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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

António escolhia as vítimas entre a fina flor da sociedade lisboeta

antonio braz monteiro.JPG

 

 


Todos os dias, António Braz Monteiro apanhava o barco das 9 horas, em Cacilhas. Ao contrário dos outros passageiros, não se deslocava em busca de trabalho em Lisboa... se bem que isso de arrombar e assaltar as casas das famílias mais colunáveis da Capital já se tinha tornado um modo de vida.

 

 

ponte de embarque em cacilhas1.jpgHá larápios que têm o condão de conseguir granjear a simpatia e até a admiração da opinião pública. Foi assim com António Braz Monteiro, antigo funileiro transformado em "ladrão fino", como ficou conhecido em finais do século XIX.

Durante anos, conseguiu trocar as voltas à polícia. Usava os jornais como cardápio para escolher as vítimas - quanto mais ricas e viajadas melhor - e conseguiu sair da vulgaridade dos rapinantes que infestavam a cidade nesse longínquo ano de 1886.

cacilheiro3.jpg

 

Não era analfabeto, algo de raro na época para alguém na sua condição: simples trabalhador de uma fábrica de conservas em Cacilhas, na Margem Sul do Tejo, onde dava nas vistas pela forma de falar e de se apresentar, mais cuidada e sofisticada do que os outros operários, mas especialmente porque gostava de ler o jornal, prazer incompreensível para os demais, mas de grande utilidade na atividade que, lentamente, começou a preencher a maior parte dos seus dias.
Progressivamente foi aparecendo cada vez menos no cais do Ginjal. Apanhava o cacilheiro e desaparecia. Curiosamente, não denotava falta de rendimentos, como seria de esperar de quem assim procedia, pelo contrário, apresentava sinais exteriores de riqueza que ninguém entendia, nem a amante que com ele partilhava o leito, na travessa do Açougue, em Almada, nem a menina sua filha, encantada com os presentes que o pai lhe oferecia.
As ausências passaram a ser diárias, dando a entender que tinha nova ocupação em Lisboa.

Era verdade, António Braz Monteiro apanhava o barco das 9 e dedicava o percurso a folhear o Diário Ilustrado, dando sua especial atenção à coluna High Life, o que suscitava as chacota de quem disso se apercebia.
Riam por ignorância, não sabendo que dessa leitura dependia o desenrolar do resto do dia e também os seus proventos.

rua do arsenal2.jpg

 

Procurava avidamente saber quem, dos ilustres ali mencionados, se encontrava fora da sua casa lisboeta, em trabalho ou prazer, tendo especial interesse nas ausências prolongadas, na província natal, em vilegiatura marítima* ou termal. Depois, deslocava-se a uma casa que tinha por sua conta, na rua do Arsenal,  onde guardava as ferramentas do ofício.

Assim munido, rumava a uma das moradas que sabia vazia, forçava a entrada e abastecia-se com dinheiro e os bens de maior valor ou, enfim, o que mais maior cobiça lhe despertava.
Os objetos de fácil comercialização eram rapidamente transformados em dinheiro numa das muitas casas de penhores que na época tinham porta aberta em Lisboa. Depois era só gastar.


penhores.jpg

 

Com muito engenho, mas também uma grande dose de sorte, em tantas incursões, este nosso amigo nunca encontrou ninguém em casa, nunca foi visto nem usou de violência para com quem quer que fosse. Como trabalhava por conta própria, também não foi alvo de delação.
Este circuito, de tão simples e eficaz, demorou a ser percebido pelas autoridades, que se viram confrontadas com uma vaga de arrombamentos de que não havia memória. Por vezes eram duas casas por dia e só da nata da sociedade lisboeta, o que agravava a pressão sobre a polícia. Pouco a pouco, conseguiram seguir o rasto dos objetos “no prego” e assim chegar ao “nosso” larápio.
A sua história depressa correu de boca e boca e foi explorada pelos jornais.

Não se sabe quem foi o primeiro a chamar “ladrão fino” a António Braz Monteiro, mas foi com esse título que ficou para a história, pois não escapou a ninguém o delicado trato do antigo funileiro, a forma como trajava bem, expressava-se com facilidade e educação e até a alta qualidade da sua ferramentaria – dois valentes**, um escopro e uma gazua.

