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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Instantâneos (41): repousa junto da sua obra e vela pela sua continuidade

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Não é um faraó que descansa sob tão imponente sepulcro, mas a sua riqueza daria para encher inúmeras câmaras funerárias. Não é um imperador que ali tem a sua última morada, mas o seu poder rivalizava com o dos políticos que governavam o País. Ali jaz o maior empreendedor do seu tempo e de muitos outros tempos somados. Repousa sozinho, isolado que ficou após o levantamento do cemitério que o acolhia, mas junto daquela que foi a sua grande obra.

Será que “dá voltas no túmulo” por aquilo em que esta se tornou?

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Cumpriu-se a vontade de Alfredo da Silva – em vida, poucas foram as não respeitadas, aliás – e, dois anos após a sua morte, os seus restos mortais foram transportados do cemitério do Alto de S. João, em Lisboa, para o Barreiro.
Talvez o País achasse que um homem assim ainda lhe fazia falta, porque muitos foram os que acompanharam o féretro e o acontecimento foi amplamente seguido pela imprensa, como o seriam outras homenagens mais tardias*.

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Foi em pleno mês de agosto de 1944.

Um cortejo levou o corpo do grande industrial até à estação Sul e Sueste, onde o rebocador Estoril estava preparado para fazer o trajeto até à margem sul do Tejo. O grupo seguiu, depois, a partir do cais da Rocha do Conde de Óbidos, em outras três embarcações.
Eram empregados da CUF-Companhia União Fabril; da Sociedade Geral de Transportes, Comércio e Indústria; da Sociedade de Construções Navais e da Companhia de Seguros Império, entre outras, de tantas quantas foram as áreas em que “mão” de Alfredo da Silva se fez sentir: dos adubos, aos sabões; dos azeites e óleos, à cerâmica e navegação; da construção naval, aos produtos coloniais (nomeadamente a juta).... Tudo para ser autónomo, não depender de nada nem de ninguém e, a cada sub-produto "descoberto", criar um novo mercado, uma original fonte de aproveitamento e receita.

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Às 17 horas, na doca da CUF, o séquito vindo de Lisboa reúne-se aos que, no Barreiro, o aguardavam – câmara municipal, juntas de freguesia, grémios, sindicatos e outras associações, mais operários – muitos – bombeiros, crianças das escolas e povo local seguem, através das fábricas e dos bairros operários que Alfredo da Silva havia mandado construir, para o cemitério de Santa Bárbara – hoje desaparecido – onde finalmente encontrará a paz.

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O homem que não gostava de ostentação e até mandava colocar meias solas nas suas botas gastas e passajar os pijamas puídos, encontrou a derradeira “casa” sob um imponente projeto do conhecido arquiteto Cristino da Silva, com esculturas e relevos do não menos reputado Leopoldo de Almeida. Uma colossal obra com 12 metros de largura por sete de altura. Nas laterais, a arte do escultor criou trabalhadores da industria e agricultura em posição de veneração perante o seu “benemérito”. Ao centro, num austero granito cinzento, uma pirâmide truncada suporta a urna simbólica sobre o dorso de leões.
Se, em vida, Alfredo da Silva sobreviveu a dois atentados e outras situações de perigo, em morte, foi mais respeitado, pois tanto o mausoléu como a estátua em sua homenagem existente no centro do Barreiro resistiram incólumes ao período pós 25 de abril de 1974, que naquela zona do País foi especialmente quente e agitado.

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*ver, por exemplo, homenagem realizada em 1965 e que a RTP acompanhou. Disponível em:
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/homenagem-postuma-a-alfredo-da-silva/

 

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Fontes:
Fundação Mário Soares
http://casacomum.org/cc/diario_de_lisboa/

Ano 24º; nº7809 - 20 ago. 1944; 2ªedição

http://www.patrimoniocultural.gov.pt/static/data/patrimonio_imovel/classificacao_do_patrimonio/despachosdeaberturaearquivamento/2017/cufbarreiro/er3.pdf


http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/7456/266/ulsd062806_td_inventario_252.pdf

http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/7456/11/ulsd062806_td_vol1_5.pdf


https://www.cm-barreiro.pt/pages/621

 

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