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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

A façanhas da quadrilha do Papa Assucar

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À luz dos nossos dias, as proezas fora da lei do Papa Assucar, da companheira, Bicha Brava, e de toda a volumosa quadrilha que o apoiava podem parecer quase ingénuas, mas o seu nome inspirava medo entre as gentes de vários concelhos do Norte do País. As suas muitas aventuras passaram de boca em boca, transpondo gerações e fronteiras.

 

Em finais do século XIX o País estava mal servido de estradas e de transportes. Viajar era uma tarefa morosa, penosa e perigosa, que devia ser desenvolvida em grupo, para minorar os riscos. Bandos de salteadores esperavam a sua oportunidade nas planícies alentejanas e nas serranias do resto do território. A Norte, nos concelhos de Braga, Guimarães (na imagem), Felgueiras, Santo Tirso e Póvoa de Lanhoso, durante cerca de uma década, o Papa Assucar foi um dos nomes mais temidos. Atravessar a Serra da Falperra era uma verdadeira aventura.

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Os relatos das façanhas deste homem passaram de geração em geração.

Numa época em que a pobreza e a desproteção social constituíam a principal porta de entrada para o mundo do crime. Bernardo José Dinis, de todos conhecido como “Papa Assucar”, não tinha essa desculpa.

Nascido em família privilegiada, onde ressalta um pai representante da autoridade, enveredou por uma vida airada, a solo, de braço dado com a companheira, a Bicha Brava e, sobretudo, liderando uma quadrilha que chegou a ter dezena e meia de elementos.

Durante anos, o grupo de malfeitores semeou o pânico e criou uma impressão de medo que permaneceu na memória coletiva.

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O Papa Assucar sabia ler e escrever, algo raro naqueles tempos e entre os seus apaniguados. Nunca matou, apesar de ser perigoso e, reconhecidamente, homem de numerosos expedientes.

Hoje, os seus crimes parecem-nos quase infantis.

Nasceu a 11 de janeiro de 1862, em Louzela (Vila Nova de Famalicão), num lar relativamente abastado, mas com 11 filhos. Desconhece-se a origem da alcunha, mas era assim já conhecido aos 18 anos, data do seu primeiro crime documentado – o furto de 50 rações de pão que eram transportadas ao destacamento de Infantaria 18, em Guimarães.

Foi em 1883, que se tornou verdadeiramente famoso, ao escapar-se de forma surpreendente da cadeia de Guimarães, onde se encontrava a cumprir pena por outro furto. Escondeu-se por debaixo da cama do carcereiro e, com a maior calma do mundo, aproveitando o descanso daquele, levou as chaves com que abriu as portas da liberdade.

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Cinco anos depois ter-se-á iniciado a relação com Maria Joaquina Ferreira, famosa como “Bicha Brava”. Foi pelo menos por essa altura que a imprensa começou a comentar as artimanhas do par.

A vida desta teve a sua dose de dificuldades. Tendo ficado viúva, levou por diante o negócio que tinha sido do casal, uma taberna (em Alvite, São Martinho de Sande, Guimarães). Era uma tarefa de alto risco, dada a propensão para a ocorrência de conflitos em tais baiucas. Uma mulher, por aqueles dias, estava em especial situação de vulnerabilidade em tal “antro de desordens, rapinagem e prostituição”, como as autoridades caracterizavam o seu estabelecimento.

Foi ali mesmo que teve início o romance e consequente associação criminosa com Bernardo Dinis, o Papa Assucar, junto de quem encontrou proteção, mas também novas fontes de rendimento, nomeadamente provenientes das suas atividades à margem da lei.

O Catarino, o Garracho, o Carolino, o Conca, o Pissarro, o Lourenço ou o Santa Marinha, mais quatro mulheres (Maria Joaquina Ferreira, a Bicha Brava, Carolina Augusta, Catarina Rosa da Silva e Joana Maria Simões, a Carapuceira), com relações de casamento ou mancebia com os elementos masculinos, constituíam as peças nucleares da afamada quadrilha minhota.

Juntos ou em iniciativas individuais, enfrentaram pelo menos 69 acusações, a maior parte destas relativas a furtos. Mas, não se pense que enriqueceram com tais atividades. Uma coisa é certa: não se pode dizer que fossem esquisitos quanto ao que levavam.  Com o mesmo empenho desviavam animais (como perdizes, cabras, galinhas e outras aves de galinheiro); davam descaminho a sacas de cereais, salgadeiras cheias de carne ou odres de azeite, peças de roupa branca ou de vestir e, claro, também dinheiro e outros objetos de valor, subtraídos de casas particulares, estabelecimentos comerciais e igrejas, usando para isso chaves falsas ou ferramentas para facilitar o arrombamento.

