Mulheres de fora, paz dentro dos teatros

As mulheres, como se sabe e desde tempos imemoriais, são fonte das maiores imoralidades e perturbações da pura alma masculina. Não admira, pois, que, a somar a todas as restrições que sempre enfrentaram, em pleno século XVIII, quando toda a Europa já se abria à modernidade, estas tenham sido totalmente banidas dos teatros portugueses. Durante cerca de duas décadas, não podiam sequer estar nos bastidores, deixando todo o trabalho – e também o divertimento - para os homens. Do canto, à representação e à dança, todos os papéis eram desempenhados por machos, fazendo com que muitos espetáculos que se queriam sérios, facilmente resvalassem para o ridículo.

Imagine-se uma virginal menina com uma copiosa barba, cantando enquanto apanha flores com os seus braços musculados e peludos…ou um grupo de pastoras saltitando, fazendo o palco tremer com o seu peso, de cada vez que aterravam…O teatro português era assim, cheio destas incongruências grotescas que deixavam os visitantes estrangeiros de queixo caído, transidos de riso ou vergonha alheia.
No reinado de D. João V já havia limitações à permanência de mulheres nos teatros, mas tudo se agravou com D. José, especialmente a partir de 1770, alegadamente devido aos ciúmes da rainha Mariana Vitória que, como se sabe, tinham razão de ser na conduta do monarca seu marido.

Quando o rei morre, em 1777, cumpriu-se um período de luto de dois anos, sem que se realizassem espetáculos. Quando estes são retomados, D. Maria I (na imagem), extremamente religiosa e púdica, coadjuvada pelo intendente-geral da polícia, Diogo Inácio de Pina Manique, preocupadíssimo com os tumultos que sempre ocorriam quando pessoas de ambos os sexos se juntavam, ainda que fugazmente sob o mesmo teto, proibiu as mulheres de participar e assistir a espetáculos teatrais. A sua presença foi primeiramente restringida aos camarotes, não podendo andar pelos corredores ou estar na plateia. Depois deixaram mesmo de ter autorização para pôr os seus delicados pezinhos nos edifícios dos teatros.
Para que uma determinada peça fosse aprovada pela Real Mesa Censória, o autor tinha de se comprometer a não usar senhoras nos elencos.
Em causa estava a garantia da moral e dos bons costumes, pois os teatros eram vistos como antros de devassidão, sendo frequentes desonras e deboche dentro das suas quatro paredes. Pelo menos era assim que a intendência de polícia encarava a coisa…e a rainha também.

Se a simples presença de mulheres era vista como o elemento desestabilizador, imagine-se então se pertencessem à classe dos artistas, como se sabe, especialmente suscetível dos mais ousados atentados ao pudor e à decência, à virtude própria e alheia.
Não eram admitidas como autoras, em cena, na assistência, nem sequer em qualquer ocupação relacionada com os cenários ou o guarda-roupa. Muito menos era permitido, é claro, qualquer meretriz que ali pudesse ser chamada a cumprir o seu serviço. Nada!

Só os homens podiam assumir todas estas funções e papeis e assistir aos mesmos. Era uma sensaboria!
Mas também se tornava uma caricatura que, não poucas vezes, criou cenas verdadeiramente hilariantes.
As vozes femininas eram interpretadas por eunucos e eram homens de barba rija que assumiam todos os papéis, tornando os momentos de bailado especialmente incongruentes e deixando os forasteiros completamente estarrecidos.
Tal era o zelo de Diogo Inácio Pina Manique (na próxima imagem), que até o novo teatro lírico – mandado construir porque a Ópera do Tejo ruiu com o grande terramoto de 1755 - mudou de nome. Deixou de ser Teatro Princesa do Brasil, passando a Real Teatro São Carlos*.