O facto de só roubar aos ricos fê-lo merecer o apreço da “arraia miúda” e o vasto leque de produtos roubados foi alvo de ampla discussão e prolongado pasmo: entre as expectáveis joias e talheres de prata, havia até livros, vestidos, sinetes, boquilhas, uma guitarra, um "hábito de Cristo" e uma apólice de seguro. Tudo junto, dizia a imprensa, formava um extraordinário bazar, capaz de encher a futura filial do Grand Magasin du Louvre.
Foi tanta a simpatia despertada que a imprensa até o tentou desculpar, atribcadeia do limoeiro fotografia.jpguindo tão intensa atividade de gatunagem a um apelo irresistível a que o ladrão fino não conseguia resistir. Uma doença, enfim, que explicaria a incursão deste homem no reino do crime, quando nada nele encaixava no que era a imagem rude, boçal e até feia que na época era entendida como a que deveria ser a apresentação de um criminoso.
Quer a atividade fosse inadvertida ou intencional, como parecem demonstrar todos os cuidados e sofisticação na forma de agir de António Braz Monteiro, o certo é que acabaria, como tantos outros, fechado na cadeia do Limoeiro, que é onde terminam as pistas sobre a sua vida, dez anos depois destes factos.

À margem

cacilhas.GIF

 

Entre Cacilhas e o cais do Ginjal ergue-se hoje um triste conjunto de edifícios que outrora albergavam armazéns e unidades fabris - tanoaria, têxteis, cortiça, construção naval, destilaria e conservas, como aquela em que trabalhava António Braz Monteiro. Cacilhas*** era pouco mais do que a rua central, quintas e o aglomerado junto ao Tejo, que fervilhava de atividade.

cais cacilhas4.jpg


A La Paloma seria, já no século XX, a maior das fábricas de conservas de peixe ali localizadas, empregando sobretudo mulheres contratadas em Peniche e no Algarve. Viviam à dezenas num armazém que o proprietário adaptou para o efeito. Ali eram igualmente produzidas as latas, com folha metálica que chegava de fragata, em fardos.
O trabalho era sobretudo sazonal. Quando os grandes carregamentos de peixe chegavam, quem não tinha ocupação, acorria em busca de poder ser útil na empreitada e assim ganhar para o pão.
Nada se perdia. O azeite sobrante seguia para o fabrico de sabão e as entranhas do peixe eram secas para servir de adubo na agricultura. O produto exalava um cheiro nauseabundo e era levado em carroças puxadas por burros.
A construção da Ponte 25 de Abril ditou o abandono de muito do tráfego fluvial e também desta zona de cais. Poucos anos depois, no entanto, no extremo oposto de Cacilhas, preparava-se a instalação do que viria a ser um dos maiores estaleiros navais da Europa. Nada voltaria a ser igual.

Mas isso é outra história...

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*Já aqui falei da vilegiatura marítima em Setúbal e de como a indústria conserveira acabou com ela.

** Pequena alavanca de ferro.

"valente", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/valente [consultado em 25-07-2019].

 

*** Também já falei da importante batalha a que Cacilhas assistiu, a propósito do tenebroso carrasco da torre


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Fontes
Biblioteca Nacional Digital
www.purl.pt
Diário Illustrado
15º ano; nº4:636 – 23 mar. 1886
15º ano; nº4:637 – 24 mar. 1886
15º ano; nº4:640 – 27 mar. 1886
15º ano; nº4:642 – 29 mar. 1886

25º ano; nº8:237 – 25 fev. 1896

Infâmia e fama – o mistério dos primeiros retratos judiciários em Portugal (1869-1895), de Leonor Sá, Edições 70, maio de 2018

https://canthecan.net/collectible/memorias-do-ginjal-%e2%80%a2-elisabete-goncalves/

https://uf-acppc.pt/jf-cacilhas/index.php/a-freguesia


Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LSM/000875


Joshua Benoliel
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/001220
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/000875

José Chaves Cruz
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/CRU/000524


Cadeia do Limoeiro
José Artur Leitão Barcia

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/BAR/000629

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/BAR/000297


https://almada-virtual-museum.blogspot.com/2016/06/crescimento-do-largo-de-cacilhas.html
postal Edição Martins

 

 

 

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