Não admira que o Papa Assucar tenha sido durante muito tempo presença assídua nos jornais, com as suas proezas exploradas à exaustão, o que acabaria por jogar contra a vedeta, pois terá sido devido a uma notícia indiscreta que foi finalmente capturado, em 1890, o que o fez nutrir um ódio de estimação pelos jornalistas.

Face a tão animada existência, todos os elementos da quadrilha foram detidos em diferentes momentos e períodos. O líder, com alcunha de guloso, depois de vida tão atribulada e várias prisões, acabou degredado por oito anos em Angola (na imagem, a fortaleza de São Miguel, que albergou o Depósito de Degredados de Luanda).

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Teve a sorte de ser abrangido por um indulto que o libertou antes de tempo. Regressou à casa paterna e não há registo que tenha retornado à “má vida”.

Mas, uma existência pacata na sua terra também não era para ele.

Em 1898, aos 36 anos de idade, ainda com muito para viver, embarca para o Brasil, onde se lhe perde o rasto.

 

À margem

Entre as décadas de 1880 e 1932, entre 16 e 20 mil prisioneiros portugueses foram condenados à pena de degredo em África, a maioria para Angola. Era frequente os degredados não sobreviverem ao clima inclemente e às doenças exóticas que ali encontravam, mas também acontecia serem libertados antes de tempo, devido a amnistias, como aconteceu com o Papa Assucar, e permanecerem naquela colónia, ascendendo até na escala social local. Igualmente possível era os presos gozarem de uma certa liberdade, que lhes permitia dedicarem-se a atividades lícitas e ilícitas.

À medida que o expediente do degredo se vulgarizou, também cresceu o impacto destes prisioneiros na população local e, em finais do século XIX correspondiam a 12 por cento dos brancos presentes.

Existiam várias categorias de presidiários no Depósito de Degredados de Luanda, para além dos criminosos comuns, como o Papa Assucar. Uma quantidade considerável eram vagabundos ou vadios, mas havia também os deportados, condenados por crimes políticos.

Igualmente em 1891 aquela prisão recebeu um deportado famoso. Tratava-se do jornalista João Pinheiro Chagas*, preso pelo alegado incitamento da revolta de 31 de janeiro, no Porto, em consequência do ultimato britânico. Em novembro, conseguiu fugir e chegar a Paris e, tendo sido novamente detido, voltou a fugir, para o Brasil. Cerca de 20 anos depois, seria o primeiro presidente do ministério (Primeiro-Ministro) após a implantação da República.

Mas isso é outra história…

 

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*Não confundir com o primo, Manuel Pinheiro Chagas, igualmente polémico, igualmente jornalista e ministro e um dos fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa, que estaria na origem de um conjunto de expedições destinadas a reforçar a posição portuguesa em África.

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aqui antes falei de outra perigosa quadrilha, que punha as beiras a ferro e fogo.

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Fontes

Vítor Emanuel Mendes de Oliveira No encalço da Quadrilha do Papa Assucar, célebre bando de ladrões e salteadores: um estudo de caso sobre representações de pequena criminalidade em finais de Oitocentos, dissertação de Mestrado em História, Universidade do Minho - Instituto de Ciências Sociais, 2020. Em https://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/67982

 

Timothy J. Coates,The Depósito de Degredados in Luanda, Angola: Binding and Building the Portuguese Empire with Convict Labour, 1880s to 1932, Cambridge University Press, 2018. Disponível em https://www.cambridge.org/core/journals/international-review-of-social-history/article/deposito-de-degredados-in-luanda-angola-binding-and-building-the-portuguese-empire-with-convict-labour-1880s-to-1932/55837A97ED8C078867FDD783C8976535

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Chagas

https://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Pinheiro_Chagas

 

Imagens

Gravura de autor desconhecido tirada a partir de fotografia de Antero Frederico de Seabra. Arquivo Pitoresco, 1864, p. 377, retirado do blog Memórias de Araduca:

Guimarães em 1864

Fortaleza de São Miguel de Luanda - Wikiwand

Imagens criadas por IA, em Adobe Firefly

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