As restrições só começaram a abrandar com a subida ao trono de D. João VI, primeiro como regente, em 1799, face à loucura da mãe, depois como rei de pleno direito. Ainda assim, foi uma mudança a conta-gotas, com pedidos de autorização caso a caso e algumas negas.
Escusado será dizer que, quando as proibições caíram por terra, após tantos anos de separação forçada de homens e mulheres no meio teatral, choveram queixas de atitudes indecorosas e rebaldaria diversa, quer em cena, quer nos bastidores e em convívios após os espetáculos. Foi uma alegria!
À margem

Em Portugal, mais do que nos outros países europeus, as mulheres eram vistas exclusivamente como esposas e mães. Só no século XVIII se começou a falar da educação das raparigas, mas essa discussão era tida exclusivamente por homens. A sua presença nos teatros era rara e protagonizada sobretudo por estrangeiras.
Os primeiros espetáculos públicos foram levados a cabo por companhias espanholas e, depois, eram as italianas que se apresentavam em maior número, até porque o nosso teatro lírico seguia o modelo italiano.
Para serem admitidas, no entanto, necessitavam de autorização masculina. Dos pais, se fossem solteiras; dos maridos, se fossem casadas. Estes “tutores” tinham igualmente de fazer parte de companhia, visto que a lei impedia as atrizes de serem contratadas individualmente. Não se podiam vestir de homem, nem expor-se ao público, o que quer que isso quisesse dizer, naquele tempo...

Ironia das ironias, a mais famosa artista lírica de então, Luísa Todi (na imagem anterior), era portuguesa. Ela própria banida dos teatros do seu país, foi aclamada com um sucesso estrondoso por toda a Europa.
Mas foi preciso uma autorização especial e a intermediação da imperatriz da Prússia para que viesse atuar nas comemorações do nascimento da princesa Maria Teresa, em 1893. A mulher que por toda a parte fazia levantar em êxtase os teatros, recebeu indiferença do público português e a família real não se dignou marcar presença no espetáculo.
Tanta regra contribuiu para um atraso generalizado no teatro produzido no nosso País e, sobretudo, no desenvolvimento do verdadeiro potencial das mulheres nesta área.
Mas, como sempre, a moral era só para alguns: o filho do Marquês de Pombal, Henrique José de Carvalho e Melo, por exemplo, teve como amante a soprano italiana Anna Zamperini (na imagem), uma autêntica destruidora de lares e fortunas que arrebatou Lisboa com os seus muitos talentos.
Mas isso é outra história...
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*Não reúne consenso a origem do nome, dividindo-se as opiniões sobre se resulta de ter sido desenhado à imagem do S. Carlos, de Nápoles ou por alusão a D. Carlota Joaquina, a Princesa do Brasil, a mesma à mulher em cuja honra fora inicialmente batizado.
Fontes
Bruno Schiappa, Mulheres Fora do Teatro, in Sinais de cena, Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, 12.2009.
Maria Brites Rosa, Indecências e obscenidades - As mulheres nos palcos portugueses (1774-1804), in Sinais de Cena, Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, 2014.
Marta Brites Rosa, O paradoxo feminino no teatro português do século XVIII, in Faces de Eva – Estudos sobre a Mulher, nº50 Lisboa, 12.2023
https://doi.org/10.34619/hpw5-hfog
William Beckford, Viagens de Beckford a Portugal, carta VIII, in O Panorana, 1855
Christoph Muller, Martin Neumann, O Teatro em Portugal nos séculos XVIII e XIX, Lisboa, 03.2015
Imagens
Maria I, Queen of Portugal. Thomas Hickey or Giuseppe Troni (attributed). Oil on canvas. 122 x 94 cm. NATIONAL PALACE OF QUELUZ. Via Google Cultural Institut
Ficheiro:Roupas e costumes de Portugal. século XVIII.png – Wikipédia, a enciclopédia livre
ARTE INGLESA NO SÉC. XVIII (Aula nº 75) - VÍRUS DA ARTE & CIA - Lu Dias Carvalho
O Intendente Pina Manique - RTP Ensina
A moda das férias no século XVIII
O passeio, uma reinvenção do século XVIII
Signora Anna Zamperini, b. c 1745. Italian singer by John Finlayson | National Galleries of Scotland
Madame Lebrun - Luísa Todi - Luísa Todi – Wikipédia, a enciclopédia livre
