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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Heróis do acaso (8): afinal, quem salvou os náufragos do Nathalie?

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A madrugada do dia 23 de outubro de 1880 foi de grande terror e heroísmo. À vista da costa da Torreira, o navio francês Nathalie encalha, deixando 18 pessoas à mercê das enormes vagas que, a cada investida, ameaçam despedaçar totalmente a embarcação, puxando para a morte as vidas ali suspensas entre a meia noite e o raiar do dia. À exceção de dois tripulantes, que arriscaram alcançar terra com um dos poucos botes salva-vidas não arremessados borda-fora, todos são salvos. Mas quem é o corajoso que os resgata do mar? Dois homens foram homenageados pelo mesmo feito, mas um deles nem esteve presente.

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Gabriel Ançã e Manuel Firmino d´Almeida Maia foram medalhados, receberam honrarias e elogios; viram ser erguidas estátuas com a sua imagem e ruas batizadas em seu nome. Ambos tiveram vidas cheias, onde o bem do próximo esteve, muitas vezes, em primeiro lugar, mas não poderiam ter percursos mais diferentes.

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Só um participou no complexo e dramático salvamento dos náufragos do Nathalie.


Manuel Firmino d’Almeida Maia, originário de família burguesa aveirense, foi oficial de cavalaria, jornalista*, político e, genericamente, homem público ao qual se devem numerosas obras e iniciativas com significado para o progresso da sua região. Foi presidente de câmara, deputado, conselheiro e armador de pesca.


Gabriel Ançã nasceu em Ílhavo e seguiu as pisadas do pai, tornando-se pescador. Nadador exímio desde cedo, antes dos 20 anos já era arrais**, destacando-se em ações de salvamento. Terá libertado de águas revoltas mais de cem pessoas.


Seria de esperar que fosse ele o herói do Nathalie…mas assim não foi.

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O seu nome nunca é mencionado nas notícias que fizeram alarde daquele acontecimento, nem mesmo quando se referem, um a um, todos os cerca de sessenta marítimos, maioritariamente oriundos da Murtosa, que colaboraram na árdua tarefa.

Com a ajuda de 15 juntas de bois, arrastaram a embarcação de resgate pela areia, cerca de dois quilómetros, para a zona de costa em frente da qual se encontrava o vapor francês. Fizeram-na ir ao mar guiada por grossos cabos fixos em terra à força de braços, mas dando a necessária folga para que se pudesse aproximar e resgatar os náufragos, ante o aplauso de mais de duas mil pessoas que assistiam na praia.


À frente de todas estas movimentações, liderando, incitando os homens e, finalmente, assumindo o leme do Nossa Senhora da Arrábida, que perpetrou tão ousada manobra, estava Manuel Firmino d’Almeida Maia, que acolheu todos em sua casa, para um repasto reparador e ajudou como pôde os desafortunados franceses.

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Pelo feito, o governo francês agraciou-o com a Legião de Honra e a Medalha de Salvadores do Havre. Não recebeu a medalha de prata de mérito filantropia e generosidade entregue a todos os outros participantes no salvamento pelo governo português, porque rejeitou tal distinção.


Quanto ao arrais Ançã, que algumas narrativas fantasiosas colocam a salvar sozinho toda a tripulação e passageiros do Nathalie - para mais com uma senhora desesperada presa ao pescoço - só muito mais tarde aparece ligado a este naufrágio.

 


Condecorado várias vezes pelos seus serviços ao País, é já alquebrado por uma vida tão dura que reivindica uma pensão de sobrevivência, que será atribuída em 1907 e reforçada com fundos do Instituto de Socorros a Náufragos - recebia também um valor da Caixa de Proteção dos Pescadores Inválidos.

Já perto dos 80 anos, tendo três netos e a mulher a cargo, a tença sobe para valores menos miseráveis.

As recompensas governamentais são justificada pelos seus maiores feitos, entre os quais se conta, erradamente, o salvamento do Nathalie.


Tristemente, as mortes no mar também mancharam a sua vida dedicada a salvar outros das ondas, pois foi aí que perdeu os seus três filhos.


…………………….
*Fundador do jornal Campeão das Províncias
**Patrão de barco costeiro ou fluvial. Comandante de uma embarcação.

...............

Já aqui antes falei de outros naufrágios:

O dia em que as obras-primas portuguesas foram por água abaixo

 

Instantâneos (20): o naufrágio do anjo

 

O Ville de Victória afundou-se de madrugada nas águas do Tejo

 


………………..
Fontes
Biblioteca Nacional de Portugal em linha
www.purl.pt
Diário Illustrado
Nº2675 – 26 out. 1880
Nº2676 – 27 out. 1880
Nº2678 – 29 out. 1880
Nº2679 – 30 out. 1880

PASTOR, Francisco, 1850-1922
Manuel Firmino d'Almeida Maia / Pastor. - Aveiro : [s.n.], 1881. - 1 gravura : madeira, p&b

Cota do exemplar digitalizado: e-232-v

Campeão das Províncias
Ano 65º nº6476 – 8 abr. 1916
Ano 65º nº6479 – 29 abr. 1916

Hemeroteca Digital de Lisboa
www.hemerotecadigital.cm.lisboa.pt

Illustração Portugueza
1º ano; nº14 – 8 fev. 1904

Diário do Governo nº285 – 14 dez. 1880
Diário da Câmara dos Deputados – Sessão nº122 – 2 ago. 1922

Ministério das Finanças
http://purl.sgmf.gov.pt/404979/1/404979_item1/index.html
Código de referência
PT/ACMF/DGCP/16/001/2647


https://ahcravo.com/o-naufragio-do-nathalie-e-o-arrais-anca-que-nao-esteve-la/
https://ahcravo.com/o-naufragio-do-nathalie-e-o-arrais-anca-que-nao-esteve-la-1/

"arrais", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/arrais [consultado em 10-08-2020].

http://ww3.aeje.pt/avcultur/Secjeste/Recortes/FigIlustres/Arrais001.htm

https://www.cm-ilhavo.pt/viver/cultura/gentes-e-costumes/a-nossa-gente/gabriel-anca

http://ww3.aeje.pt/avcultur/avcultur/aveirilustres/Manuel%20Firmino.h

3 comentários

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    CV 14.09.2020

    O que é ainda mais de lamentar, neste caso, é que o velho arrais tinha a sua conta de salvamentos, não deveria precisar de se destacar por um salvamento que outro fez. E o erro perpetua-se até hoje.
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    mitologia 15.09.2020

    Mas, infelizmente, isso é um ponto bastante fixo na cultura portuguesa. São demasiados os premiados e elogiados por algo que nunca fizeram. As histórias que podíamos contar....
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