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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

A reconstrução do aqueduto e da fonte do Passeio

 

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A Câmara de Alcácer teve de hipotecar todos os seus rendimentos, em especial a renda do paço da vila, até à conclusão da obra, que incluía a construção de um lavadouro público.

Corria setembro de 1850 quando o Município de Alcácer do Sal decidiu adjudicar a Domingos do Coito a reconstrução do aqueduto de Rio de Clérigos e a edificação de um novo chafariz no cabo da vila. A obra impunha-se pelo estado de degradação em que se encontrava todo o conjunto, pondo em causa a única fonte pública de água potável nas próximidades. Os trabalhos, cujo resultado ainda é visível, foram executados rapidamente e incluíam um lavadouro com capacidade para 15 mulheres, provavelmente o mesmo que acabaria demolido já na segunda metade do século XX.

texto 25 (1).JPGA empreitada, arrematada pelo valor mais baixo proposto, consistia, nomeadamente, em “consertar todo o aqueduto”, com substituição das manilhas e seus apoios; construir um paredão junto à “casa d’água”; reformar o canal, que se achava a “descoberto no sítio do cerrado de João Alves Branco” e rebaixar o “alicerce do cano, desde o olival da Horta de Baixo até à arca d’água”.

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 A estrutura de aqueduto, hoje praticamente destruída, é ainda percetível no muro contíguo à fonte (na imagem 2 ).

O objetivo global era que não se perdesse “uma gota de água”, fazendo chegar “toda a que sai da arca d’água” ao novo fontanário, que ainda existe, mas não possui os dois tanques para o gado beber que são mencionados no contrato.

 As águas restantes da bica, eram conduzidas, “também emanilhadas por debaixo de chão”, ao terceiro tanque, “para se lavar a roupa”, a construir “no fim do passeio”, com “20 palmos de comprido e 15 de largo”.


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 Toda a tarefa foi executada por 1.900 reis, incluindo materiais, valor proposto pelo empreiteiro Domingos do Coito, que apresentou como fiador do bom cumprimento do contrato, nada mais, nada menos, que António Caetano de Figueiredo, o primeiro e único Visconde de Alcácer. Já a câmara, hipotecava “todos os seus rendimentos, em especial a renda do paço da vila”, a partir de 1 de janeiro de 1851 e até a quantia estar toda paga. 

No final, ainda teve que se indemnizar Joaquim Marques, “rendeiro da horta de Rio de Clérigos”, por prejuízos causados aquando da abertura do aqueduto.

Todo o investimento foi muito bem empregue. Durante muito tempo, a fonte do Passeio foi a principal origem de água potável da vila, em especial nos meses de verão, em que as outras bicas secavam. Cerca de um século após a sua reconstrução aqui relatada, ainda eram muitos os alcacerenses que dependiam daquela água.

 

À margem

A fonte ficou conhecida como “do Passeio” muito provavelmente pela proximidade ao único “passeio público” existente na terra, entendendo-se assim o atual jardim, desenhado ao gosto da época como local arborizado de lazer (na imagem).

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Por todo o País, há exemplos deste tipo de espaços, hoje maioritariamente desaparecidos ou transformados. Para além da vegetação, eram comuns os planos de água, habitualmente ornamentados com peças escultóricas; os coretos e um muro ou gradeamento com grandes portões em ferro, que confinavam o recinto. Em Setúbal, ficou conhecido o Passeio do Lago (já falei dele aqui), onde os banhistas deambulavam em busca de um pouco de sombra e os pescadores estendiam as redes. Em Lisboa, o Passeio Público “nasceu” com a reconstrução após o terramoto de 1755 e era uma continuação da praça do Rossio, acabando por ser demolido com a abertura da avenida da Liberdade. Tinha uma cascata com um nicho onde se podia apreciar a estátua de Anfritite, deusa grega do mar, e um terraço com ligação à praça da Alegria. No Porto, por outro lado, cinco décadas antes da plantação do Passeio Alegre (1888), o Passeio Público de São Lázaro, era o local de eleição, com repuxo, canteiros floridos, um tanque com água, iluminação a gás (uma novidade) e uns célebres concertos semanais onde se ia para ver e ser visto.

Mas isso é outra história...

 

 

Já falei de outras fontes existentes em Alcácer e da fama das suas águas, aqui.

 

 

Fontes

Fotografias atuais:

Cristiana Vargas

 

Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal

PT/AHMALCS/CMALCS/BFS/01/01/01/019

PT/AHMALCS/CMALCS/BFS/01/01/01/020

Pt/ahmalcs/cmalcs/fotografias/02/01/0045

 

Livro de Atas a Câmara Municipal de Alcácer do Sal

PT/AHMALCS/CMALCS/JJR/02/01/001

Jornal O Século

PT/AHMALCS/CMALCS/JJR/01/01/02/003-1

 

Do passeio público ao jogo de cartas – Apontamentos sobre os espaços ajardinados do Porto, de Luís Paulo Saldanha Martins, em VI Colóquio Ibérico de Geografia – Atas – A Península Ibérica, um espaço em mutação vol. II – Publicações da Universidade do Porto 1995, disponível em https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/20052

 

http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=1401

 

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