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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

As escandalosas noites no palácio do conde de Magalhães

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Filmes pornográficos, danças indecorosas, jogo ilegal…tudo isto no centro da Capital, em instalações onde, anos antes, se reunia a fina flor do jet set lisboeta. A história do verão quente de 1912.

Um baile de subscrição organizado pelas “ilustres damas da nossa aristocracia”, onde se destacaram o aspeto “verdadeiramente deslumbrante“ dos salões e as “toilettes esplêndidas”. Um antro de depravação, onde se reúnem dezenas de pessoas “desregradas e imorais”, jogando e aplaudindo películas vergonhosas e danças obscenas Apenas cinco anos separam estas duas descrições do mesmo espaço. O que de tão drástico aconteceu para o Palácio Magalhães, em Lisboa, ter passado de poiso de ricos e famosos a espaço de entretenimento da ralé?

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Entre 1907 e 1912 tudo mudou. Um curto período de tempo, mas simultaneamente tão determinante, desde logo com a mudança do sistema político em Portugal. O magnífico Palácio Magalhães, no centro da Capital, onde se realizavam lendárias festas de beneficência (até 1910), transformou-se em espaço de atividades indecorosas, frequentado pela populaça, mas também por cavalheiros, comerciantes e até deputados da nação, com públicas virtudes e vícios privados.

A ocupação que o notável edifício teve nos anos de estreia da Primeira República (1910-1926) escandalizou as famílias honestas da cidade e deu origem a uma verdadeira campanha pelo seu encerramento, na qual o jornal A Capital teve um papel fundamental.

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No início do verão desse longínquo ano de 1912, o jornalista Victor Falcão, visitou incógnito o espaço e traçou uma imagem degradante do que ali se passava e de quem o frequentava. Ilegal ou não, o Grupo Luso Brasileiro, em outra reportagem também denominado Club Eritanha, que funcionava no Palácio Magalhães, fazia-se divulgar através de panfletos distribuídos pelas ruas. À entrada, pagava-se sete tostões, mais um vintém de imposto de selo, cobrado à parte, sinal que, antes, como hoje, o fisco é omnipresente, qual divindade pagã.

 


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O interior primava pela semiobscuridade, num percurso labiríntico entre salas com “fauna” e movimentações diversas, consoante o gosto dos frequentadores: um verdadeiro recinto multiusos, como hoje se designaria.
A primeira experiência era o animatógrafo só para homens. No ecrã, exibiam-se “peliculas vergonhosas”, “tudo o que de mais repugnante e imoral se possa imaginar”, para contentamento da assistência, que reagia “com gritos e outros tipos de manifestações de entusiasmo”, até mesmo os velhotes, habitualmente “cheios de gravidade”, e ali rejuvenescidos.

francis dov.jpgDepois começaram as danças lascivas, a cargo de uma espanhola com “feições cansadas dos prazeres mais lúbricos” e péssima cantora. Algo que, aparentemente, pouco importava à calorosa assistência, em especial quando a mulher descartava a “semicamisa”, com que tinha começado os seus ritmos inebriantes.
Outros salões do denominado “palácio do deboche” escondiam igual número de surpresas: uma fanfarra executando uma “valsa ligeira”; um bufete onde algumas fêmeas incitavam ao consumo e ainda uma roleta onde se jogava de forma desenfreada.
Ali estava a escória da sociedade, mas também “rendez vous elegantes” com políticos, “dos mais austeros costumes e rígida moralidade” e ainda oficiais do exercito, desde o general “rotundo e circunspecto”, cujo corpo é um “tição apagado”, ao alferesinho, que naquela “escola de todos os vícios” buscaria ensinamentos para “multiplicar os prazeres da carne até ao infinito”, intuía outro repórter, chocado com tanta devassidão e clamando uma intervenção do Governador Civil, a bem das famílias honestas e da inocência das suas crianças.

