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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

A morte vestia-se de verde

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Um pigmento verde simplesmente maravilhoso, versátil e fácil de obter. Lindo para tingir um vestido de musselina; deslumbrante ao colorir o envolvente papel de parede; apelativo para pintar o brinquedo do bebé; sugestivo ao dar cor a sabonetes; relaxante como escolha de tonalidade para a colcha da cama; de aspeto simplesmente apetitoso na cobertura de um bolo. Este fantástico verde está em todo o lado e ninguém se cansa dele. Só tem um problema: mata!


Esta é a história do produto que, durante o século XIX, estava omnipresente na vida das pessoas, em especial na sociedade inglesa, que ditava modas para o resto do mundo. Foi assim que se chegou a uma situação de envenenamento à escala global. Tudo porque uns estranhos camponeses dos Alpes Austríacos, vieram dizer que tinham uma saúde de ferro porque desde pequenos se habituaram a consumir arsénio, duas a três vezes por semana.


vestido verde.jpgArsénio? Sim, arsénio! De um momento para o outro, aquela substância, que antes servia para matar ratos, para nos despacharmos de um inimigo insuportável ou de uma tia cuja herança tardava, passou a ser o mais apetecível dos manjares.


Daí a ser apresentado como panaceia para todos os males, foi um pulo. O arsénio, nas suas diversas apresentações, estava em todo o lado: na cosmética anunciava atenuar as rugas; em gotas era um verdadeiro elixir de bem-estar; servia para tratar maleitas tão diferentes como malária, artrites, tuberculose, diabetes, sífilis; dor de cabeça; reumatismo e tudo o mais que a indústria farmacêutica se pudesse lembrar: até teria propriedades afrodisíacas, claro!

papel de parede william morris&co_golden lily.jpg

Se pensa que isto já era mau, fique sabendo que o problema mesmo foi quando um senhor chamado Karl Scheele - a que devemos a codescoberta do oxigénio - produziu no seu laboratório um extraordinário composto à base de arsénio (arsenito de cobre) com uma fascinante coloração verde, que rapidamente começou a ser produzido industrialmente e usado em tudo a que se quisesse dar aquele hipnótico tom de verde, até para cobrir doces e outros alimentos.


Nunca a arte tinha conhecido um verde tão natural e brilhante.


A moda endoideceu com tão bela cor para tingir tecidos e fez o verde aparecer em cada canto.


Mas, a cereja no topo do bolo foi o papel de parede.

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O papel de parede figurava em todas as casas da época vitoriana e, assim se espalhou para todo o mundo civilizado, em especial os intrincados, sofisticados e requintados padrões de William Morris (exemplos nas imagens 4 e 5), o mais célebre e prolífico designer de papel de parede de todos os tempos…que adorava verde e, ainda por cima, tinha a sua própria mina onde extraía o indispensável arsénio.

Este belíssimo papel de parede tinha ainda uma outra vantagem: quando usado em quartos de dormir, afugentava, como que por milagre, os incómodos piolhos, percevejos e até as pulgas que se multiplicavam saudavelmente até nos melhores leitos.


Só havia um problema: começaram a suceder-se mortes inexplicáveis. Pessoas saudáveis tinham episódios de indisposição e mal-estar graves, adoeciam e muitas acabavam por sucumbir sem que se conseguisse perceber porquê.

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Até que um astuto químico italiano – Bartolomeu Gosio – fez uma série de experiências com o afamado pigmento, que juntou a batatas e pão bolorento. Percebeu que os ratinhos em contacto com os gases emanados daquelas mistura finavam-se em pouco tempo.
O verde, exposto à humidade, exalava gases mortíferos e, como se não bastasse, com um desagradável cheiro a alho.
Mesmo com tantas evidências, não foi fácil fazer vingar esta ideia, já que a indústria estava interessadíssima em continuar a vender as suas produções, quanto mais verdes, melhor.
De facto, muitos produtos à base de arsénio continuaram com venda livre até meados do século XX.
Os velhos hábitos são difíceis de abandonar, até porque o arsénio é usado na medicina tradicional chinesa há milhares de anos e, na Europa, pelo menos desde o século XII, ao que acresce o facto de existir naturalmente no nosso organismo.
Há outra explicação: o consumo em geral e a moda em particular têm muito de irracional: o tabaco também mata, não é?


À margem

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Ao longo da história muitas foram as figuras públicas que sucumbiram ao arsénio. Charles Darwing poderá ter sido uma destas vítimas, pois tomava regularmente a solução Fowler, um medicamento que o ajudava a controlar a tremura das mãos, mas que deixava severas marcas - nomeadamente o desenvolvimento de cancro em quem o consumia de forma continuada - e que só foi proibido nos anos 50 do século XX. Napoleão, sabe-se agora, morreu por envenenamento de arsénio para o que muito terá contribuído o facto de ter coberto as paredes da casa onde passou os seus últimos anos, na ilha de Santa Helena, com papel de parede verde como os prados da sua amada França.

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Outra vítima do mesmo veneno, mas esta, ao que tudo indica, deliberada, foi o nosso D. João VI, precisamente o único rei que enganou Napoleão, ao fugir para o Brasil antes da sua chegada. Análises recentes mostraram uma concentração de arsénio 130 vezes superior ao normal nas vísceras do rei, guardadas no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa. Estavam, tal como os órgãos de outros monarcas portugueses, em orifícios no pavimento da capela dos Meninos de Palhavã, os bastardos de D. joão V.
Mas isso é outra história...

 

Fontes
https://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/22040/1/O%20verde%20que%20não%20era%20esperança%20-%20versão%20submetida.pdf


https://www.publico.pt/2000/06/02/jornal/quem-matou-d-joao-vi-144687

https://redes.moderna.com.br/2017/02/06/napoleao-morto-por-um-papel-de-parede/


Imagens

Georg Friedrich Kersting [Public domain], via Wikimedia Commons - A Bordadeira, 1817. Pintura de Georg Kersting, atualmente propriedade do Museu Nacional da Varsóvia.
https://www.housedecorinteriors.co.uk/wallpapers/mor210429_golden_lily_wallpaper_indigo_william_morris_and_co_compendium_ii_wallpapers_collection/#.XEzMFPZ2tdg
http://www.jleo.site/read/1056
https://www.gaudions.com.au/products/william-morris-wallpaper-the-brook
Por Claude Monet - Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=132134

Por Charles de Steuben - Carl von Steuben, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=30478

Ilustração de Jaime Martins Barata, em Grandes Reportagens de outros tempos, de Amador Patrício, Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade, 1938, disponível em: http://www.tribop.pt/TPd/18/2/3/1/10

 

 

2 comentários

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    CV 29.05.2020

    Muito obrigada!
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