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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O Cartaxana que anunciou a República

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Em apenas 20 anos, António Paulo Cartaxana passa de anónimo merceeiro a figura destacada da sociedade alcacerense, depois promovido a administrador, em Moçambique. Chefe local do Partido Republicano Português, uma das mais importantes figuras do concelho na fase de transição de sistema político, voz do povo contra os caciques que, até então, eram detentores de todo o poder, é hoje novamente um desconhecido em Alcácer do Sal.

 

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Inteligente, espirituoso, justo, nobre, franco, respeitador e respeitado até pelos inimigos políticos. Estas são qualidades apontadas a este filho de humilde valador, que nunca escondeu as suas origens. Também jamais se resignou ao destino que o berço lhe poderia ter traçado: cedo foi em busca de melhor vida em outras paragens.
Andou de terra em terra vendendo de tudo um pouco, de Lisboa a África, até que conseguiu estabelecer-se. Pelo caminho, arriscou a vida e os negócios ao defender os ideais republicanos numa época em que tal ainda podia ser perigoso. Chegou a andar a monte, para não ser preso ou morto.
O casamento com Maria Rosa Vila Boim, filha de outro alcacerense com nascimento modesto mas já então proprietário bem sucedido, não terá sido alheio ao êxito de Cartaxana, mas o que ajudou muito, certamente, foi ter empunhado a bandeira republicana e ser a principal cara da nova ordem quando tudo mudou, em 5 de outubro de 1910. Na época, este nosso republicano e maçom - membro efetivo da loja Estrela d'Alva - detinha um estabelecimento de mercearia, padaria e tabacos, mas notabilizou-se como arauto da mudança.

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Foi ele que orgulhosamente discursou na escada do edifício dos Paços do Concelho e à varanda da Sociedade Filarmónica Amizade Visconde de Alcácer, dando vivas à República e contribuindo para manter o clima de ordem e serenidade com que se fizeram localmente os festejos.
Falar em público foi, aliás, uma das principais atividades que manteve após 1910, já que era presença frequente em cerimónias, sobretudo funerais, que a partir de então se começaram a fazer sem intervenção da igreja - como ditavam os preceitos da República.
Cartaxana, para além de bom orador, também não regateava a participação em jornais republicanos, com destaque para o Pedro Nunes, mostrando dotes na prosa e até na poesia- é de sua autoria, por exemplo, a letra d' O fado da minha terra, lançado em 1909 (ver no final do texto).

antonio paulo comercio outubro 1910 pedro nunes.GI

 

Talvez estas múltiplas orações inflamadas tenham pesado para que fosse, logo em 1911, nomeado administrador da 5ª circunscrição da província de Maputo, Moçambique, para onde rumou com uma das filhas.
Esta ascensão meteórica até suscitou alguma crítica bem-humorada no outro jornal da terra, mensageiro das classes trabalhadoras, o Rude, que em dezembro desse ano rimava assim:

“Chamem lá ao Cartaxana,
Partidário d’uma cana!
Ele já alcançou pasta,
Vai partir para Maputo,
Corajoso e resoluto,
Para bem longe se afasta...”


Desconheço exatamente quanto tempo António Paulo Cartaxana, então ingressado como funcionário do Ministério das Colónias, esteve em África, mas sabe-se que em 1920 já estava novamente em Portugal.
Tanto quanto foi possível apurar, não ocupou cargos de destaque na administração local, provavelmente porque não quis, mas até ao fim da vida, aos 58 anos de idade, esteve sempre presente em inúmeras iniciativas pelo desenvolvimento da sua terra, quer se tratasse de organizar festejos pela chegada do caminho-de-ferro, ajudar os pobres, dar melhores condições aos presos da cadeia local ou defender os interesses de Alcácer, dentro e fora de portas. Em 1925, o seu enterro foi um grande acontecimento, o mais participado funeral de que havia memória até então.

António Paulo Cartaxana foi membro destacado de uma certa burguesia alcacerense ligada ao comércio e à indústria, que ganhava expressão no início do século XX, mas que nunca chegaria a vingar como em outros concelhos próximos, face ao poder dos grandes proprietários que, apesar de muito ter mudado, continuaram a ser “donos” do território e das vidas das suas gentes.

 

À margem

António Paulo Cartaxana, filho de Paulo da Silva e de Agostinha do Carmo, aparentemente não herdou o apelido dos pais ou padrinhos, mas antes, pode apenas presumir-se, poderá deve-lo ao facto de o pai ser natural do Ribatejo, onde, talvez o Cartaxo fosse um ponto de referência...
Este não foi o único que partiu de Alcácer para assumir funções em África.
Victor Eduardo da Mota Portugal da Silveira, no início do século XX foi secretário do governador do distrito de Inhambane, em Moçambique; presidente da Câmara naquela cidade, que o homenageou na toponímia; administrador de grandes explorações agrícolas em Angola e São Tomé. Cerca de duas décadas antes, já Pedro Campos Valdez, filho do conhecido António Campos Valdez (diretor do Teatro Nacional de S. Carlos), tinha rumado a Moçambique, para assumir funções de verificador da alfândega de Lourenço Marques.
Cartaxana, no entanto, deixou lá raízes que viriam a dar frutos no Alentejo, décadas depois. O genro, António Xavier do Amaral foi administrador do concelho e presidente da Câmara Municipal de Alcácer do Sal, nos anos 30 do século XX, e o neto, Carlos Cartaxana Xavier do Amaral, ainda nascido em Moçambique, para além de médico, foi presidente do mesmo município entre 1961 e 1973. Quando vieram de África, trouxeram costumes curiosos que deram que falar e suscitaram uma enorme curiosidade na então vila. O mainate (criado africano) dos Cartaxana era uma atração para a criançada.

Mas isso é outra história...

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Fontes
Biblioteca Nacional de Portugal
Jornal O Imparcial
Ano III; nº78 – 26 abr. 1925


Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal
Jornal Pedro Nunes
Jornal O Rude
Imagem
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Biblioteca Municipal de alcácer do Sal
O fado da minha terra, música de Jorge Augusto de Carvalho e letra de António Paulo Cartaxana; Thypographia Cunha, 1909


Noticias e Fotografias de Alcácer do Sal Séculos XIX e XX, disponível em
www.cm-alcacerdosal.pt/.../Noticias_e_Fotografias_de_Alcácer__Séc_XIX_e_XX.pdf

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