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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

A faina maior dos portugueses

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Mais de meio século antes do simbólico esforço de pesca mobilizado durante o Estado Novo e quando outros países já usavam arrastões a vapor, os portugueses ainda navegavam à vela e à força de braços, os mesmos que puxavam a linha carregada de bacalhaus.


Absolutamente só. O homem e o seu pequeno barco, vagueando na neblina pegajosa e traiçoeira, que confunde os sentidos e atemoriza a alma. Sozinho, mas com uma árdua tarefa pela frente que só termina quando o casco está cheio e consegue, à força de braços, regressar ao navio-mãe... para, no dia seguinte, tudo recomeçar. Muito antes do emblemático esforço de pesca do bacalhau lançado durante o Estado Novo, já os portugueses rumavam ao gélido Atlântico Norte, à vela, para passar seis meses de absoluto isolamento e desmedida fadiga.

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No início do século XX, a “faina maior” - como ficaria conhecida esta difícil labuta - empregava cerca de 800 pessoas em pouco mais de duas dezenas de embarcações. As companhas eram recrutadas em cidades e vilas costeiras como Figueira da Foz, Setúbal, Nazaré, Lisboa, Olhão, Ovar, Aveiro e também da ilha de São Miguel, nos Açores, onde os navios chegavam a fazer escala antes de aproarem à Terra Nova.


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Eram homens acostumados às agruras de uma vida dependente de ventos e marés, rijos de corpo e com coração curtido pelas perdas de amigos e familiares dedicados à mesma lida, mas que encontravam na pesca do bacalhau a expressão máxima desse sacrifício diário que lhes proporcionava o sustento.


Parte do pagamento – uma percentagem do produto final da incursão – ficava logo em Portugal, tal a euforia sentida ao receber o adiantamento que lhes permitia apetrecharem-se com o que sentiam vir a precisar: agasalhos e botas, mas também tabaco para aconchego e algumas futilidades quase infantis, de quem não está habituado a ter dinheiro na mão.

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Álcool também, ingerido ainda em terras lusas, para afogar a mágoa de uma viagem que se sabia ser longa e trabalhosa: só a deslocação até à zona povoada de bacalhau mas deserta de gente podia demorar quase um mês.

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Já ao Norte, entre largas centenas de navios de várias nacionalidades – por esta época, alguns já a vapor e com redes de arrasto - disputando os melhores locais como quem pugna pela sobrevivência, o bacalhoeiro era fundeado e começava a pesca solitária.


Em pequenos botes (dóris*), os homens eram lançados à água e deixados o dia inteiro à sua sorte, munidos de grossas linhas cravejadas de anzóis onde se espetavam os iscos para atrair o “fiel amigo”, assim atraiçoado e condenado à morte, sem dar luta**.

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No momento mais movimentado do dia, já no convés da embarcação-mãe, o bacalhau era esventrado e escalado por facas conhecedoras e rápidas, que separavam línguas e fígados de outras entranhas, num aparente caos de sangue, gordura e água salgada que deixava os enormes peixes preparados para serem devidamente secos e ainda mais salgados já em Portugal.

A pesca de cada dia era trabalhada e escorrida em separado, para que não se misturassem diferentes níveis de maturação.

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E havia uma incessante repetição quotidiana, mais aquele estranho nevoeiro, aquela luz baça, parda e doentia que se colava à pele e corróia o tino de gente habituada a dias de sol luminoso que só existem no seu País, tão longínquo quanto desejado naquelas horas.


Por vezes, uma tragédia vinha abalar esta estranha previsibilidade. Um dóri que se perde na bruma e não regressa; uma onda que varre um ou dois homens borda fora; um fatal incêndio a bordo – como aconteceu em 1906 com o patacho Santiago - uma tripulação inteira que se deixa atrasar e fica encurralada no outono bravio e gelado, que não os deixa retornar a casa senão na primavera seguinte.


Então, os homens não ficam só de abril a setembro sem qualquer notícia da família, mas um ano inteiro sem saber se os filhos conseguem medrar sem a sua presença ou o seu pão; se a mulher arranjou outro ou se vestiu de luto para interrogar o mar sobre o seu paradeiro...quase hibernados nesse transe inelutável.

 

 

 

À margem
As primeiras referências à pesca do bacalhau por portugueses remontam ao século XIV, na costa de Inglaterra. Com o “achamento” da Terra Nova, esta faina ganha outro fôlego, mas não resiste às longas distâncias, condições adversas e falta de pescado, que ditaram um interregno lusitano de cerca de 300 anos. O consumo desta saborosa proteína não se extinguiu durante este período, mas era alimentado por peixe importado. Em 1872, a Bensaúde & Cia e, em 1885, a Mariano & Irmão, iniciam a pesca continuada. A estas se juntam mais empresas, à medida que a legislação torna a atividade mais atrativa. Em 1913, eram 38 os bacalhoeiros portugueses em laboração, mas a I Grande Guerra e a escassez de peixe determinaram nova interrupção, que só seria quebrada nos anos 30.
Descobriram-se novos bancos de pescado na Gronelândia e compreendeu-se a importância social e política que o sector podia assumir. Assim, durante o Estado Novo, iniciou-se um grande programa de incremento da pesca do bacalhau, com navios maiores e mais bem apetrechados. No final dos anos 50, Portugal tinha finalmente uma frota de “22 arrastões”, assim como “22 navios de pesca à linha de aço, 17 navios de madeira e 17 lugres****”, só que o mundo “moderno” já tinha inventado outro tipo de embarcações, o que revolucionou a pesca do bacalhau e colocou Portugal novamente em desvantagem tecnológica, com um grande investimento que já era obsoleto. O Novos Mares foi o último bacalhoeiro de pesca à linha português. Regressou a Aveiro em agosto de 1974, sem terminar a campanha e com a tripulação em greve. Era uma nova era que se impunha.
Mas isso é outra história...

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* Doris são pequenos barcos de construção simples, fundo chato, facilmente empilháveis. Do inglês dory, que também é o nome de uma família de peixes.
** Dada a dimensão dos peixes, a pesca solitária à linha só é possível porque o bacalhau, uma vez iscado, não se debate, fica imóvel aguardando ser capturado ou solto.
*** Patacho é um navio à vela com dois mastros, tendo na proa uma vela redonda e na popa uma vela latina.
**** Embarcação de três mastros sem vergas.

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Fontes
Hemeroteca Digital de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/
Illustração Portugueza
nº65 – 20 mai. 1907
nº230 – 18 jul. 1910

Biblioteca Nacional Digital
www.purl.pt
Diário Illustrado
27º ano; nº 9:068 – 23 jun. 1898

Os arrastões do bacalhau 1909 – 1993, tese de mestrado em História Marítima, de Ricardo Lisboa da Graça Matias; Escola Naval Infante Dom Henrique; Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa – 2016

https://translate.google.pt/translate?hl=pt-PT&sl=en&u=https://en.wikipedia.org/wiki/Dory_(fish)&prev=search
https://pt.wikipedia.org/wiki/Patacho
https://dicionario.priberam.org/lugre

Imagens

The fog warning, Winslow Homer (1885) – Museum if Fine Arts – Boston – Estados unidos da américa. Disponível em https://en.wikipedia.org/wiki/The_Fog_Warning


Arquivo Municipal do Porto
http://gisaweb.cm-porto.pt/
Coleção de Postais Porto Desaparecido nº 65; edição Le temps perdu - D-PST/1660

Illustração portugueza

 

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