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Os meses seguintes foram pródigos em novidades: Victor Falcão prestou declarações na polícia; recebeu cartas insultuosas e ameaçadoras dos assíduos do espaço, mas também outras de residentes na rua, que corroboravam a luta contra a imoralidade. Finalmente, noticiou-se o encerramento do Palácio Magalhães, desmentido por referências noutro órgão de informação.

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Mais não sabemos, porque se seguiu um silêncio sobre o tema.
Certo é que esse foi um verão muito quente em Lisboa, porque não faltam relatos de imoralidades a cada esquina. Parece que, por cada antro encerrado, mais surgiam, para escândalo de uns e gaudio de outros, das “prostitutas meio despidas” que pululavam pelas ruas, ao Club Paris que, na rua da Glória, tinha uma oferta “em tudo semelhante” à do Palácio Magalhães; passando pela “tourada só para homens” que os dinâmicos e criativos promotores do mencionado club organizaram e onde toureiras despudoradas desafiavam bezerros de leite. Um espetáculo no mínimo inusitado e criativo!
Tudo apenas aperitivos para o que se seguiria, com os cabarets a “explodir” em Lisboa apenas na década seguinte.

À margem


palacio magalhaes.gifO célebre palácio da rua de São José pertenceu ao espanhol António José de Orta, 1º Visconde de Orta, com cuja filha – D. Antónia Maria – casou António Joaquim Vieira de Magalhães – 1º Conde de Magalhães - que daria ao edifício muito do seu esplendor e a denominação que prevalece. Este político, que chegou a ocupar o cargo de ministro dos Negócios e da Fazenda (1870) e presidente da Companhia Real dos Caminhos-de-Ferro Portugueses, quando morreu, em 1903, era também ministro de Estado honorário e comendador da Ordem da Conceição.

António_Joaquim_Vieira_de_Magalhães wikipedia.jp

Desconheço como o imóvel passou a estar ocupado pelas atividades indecorosas aqui retratadas, já que permaneceu na família até 1948, quando foi adquirido pelo Ministério da Guerra à filha e herdeira do Conde, Maria Antónia d’Orta Vieira de Magalhães. Ali funcionou a Cooperativa Militar, até 1998. Alberga o Centro de Apoio Social de Lisboa (CASL) e é possível agendar visitas guiadas gratuitas: pelo menos é o que se anuncia na Internet. O palácio do Conde de Magalhães é um dos três edifícios onde se perspetivava desenvolver um projeto de turismo militar, que suscitou logo imensa polémica, assim que foi anunciado, em 2016.
Mas isso é outra história…
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As imagens são todas dos anos 40, 50, ilustrativas de artistas de cabaret com apresentação em Lisboa. Da época, não encontrei.
Para saber mais sobre os cabarets em Lisboa a partir dos anos 20, aconselho este excelente trabalho do blog Restos de Colecção

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Fontes
Hemeroteca Digital de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/
Jornal A capital
Nº661 - 1 jun 1912 ao nº871 - 31 dez. 1912
Biblioteca Nacional de Portugal, em linha
www.purl,pt
Diário Illustrado
21º ano, nº6:898 – 11 jun. 1892
32º ano, nº10:965 – 10 set. 1903
37º ano, nº12:132 – 22 jan. 1907
40º ano, nº13:102 – 8 mar. 1910

Jornal Diário de Notícias
https://www.dn.pt/portugal/interior/militares-querem-abrir-um-hotel-no-hospital-da-estrela-5029828.html
14 fev. 2016, consultado em 20 jan. 2019

https://geneall.net/pt/nome/40421/antonio-joaquim-vieira-de-magalhaes-1-conde-de-magalhaes/

http://www.iasfa.pt/lisboa.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/António_Joaquim_Vieira_de_Magalhães
Imagens
Arquivo Municipal de Lisboa
http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/pt/
Rua de São José
Armando Maria Serôdio
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/SER/S04906


https://www.iasfa.pt/lisboa.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/António_Joaquim_Vieira_de_Magalhães

 

 

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