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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Marginal ribeirinha era enorme lixeira

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Há um século, a frente ribeirinha de Alcácer do Sal era dos locais mais sujos e malcheirosos da então vila.

 

“Um exuberante viveiro de toda a espécie microbiana”, “vazadouro público, imundo e infecto”. Era assim que a imprensa do final do século XIX e início do século XX retratava a zona ribeirinha norte da então vila de Alcácer do Sal. Já em 1905 se previa que a “marginal” pudesse vir a ser “um passeio que chamasse e convidasse os naturais e os forasteiros a gozá-lo, espairecendo as mágoas e aborrecimentos quotidianos”, como preconizava o jornal Pedro Nunes e acabaria por se cumprir já no século XXI.

pt_ahmalcs_cmalcs_fotografias_01_0070.jpgNa altura, construía-se o aterro, que se supunha poder contribuir para dar alguma dignidade àquela área junto ao Sado que, em especial na maré baixa, exalava um odor nauseabundo. Este estado de coisas devia-se “ao lamentável costume” alcacerense de ali fazer “todos os despejos”, como explicava o jornal “O Século”, em 1897.

Acrescente-se que o matadouro já na época funcionava na zona da Foz e a sua atividade certamente contribuiria para o mau cheiro e risco para a saúde pública, com sangue e vísceras dos animais abatidos.

Não é à toa que a esmagadora maioria das habitações e estabelecimentos comerciais ribeirinhos virassem as costas ao rio e abrissem as suas portas principais para a rua Direita - onde, em princípio, se circulava em melhores condições.

Embora até recentemente os esgotos ainda corressem para o Sado junto à cidade, à luz dos nossos dias é difícil imaginar o cenário de então. O jornal Pedro Nunes dá uma ajuda, esclarecendo que, nestas traseiras, os prédios raramente viam cal e, debaixo das janelas, achavam-se “todos os lixos caseiros, secos e molhados”, com “o sol a bater-lhes em cheio e moscas, moscardos e mosquitos, gozando e zumbindo à farta naquela sentina”, enorme “estrumeira” com fragrâncias “muito próprias para um bairro de mouros ou chineses”, afirmava-se com algum preconceito.

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 Como ainda hoje acontece, às autoridades locais eram atribuídas algumas culpas pela situação, mas o “jornalista” apontava o dedo sobretudo à falta de civismo de quem ali morava, porque “desprezava as posturas” da câmara, fazendo com que esse conjunto de regras de convivência se assemelhasse mais a um “romance”, já que ninguém cumpria o que lá se havia escrito e aprovado.  

As ruas eram em terra batida, não se vislumbravam esgotos ou água de rede, pelo que é errado pensar que este estado de coisas fosse exclusivo da “marginal”.

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Conhece-se o efeito de deixar os cães passear livremente. Ora, esclareça-se que aquela era uma época em que porcos, vacas, cabras ou ovelhas deambulavam pelas ruas, com os resultados que se podem supor e que o mesmo “Pedro Nunes” resume ao falar de “montões de esterco” a atrapalhar quem por aqui circulava.

Este quadro, embora comum a outras cidades, não deixava de repugnar os mais sensíveis, que franziam o nariz ao verdadeiro “paraíso” que se pode conjeturar seria a Alcácer desses tempos.

 

À margem

SArquivo_C318041914110.jpgA avenida marginal ao rio foi batizada em homenagem ao alcacerense João Soares Branco. A este capitão de engenharia e lente da Escola do Exercito é atribuído o projeto precisamente do aterro que permitiu construir esta via junto ao Sado e que demorou décadas a ser executado. Desconheço se o projeto seria mesmo de sua autoria ou se apenas teve a sua responsabilidade política, uma vez que foi presidente deste município alentejano em finais da década de 80 do século XIX. Certo, é que lhe estavam reservados mais altos voos, nomeadamente tendo sido governador civil do distrito do Funchal e por duas vezes ministro da Fazenda. Entre outras medidas, chegou a preconizar a adoção de uma nova moeda, o cruzado-ouro português. Era uma tentativa desesperada tendo em vista o saneamento monetária do País, mas que a implantação da República e consequente entrada em circulação do escudo, poucos meses depois, fizeram cair no esquecimento.

Mas isso são outras histórias...

 

 

 

 

Fontes

Biblioteca Municipal de Alcácer do Sal

Jornal Pedro Nunes 1909-1911

 

Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal

Recorte jornal O Século

PT/AHMALCS/CMALCS/JJR/01/01/02/001-003

Recorte Jornal Vale do Sado

PT/AHMALCS/CMALCS/EXTERNO/08/02/003

Imagens

Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal

pt/ahmalcs/cmalcs/fotografias/01/0056

pt/ahmalcs/cmalcs/fotografias/01/0070

 

https://geneall.net/pt/nome/52409/joao-soares-branco/

 

 

A Casa da Moeda do porto na Alfândega velha - Bases para uma proposta de interpretação patrimonial de um recurso turístico a desenvolver, de

Mário Bruno Carvalho Pastor - Tese de Mestrado em Património e Turismo Cultural – orientação de Rui Manuel Lopes de Sousa Morais e Manuel Luís Real - Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, outubro 2013

 

Biblioteca Nacional Digital

www.purl.pt

Diário Illustrado

Ano 36º, nº 11:810 - 24 jan. 1906

2 comentários

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    CV 06.12.2019

    Desculpe, Copy-paste do quê exatamente. Não vi nem uma palavra igual, nem sequer conhecia o que escreveu...não entendo. Obrigada.
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