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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Bruxa ou charlatã? A pitonisa do Chiado

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Reconhecida por historiadores e até pelo Governo, Joséfine Brouillard recebeu milhares de clientes durante os anos em que, na mais exclusiva zona de Lisboa, se dedicava a artes difíceis de perceber pelo comum cidadão.

 

Bruxa ou vidente; quiromante ou charlatã; profetisa ou benemérita; exploradora ou bem-intencionada. A Virgínia Rosa Teixeira foram atribuídos todos estes epitetos e muitos outros. Arrisca-se dizer que poucas foram as pessoas com a sua atividade que conseguiram reunir tanto ódio e, ao mesmo tempo, tanta veneração e reconhecimento, ao ponto de ter uma rua com o seu nome; ser mencionada em livros de história de Portugal e ter recebido um louvor do Governo, pelo apoio ao ensino. Todos a conheciam como Madame Brouillard.

19-4aaa3b8539 rua nova do carmo.jpgDe facto, se o insuspeito historiador A. H. de Oliveira Marques a classifica como “uma das mais afamadas cartomantes e videntes”, já Carlos Malheiro Dias, num estudo sobre a sociedade alfacinha do início do século XX, elogia a sua “afabilidade e a simplicidade” e concede-lhe uma “omnipotência em Lisboa”, ao mesmo tempo que Mário Costa, numa edição da Câmara de Lisboa sobre o Chiado, diz que a ilustre senhora foi “rainha neste condado”.

Parece que assim foi, efetivamente. Durante pelo menos 16 anos, entre 1905 e 1921, Joséphine Brouillard manteve consultório no número 43 da rua do Carmo – ao Chiado – em edifício próprio, onde também residia.

Esta era – e ainda é – uma das melhores ruas de comércio e serviços da cidade, passagem obrigatória para as classes elegantes e abastadas. Era este o público de Madame Brouillard: sobretudo mulheres, mas também alguns homens, havendo relatos, nomeadamente, de a vidente ter sido consultada pelo ministro João Franco, que “governou” o país nos últimos anos de monarquia, ou por Fernando Pessoa, um dos nossos maiores poetas.

 

O seu consultório tinha horário alargado – entre as 9 horas da manhã e as 11 da noite – o que permitia atender discretamente cerca de 30 pessoas por dia. Sentada, sempre vestida de preto, com estola de plumas brancas, cabelos apanhados em carrapito, a “pitonisa do Chiado” debruçava-se sobre uma almofada onde repousaria a mão do freguês. Ai, desvendava enigmas até então insondáveis.

O_Livro_de_Madame_Brouillard,_1916.pngE o que procuravam os clientes de Madame Brouillard? Parece que pagavam para “devassarem o mistério do seu futuro”, o que esta conseguiria através de dons incompreensíveis ao cidadão comum, mas também fazendo uso do raciocínio e de conhecimentos sobre astrologia, fisionomia, frenologia, quiromância ou magnetismo. Lançou até um livro sobre tais temas, em 1907.

A forma como adquirui todo este saber não é clara. Os seus detratores dizem que saíu de Vila Real, onde nasceu, em 1852, analfabeta e para ser criada de servir, tendo-se depois transvestido de “adivinhona”. A própria, conta uma história mais intrincada, que passa por fome e maus tratos às mãos da madrasta; ingresso num “colégio de nobres” inglês, cortesia de um parente rico; viagem a Nova Iorque, onde estudou ciências ocultas; estadia no Brasil, onde terá estado ao serviço da polícia; África, meia Europa; o casamento com um general espanhol exilado, de quem teria herdado fortuna; profecias concretizadas sobre acontecimentos históricos e o casamento com um médico ou quiromante francês, que lhe deixou o apelido Brouillard – nevoeiro.

