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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Instantâneos: calhandras e calhandreiras, que não param de "calhandrar"*

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 O que são calhandreiras? Se pensou em aves, anda perto, mas não acertou. Se acha que são mulheres que gostam de falar da vida alheia, está mais perto, sem ir ao cerne da questão. Calhandreiras são, de facto, mulheres. Representavam o grau mais baixo de entre os “escravos de ganho”, que desempenhavam as mais diversas tarefas, em Lisboa, lá pelos séculos XVII e XVIII, antes de haver água canalizada ou esgotos na cidade. Eram cerca de mil, as negras que, ao final do dia, calcorreavam as ruas apanhando os desperdícios. As que recolhiam os excrementos, de calhandros à cabeça, eram as calhandreiras e tinham também o mais reduzido pagamento, apenas 30 reis diários. Esses cestos, que deram nome à “profissão”, eram depois despejados no rio.  Como o espetáculo não era bonito e, por vezes, havia conflitos, a atividade chegou a ser regulamentada pela câmara da Capital, com horas – preferencialmente de noite – e locais próprios para o despejo: entre o cais do Tojo e a ponte Nova da Casa da Índia, ou na praia da Bica do Sapato, para calhandreiras de bairros mais distantes. Obviamente que estas mulheres trocavam entre si novidades e coscuvilhices que iam ouvindo, provocando uma grande algazarra quando se encontravam à beira Tejo. Daí o termo ser associado à bisbilhotice e à intriga.

Ah! Calhandras são aves da família das cotovias. Consta que têm um canto interminável, com váriações de som e ritmo, assim como várias mulheres juntas, em grande cavaqueira.

*O verbo calhandrar não existe

 

 

 

Fontes

Maria do Rosério Pimentel, capítulo retirado do livro Chão de Sombras - Estudos sobre Escravatura, edições Colibri, 2010

http://www.buala.org/pt/a-ler/ser-escravo-quadros-de-um-quotidiano-dos-trabalhos-e-dos-dias

 

http://www.cm-lisboa.pt/municipio/historia/historial-da-limpeza-urbana

 

http://www.avesdeportugal.info/melcal.html