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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Instantâneos (126): uma Consoada sem bacalhau avariado

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Quando a procura é muita, por vezes a oferta fecha os olhos a escrúpulos para fazer uns trocos. Sempre assim foi e sempre será. Quando a tradição religiosa obrigava à abstinência de carne, como na Quaresma e, claro, na Consoada, que se aproxima, quantos pratos de bacalhau avariado não terão sido servidos nas mesas deste País?

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Mas, afinal, segundo um curioso estudo publicado faz agora 139 anos, os clamores que se ouviam contra o também denominado “bacalhau de cão” eram mero exagero, pois os casos de intoxicação com o fiel amigo eram “sumamente raros”, especialmente tendo em conta o grande consumo deste peixe, seco ou salgado, incontornável nas referidas quadras festivas.

A cor avermelhada, que por vezes aparece na superfície do bacalhau, dizia o especialista, não deve demover ninguém de o comer, pois é fenómeno inofensivo. Afinal, se cães e gatos podiam ser alimentados durante dias seguidos com bacalhau fortemente corado e encarniçado “sem lhes produzir o menor acidente”, ou inconveniente gástrico, também, nós o podíamos consumir sem medos!

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Apenas se o peixe exalasse um cheiro pútrido e a carne se apresentasse mole, desfeita, devia o consumidor preocupar-se e descartar este alimento.

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A proibição total da venda de bacalhau vermelho era, portanto, totalmente alarmista e injustificada, podendo prejudicar o comércio e, sobretudo, privar a classe pobre dos benefícios inerentes a “este alimento barato e reparador”.

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Eram, no entanto, ao longo dos anos, numerosos os relatos de bacalhau avariado encontrado à venda ou prestes a entrar no mercado. E nem o facto de ser apreendido demovia os comerciantes mais audazes e desonestos. Há relatos de barricas de bacalhau podre resgatadas de montureiras e postas a circular. De bacalhau impróprio gentilmente oferecido a instituições de caridade – como orfanatos - para consumo dos seus residentes.

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A dada altura, as autoridades deram ordem para que o bacalhau impróprio fosse inutilizado com petróleo, mas, mesmo assim, não estavam certos que não fosse parar ao prato de alguém sem dinheiro para poder escolher melhor.

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Havia até quem fizesse dinheiro com bacalhau avariado, amiúde comprado em leilão, “por conta e risco de quem pertencer” e chegava-se a anunciar a sua aquisição - pagando bem - alegadamente “para a pescaria”, depreendendo-se que se destinaria a isco para outro peixe, atraído pelo pivete que emanava.

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Ou então, como alguns jornais denunciavam, os espertalhaços compravam podre e vendiam como “superior”. “Aventureiros para quem só o dinheiro é rei!” opinava, em tom crítico, o jornalista indignado.

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Um século depois da publicação do estudo a que aludo no início deste texto, a lei portuguesa de 1987, que vem autorizar a venda do bacalhau já cortado e pré-embalado, dá razão ao seu autor, o Dr. E. Mauriac, ao apontar como apenas como “defeito ligeiro de

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conservação” a tal coloração avermelhada que é, afinal, sabe-se hoje, causada pela presença de bactérias halófilas, conhecidas por se darem especialmente bem em ambientes extremamente salgados e que, por isso, estão a ser usadas na adaptação de plantas hortícolas a solos com estas características.

Nada se perde…Como no bacalhau, tudo se transforma, tudo se aproveita e pouco ou nada se desperdiça.

BOAS FESTAS!

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Já aqui falei de um português que enriqueceu com peixe podre e de outro que fez fortuna do lixo...

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Fontes

Biblioteca Municipal de Setúbal

Gazeta Setubalense 26.12.1886, citando o Jornal de Pharmacia.

 

Biblioteca de Assuntos Portuenses

https://bibliotecacasadoinfante.cm-porto.pt/sh_tripeiro/online/trip/t19547.pdf

O Tripeiro, (?)

 

Hemeroteca Digital Brasileira

Coleção Digital de Jornais e Revistas da Biblioteca Nacional

Gazeta de Notícias, 01.06.1885

A República, 09.10.1911

Correio da Tarde, 25.07.1880

Diário de Notícias, 29.12.1885

Cearense, 03.10.1880

O País, 26.10.1902

Diário de Belém, 28.09.1883

Gazeta de Notícias, 17.01.1880, 21.01.1880

 

URBANO BETTENCOURT, Manuel Zerbone ELEIÇÕES NA QUARESMA | blogue.lusofonias.net

 

035_3.pdf

 

 

Portaria n.º 355/87 | DR

 

jurisprudencia.pt/acordao/20979/pdf/

 

Portugueses começaram a pescar bacalhau na Terra Nova depois de um engano | Pescas | PÚBLICO

 

Centro Interpretativo da História do Bacalhau | Bacalhau da Consoada

Imagens

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

Artur Pastor, PT/AMLSB/ART/009/010758

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