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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Heróis do acaso 7 (especial): galeria de crianças notáveis

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Dezenas de pequenos grandes heróis desfilaram pelas cerimónias de entrega dos Prémios Vale Flor, herança de uma mãe amargurada, que converteu a dor na homenagem a crianças tão valentes quanto pobres, em nome dos filhos que perdeu.

 

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Pobres, corajosos, altruístas e jovens. Assim eram os “moços heróis” que a Fundação Vale Flor homenageava anualmente, escolhendo entre dezenas de candidaturas que atestavam outros tantos atos destemidos e abnegados. Os prémios, entregues em cerimónias públicas por este país fora, cheias de entidades oficiais, discursos um tanto paternalistas e formalidades estranhas à esmagadora maioria dos agraciados, haviam sido criados por uma mãe amargurada pela morte dos seus também jovens filhos.

 

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Delfina da Silva Cerqueira e Celso Campilho Ferreira foram os primeiros a receber o galardão pelos seus feitos, corria o ano de 1950. As suas histórias deram o mote para as crianças que se lhes seguiram nesta galeria de notáveis desconhecidos.

 


Delfina, órfã, natural de Viana do Castelo, desde os 11 anos que carregava nos ombros o sustento da família – cinco irmãos – vendendo peixe pelas ruas da cidade. Celso não venceu pelo esforço, mas pela honestidade, porque, embora proveniente de lar paupérrimo – com sete irmãos e “ganhos reduzidíssimos” – devolveu, intacto, um sobrescrito recheado de dinheiro, que encontrou perdido.

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As suas vivências foram, como era exigido, atestadas por alguma entidade idónea da terra: o padre, o professor ou o presidente da câmara, por exemplo. Mesmo assim, muitos foram os relatos de façanhas dignas de nota que não foram atendidas pelo Montepio Geral, encarregue de administrar a fundação criada para atribuir os prémios, tantas eram as situações limite a que as crianças eram submetidas, obrigadas pelas circunstâncias a assumir decisões que nem os adultos seriam capazes de tomar, resoluções de vida ou morte.

E, a cada ano, apenas um menino e uma menina teriam a recompensa pelos seus feitos.


As raparigas tendiam a destacar-se enquanto mulheres à força, que garantiam opremios vale flor 5 novo.jpg sustento da família e o colo à numerosa prole, embora também se registassem ações de grande intrepidez da sua parte, ombreando com os rapazes no salvamento de outras crianças ou até adultos, resgatados da morte certa, prestes a afogar-se nas águas dos rios e na nossa extensa costa; presos em edifícios em chamas; à mercê de animais perigosos, a um passo do abismo.

 

 

Os enérgicos quadros em que os jovens se evidenciaram eram, aliás, minuciosa e coloridamente descritos nas cerimónias, assistidas pelo Chefe de Estado e até transmitidas na televisão.

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Os pequenos grandes heróis, dos 7 aos 17 anos de idade, tinham o seu momento de reconhecimento, acompanhado por uma recompensa monetária que não recebiam imediatamente, mas ficava a render juros na Caixa Económica de Lisboa, em conta que podiam liquidar assim que atingissem a maioridade ou fossem emancipados. Dada a miséria comum à maioria, uma pequena parte do prémio de 17 contos de reis – cerca de 8.500 euros* - era habitualmente entregue de imediato, para mitigar as necessidades mais prementes dos seus miseráveis agregados familiares.

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Tudo, em nome de Jenny e José Luís Vale Flor, que nada souberam destes valentes. As suas curtas vidas também nada tiveram que ver com esta realidade humilde, pois nasceram em lar farto e opulento. A sua morte prematura foi o pretexto para que a mãe, Maria do Carmo Dias Constantino Ferreira Pinto, marquesa de Vale Flor, amargurada pela perda e querendo converter a dor em algo útil, instituísse a fundação e os prémios**.

 

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Desconheço se este empurrão foi decisivo para que alguns destes heróis pudessem quebrar a sina de pobreza que parecia estar traçada desde o nascimento. Nas suas terras de origem, garantidamente foram famosos durante meses ou até anos... para depois voltarem a cair no esquecimento.

 

 

 

 

 

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*Valor atualizado, calculado com base na ferramenta disponibilizada pelo INE – Instituto Nacional de Estatística. Disponível em: https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ipc
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**Foi igualmente criado o Instituto Marquês de Vale Flor, vocacionado para o desenvolvimento e a cooperação, tendo iniciado atividade como ONGD em 1988 em São Tomé e Príncipe, território onde o 1º marquês de Vale Flor, José Luís Constantino Dias, fez fortuna.
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Imagem 1 Maria Alice de sousa e os irmãos Manuel Perfeito e Aquiles Jorge Verde, premiados em 1959.
Imagem 2 Delfina da Silva Cerqueira e Celso Campilho Ferreira, os primeiros premiados, em 1950, com o presidente Óscar Carmona e outros ilustres.
Imagem 3 Maria Isabel Ferreira e Abílio Mota Mendes Rosa, que receberam o prémio em 1951
Imagem 4 Entrega de prémios de 1952, a Maria de Lurdes Borrego Saragoça e Joaquim da Silva Vale.
Imagem 5 Os três premiados de 1954, Maria do Carmo Ramos, José Gualter dos Santos e Joaquina Ferreira da Costa.
Imagem 6 Irene da Costa Marques e José Fernando Gonçalves da Cruz, premiados em 1955.
Imagem 7 Os vencedores de 1957, Elisa Machado Teixeira e António Carlos Soeiro Fernandes.
Imagem 8 Premiados em 1958, Joaquim António de Sousa e Rolinda Martins da Silva.
Imagem 9 Rosalina de Jesus Marques e Jerónimo Vicente, vencedores em 1960.
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Fontes
A Fundação Vale Flor e a sua primeira galeria de moços heróis (1950-1960); Montepio Geral; Lisboa – 1960
Hemeroteca Digital de Portugal
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt
Diário Popular
14 dez 1967

Jornal A Capital
2 fev 1954

https://www.imvf.org/

https://geneall.net/pt

 

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