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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Europa arrombada, trancas aos fatos de banho

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Com o continente em guerra e o País rejubilante por causa da comemoração os centenários e da Exposição do Mundo Português, seria de esperar que os nossos governantes tivessem o suficiente com que se entreter. Mas, não! O desenho dos fatos de banho é que ameaçava verdadeiramente as fundações do regime e a frágil moral lusa. Caberia a dois militares e um arquiteto definirem o tamanho e o desenho dos fatos de banho autorizados nas douradas praias nacionais, a partir de 1941.

 

O verão de 1940 foi de sobressalto. A Europa estava em guerra e, de todos os países ameaçados pelos avanços alemães, grupos de pessoas deslocavam-se para Sul, rumando a Portugal em busca de proteção e, sobretudo, de uma oportunidade para abandonar o continente em convulsão, de barco ou através dos dois aeroportos de Lisboa. A capital vibrava com todos estes estrangeiros, atraídos também pela grandiosa Exposição do Mundo Português, rejubilando com a coincidência divinamente forjada de então se comemorarem oito séculos da fundação de Portugal e três sobre a Restauração da Independência. Seria de supor que, com tanto a temer e a comemorar, o Estado Português tivesse o suficiente com que se entreter, mas o que, de facto, abalou as fundações do regime então em ampla afirmação, foram os indecentes fatos de banho que, inesperadamente, invadiram as praias portuguesas, de Norte a Sul.

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Era um panorama de “nudez sem pudor a exibir-se em maillots inconvenientíssimos” e tamanha “imoralidade de costumes a ostentar-se nos banhos de sol”, que os alicerces do Estado Novo tremeram de vergonha e receio pela virtude das recatadas portuguesas, expostas à influência das europeias migrantes, que aproveitavam a passagem por terras lusas para exporem as frescas carnes ao sol.

“Alvas, esbeltas, quase sempre nordicamente louras”, em vez de se cobrirem em sinal de luto pelos seus países em risco, descobriam as suas privilegiadas formas aos olhares vorazes dos machos latinos, “estendendo até às almas desprevenidas o perigo que as perturba e desencaminha”.

Nunca tanta pouca-vergonha se tinha visto por cá. Jamais os olhos portugueses tinham vislumbrado tamanha ameaça. De que importava a guerra, se a decência lutava contra o descaramento e a perdição aqui mesmo, dentro de portas, nos areais deste pequeno retângulo, resguardado dos nevoeiros e dos ventos bélicos?

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No meio de tanta indecência, onde não se distinguiam as estrangeiras e as nacionais que, influenciadas por tais visões de pecado, também se começaram a destapar, só as virginais lusitas da Mocidade Portuguesa Feminina mantinham o decoro, exibindo orgulhosamente os seus modestos fatos de banho, aprovados pelos rígidos critérios governamentais.

Eram o exemplo a seguir! Até porque era preciso pôr cobro a tamanha desfaçatez.

O de 1940 seria o último verão com fatos de banho em insolente liberdade.

Logo em fevereiro do ano seguinte, ainda a braços com o frio invernal, o governo, através dos ministros do Interior, Marinha e Educação Nacional, nomeava uma comissão para “propor o critério a seguir quanto ao uso de fatos de banho nas praias e estudar o conjunto de medidas a adotar para regular o assunto”. Faziam parte desta comissão com a espinhosa tarefa descrita dois militares e um arquiteto, respetivamente, João Sales Henriques (primeiro tenente), Mário José Pereira da Silva (tenente de infantaria) e Guilherme Rebelo de Andrade, todos certamente especialistas em indumentárias estivais de banho.

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Três meses depois eram conhecidos os resultados do afanoso trabalho destes senhores. Com o intuito de “zelar pela moralidade pública” e “evitar a corrupção dos costumes”, o Estado determinava que não se repetissem os excessos do verão anterior, salvaguardando a decência e até as conceções estéticas que os povos civilizados não dispensavam. Isto não se pretendendo, de forma alguma, regressar aos padrões do século XIX, ou sequer do início do século que então corria.

