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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

A misteriosa princesa de olhos tristes e alma de arquiteto

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A capela, em honra do rei mártir, ainda lá está, lembrando a sua passagem pelo Porto, mas nunca se cumpriu a vontade de Frederica de Montléart, a enigmática aristocrata que, contra tudo e contra todos, teimou em construi-la.

A primavera de 1854 foi marcada pela chegada a Portugal de uma estranha mulher. Dizia-se princesa. Andava sozinha, de dia e de noite, demonstrando grande coragem e intrepidez, numa altura em que às mulheres “de bom porte” estavam vedadas certas liberdades. A sua conduta, a simpatia perante os poucos com quem se relacionou e os seus olhos, tão belos quanto tristes, impuseram respeito e até reverência entre os intrigados cidadãos que com ela privaram, em Lisboa e no Porto, onde passou grandes temporadas. Chamava-se Frederica Augusta de Montléart e queria construir uma capela onde se rezasse pela alma do seu irmão, Carlos Alberto (na imagem), nostálgico rei da Sardenha, que escolheu o nosso país como última morada. O “traço” do edifício foi firmado pela própria, já que o trabalho dos arquitetos portugueses não pareceu agradar-lhe.

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A capela, que ganhou o nome do monarca obrigado a abdicar do trono após derrotas políticas e militares, ainda lá está, aninhada nos jardins que rodeiam o Palácio de Cristal, no Porto. A sua construção, no entanto, foi tudo menos pacífica, a começar pela pomposa cerimónia de lançamento da primeira pedra, onde, como é da praxe, tudo o que era gente importante, sobretudo políticos portuenses, quis marcar presença.
Não importou que, quer a câmara, quer o governo civil, ainda não tivessem aprovado o projeto ou a cedência do terreno, um espaço com 70 por 107 palmos (sim, palmos) no campo da antiga Torre da Marca, na época um descampado muito próximo da casa onde morreu Carlos Alberto.
Frederica Augusta encomendou projetos a um arquiteto de Lisboa e dois do Porto, mas já tinha uns esboços feitos pelo seu próprio punho e foram esses que vingaram.

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A situação gerou natural polémica, que se amplificou nos jornais, para além de terem surgido suspeitas que a princesa não era quem dizia ser – pois é filha de um segundo casamento da mãe, pertencente a uma linhagem menos badalada.
Em Itália, tal empreendimento foi repudiado pelo governo e pelo resto da família Saboia, enquanto, que em Portugal, se legava que o “risco” não era característico da nossa tradição arquitetónica, que a construção e fazia sem rumo ou fiscalização, ficando todas as importantes decisões a cargo do mestre pedreiro, António Lopes Ferreira, que se tornou, assim, coautor do projeto

capela princesa porto 6.GIFCom a princesa frequentemente ausente de Portugal, não admira que a obra tenha decorrido a um ritmo irritantemente lento, o que exasperava a promotora. A primeira missa só foi rezada em 1861, depois de muitas peripécias e da chegada das esculturas que adornam a fachada e o altar-mor, talhadas em Paris por Alexandre Oliva.
A utilização da capela também não foi menos conturbada. Frederica tinha firme intenção de aquela servir exclusivamente para orar pelo "mártir" seu meio-irmão, mas tal não foi o que aconteceu, logo a começar pela visita do sobrinho-neto Humberto, futuro rei de Itália, durante a qual se fizeram grandes festas, mas não se homenageou o desditoso avô.
Desgostosa com tanto abuso, a princesa entregou a gestão do espaço à Irmandade do Carmo, incumbida de levar por diante missas pela alma de Carlos Alberto e, mais tarde, doou-a ao nosso rei D. Luís. A esta oferta não terá sido estranho o facto de este ter anunciado, meses antes, que iria casar com Maria Pia, também ela uma Saboia, neta de Carlos Alberto e filha do homem que unificou a Itália, Vitor Emanuel II, por sua vez filho do rei deposto.capela princesa porto 8.GIF


Por ironia do destino, essa mesma rainha de Portugal também terminaria a sua vida exilada, como o avô, forçada a regressar à sua Piemonte natal pela implantação da república em Portugal.

Carlos Alberto, por outro lado, foi muito acarinhado no Porto. Ainda hoje é recordado, dando nome a uma praça e a um teatro, para além da capela desenhada pela saudosa irmã.

 

 

À margem

Frédérique Auguste Marie Xavérine Cunégonde Julie de Montléart viveu 70 anos (1814-1885) cheios de aventuras e tristezas, mas foi, a vários títulos, uma mulher excecional para a sua época. Em vez de se acomodar à vivência que a posição social lhe conferia, empenhou-se em causas, como a homenagem ao seu meio irmão Carlos Alberto da Sardenha, a defesa dos direitos dos animais ou o apoio aos desfavorecidos.
Era filha do segundo casamento de Maria Christina Albertina Carolina van Saksen-Koerland, princesa de Saxe-Curlândia, com Júlio Maximiliano Thibault, príncipe de Montléart.
Das suas longas estadias em Portugal contam-se alguns episódios, como aquele em que acolheu, no seu quarto, altas horas da noite, um homem ferido e embriagado. Só o deixou sair quando já estava sóbrio, tal como se tinha comprometido com o militar que o trouxe.

De resto, albergava-se em locais pouco luxuosos e sempre em quartos com porta para o exterior. Não queria dar satisfações sobre entradas e saídas.

O seu porte altivo contrastava com a sobriedade das indumentárias – modestas para alguém do seu estatuto. A sua pertinácia manifestou-se em numerosas ocasiões, não só quando conseguiu, com tantas dificuldades, erguer a capela no Porto, como quando frequentou as aulas de hebraico em Portugal. Fizesse chuva, sol ou vento, nunca faltava. Aliás, dominava pelo menos cinco línguas, entre as quais, o português.
Viveu em vários países e passou os seus derradeiros anos na Polónia, onde fundou várias escolas e, na grande mansão que habitava, criou um hospital onde tratava de desvalidos.
Casou com Karl Kurt von Wernitz, duque de San Simon e teve pelo menos um filho.
Foi encontrada morta no seu quarto na manhã do dia 30 de março de 1885. Dizem que se suicidou.

Mas isso é outra história...
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Fontes
A princesa Frederica Augusta de Montléart, de J. A. Pinto Ferreira. in Boletim Cultural, Câmara Municipal do Porto, ano XI, mar.-jun 1948; fascs. 1 e 2, Edições Marânus – Empresa Industrial Gráfica do Porto. Disponível em https://bmp.cm-porto.pt/Boletim_Cultural_da_CMP

http://www.dinastias.com/cgi-bin/gwd.exe?b=dinastias_tnnvspgmb;lang=en;i=19958

citando Manuscrit de Dominique de La Barre de Raillicourt, de l'Académie National d'Histoire, Lauréat de l'Académie Française et de l'Institut


https://www.findagrave.com/memorial/162269330/auguste-de_montl_art


https://aportanobre.blogs.sapo.pt/como-nasceu-a-capela-do-rei-carlos-14007


http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=15545


Arquivo Municipal do Porto
http://gisaweb.cm-porto.pt/

Reprodução de uma litografia da autoria de G. Cartagnola, retratando o rei Carlos Alberto da Sardenha.

Fotografias de Eduardo Pires de Oliveira