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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Instantâneos (79): a vida airada de Micas Gouveia

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Micas Gouveia ficou famosa na Lisboa dos anos 20 e o seu nome chegou até a ser falado no Parlamento. Não que se lhe devessem atos heroicos ou artísticos, mas pelas piores razões. A 1 novembro de 1926 – Dia de Todos os Santos - depois de anos de muito esforço e determinação, seria presa pela centésima vez. Era a larápia mais conhecida daqueles tempos.

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O “feito” mereceu honras de primeira página em alguns órgãos de comunicação social, que pintaram Micas como o resumo dessa Lisboa afastada das ruas largas e dos holofotes, “um pouco de Mouraria e Alfama” na mesma figura. Mouraria no trajo, onde as chinelas de varina haviam sido substituídas pelos “sapatinhos vermelhos de duraque*”, saia em balão aos quadrados e xaile felpudo “cortado à marialva sobre o peito forte”. Alfama, pela imagem de “severa das ruas”, “fácil no sentimento e no amor, sempre às contas com a polícia”.

Um ano antes, o nome desta ratoneira viria à baila na luta política, com um deputado a acusar outro de querer alterar a lei para favorecer Micas, alegadamente sua cliente, pois o parlamentar era advogado - nada que já não tenhamos visto, não é?

Não consta que tivesse, efetivamente, lucrado com essa disputa.  Antes, os proventos de Micas vinham todos dos diferentes domínios da sua “arte”.

micas gouveia 3.JPG

 

Era useira e vezeira do conto do vigário; sedutora fatal dos forasteiros incautos; experiente carteirista; sentinela atenta à mais ténue oportunidade de obter uns trocos ou outras vantagens. Esta fina-flor do entulho, seria também hábil a comover forças de segurança e juízes, que com ela eram relativamente brandos, tanto que, até àquela celebrada data nunca havia sido condenada ao degredo, que temia profundamente.

 

Em jovem usava “grossas arrecadas de ouro mourisco, cordões de peso, blusinhas de seda de todos os padrões”. Com o passar dos anos, o facto de ser tão conhecida trouxe-lhe muitos inconvenientes, ditando-lhe o insucesso e a pobreza, compensados com a simpatia de agentes e jornalistas, que conhecia pelo nome, a todos falando com desenvoltura e alegando inocência

 

Era sempre a principal suspeita da autoria de alguma “façanha” fortuita, mesmo quando nada tinha que ver com o facto que lhe era imputado. Talvez isso explique o aclamado recorde de detenções, atingido aos 37 anos, vinte de carreira iniciada logo após a saída do asilo para crianças desvalidas.

Dir-se-ia que a sua sorte estava traçada.

Não sei qual foi o futuro de Micas Gouveia. Quatro anos após este recorde, no entanto, era já apontada como rainha das gatunas de outrora, destronada por mulheres mais novas e seletivas.

Estas envergavam a última moda na roupa e nos cabelos, conduzindo automóveis vistosos. Apontavam apenas aos alvos mais endinheirados e, por isso, garante de rendimento digno desse nome. Eram profissionais.

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*Tecido, espécie de sarja resistente usado em calçado de senhora.

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Fontes:

Fundação Mário Soares

http://casacomum.org 

Diário de Lisboa

Ano 5º; nº 1711 - 2 nov 1926

 

Hemeroteca Digital de Lisboa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt

 

O domingo Ilustrado

Ano 2º; nº 95 – 7 nov 1926

 

Repórter X

Ano 1º; nº 16 – 22 nov 1930

 

Assembleia da República

 

Debates Parlamentares - Diário 112, p. 1 (1925-08-14) (parlamento.pt)

Debates Parlamentares - Diário 111, p. 1 (1925-08-13) (parlamento.pt)

 

 

https://dicionario.priberam.org/

 

duraque - Dicionário Online Priberam de Português