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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Instantâneos (110): a ave que não veio do Peru, mas vai para o forno

 

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Estes vieram da lezíria do Tejo e já têm destino traçado. Estão condenados a vaguear pelas ruas de Lisboa até que alguma dona de casa lhes tome o peso e os escolha para figurar na cobiçada travessa que todos vão admirar, no centro da mesa de Consoada. Este era um ritual que se repetia anualmente, desde o momento em que o peru passou a ser símbolo da quadra festiva no nosso país. Já se sabia, portanto, qual o destino da ave... mais difícil é conhecer a sua origem

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As imagens são de 1912. Perto de quatro séculos, no entanto, as separam da vinda dos primeiros exemplares de perus para a Europa, lá pelo século XVI. Os nossos vizinhos ibéricos, responsáveis pela divulgação da ave nesta parte do planeta, chamaram-lhe apenas pavo, porque a acharam parecida com o pavão, que já conheciam.

Nós sabíamos que vinha do outro lado do oceano, de terras sob poder espanhol, mas como pouco se sabia dessas paragens distantes, apenas que era também onde ficava o Brasil, os portugueses deram-lhe o nome de Peru, que era um território do qual já tinham ouvido falar, embora não soubessem muito sobre ele.

Não foram os únicos a ir ao engano. Só para dar alguns exemplos, em Inglaterra chamaram-lhe turkey (turco), porque terá ali chegado pela mão de mercadores dessa nacionalidade. Os franceses, para não se ficarem atrás, denominaram-na de poule d’inde (galinha da Índia), porque vinha das Índias Ocidentais, nome dado pelo equivocado Cristóvão Colombo àquelas terras.

Para os gregos, trata-se de galinha francesa; romana para os árabes; etíope para os palestinianos; holandesa, na Malásia e, na holanda, é indiana.

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Como se vê, dificilmente haverá outra ave tão internacional, embora, não haja memória de em algum lugar ter sido dado crédito aos astecas que, ao que tudo indica, primeiro a domesticaram, nas regiões hoje ocupadas pelo México.

O que é certo é que entrou primeiro nos hábitos dos ricos.

Grande, carnuda, com um peito vistoso, servia de elemento de ostentação, lentamente substituindo o ganso, que antes ocupava o lugar de destaque e, depois, vulgarizando-se nas mesas.

No entanto, só era comido à ceia, após a Missa do Galo, porque até à meia-noite, ditavam a tradição e a disciplina alimentar da Igreja Católica, havia que guardar jejum de carne.

Escusado será dizer que foi isso que abriu caminho para que, ao jantar, o rei fosse outro nosso conhecido, também ele vindo de longínquas paragens: o bacalhau.

Mas, isso terá de ficar para outra história.

 

 

 

Fontes

Notícias Magazine, 23.12.2016

Porque comemos bacalhau no Natal (noticiasmagazine.pt)

Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 29.04.2020, texto de João Nogueira da Costa

https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/idioma/uma-ave-com-nomes-de-paises/4088

Hipeness, 07.12.2021

https://www.hypeness.com.br/2021/12/peru-nao-e-da-turquia-nem-do-peru-a-curiosa-historia-da-ave-que-ninguem-quer-assumir/

Illustração Portugeza nº357, 23.12.1912

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