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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

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Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Instantâneos (23): a última ceia de um rei português

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A sala apresentava-se deslumbrante e a mesa esplendidamente ornamentada. Ao centro estava El Rei, a quem não estranharam o semblante sombrio, nostálgico até, que habitualmente o caracterizava. No ar, uma sensação desagradável, uma tensão inexplicável, um nervoso miudinho difícil de disfarçar, contrastavam com tanta sumptuosidade.

O banquete decorria no palácio de Belém, que pouco tempo depois seria escolhido para sede da Presidência da República e, à direita de D. Manuel II, estava um republicano eleito para liderar o país irmão. Hermes da Fonseca, o tal republicano, seria, simultaneamente, o último chefe de Estado a visitar um monarca reinante em Portugal e o primeiro a ser recebido pelo novíssimo governo provisório da República Portuguesa, acabada de nascer.

Foi ali que D. Manuel II soube que o seu reinado tinha chegado ao fim.

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Mas, não apressemos as coisas:

Hermes da Fonseca visitou terras lusas mesmo antes de tomar posse. Chegou a 1 de outubro de 1910 - dois dias antes da "última ceia" - e desdobrou-se em festas, homenagens, contactos - o normal em ocasiões deste tipo. Em todo o lado, foi recebido apoteoticamente pelo povo, que dava vivas ao presidente eleito do Brasil, símbolo da República desejada.

A sua chegada triunfal, com o couraçado S. Paulo rodeado por embarcações onde se agitavam bandeiras republicanas e se cantava a Marselhesa, deu o mote para o resto da estadia.

hermes chegada.GIF

O dia 3 de outubro começou com uma cerimónia na Sociedade de Geografia de Lisboa, prosseguindo com passeio pela cidade e receção a D. Manuel II, a bordo do couraçado brasileiro.ultima festa de d manuel 3.GIF

À noite, Hermes da Fonseca tinha organizado lauto jantar em honra do rei português.

Foi precisamente durante esse jantar* que se confirmaram os piores pressentimentos: a rebelião estava na rua.

O presidente do Brasil ainda ergueu a taça num toast por sua Majestade El Rei e por toda a família real portuguesa, mas de nada valeu.

Durante o repasto, correu a notícia de estar em marcha uma revolução republicana e certos convidados, uns mais disfarçadamente que outros, foram saindo.


No final, D. Manuel II recolheu ao Palácio das Necessidades de onde, no dia seguinte, à força de intimidante bombardeamento dos cruzadores S. Rafael e Adamastor, saiu escorraçado para Mafra e daí para a Ericeira, onde embarcou para o exílio.

 

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No dia 8 de outubro, Hermes da Fonseca, que assistiu ao desenrolar dos acontecimentos a bordo do S. Paulo, voltou a passear por Lisboa, já então capital de uma República.

Acompanhava-o, manifestando cumprimentos de despedida, o ministro dos negócios Estrangeiros do governo provisório, Bernardino Machado, curiosamente, nascido no Brasil, e que viria a ser por duas vezes presidente de Portugal.

O rei dos olhos tristes só voltaria a Portugal em 1932, para ser sepultado no panteão dos Bragança, em S. Vicente de Fora.

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...............
*O banquete na imagem é na sala do risco do Arsenal da Marinha, oferecido pelas associações, Comercial, de Lojistas e Industrial de Lisboa, a 2 de outubro. Da “última ceia”, no Palácio de Belém, não me foi possível encontrar imagens, talvez porque o que de importante acontecia era já nas ruas.

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Fontes
Hemeroteca Municipal de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/´
O Occidente
XXXIII volume; nº 1144-5 – 20 out. 1910
Brasil-Portugal
Nº282 – 16 out. 1910
Illustração Portugueza
Nº242 – 10 out. 1910
A Capital
Nº93 – nº97 - 1 a 5 out. 1910

Biblioteca Nacional de Portugal
www.purl.pt
Diário Illustrado
40ºano; nº18:281 – 4 out. 1910

http://www.fmsoares.pt/aeb/crono/pesquisa?pesquisa=D.%20Manuel%20II

 

http://garfadasonline.blogspot.com/2010/10/o-5-de-outubro-de-1910-e-o-banquete.html

https://cronicasmacaenses.files.wordpress.com/2012/10/portugal-5outubro06-jornal.jpg

 

2 comentários

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    CV 23.11.2018

    Olá, tenho muito gosto nos seus comentários. Em relação à fotografia do baquete, a resposta é sim, penso que seja o quarto cavalheiro sentado a partir da esquerda. Quanto à outra fotografia de que fala, é curioso que, na ficha do Arquivo Municipal de Lisboa, que fui reler, refira serem militares durante a visita do presidente brasileiro eleito Hermes da Fonseca, mas depois remeta para uma revista que, consultada, não contém a imagem em análise. Fiquei, por isso, com dúvidas sobre a mesma que, por esse motivo, substituo por uma outra, com manifestantes republicanos/populares durante a mesma visita. A imagem tem menor qualidade, mas pelo menos sabemos o que vemos. E agradeço ter levantado a questão. Finalmente, no que diz respeito ao percurso de Hermes da Fonseca, foi presidente até 1914 e teve um mandato marcado por conflitos com os marinheiros, entre outros episódios. Foi um dos únicos dois militares chegados a poder através da eleição direta, instituiu a faixa presidencial, que foi o primeiro a usar, e foi o único a casar durante o exercício da presidência.
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