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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

A ilha das princesas trágicas e dos imperadores condenados

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Belos, jovens, ricos e... destinados a morrer cedo, para consternação geral. Estas são as histórias das cabeças coroadas que rumaram à ilha da Madeira em férias ou numa busca desesperada de tratamento para os males do corpo e da alma. E que curiosas as relações entre estas dramáticas figuras da realeza europeia.

 

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Houve um tempo em que as casas reais europeias elegiam a Madeira para passar o Inverno. A ilha era apontada como resposta para curar a tuberculose e outras maleitas persistentes, atraindo os doentes mais abastados. Pelo menos cinco membros das famílias coroadas que por ali passaram tiveram um fim precoce e trágico, lançando um véu de tristeza sobre todo aquele verde. Uma dolorosa mácula no florido paraíso atlântico.

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A jovem e bela Maria Amélia de Bragança, última filha de D. Pedro IV de Portugal, rumou ao arquipélago em 1852. Era a sua última esperança, o ato desesperado de uma mãe para salvar a filha tísica. A viúva do monarca, falecido 18 anos antes, também de tuberculose, acompanhou a “Princesa-flor”. Premonitoriamente, instalaram-se na Quinta das Angústias.

De nada valeu o desvelo. Seis meses depois, em fevereiro de 1853, a doce Maria Amélia dava o seu último suspiro.

O corpo embalsamado foi velado durante três meses e transportado para o Continente, onde acabaria por ser sepultado em S. Vicente de Fora (Lisboa), onde já se encontrava o pai.

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Desconhecia-se então que, ainda no mesmo ano, a irmã e rainha, D. Maria II, também ali encontraria repouso eterno, após morrer no funesto parto do seu 11º filho, a que assistia, mais uma vez impotente, a imperatriz sua madrasta, mãe da falecida “Princesa-flor”.

Ora, esta jovem havia estado noiva de Maximiliano de Habsburgo. O compromisso partiu do sentimento que surgiu entre ambos, quando este fez escala em Lisboa, por coincidência também durante uma viagem para a Madeira, de onde abalaria cerca de um mês antes da chegada da amada.

 

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Este irmão mais novo do Imperador Francisco José I, encantou-se com as magníficas paisagens e intrigou-se com a carapuça tradicional dos madeirenses. Andou de carro-cesto e acabou por doar uma soma considerável para obras locais.

Regressaria mais duas vezes. Em 1859, já casado com Carlota da Bélgica, registou fortes impressões da sua estadia: frutos e vinhos provados, os passeios, as festas em que participaram… Em 1864 volta à ilha a caminho do México, onde assumiria o trono de imperador.

 

 

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Seria curto o reinado, terminado em 1867 com o seu fuzilamento por forças afetas aos movimentos republicanos*. A mulher conseguiu escapar, mas passou o resto dos seus dias alheada da realidade, louca, confinada num castelo.

Carlota não foi a única imperatriz deprimida a visitar a madeira. A elegante Isabel da Áustria, imortalizada com o nome de Sissi, procurou o arquipélago por duas vezes, por influência do cunhado, o malogrado Maximiliano, e por prescrição médica, procurando apaziguar os males do corpo e da alma.

Ali permaneceu em 1860, numa das quintas de aluguer, comemorando esse Natal, o seu 23º aniversário e a Páscoa do ano seguinte, sem o marido ou os filhos e imersa numa melancolia que a fraca vida social não ajudou a combater.

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Voltaria passadas mais de três décadas, ficando hospedada no célebre Hotel Reid´s Palace. Tendo perdido os pais, uma irmã e o filho num curto espaço de tempo, a vida da imperatriz era mais amargurada do que nunca. Aos 56 anos, Isabel quis passar incógnita, viajando com o nome de Condessa de Hohenems, mas não conseguiu. Cinco anos depois, também estaria morta, esfaqueada por um anarquista italiano.

Ao viúvo de Sissi, Francisco José I, sucederia, já em 1916, o sobrinho-neto, Carlos I.

Não aqueceu o lugar, porque, decorridos apenas três anos, este que foi o último imperador da Áustria (também rei da Hungria, da Croácia e da Boémia), encontrou na Madeira o porto seguro para o exílio, após abdicar em favor da autodeterminação dos vários povos sob a sua coroa, logo após o fim da I Grande Guerra.

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Chegaria, com a família, a 19 de novembro de 1921, mas o paraíso não lhe trouxe a felicidade ou sequer a saúde pela qual a ilha era conhecida. Adoeceu gravemente, com uma pneumonia, morrendo a 1 de Abril do ano seguinte, aos 34 anos.

