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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

A mãe de todas as cheias

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A “cheia grande” de 1876, a maior registada até agora, permanece na memória coletiva de muitas vilas e aldeias de Portugal. De norte a sul, a devastação foi assustadora, não deixando pedra sobre pedra e matando sem piedade.

Vários dias de chuva torrencial resultaram numa cheia nunca vista, com consequências devastadoras em todo o País. Em dezembro de 1876, os grandes rios que atravessam o nosso território galgaram as margens, cobriram os campos e ameaçaram as casas. Deixaram povoações isoladas, arrastaram animais e pertences, ditaram o cancelamento de serviços essenciais, transformaram a paisagem e as vidas de todos. Vários navios naufragaram à vista de terra.

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Foi a maior cheia medida e documentada no Tejo. Uma semana depois do pior, ainda as gentes de Valada do Ribatejo recebiam refeições e outros bens necessários, que chegavam de barco, porque continuavam isoladas. Em Vila Velha de Rodão, a água atingiu cerca de 26 metros, as populações de Vila Franca, Benavente, Salvaterra, Reguengo do Alviela e muitas outras tiveram que se refugiar em verdadeiras ilhas criadas nas zonas mais altas.
No Vale de Santarém só se avistava, aqui e ali, uma chaminé mais altaneira e as copas das árvores.
Em Torres Vedras, o rio Sizandro “que muitas vezes seca completamente na estiagem, cobriu todas as várzeas das suas margens”. As casas “na baixa da vila, foram abandonadas. A gente pobre foi recolhida no hospital, onde lhe deram alimento e agasalho”.

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Coelhos e lebres encontraram abrigo em cima das árvores e muitas cobras, levadas à força dos campos, apareceram em locais impensáveis, como os vapores atracados em Lisboa ou na Cova da Piedade.
Em Alcochete, deram à costa bois e cavalos mortos, pipas de vinho e muitos destroços.

As linhas de telégrafo ficaram inoperacionais durante dias em que igualmente não houve correio entre o norte e o sul do País.

 

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A linha férrea teve a circulação condicionada e até suspensa em vários locais. As pontes de caminho-de-ferro de Xabregas e sobre o rio Vouga estiveram em risco de derrocar. Em Alenquer, duas travessias colapsaram. Em Elvas, ruiu uma ponte sobre o Caia e muitas outras vias ficaram intransitáveis um pouco por todo o lado. O Guadiana chegou à praça principal de Mértola e destruiu muitas construções no Pomarão.

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O Douro também fez das suas, subindo cinco metros, inundando inúmeras ruas e chegando ao primeiro andar das casas, em Miragaia. O Porto, aliás, esteve vários dias às escuras, porque o circuito de gás da iluminação pública foi interrompido.
O Mondego submergiu toda a zona baixa de Coimbra, obrigando muitas pessoas a procurar acolhimento no antigo convento de São Francisco.
O rio Ave matou um moleiro que tentava salvar alguns sacos de milho e até em Guimarães, ribeiros transformaram-se em rios com um caudal que não coube nas margens.

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Com graves prejuízos, na ria de Aveiro, que se “converteu num oceano”, em Alcochete (Tejo) e em Alcácer do Sal (Sado) dissipou-se toda a produção de sal armazenada, tal como se perderam todos os moinhos e engenhos das margens dos rios Âncora e Este. Desapareceram muitas cabeças de gado e culturas agrícolas. A azeitona que ainda não havia sido colhida, desapareceu.

 

Em Alcoutim, no Algarve, a situação era “medonha”, tal o grau de destruição

Caíram muros, árvores e casas, deixando centenas desalojados e um número indeterminado de mortos, arrojados pelas águas, afogados ou soterrados.

A fome depressa surgiu, porque numerosos foram os celeiros e armazéns arruinados com o que tinham no interior.
No meio de tanta devastação, os jornais davam conta de pequenos sinais de esperança porque, como sempre acontece em épocas desesperadas, algumas pessoas revelam-se verdadeiros heróis, com uma coragem e uma presença de espírito que ajudam a salvar quem está em perigo e dão alento quanto ao que o futuro trará.
O trauma, no entanto, permanece na memória coletiva de algumas povoações e em certas localidades ergueram-se depois lápides que lembram a “cheia grande”… e como foi possível superá-la.

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À margem
Se a história guarda registo das grandes cheias, também não ignora os mais severos períodos de seca, cada vez mais frequentes, em especial no sul de Portugal. Há 80 anos que no nosso País se sistematizam os dados sobre precipitação, temperatura e percentagem de água no solo, permitindo saber que as maiores secas recentes se verificaram entre 1943 e 1946 e de 2004 a 2006. Quando a seca se prolonga, mais do que a informação científica reunida, para o cidadão comum são outro os sinais inequívocos dessa triste realidade. Antigas construções como as pontes de Rio Mourinho (Santa Susana, Alcácer do Sal) e Oriola (Portel); uma antiga aldeia no concelho de Ourique ou a aldeia comunitária de Vilarinho das Furnas, no Gerês, há muito cobertas pelas águas e quase esquecidas, emergem à vista de todos, testemunhas fantasmagóricas de uma outra vivência que já não volta.
Mas isso é outra história…..

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aqui falei de tempestades devastadoras em Portugal, como a Cheia de Marrocos
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As imagens presentes são meramente indicativas da sitiuação, mas não correspondem à época relatada.

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Fontes
Biblioteca Nacional de Portugal em linha
www.purl.pt
Diário Illustrado
5º ano; nº1410 – 08 dez 1876
5º ano; nº1411 – 09 dez 1876
5º ano; nº1412 – 10 dez 1876
5º ano; nº1413 – 12 dez 1876
5º ano; nº1414 – 13 dez 1876
5º ano; nº1415 – 14 dez 1876
5º ano; nº1416 – 15 dez 1876
5º ano; nº1418 – 17 dez 1876
5º ano; nº1419 – 19 dez 1876
5º ano; nº1422 – 22 dez 1876
5º ano; nº1423 – 23 dez 1876


Tágides – Rio tejo, as grandes cheias 1800-2007 de João Mimoso Loureiro; Administração da Região Hidrográfica do Tejo S.A.; Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional – 2009. Disponível em https://apambiente.pt/_zdata/Divulgacao/Publicacoes/Tagides/TAGIDES_01.pdf

https://www.ipma.pt/pt/oclima/observatorio.secas/pdsi/apresentacao/evolu.historica/

https://www.omnia.ie/index.php?navigation_function=2&navigation_item=%2F2022075%2F11002_fms_dc_115095&repid=1
https://nationalgeographic.sapo.pt/natureza/actualidade/2450-secas-mais-longas-e-intensas-em-portugal
https://sicnoticias.pt/pais/2017-12-13-Seca-revela-antiga-aldeia-de-Ourique-abandonada-ha-45-anos
https://www.dn.pt/arquivo/2005/seca-extrema-revela-aldeia-submersa-de-vilarinho-das-furnas-610236.html
Imagens
Fundação Mário Soares
http://www.fmsoares.pt/
http://www.prociv.pt/pt-pt/RISCOSPREV/RISCOSNAT/CHEIAS/Paginas/default.aspx
http://ruadealconxel.blogspot.com/2008/02/cheias-do-guadiana-horrvel-tenebrosa-e.html
https://vedrografias2.blogspot.com/2017/01/a-cheia-grande-de-7-de-dezembro-de-1876.html?m=0
https://recordeuropa.com/noticias/portugal/cheias-no-mondego-com-diminuicao-do-grau-de-risco-23-12-2019/
Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal
Arquivo Municipal do Porto

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