Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Marginal ribeirinha era enorme lixeira

pt_ahmalcs_cmalcs_fotografias_01_0056-4.jpg

 

 

Há um século, a frente ribeirinha de Alcácer do Sal era dos locais mais sujos e malcheirosos da então vila.

 

“Um exuberante viveiro de toda a espécie microbiana”, “vazadouro público, imundo e infecto”. Era assim que a imprensa do final do século XIX e início do século XX retratava a zona ribeirinha norte da então vila de Alcácer do Sal. Já em 1905 se previa que a “marginal” pudesse vir a ser “um passeio que chamasse e convidasse os naturais e os forasteiros a gozá-lo, espairecendo as mágoas e aborrecimentos quotidianos”, como preconizava o jornal Pedro Nunes e acabaria por se cumprir já no século XXI.

pt_ahmalcs_cmalcs_fotografias_01_0070.jpgNa altura, construía-se o aterro, que se supunha poder contribuir para dar alguma dignidade àquela área junto ao Sado que, em especial na maré baixa, exalava um odor nauseabundo. Este estado de coisas devia-se “ao lamentável costume” alcacerense de ali fazer “todos os despejos”, como explicava o jornal “O Século”, em 1897.

Acrescente-se que o matadouro já na época funcionava na zona da Foz e a sua atividade certamente contribuiria para o mau cheiro e risco para a saúde pública, com sangue e vísceras dos animais abatidos.

Não é à toa que a esmagadora maioria das habitações e estabelecimentos comerciais ribeirinhos virassem as costas ao rio e abrissem as suas portas principais para a rua Direita - onde, em princípio, se circulava em melhores condições.

Embora até recentemente os esgotos ainda corressem para o Sado junto à cidade, à luz dos nossos dias é difícil imaginar o cenário de então. O jornal Pedro Nunes dá uma ajuda, esclarecendo que, nestas traseiras, os prédios raramente viam cal e, debaixo das janelas, achavam-se “todos os lixos caseiros, secos e molhados”, com “o sol a bater-lhes em cheio e moscas, moscardos e mosquitos, gozando e zumbindo à farta naquela sentina”, enorme “estrumeira” com fragrâncias “muito próprias para um bairro de mouros ou chineses”, afirmava-se com algum preconceito.

pt_ahmalcs_cmalcs_fotografias_01_0056-3.jpg

 Como ainda hoje acontece, às autoridades locais eram atribuídas algumas culpas pela situação, mas o “jornalista” apontava o dedo sobretudo à falta de civismo de quem ali morava, porque “desprezava as posturas” da câmara, fazendo com que esse conjunto de regras de convivência se assemelhasse mais a um “romance”, já que ninguém cumpria o que lá se havia escrito e aprovado.  

As ruas eram em terra batida, não se vislumbravam esgotos ou água de rede, pelo que é errado pensar que este estado de coisas fosse exclusivo da “marginal”.

pt_ahmalcs_cmalcs_fotografias_01_0056-5.jpg

 

Conhece-se o efeito de deixar os cães passear livremente. Ora, esclareça-se que aquela era uma época em que porcos, vacas, cabras ou ovelhas deambulavam pelas ruas, com os resultados que se podem supor e que o mesmo “Pedro Nunes” resume ao falar de “montões de esterco” a atrapalhar quem por aqui circulava.

Este quadro, embora comum a outras cidades, não deixava de repugnar os mais sensíveis, que franziam o nariz ao verdadeiro “paraíso” que se pode conjeturar seria a Alcácer desses tempos.

 

À margem

SArquivo_C318041914110.jpgA avenida marginal ao rio foi batizada em homenagem ao alcacerense João Soares Branco. A este capitão de engenharia e lente da Escola do Exercito é atribuído o projeto precisamente do aterro que permitiu construir esta via junto ao Sado e que demorou décadas a ser executado. Desconheço se o projeto seria mesmo de sua autoria ou se apenas teve a sua responsabilidade política, uma vez que foi presidente deste município alentejano em finais da década de 80 do século XIX. Certo, é que lhe estavam reservados mais altos voos, nomeadamente tendo sido governador civil do distrito do Funchal e por duas vezes ministro da Fazenda. Entre outras medidas, chegou a preconizar a adoção de uma nova moeda, o cruzado-ouro português. Era uma tentativa desesperada tendo em vista o saneamento monetária do País, mas que a implantação da República e consequente entrada em circulação do escudo, poucos meses depois, fizeram cair no esquecimento.

Mas isso são outras histórias...

 

 

 

 

Fontes

Biblioteca Municipal de Alcácer do Sal

Jornal Pedro Nunes 1909-1911

 

Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal

Recorte jornal O Século

PT/AHMALCS/CMALCS/JJR/01/01/02/001-003

Recorte Jornal Vale do Sado

PT/AHMALCS/CMALCS/EXTERNO/08/02/003

Imagens

Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal

pt/ahmalcs/cmalcs/fotografias/01/0056

pt/ahmalcs/cmalcs/fotografias/01/0070

 

https://geneall.net/pt/nome/52409/joao-soares-branco/

 

 

A Casa da Moeda do porto na Alfândega velha - Bases para uma proposta de interpretação patrimonial de um recurso turístico a desenvolver, de

Mário Bruno Carvalho Pastor - Tese de Mestrado em Património e Turismo Cultural – orientação de Rui Manuel Lopes de Sousa Morais e Manuel Luís Real - Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, outubro 2013

 

Biblioteca Nacional Digital

www.purl.pt

Diário Illustrado

Ano 36º, nº 11:810 - 24 jan. 1906

2 comentários

  • Imagem de perfil

    CV 01.09.2018

    O cais da barca ficava na zona do atual largo Luís de Camões, mais ou menos em frente do restaurante "Cais da Barca", não longe da zona de amarração norte da ponte rodoviária.
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.