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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

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Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Crónica policial (4) - Xeque-mate à segurança bancária

Lisboa, 20 de outubro de 1887

 

 

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O sonho de enriquecer rapidamente e sem esforço é comum à parte da humanidade que nasceu desabonada da fortuna. Foi esse devaneio que contribuiu para perdição de Luiz Maria dos Santos, caixeiro do Banco de Portugal, preso pela falsificação de cheques com os quais obteve consideráveis montantes. O caso está a fazer sensação neste outono, pois coloca em causa a segurança das transações bancárias, para além do jogo com fundos estrangeiros, atividade que envolve um grupo de amigos do Ministro da Fazenda

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O suspeito já foi preso e sujeito a interrogatório. Trata-se de um jovem de 30 anos, com “boa presença e agradável”, o que não impede que agora esteja a contas com a justiça.

 Em pelo menos três momentos, alegadamente, ludibriou a Caixa Geral de Depósitos para obter dinheiro suficiente para tapar o “buraco” cavado com apostas na bolsa.

São muitas e variadas as versões sobre o que verdadeiramente aconteceu. As questões levantadas, também. A mais pertinente parece ser: como foi possível que conseguisse verbas que, efetivamente, não estavam depositadas?

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As suspeitas, no entanto, devem ter fundamento, porque o juiz que o ouviu decretou o pagamento de uma fiança de 9 contos de reis.

O falatório, por outro lado, chegou às mais altas esferas. É que há um reconhecido grupo de amigos do Ministro da Fazenda que se dedica ao jogo com fundos internacionais, só que estes senhores, dizem as más-línguas, têm quem influencie os altos e baixos das ações e combinavam muito bem as operações. O caixeiro apanhado, pelo contrário, “fazia as operações mal combinadas”, porque não tinha um amigo bem colocado. “Por isso, ele vai para a cadeia, enquanto os outros vão para o Capitólio”.

O polémico caso levou igualmente a que este Ministério nomeasse uma comissão “para examinar a marcha e a administração da Caixa Geral de Depósitos e propor as providências necessárias a conciliar a facilidade das transações com a boa fiscalização e segurança”.

Desconhecem-se as conclusões a que chegou esta comissão, como tantas outras comissões depois desta.

O que sabemos é que, seis meses após estes factos, o ex-caixeiro do Banco de Portugal foi pronunciado pelo crime de burla por ter levantado títulos da dívida pública na importância de 30 contos de reis, dando em troca um cheque falso do Banco Lisboa e Açores. Sobre os outros levantamentos anteriores nada se disse. Sobre o destino do reu, também não.

……….

Nota: a  Caixa Geral de Depósitos tinha apenas 11 anos de existência quando rebentou este escândalo, que pôs em causa a segurança e credibilidade das transações desta instituição criada por Carta de Lei de 10 de abril de 1876. Sucedia ao Depósito Público de Lisboa e Porto, de fundação pombalina, e destinava-se, como o próprio nome indica, a receber depósitos, primeiro os obrigatórios por força legal e, depois, também os voluntários, incentivando ao aforro.


……………

 

Fontes

Diário Illustrado

22.10.1887; 24.10.1887, 31.10.1887; 25.10.1887;

 

Hemeroteca Digital Brasileira

Correio da Manhã, 28.10.1887; 29.10.1887; 04.11.1887; 12.11.1887; 22.11.1887; 15.04.1888.

 

O Regenerador, 27.10.1887.

 

https://www.cgd.pt/Institucional/Patrimonio-Historico-CGD/Patrimonio-em-destaque/Pages/Patrimonio-em-destaque.aspx

 

 

Imagens – Meramente ilustrativas da função de caixeiro. Foram captadas durante um curso de formação profissional, em 1914.

Arquivo Municipal de Lisboa

Escola Prática de Comércio

Alberto Carlos Lima,

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/002853

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/002856

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/002857

 

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