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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

A fantasia ambulante do teatro

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Andavam de terra em terra em busca do seu público. Sem poiso ou palco certos, os artistas ambulantes levavam a fantasia do teatro às aldeias por esse País fora, mas as suas vidas eram bem diferentes do sonho que mostravam em cena.


Quem os observava, ao longe, pensava serem ciganos à boleia de carroças gastas, cavalos e burros vergados ao peso de uma estranha carga. Mais próximo, no entanto, percebia-se o erro. Transportavam inusitadas peças de mobiliário, pedaços de cenário que evocam paisagens exóticas e objetos mais próprios de outras épocas. As suas roupas, embora já tivessem visto melhores dias, mantinham algum garrido e até um fausto meio decadente. Eram os artistas errantes, famílias inteiras que compunham o elenco da companhia teatral que era a sua casa, ora trupe de maltrapilhos, ora trasvestidos de reis e rainhas nas cortes das histórias que contavam.

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O advento do comboio suavizou as viagens e alargou-lhes a área de ação, mas à beira do século XX, as rotinas destes atores ambulantes pouco se tinham alterado em relação aos tempos mais recuados, dos jograis e saltimbancos.


Longe das grandes cidades, fizesse chuva ou sol, pernoitando pelo caminho até à aldeia mais próxima, seguiam sempre pensando na plateia seguinte, no texto que iam debitar, nas outras tarefas que os esperavam... porque ali todos eram polivalentes e era preciso montar a barraca; consertar a espada do imperador romano; retocar um quadro desbotado ou dar um ponto no já muito passajado vestido da princesa.

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Pareciam livres, mas tinham uma vida em circuito fechado, por mais estradas e caminhos poeirentos que palmilhassem, montes e vales que se calcorreassem.


Porque os artistas viviam em comunidade familiar, casavam entre si e circulavam pelos mesmos papeis que os seus pais já tinham encarnado e os seus filhos interpretariam um dia, de acordo com a idade e a fase da vida, percorrendo todo o naipe em que se enquadrem.

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É claro que, mesmo nesta profissão sem eira nem beira, não eram todos iguais. Algumas empresas teatrais ganharam o direito à apresentação nas salas disponíveis em cada terra e eram já conhecidas do povo. Havia as que montavam o seu próprio palanque, no meio da rua, muitas vezes sem teto sequer. E havia até os homens sós, acrobatas, contorcionistas, aberrações, domadores de um qualquer animal ou cómicos que possuiam apenas adereços e faziam os seus números onde fosse possível juntar gente que rentabilizasse a encenação, sonhando um dia poder pertencer a uma farândola* a sério.

teatro julia mendes.jpgEm todos havia a certeza de nesta vida ao relento não se enriquecer ou alcançar a consagração, só os aplausos desgarrados de quem não conhecia outra cultura.

 

Uns e outros traziam a alegria consigo.

 


Enquanto ali estavam tão badalados forasteiros, a localidade permanecia em festa. Havia sonhos para vislumbrar, devaneios para imaginar.
Acampavam em qualquer terra por uns quantos meses e durante esse tempo levavam a fantasia ao povo rude mas também aos importantes do local.
O empresário era o primeiro a dar a cara. Fazia os contactos e negociações, enquanto o grupo se dava a conhecer nas ruas e praças com mais gente, namorando os potenciais espetadores.
Armava-se o palco ou alugava-se a sala da aldeia; imprimiam-se uns cartazes distribuídos pelo barbeiro ou a mercearia; ofereciam-se bilhetes ao diretor do jornal, se houvesse algum, para que tivesse mais entusiasmo ao anunciar os espetáculos.

E por ali iam ficando, enquanto o reportório atraísse a assistência sôfrega de emoções.
Na província, mais especificamente no norte de Portugal, a pronúncia fechada aliava-se aos comuns erros gramaticais e aos improvisos já testados, destinados a provocar o riso geral na interpretação dos clássicos já muito “amachucados” por esse uso. O texto, aqui chamado de casco, seguia de terra em terra; geração em geração, cada vez mais ajustado às agruras desta interpretação.
Coexistiam com o teatro nos grandes salões privados e com as companhias residentes nas numerosas salas que foram surgindo, a partir da segunda metade do século XIX, nos principais centros urbanos, até nos bairros modestos, mas também na província, que permitiam mais condições e alternativas para a representação. E

m Lisboa, estes teatros populares também eram presença assídua nas feiras – Amoreiras, Belém e Campos Grande; mais tarde Alcântara, na zona do atual Parque Eduardo VII e em Santos – e constituíam o divertimento de eleição, em especial nos meses de verão.

