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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

A metrópole acolheu em festa os seus soldados nas campanhas de pacificação africanas

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Os jovens foram recebidos como heróis, depois de terem participado naquela que foi a primeira guerra colonial portuguesa, ainda em finais no século XIX.

O mês de janeiro de 1896 foi de festa. Por todo o País, multiplicaram-se comemorações diversas para receber os militares que haviam regressado de África com uma aura de heróis, após terem derrotado algumas revoltas locais contra o poder colonial. Em Alcácer do Sal, como em outras vilas e aldeias, as bandas, as entidades oficiais e a população em geral reuniram-se para demonstrar o seu regozijo pelo regresso, sãos e salvos, dos soldados que cada terra tinha “dado” às campanhas de pacificação em África.
Em Alcácer do Sal foram pelo menos dois os expedicionários acolhidos com vivas, aplausos, brindes, foguetes, beberetes em casas particulares, récitas no teatro Pedro Nunes (devidamente engalanado a preceito) e outras tantas iniciativas organizadas por uma comissão especialmente criada para o efeito na redação do jornal Voz do Sado, constituída por Leopoldo Mera; Cassiano Martins Branco, Manuel da Silva Tavares, Artur Parreira e Joaquim António dos Reis Cordeiro.

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Não admira tanto entusiasmo. Depois de diversas derrotas sofridas ao longo de anos nas incursões pontuais levadas a cabo pelas nossas tropas no continente africano, finalmente os militares portuguesas nos enchiam de orgulho, “combatendo, desbravando e vencendo as hostes de um dos mais fortes e temidos inimigos do nosso prestigio e domínio colonial”, com “feitos de inexcedível bravura em Majacase, Coollela e Marracuene” (Moçambique), noticiava aquele jornal alcacerense.
Efetivamente, em resultado do Ultimato inglês (1890) - que nos instigou a “ter mão” nas províncias ultramarinas, sob pena de as perder - e de algumas sublevações nos nossos territórios, o Estado resolveu agir em todo o Império. Até abril de 1895, seguiram para Moçambique três expedições, num total de 2.886 soldados brancos provenientes da metrópole. Apesar dos números muito baixos, quando comparados com o esforço militar dos nossos parceiros europeus nas suas colónias, esta movimentação marcou uma reviravolta na colonização nacional e constituiu a primeira guerra colonial dos tempos modernos.

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Um marco emblemático nessa reviravolta foi a chegada a Lisboa, a 13 de março de 1896, do “leão de Gaza”, Gungunhana,  imperador africano feito prisioneiro por Mouzinho de Albuquerque.
O retorno dos “bravos que em África combateram em prol da pátria” foi pois um momento de júbilo nacional.
Em Alcácer, os jovens andaram pelas ruas acompanhados pelas bandas das sociedades “Amizade”, “Progresso” e pelo Sol-e-dó da Sociedade 1º de Janeiro (já desaparecida). Por iniciativa, nomeadamente, dos médicos José Gentil e José Dias de Vasconcelos fizeram-se recolhas de dinheiro para ajudar na vida futura dos rapazes que, durante uns dias, foram o centro das atenções nesta vila alentejana.
Até a Câmara, não querendo ficar de fora dos festejos, aprovou um voto de congratulação pelo “brilhante feito d' armas dos nossos briosos militares na guerra de África”.
Apesar do sucesso destas denominadas campanhas de pacificação e das ações de exploração e estudo do território, efetivamente os números de militares usados podiam ser considerados ridículos quando comparados com os outros países europeus com colónias, correspondendo a uma média de um soldado por cada 154 km2, numa vasta área de dois milhões de km2, enquanto que na metrópole havia um soldado para cada três km2. Os números espelhavam, a debilidade financeira do País e eram insuficientes perante a enorme ameaça das outras potências que de tudo fizeram para açambarcar as áreas historicamente detidas por Portugal. Com tantas lacunas e perigos, espanta mesmo é que este pequeno País tenha conseguido, contra tudo e contra todos, manter as suas colónias até aos anos 70 do século XX.

À margem

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O triunfalismo derivado das vitórias de 1895 não durou muito. Em 1904, as tropas portuguesas sofreram uma pesada derrota que ficaria para a história como o “desastre “ ou o “massacre” de Pembe, pois a batalha ocorreu no vau do rio com este nome, em Angola, no funesto dia 25 de setembro. Morreram cerca de 250 militares portugueses, 109 dos quais provenientes da metrópole. O desaire teve um forte impacto social, que José Eduardo Agualusa resume no seu romance “A conjura”: “O Império empalideceu de medo, fúria e vergonha”. Efetivamente, para além do grande aproveitamento político por parte da oposição ao regime, o País, que anos antes tinha recebido os seus soldados em festa, multiplicou-se em numerosas e sentidas cerimónias fúnebres, de pesar e luto. Dez anos depois, Portugal estava novamente mergulhado numa guerra que não tinha meios para enfrentar. Seria a defesa das suas possessões africanas contra a ofensiva alemã que ditaria a entrada na I Grande Guerra, com terríveis consequências económicas e humanas.
Mas isso é outra história...

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Fontes

Biblioteca Nacional de Portugal
Jornal Voz do Sado
10 janeiro 1896
30 janeiro 1896


Portugal e as campanhas de África: da Imposição de soberania à Grande Guerra, Carlos Filipe Afonso e Vítor Lourenço Borges (cord.); Instituto Universitário Militar; Coleção ARES; Centro de Investigação e Desenvolvimento – dez 2015.

 

Imagens
https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Coolela

https://pt.wikipedia.org/wiki/Combate_de_Marracuene#/media/Ficheiro:Combat_de_marracuene.jpg

https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_do_vau_do_Pembe

Arquivo Municipal de Lisboa
http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt
José Chaves Cruz
PT/AMLSB/CRU/000198

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