Apesar da boa impressão que Carlos da Áustria, a mulher, Zita, e a sua numerosa prole deixaram entre os madeirenses, ninguém imaginaria que o seu túmulo, na Igreja de Nossa Senhora do Monte, no Funchal, se tornaria local de peregrinação, tanto por curiosidade, como por fé, já que Carlos seria declarado beato por João Paulo II.

No culminar de um logo processo começado em 1949, a Igreja Católica determinou a sua interseção em duas curas não explicadas pela ciência.

 

À margem

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A morte da denominada Princesa-Flor (na imagem, em criança, com a mãe), acabaria por dar origem a um dos primeiros sanatórios europeus e primeiro em Portugal, para o tratamento da tuberculose. A mãe, a imperatriz Amélia de Leuchtenberg, viúva de D. Pedro IV, iniciou imediatamente esforços para levar esta ideia por diante, perpetuando a memória da filha e agradecendo, assim, a boa receção e tratamento que receberam na Madeira. A autorização ainda seria dada por D. Maria II, irmã da princesa, que, como já vimos, morreria no mesmo ano de 1853.

 

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O grande edifício, que foi a primeira obra portuguesa construída por concurso público internacional, ainda existe. Durante muitas décadas recebeu doentes tuberculosos e dedicou-se ao estudo da doença e da forma como o clima pode influenciar o seu tratamento, tendo depois alargado a sua atividade ao ensino e ao apoio a crianças e idosos. Atualmente constituída em Fundação, a instituição depende da coroa sueca.

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Sendo a Madeira vista como uma espécie de sanatório natural, amplamente publicitado e aconselhado por numerosos médicos, em especial na segunda metade do século XIX, atraia um turismo terapêutico dominado pelos britânicos, com fortes ligações à ilha. Em 1880, morreria ali Sarah Forbes Bonetta, nascida princesa de uma tribo nigeriana e oferecida como presente diplomático à rainha Vitória. Tal como Maria Amélia de Bragança, não sobreviveu à tuberculose.

Mas isso é outra história…

………………….

*Curiosamente, durante muito tempo subsistiu o boato de que a estátua de D. Pedro IV que orgulhosamente se ergue no Rossio, em Lisboa, representaria, na verdade, Maximiliano do México que, por coincidência, era sobrinho da primeira mulher do rei português. Contava-se que, quando a encomenda do monumento a D. Pedro foi feita, a estátua do desgraçado austríaco que rumou à América Latina encontrava-se já concluída e sem serventia, devido à morte daquele, tendo sido enviada como se se tratasse do rei português pai de D. Maria II e da Princesa-flor.

…………………….

Fontes

Os Habsburgo e a Madeira – Notas documentais

https://abm.madeira.gov.pt/os-habsburgo/

A Fundação Princesa Dona Maria Amélia - Fundação Princesa Dona Maria Amélia (fundacao-princesaamelia.pt)

https://www.monografias.com/pt/trabalhos/zita-burbon-parma/zita-burbon-parma.shtml

http://flemingdeoliveira.blogspot.com/2010/06/sissi-e-os-habsburg-em-portugal-madeira.html

Sarah Forbes Bonetta: a história pouco conhecida da escravizada que se tornou afilhada da rainha Vitória! | Rainhas Trágicas (rainhastragicas.com)

Sara Forbes Bonetta – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

Amélia de Leuchtenberg – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

Pedro I do Brasil – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

Carlos I da Áustria – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

Maximiliano do México – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

Carlota da Bélgica – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

Francisco Carlos da Áustria – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

Francisco Carlos da Áustria – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

Isabel da Baviera, Imperatriz da Áustria – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

Maria II de Portugal – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

Maria Amélia de Bragança – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

 

Imagens

Museus da Madeira – Plataforma online

https://museus.madeira.gov.pt/

Museu Quinta das Cruzes

Baía do Funchal vista de Santa Catarina, por Tomás José da Anunciação

Piquenique, por Tomás José da Anunciação

Maria Amélia de Bragança, por Friedrich Dürck - Museu Imperial, domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2030681

Imperatriz Isabel da Áustria, por Anton Einsle - www.kunstkopie.de, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1746586

Dom Pedro II e seu primo Maximiliano de Habsburgo, futuro imperador do México, durante sua visita ao Brasil em 1860. Maximiliano não teve uma boa impressão do Brasil, ficou chocado com as condições que a população escrava vivia e a crueldade e indiferença de seus senhores. : brasil (reddit.com)

A imperatriz Carlota da Bélgica, por Albert Graefel (ca.1860), domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=406426

Carlos I da Áustria (492) Pinterest

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