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E, quando o animatografo invadiu as salas disponíveis e captou o público, ávido de novidades, as pequenas companhias voltaram a fazer-se à estrada, dependendo novamente dos seus teatros-barraca para sobreviver, disputando espaço também com algumas experiências de cinema ambulante que começaram a proliferar já no século XX.



À margem
A companhia teatral de Rafael Oliveira terá sido a última desta tradição de teatro itinerante a desaparecer do panorama cultural português. Fundada em 1918, sobreviveria à morte do seu fundador, só sendo dissolvida em 1975. Com uma opção clara pelos teatros de província, apenas se estreou em Lisboa em 1962.
Muitos artistas seriam ambulantes por opção, outros por tradição familiar, outros ainda porque não almejaram outros palcos. O teatro itinerante, no entanto, “deu” muitas "estrelas" ao teatro dos chamados grandes palcos.

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A atriz setubalense Ângela Pinto; a grande Palmira Bastos (na imagem), filha de um casal de artistas espanhóis que trabalhavam em companhias ambulantes; Camilo de Oliveira e Eunice Muñoz são alguns exemplos.
Os Dallot apareceram em 1870 e formavam uma verdadeira farândola. Quando começaram por cá, estes franceses tinham uma espécie de circo com 20 figuras, entre funâmbulos**, acrobatas e palhaços. Tinham o seu próprio teatro-barraca e foram das famílias mais prolíferas dos finais do século XIX, com um percurso que começa com espetáculos de ginástica, teatro mecânico, física recreativa, cosmorama e circo, passando depois para comédias ingénuas, misturadas com as capacidades do extraordinário cavalo elástico e outros números alucinantes.

Os descendentes dos três irmãos Dallot mantiveram-se ligados ao teatro de feira e em espaços fixos, protagonizando muitos episódios rocambolescos, quer no palco, quer nas suas vidas, de terra em terra.

Depois ainda havia o Joaquim Carpinteiro, que na sua voz inconfundível anunciava “É entrar meus senhores! Comprem os bilhetes que vai dar-se a última função!”
Mas isso é outra história…


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*Segundo Agustín de Rojas, em Viaje entretenido (1604), as companhias itinerantes espanholas, designavam-se consoante o número de componentes e o género que representavam. Na origem, farândola era um grupo constituído por sete ou mais homens e três mulheres.

**Um funâmbulo é um artista que faz o seu número equlibrado numa corda ou arame. 

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As imagens são meramente ilustrativas do tema.
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Fontes

Percursos itinerantes - A companhia de Rafael de Oliveira, Artistas Associados, Dissertação para obtenção do grau de Mestre em Estudos de Teatro de José Guilherme Mora Filipe; Universidade de Lisboa - Faculdade de Letras - Estudos de Teatro; 2007. Disponível em https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/23361/1/ulfl061184_tm.pdf
Atores errantes de oitocentos - A vida errante de companhias ambulantes; de José Guilherme Mora Filipe, publicado em Sinais de Cena nº12; dez 2009. Disponível em https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/29128/1/FILIPE%2C%20Guilherme%20%282009%29%20Actores%20Errantes%20de%20Oitocentos.pdf
Teatro de Feira: o Genuíno Popular do Público Erudito?; de Paula Gomes Fernandes; Universidade de Lisboa – Centro de Estudos de Teatro; Popping the Question: The Question of Popular Culture Issue 4 – 2015. Disponível em https://lisbonconsortium.files.wordpress.com/2012/12/4-paula-magalhc3a3es-teatro-de-feira.pdf

Hemeroteca Digital de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt
Revista do Conservatório Real de Lisboa
Nº4-6; ago-out 1902
Almanaque
Out 1960


Estroinas e estroinices – Ruína e morte do Conde de Farrobo, de Eduardo de Noronha; João Romano Torres e Cª Editores – Lisboa; composta e impressa na empresa de Manuel Lucas Torres – Lisboa 1922. Disponível em
https://archive.org/details/estroinaseestroi00noro/page/182/mode/2up?q=dallot

Imagens
Imagens
https://desenvolturasedesacatos.blogspot.com/2017/09/teatro-de-marionetas.html
Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Joshua Benoliel
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/002484
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/001233
Arnaldo Maia Serôdio
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/SER/000288
Alberto Carlos Lima
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/003218
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/001350

PT/AMLSB/CMLSBAH-TMSL/16/000244

 

 

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