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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O Caramelo tinha vocação para moedeiro

 

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O Pera de Satanás passou os ensinamentos ao Caramelo, que os partilhou com o Batata. Em conjunto, produziram muitos contos de reis, que lhes permitiram uma vida folgada...até serem apanhados.

A maioria trabalha para ganhar a vida. Depois, há os que possuem arte e saber para fabricar o seu próprio dinheiro. José Maria da Silva pertencia a essa categoria extraordinária. Parecia um cavalheiro, bem falante e melhor vestido, mas essa apresentação era tão falsa como as moedas de 500 reis que fabricava com as colheres que a amante comprava numa loja da praça da Figueira. Enganou meia Lisboa e também parte do Alentejo e nunca desistiu, mesmo tendo sido apanhado e preso diversas vezes. Nos meandros do crime dos finais do século XIX, ficou conhecido como "o Caramelo".

rua dos remedios 1899.jpg

 

José Maria da Silva, filho e pais incógnitos, alentejano de Elvas que a ambição levou para a grande cidade, tinha profissão e até estabelecimento de venda de vassouras montado lá para os lados da rua dos Remédios, em Alfama (na imagem). Mas, digamos, que uma ocupação tão simples e modesta não combinava com a alta opinião que este indivíduo tinha de si próprio. Terá sido o celebrado Pera de Satanás (ver À margem, nesta página) a dar-lhe as dicas para o hobby que iria abraçar até ao resto da vida, fazendo jus à vocação que, sem dúvida, fazia parte da sua complexa personalidade. Decidiu ser moedeiro!

O estratagema era o seguinte: a namorada comprava dúzias de colheres que dizia serem para revenda, justificando a assiduidade das encomendas. A liga de estanho Britannia, em que os talheres tinham sido concebidos era a matéria-prima ideal para o Caramelo derreter e transformar em dinheiro, pois assemelhava-se na cor, no toque e no peso ao "vil metal". Para tal, usava moldes de gesso, que substituía após algumas utilizações, para não fazer perigar a qualidade do resultado final.

Quando terminava o "trabalho", que desenvolvia no maior secretismo, nem a própria companheira deixando ver como procedia, destruía todos os utensílios. Terá sido Alfredo Alves Mendes, o célebre falsário Pera de Satanás em pessoa que assim o instruiu no "ofício".

moedas 500 reis d pedro V.JPG

 

As moedas, de 500 reis eram depois postas a circular misturadas com outras legítimas, tanto em Lisboa, como em outras cidades, exemplos de Évora ou Elvas (de onde era natural), para onde José Maria da Silva teve que alargar o seu raio de ação, por ser já por de mais conhecido na Capital do Reino, onde o seu porte "ajanotado", a facilidade e até correção na forma de se expressar, pouco comum num indivíduo que não sabia ler nem escrever, já não enganavam ninguém.

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É claro que, mesmo com o esquema bem montado, a vontade que o Caramelo tinha de dar nas vistas, nomeadamente comprando produtos chiques e pouco adequados à bolsa de um mero vassoureiro, seria o seu fim. Isso, as provas que, apesar de todos os cuidados, deixou à mercê das buscas policiais na sua loja e em casa e também as informações que a amante deixou escorregar quando "apertada" pelas autoridades.

Essa nefasta conjugação de fatores levou-o à cadeia diversas vezes, pelo menos a partir do início da década de 80 do século XIX, passando longas temporadas no Limoeiro, alternadas com novas incursões na arte de produzir e passar dinheiro, que acabavam por fecha-lo novamente na "gaiola" - na imagem a prisão do Limoeiro no final do século XIX - onde, tal como o Pera de Satanás, serviria de inspiração e formação a outros aspirantes a falsificadores.

 

À margem

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Já no início do século XX, o Caramelo terá passado os seus ensinamentos a outro promissor aldrabão. O João Batata visitou-o na cadeia e, com a sua quadrilha, usou o mesmo esquema para levar uma vida desafogada, já a República tinha sido implantada neste nosso pacato País. A fábrica, que funcionava na rua das Atafonas (atual Martim Moniz), chegou a produzir 20 mil reis por dia e até a exportar para Espanha as suas reluzentes produções monetárias. Tal como o Caramelo e o João Batata, muitos falsários foram buscar os seus conhecimentos aos verdadeiros mestres. O Pera de Satanás, nascido Alfredo Alves Mendes, encaixa neste perfil, digamos, inspirador. Funileiro de profissão, fabricou bilhetes de lotaria e notas, criou receitas e métodos próprios para produzir moedas, mas foram os selos que falsificou, com grande prejuízo para o serviço de correios português, que o fizeram ascender à ribalta dos criminosos. As estampilhas que ficaram para sempre conhecidas pela alcunha "Pera de Satanás" ostentavam o perfil de D. Luís. Em 1880 começou a circular uma nova série que, por questões de custos, era apenas impressa e não com relevo, como até então se usava. Este facto e a coincidência de Alfredo Alves Mendes ter partilhado cela com um funcionário da Casa da Moeda foram meio caminho andado para que se iniciassem as contrafações, fazendo uso de clichés autênticos roubados pelo mais recente amigo. Os selos, produzidos em grandes quantidades (na imagem), eram depois introduzidos no mercado, vendidos abaixo do preço facial a empresas com grande expedição de correio. O que tramou os aldrabões foi o picotado: feito com uma máquina de costura, não tinha a regularidade ou a perfeição do original. O Caramelo, o Batata, o Pera de Satanás...todos foram presos diversas vezes e voltaram sempre à sua vocação anterior, mas o mais extraordinário caso de reincidência talvez seja o dos irmãos Silveira que, condenados ao degredo em África pelo crime de produção de notas, montaram naquele continente uma verdadeira fábrica, cuja fama chegou a Lisboa...
Mas isso é outra história...


Fontes
Infâmia e Fama – O mistério dos primeiros retratos judiciários em Portugal (1869-1895), de Leonor Sá; Edições 70, maio 1918.

Biblioteca Nacional de Portugal em linha
www.purl.pt
Diário Illustrado
Ano 5º, nº1362 – 13 set. 1876
Ano 16º; nº4.960 – 12 fev. 1887
Ano 20º; nº6.683 – 7 nov. 1891


Hemeroteca Digital de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/
A Illustração Portugueza – Semanário – Revista Litterária e Artística
4º ano; nº13 – 10 out. 1887

O Occidente
Revista Illustrada de Portugal e do Estrangeiro
6º ano; Vol. VI; nº164 – 11 jul. 1883

Imagens

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:José_Maria_da_Silva,_o_Caramelo_(c._1882).png

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt
Machado & Souza
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/003/FAN/002181

Alberto Carlos Lima
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/000907

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http://leiloes.cfportugal.pt

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