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O seu passado, mas sobretudo tanto protagonismo, deram origem a reações negativas dos que não acreditavam nos talentos de Madame Brouillard e quiseram denunciar a sua atividade como “grosseira bruxaria e charlatanismo”. Uma das vozes mais vibrantes foi a da médica republicana Adelaide Cabete e o denominado Grupo das 13, que fez ouvir a sua opinião sobre a “ignorância , as superstições, o obscurantismo, o dogmatismo religioso e o conservadorismo” que afetava a sociedade Portuguesa. Outro veículo preferencial para os ataques foi o jornal A Capital, onde se teceram textos acintosos sobre a vidente.

 

Se estes tiveram impacto no “trabalho” que decorria no número 43 da rua do Carmo, não se sabe. O que se conhece é que este continuou até 1921, quatro anos antes da sua morte, só tendo terminado por manifesta diminuição física, derivada da idade e doença.

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A olho nu e desapaixonado, era uma mulher vulgar, pesada, com ar de matrona, mas dotada de extraordinária capacidade de empatia para com os que a procuravam. E eram muitos. Tantos, que reuniu uma notável fortuna que investiu no imobiliário e deixou em exclusivo à caridade na sua terra natal. Aí, é profusamente recordada na toponímia, em escolas, instituições de apoio social e coletividades, como a benemérita que deu trabalho, instrução e abrigo a quem precisava.

 

À margem

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 Joséphine Brouillard inaugurou uma relação com a imprensa até então inédita para os que se dedicavam às ciências ocultas. Os seus explícitos anúncios figuravam nos jornais e revistas de referência, lado a lado com publicidade a médicos ou medicamentos. Talvez a essa abordagem não fosse alheio o homem com quem viveu maritalmente durante toda a sua “vida artística” e que aparece muitas vezes como administrador dos seus bens: Albino David Martins, proprietário de uma loja de mercearia fina no mesmo edifício onde funcionava o consultório e que era também amplamente publicitada na comunicação social.  

Capturar albino3.PNGOra, o companheiro de Madame Brouillard era, nem mais nem menos, que irmão de Eduardo David Martins, que em 1889 fundou uma pequena retrosaria na esquida da rua Nova do Almada com a rua Garrett. A loja, que progressivamente ocuparia todo o edifício, transformou-se na Eduardo Martins & Cª, a primeira casa do Chiado a promover o pronto-a-vestir.

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Mas isso é outra história…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fontes

António Adérito Alves Conde - Madame Brouillard – Quiromante e benemérita. Uma história (de)vida - Caderno Cultural n.º 17, IV Série; Grémio Literário Vila-Realense - Câmara Municipal de Vila Real, outubro 2016, em http://www.cm-vilareal.pt/gremio/images/publicacoes/CadCultMadameBrouillard.pdf.

 

Hemeroteca Municipal de Lisboa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

Illustração Portugueza

II Série, V volume – 20 junho 1908

O Tiro Civil

Ano VI; nº 192 – 15 agosto 1900

 

Biblioteca Nacional Digital

www.purl.pt

Diário Ilustrado

31º ano; nº 10: 183 – 13 julho 1901

32º ano; nº 10:806 – 2 abril 1903

 

Biblioteca Municipal de Fugueiró dos Vinhos

O Figueiroense

Ano XXIII; Nº 1214 – 18 junho 1924

 

http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2017/10/eduardo-martins-c.html

https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Madame_Brouillard?uselang=pt

http://casacomum.org/cc/pesqArquivo?termo=*:*&pag=248&nResult=20&facetFilterType=Correspondencia&facetFilterFundo=1197

 

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/pt/

Joshua Benoliel - PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/002589

 

 

 

 

 

2 comentários

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    CV 11.04.2018

    Muito boa noite. Sim, a rua Madame Brouillard é, efetivamente, em Vila Real. Há também uma escola, para além de outras homenagens locais, curiosamente sempre com o nome artístico e não com o nome de Virgínia Rosa Teixeira. Pois, não se sabe se alertou, mas se calhar foi por isso que ele teve uma posição tão ditatorial. Teria achado que conseguia alterar o que estava escrito os astros?
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