Ainda assim, alertava-se logo que, quem viesse a queixar-se da fiscalização, não tinha tido os devidos cuidados para acautelar não ser multado. A coima podia ir até aos 5 mil escudos e o seu não pagamento imediato podia implicar a prisão.

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A exigência era ao centímetro. O traje de praia das senhoras tinha obrigatoriamente saiote sobreposto ao tecido do calção, sendo que este teria um comprimento mínimo de dois centímetros e seria ajustado à perna. À frente, todo o tronco deveria ficar coberto e, nas costas, o decote tinha que ser, no mínimo, dez centímetros acima da cintura e com cavas cingidas às axilas.

Os senhores tinham a possibilidade de usar duas peças, mas igualmente capazes de cobrir o tronco, à frente e atrás. Os calções regiam-se pela mesma medida concedida às senhoras: 2 centímetros.

Tecidos transparentes e demasiado elásticos estavam totalmente fora de cogitação e nenhuma destas vestimentas poderia ser usada fora de zona balnear. Só nas provas de natação se poderia prescindir do saiote e, nos homens, da parte de cima do conjunto, mas isso apenas em condições muitíssimo especiais.

Cinco anos depois, o biquini apresentava-se ao mundo, mas por cá ninguém daria por nada.

 

À margem

Só em 1937 é que os portugueses, e, ainda assim, uma pequena elite, adquiriram o direito de gozar férias, ausentando-se dos seus empregos por período previamente determinado. Os trabalhadores agrícolas, por exemplo, foram totalmente ignorados nesta legislação. No entanto, desde há muito que as famílias mais abastadas abandonavam as suas casas urbanas para passar os meses de verão em vilegiatura, elegendo locais específicos para essas atividades. Essas escolhas, bem como o tempo de permanência, aliás, determinavam o estatuto social das estâncias, elevando ou depreciando os veraneantes.

Foi por ser a praia preferida da família real que Cascais se promoveu enquanto paisagem ideal para os nomes mais sonantes passarem o verão, a partir do reinado de D. Luís. Já com D. Carlos, a hora do banho do príncipe real era aguardada pelos mirones e obedecia a todo um ritual digno de ser visto.

A partir dos anos 40, em período de guerra, eram outras as famílias reais, com seus príncipes e princesas, que ali encontraram o seu refúgio, reforçando o carácter elitista daquelas praias tão próximas de Lisboa.

Mas isso é outra história...

 

 

 

Fontes

Hemeroteca Digital de Lisboa

Mocidade Portuguesa Feminina : boletim mensal [1939-1947]

Mocidade Portuguesa Feminina (boletim mensal), nº16, 08.1940

Mocidade Portuguesa Feminina (boletim mensal), nº17, 09.1940

Mocidade Portuguesa Feminina (boletim mensal), nº28, 09.1941

 

Diário de Notícias, 11.09.1940

Fundação Mário Soares

http://casacomum.org/cc/diario_de_lisboa/

Diário de Lisboa, 23.02.1941, 05.05.1941, 07.05.1941

Susana Lobo, O Corpo na Praia: a Cultura Balnear em Portugal no Século XX, in Revista História das Ideias, volume 33, Instituto de História e Teoria das Ideias da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2012. Disponível aqui: (PDF) O corpo na Praia: A cultura balnear em Portugal no sÉculo XX

 

Pedro Alexandre Guerreiro Martins, Contributos para uma História do Ir à Praia em Portugal, Dissertação de Mestrado em História Contemporânea, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, set. 2011. Disponível aqui: RUN: Contributos para uma História do Ir à praia em Portugal

 

fatos de banho | Memória Comum

https://aterrememportugal.blogspot.com/2011/06/fatos-de-banho-imoralidade-de-costumes.html

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