o sanatório da Guarda.

 

À semelhança de outras estâncias já existentes na Europa, visava tratar os tísicos pelo efeito dos puros e frescos ares que se respiravam na montanha – mil metros acima do nível do mar.

um dos pavilhoes do sanatório da guarda.JPG

 

Seguiam-se indicações científicas obtidas após uma célebre expedição à Serra da Estrela, realizada em 1881, em que participou o médico Sousa Martins, grande entusiasta da ideia.

Para Dona Amélia - empenhada pessoalmente e desde a primeira hora no tratamento desta doença, que matava 15 a 20 mil pessoas por ano em Portugal - o sanatório seria uma conquista deveras especial.

os tres corpos do espaço do sanatório.JPG

enfermaria dos pobres.JPG

O belo complexo tinha sido desenhado por Raúl Lino e possuía todas as comodidades de topo existentes na altura: instalações para 28 doentes pobres, igual número para remediados e 20 lugares para ricos, para além de seis chalés que os muito ricos podiam alugar, gerando receitas para os gastos de funcionamento.

galeria de cura.JPG

 

Ali residiram, durante décadas, as esperanças de milhares de tísicos que rumavam à Guarda em busca da cura, mas, sobretudo, de um lampejo de esperança contra aquele mal que tantas vezes era uma sentença de morte.

Durante as cerimónias – missa, receções, discursos – “não houve o mais insignificante incidente desagradável”.

oefeao de crianças.JPG

A visita demorou poucas horas e, na viagem de regresso, que também se fez de comboio, a composição foi aclamada nas estações por multidões anónimas, “pessoas gradas”, pelos dignitários dos diversos concelhos e até por bandas de música e fogo-de-artifício.

Esta unanimidade de “manifestações imponentes”, promovida por “gente pura da Serra”, onde não chegavam ainda “contaminações e paixões políticas que tudo adulteram”, teve uma única exceção: apesar de terem sido “delirantemente aclamados” por “mais de oito mil pessoas” e representantes de diversas instituições locais, na Covilhã, a câmara municipal não se fez representar.

Justificando a inusitada ausência, o jornal informa laconicamente que aquela entidade era composta por amigos do senhor Abel Andrade.

Quem?

Pois bem, após aturada pesquisa, percebe-se que Abel Andrade era o diretor-geral da Instrução Pública, um reformador com novas ideias para o sector, que tinha sido suspenso algum tempo antes por João Franco, o líder do governo do País que, embora tenha garantido moderação, havia instituído a ditadura exatamente na semana anterior a esta calorosa inauguração do Sanatório da Guarda.

Acresce que a educação era, por aqueles dias, o assunto mais polémico em cima da mesa. Em fevereiro tinha estalado a crise estudantil em Coimbra, quando os universitários se revoltaram pela forma como um até então desconhecido candidato ao doutoramento em Direito, José Eugénio Dias Ferreira, foi vexado em plena defesa, por um grupo de professores examinadores percetivelmente conluiados nesse sentido.

estudantes a chegada as cortes em lisboa.JPG

O caso, rapidamente interpretado como político, fez escalar os protestos. Houve estudantes expulsos, greves e manifestações por todo o País. O tema, obviamente, foi adotado pelos republicanos, que se desdobravam em iniciativas e comícios cada vez mais inflamados, numa cadência semelhante à intensificação, por João Franco, das leis restritivas à liberdade de expressão – o primeiro julgamento por crime de liberdade de imprensa ocorre a 14 de maio – e punitivas dos que se opunham ao rei e ao seu governo.

estudantes em comicio de teofilo braga.JPG

 

Menos de um ano após a inauguração do sanatório da Guarda, D. Carlos e o príncipe Luís Filipe são assassinados em plena Praça do Comércio. Dois anos depois, cai a monarquia e é implantada a República, mas não a paz social.

O Sanatório, esse, só é extinto em 1974, ano de outra revolução que bem conhecemos.

 

À margem

vista geral do sanatório da guarda.JPG

Os edifícios do Sanatório Sousa Martins, – hoje tristemente em ruínas – ali estão, indiferentes a todas estas movimentações, aguardando por um projeto que os recupere e lhes dê uma nova vida, como eles deram a tantos que ali encontraram a tratamento para os males dos pulmões.

Por agora estão tão decrépitos como o estava a monarquia portuguesa em 1907.

sanatorio.jpg

 

tratando um candidato.JPG

A instituição deveu muito do seu dinamismo a José Lopo de Carvalho, que a dirigiu, mas ganhou o nome do também médico José Sousa Martins. Este, que tanto lutou pela sua concretização, já não veria o sanatório a funcionar, pois matara-se uma década antes da inauguração (1897). “Desenganado” de duas doenças terminais - tuberculose e uma grave lesão cardíaca – optou por colocar um ponto final na vida, com uma injeção de morfina.

doutor sousa martins.JPG

 

Nas homenagens de que foi alvo, nas preces que ainda lhe são dirigidas por outros “desenganados” da medicina convencional, nas promessas que são feitas em sua memória e a troco da cura, contínua vivo, pelo menos na fé dos mais desesperados.

 

Mas isso é outra história...

 

 

 

Fontes

 

Hemeroteca Digital de Lisboa

Hemeroteca Digital (cm-lisboa.pt)

Illustração Portugueza

N55 – 11 mar. 1907

Nº66 – 27 mai. 1907

Nº234 – 15 ago. 1910

Nº236 – 29 ago. 1910

 

Efemérides | A Greve Académica de 1907 (cm-lisboa.pt)

 

Biblioteca Nacional de Portugal (em linha)

www.purl.pt

Diário Illustrado

37º anno; Nº12.231 – 18 mai. 1907

37º anno; Nº12.232 – 19 mai. 1907

 

Os saberes e poderes da reforma de 1905, de José Viegas Brás e Maria Neves Gonçalves; Entretextos - Universidade Lusófona – Instituto de Ciências da Educação – Junho 2010. Disponível em: Microsoft Word - Entretextso nº22- Saberes e Poderes da Reforma de 1905.docx (core.ac.uk)

 

 

Conhecer, tratar e combater a “peste branca” – A tisiologia e a luta contra a tuberculose em Portugal (1873-1975) de Ismael Cerqueira Vieira; CITCEM-Centro de Investigação Transdiciplinas – Cultura, Espaço e Memória; Edições Afrontamento;

Disponível aqui: CITCEM (up.pt)

 

Almanaque Republicano: BREVE RESUMO DA REVOLTA ESTUDANTIL DE 1907 (arepublicano.blogspot.com)

 

A greve académica de 1907, duas repercussões políticas e educacionais, de Maria Neves Leal Gonçalves; Revista Lusófona de Educação – Observatório de Políticas da Educação e de Contextos Educativos da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Doutoranda da Universidade de Évora - set 2007. Disponível em:

659-Texto do artigo-2364-1-10-20090720.pdf

 

João Franco - Infopédia (infopedia.pt)

www.monumentos.gov.pt

José Tomás de Sousa Martins – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

 

Imagens:

Illustração Portugueza

Disponível na Hemeroteca Digital de Lisboa

https://correiodaguarda.blogs.sapo.pt/sanatorio-sousa-martins-memoria-589561 

https://fg.secure.force.com/fgDetalhePDI?tipo=1&idpdi=a0L2000000WvIxtEAF 

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.