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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

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Heróis do acaso (3): o engraxador pio

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Carlos Parreira Vicente, o Pio. No dia 21 de abril de 1965, um curto-circuito (versão oficial) ocorrido no sótão deu origem a um incêndio que destruiu por completo todo o recheio dos Paços do Concelho de Alcácer do Sal. Durante o sinistro, na azáfama de salvar os documentos e dinheiro à sua responsabilidade, o tesoureiro acabaria por ficar em risco de vida. Salvou-o a coragem de um jovem engraxador que todos conheciam como “o Pio”.


Foram minutos de grande aflição. Estando os trabalhadores já a salvo das chamas, alguns regressaram, tentando ainda recuperar bens no interior do edifício onde, à época, funcionava também o tribunal e a repartição de finanças. Mário José Gregório Gaspar Parra, o tesoureiro municipal, continuava no seu posto.

Pegava nos documentos à sua guarda e, por uma janela, arremessava-os para a via pública, para que não se perdesse informação essencial para o funcionamento do serviço. Nesta lufa-lufa, acaba por ficar refém das chamas num momento em que os bombeiros se encontravam a combate-las noutro lugar.


Enquanto a multidão, que entretanto se juntava na praça Pedro Nunes, gritava e gesticulava, mas nada fazia para o auxiliar, Carlos, o engraxador, encontra uma corda e atira-a ao tesoureiro. Mas a corda é velha e fraca e Mário Parra quer trazer com ele uma braçada de papéis e objetos que considera preciosos. É então que aquele a quem chamavam “o Pio” sobe pela corda levando outra presa nos dentes. Ata-a às grades da varanda e ajuda o funcionário em perigo a descer com os bens que queria resgatar.


Não fosse um zeloso inspetor da Direção-Geral da Administração Política e Civil (Ministério do Interior), que relatou este facto na inspeção administrativa sobre o incêndio, e jamais se saberia do ato heroico de Carlos Parreira Vicente.

Sobre este apenas se sabe que, passados poucos meses deste feito, iniciou o cumprimento do serviço militar num quartel de Beja e que pertencia a uma família muito numerosa, vivendo com imensas dificuldades e crescendo "à solta" pelas ruas de Alcácer, o que poderá explicar a capacidade de improviso e decisão. Seria, provavelmente, filho de Agostinho Coelho Vicente (guarda-redes do antigo Salatia Futebol Clube) e de Jacinta Custódia Parreira, batizado Carlos Pereira (e não Parreira) Vicente e nascido em novembro de 1944.

Sabe-se também que, enquanto o tesoureiro, o chefe da secretaria e outros funcionários foram homenageados pelo executivo municipal, sobre “o Pio” nada se disse.

Porque...nunca mais se ouviu falar deste herói do acaso...

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Nota: a imagem aqui presente é meramente indicativa da profissão, não da pessoa a que alude o texto.

aqui falei desse terrível incêndio que obrigou à reconstrução do edifício dos Paços do Concelho de Alcácer do Sal.

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Fontes
Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal
PT/AHMALCS/CMALCS/CAMARA/08/01/04/001
Relatório de inspeção administrativa realizada à Câmara Municipal de Alcácer do Sal

 

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