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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Instantâneos (56): a ocasião agarra-se pelos cabelos

 

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Esguia, fugidia, esquiva, mas insinuante. Parece brincar connosco. Tal como na vida, a Ocasião ali está, mas no momento seguinte pode já ter seguido viagem. Perdeu-se, foi provocar outro mais rápido que nós, que eventualmente a agarre pelos cabelos e dela desfrute. Ao centro da galeria dos reis, parecendo voar sobre o tanque grande, desafiando os monarcas portugueses, que a observam sem a poder apanhar. Elemento tão delicado, quase etéreo e, apesar do lugar de destaque, praticamente oculto no seu cinza-chumbo, que se perde na explosão de cores dominante nos jardins do Palácio Fronteira, em Lisboa.

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Poderia falar de milhares de pormenores históricos e artísticos deste monumento extraordinário, dos azulejos com temáticas tradicionais e inusitadas, das dezenas de esculturas e outras representações, de soberanos, cavaleiros, deuses, musas e outras figuras mitológicas; dos belos painéis que, na sala das batalhas, retratam os feitos dos Mascarenhas, senhores desta casa. Poderia falar dos curiosos embrechados, da casa de fresco, da capela, da biblioteca debruçada sobre o jardim, na área privada onde ainda moram os marqueses de Fronteira….

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Mas, foi a Ocasião que mais me intrigou. E terá sido ela o princípio de tudo, porque, conta a história, foi o facto de D. João de Mascarenhas, 2º Conde da Torre, ter agarrado a oportunidade de ajudar a subir ao trono quem parecia mais bem preparado para o ocupar (D. Pedro II) e não quem se seguia na linha de sucessão (D. Afonso VI)* que lhe valeu o título de 1º Marquês de Fronteira, fazendo-o ganhar destaque e importância, mais ou menos na altura em que se construiu este palácio, criado originalmente como pavilhão de caça, às portas da Capital. O busto de D. Fernando, o Infante Santo, olha a Ocasião pelas costas, sacrificado que foi pelo bem maior de Portugal, como o rei que o Marquês ajudou a depor*.

E, não foi por D. Afonso Henriques se ter apoderado do seu momento que somos Portugal? E por D. João IV ter feito o mesmo que aqui estamos todos a falar português e não castelhano?

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A figura apresenta-se-nos numa posição quase incómoda, contorcida, em movimento. Sublinhando essa deslocação incessante, tem asas nos pés nus, um no ar e outro sobe uma esfera, que fantasiosamente gira sem parar. O seu corpo curva-se, como se fosse puxada para diante e hesitasse em ficar. O cabelo esvoaça em frente, mais longe e inalcançável, pois seria ali que se deveria agarrar quem quisesse apanhar a oportunidade, a chance, o ensejo, a fortuna, enfim, o instante irrepetível que faz toda a diferença. Na mão, uma navalha que nos pode ferir à mínima distração, porque a ocasião é assim, uma faca de dois gumes que nos pode garantir a vida ou matar, sem apelo ou agravo, num ápice.

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……….

*D. Afonso IV subiu ao trono em 1656, apenas 16 anos após a restauração da Independência de Portugal. As suas alegadas incapacidades mentais e físicas, até para consumar o casamento, foram usadas para o afastar do poder. Esteve preso, a mando do irmão e seus partidários, até morrer. O que viria a ser D. Pedro II usurpou-lhe o trono e a mulher, com quem casaria.

 

**D. Fernando era o filho mais novo de D. João I e de D. Filipa de Lencastre – a Ínclita geração. Em 1437 participa na conquista do Norte de África, com o irmão D. Henrique. Face à derrota, fica preso como penhor da entrega de Ceuta pelo outro irmão, então rei de Portugal, D. Duarte. Tal troca nunca se fez e D. Fernando acabaria por morrer numa prisão em Fez.

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Fontes

Visita guiada ao palácio e jardins

http://www.fronteira-alorna.pt/

Ações de Salvaguarda e Reabilitação do Património: O Exemplo do Palácio Fronteira; dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Reabilitação da Arquitectura e Núcleos Urbanos de Joana de Avelar Teixeira Califórnia Quintas; Universidade Técnica de Lisboa; Faculdade de Arquitetura; Lisboa – 2011. Disponível em www.repository.utl.pt 

https://blogazlab.wordpress.com/category/palacio-fronteira-fronteira-palace/

http://cdn-ondemand.rtp.pt/nas2.share/legendas/video/programas/gmemorias/gmemorias_1_20150502.txt

https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando,_o_Infante_Santo

https://pt.wikipedia.org/wiki/Afonso_VI_de_Portugal

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_II_de_Portugal

Imagens

Visite du Jardin du palais des Marquis de Fronteira; Silence, ça pousse!, France 5, com Vanda Anastácio.

https://fronteira-alorna.pt/saber-mais/

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